Doce Vingança
19 Promessa
Notas iniciais

A manhã estava fria em Manhattan, com um vento cortante que fazia ondular as bandeiras cromadas na fachada da Atlas Technology. Peeta Mellark atravessou o lobby principal sem olhar para os lados, ignorando os burburinhos dos funcionários que fingiam não comentar sobre ele.
Ainda era o homem mais falado da cidade — e não pelos motivos que gostaria.
Clove havia feito um escândalo após o baile de máscaras, mesmo Gale garantindo a Katniss que nada na sala VIP prejudicaria a imagem da empresa, a mulher fez vídeos alegando que fora enganada e fez um teatro. Johanna até havia conseguido apagar o incêndio com balde furado, como ela mesma dissera e apesar de tudo Peeta temia pela Atlas e os demais que faziam parte dela.
Então, entrou no elevador privado, pressionando o botão do 23º andar. Os espelhos refletiam seu rosto: olheiras discretas, a mandíbula tensa, o terno perfeito que não escondia o peso dos últimos dias. O escândalo. Os vídeos. As fofocas. As “ex-revelações” oportunistas.
E, por baixo disso tudo, o que mais o inquietava, Katniss Everdeen.
Quando as portas se abriram, Effie Trinket já o aguardava na sala de reuniões executiva.
Usava um tailleur verde-menta impecável, óculos de armação dourada e um broche em formato de estrela — símbolo de sua própria marca registrada de “glamour corporativo disciplinado”. Ao ver Peeta, ela abriu seu sorriso profissional, aquele que conseguia acalmar até CEO disfuncional em crise existencial.
— Peeta, querido! — disse Effie, levantando-se e abrindo os braços como se recebesse um filho perdido. — Estava ansiosa por nossa conversa. Obrigada por não fugir desta vez.
— Eu nunca fujo — respondeu ele, embora soubesse que não era exatamente verdade. — Só... precisava organizar minha cabeça.
Effie inclinou a cabeça com elegância.
— Por isso mesmo marquei essa reunião. Vem, sente-se. Tenho café, água, chá, chocolate e... — Ela deslizou uma caixa pela mesa. — Macarons. Achei que precisaria deles.
Peeta se sentou, respirando fundo.
— Effie... eu estou prestes a enfrentar a entrevista mais importante da minha carreira. Como eu posso me preparar pra isso sem parecer um idiota arrependido?
Effie sorriu, satisfeita.
Ali estava a pergunta que ela queria.
Effie abriu um tablet e deslizou algumas imagens em silêncio. Eram manchetes, tweets, cortes de vídeos, comentários ácidos, memes — muitos memes.
— Esta é a realidade atual da sua imagem, Peeta — disse ela. — As pessoas adoram te ver como bilionário sexy e problemático, mas... quando o “problemático” vira “instável”, a narrativa muda.
Ele massageou a têmpora.
— Ótimo. Bem o que eu queria ouvir.
— Oh, querido, não fiz RP a vida toda para você desabar por meia dúzia de haters. — Ela cruzou as pernas. — Você não precisa lutar contra as narrativas. Precisa ocupá-las com a sua própria.
Peeta ergueu o olhar.
— E como eu faço isso sem parecer que estou atuando?
Effie apoiou o cotovelo na mesa e sorriu.
— Dizendo a verdade. A parte controlada, filtrada e estrategicamente emocional da verdade, claro. Mas verdade.
Peeta soltou um riso fraco.
— Não sei se sou bom com isso.
— Por isso estou aqui, meu bem.
Effie apagou a tela e ficou séria.
— Precisamos falar dela.
Peeta endureceu a postura.
— Effie...
— Não, querido. Não é opcional. — Ela entrelaçou os dedos. — A internet já percebeu que há uma mulher envolvida emocionalmente nisso tudo. E mesmo que você não tenha dito uma palavra, seus olhos dizem por você.
Peeta desviou o olhar, encarando a janela.
— Eu não quero expor a Katniss.
— Então não exponha. — disse Effie, suave. — Apenas... reconheça. O público não precisa de detalhes. Só quer sentir sinceridade. Você vai humanizar sua imagem ao admitir que encontrou alguém que te fez enxergar sua vida com outros olhos.
Ele respirou fundo.
— Isso é a mais pura verdade, mas e se eu estragar tudo?
Effie colocou uma das mãos sobre a dele.
— Você já estragou tudo antes, querido. E sobreviveu. Agora está tentando consertar. Isso, para o público, é irresistível.
Peeta soltou um riso cansado.
— Você é impossível.
— E você é teimoso. — Effie retrucou. — Mas vamos em frente.
Effie abriu um segundo conjunto de slides.
— Caesar Flickerman é carismático, mas não se engane, ele vai provocar você. Ele quer emoção. Quer drama. Quer catarse. E você vai dar no seu ritmo.
Peeta se ajeitou na cadeira.
— Me dá um exemplo de pergunta que ele faria.
Effie colocou uma mão na cintura e imitou Caesar com perfeição, voz afetada e exagerada:
— “Peeta Mellark... O homem que tem tudo e, ao mesmo tempo, parecia ter perdido até a si mesmo. Quem era você nesses vídeos? E quem você é agora?”
Peeta fechou os olhos, tentando formular.
— Eu diria que... eu perdi o rumo. Fiz escolhas erradas. Mas agora estou tentando ser alguém melhor.
Effie jogou a cabeça para trás, exasperada.
— Querido... isso é o equivalente emocional a um sanduíche de presunto sem queijo.
Sem graça.
Peeta franziu o cenho.
— E o que você quer que eu diga?
Effie inclinou-se, olhando fundo nos olhos dele.
— Diga o que disse para mim ontem no corredor. Sobre como você percebeu que vivia para agradar os outros. Sobre como nunca tinha escolhido algo só por si mesmo. Sobre como ela abriu seus olhos.
Peeta congelou.
— Effie... isso é pessoal demais.
— É por isso que vai funcionar.
Por um momento, Peeta ficou em silêncio.
O relógio marcava 10h32.
A cidade abaixo já estava agitada.
E Peeta finalmente disse o que evitava encarar:
— Effie... eu tenho medo.
Ela suavizou a expressão.
— Medo de quê, querido?
— De... — respirou fundo. — De desmoronar ao vivo. De não saber responder. De parecer fraco. De expor a Katniss...
Effie se levantou, caminhou até ele e colocou as mãos em seus ombros.
— Então faça o que faço com você há anos: transforme sua vulnerabilidade em força. Mostre que não é perfeito. Que está crescendo. Mostre que é humano.
Peeta assentiu lentamente.
— Eu consigo.
— Você vai arrasar, Peeta Mellark.
E então Effie sorriu de um jeito quase maternal.
— E lembre-se: se a câmera focar nela... você ganhou o público inteiro.
Peeta corou levemente, mas sorriu.
— Obrigado, Effie.
— Não agradeça ainda. — Ela pegou uma pasta cor-de-rosa da bolsa. — Prepare-se, meu querido. Vamos treinar simulações de pergunta agressiva. Caesar adoraria te ver suar.
Peeta soltou um gemido dramático.
— Isso vai ser um desastre.
— Não, vai ser icônico.
E, após deixar certas preocupações de lado, Peeta riu de verdade.
**Estúdio da Vayat – Programa Especial com Caesar Flickerman**
O cenário era extravagante como sempre, com tons azul-elétrico e dourado, o logo da Vayat brilhando atrás da cadeira central onde Caesar Flickerman, com seu terno bordô cintilante e sorriso largo, ajeitava os papéis no colo.
— Senhoras e senhores… o homem mais comentado dos últimos 30 dias. O CEO da gigante tecnológica que parou o próprio império por uma crise existencial, romântica e, segundo a internet, digna de um filme dramático com um toque de vinho caro... — Flickerman piscou para a câmera — Peeta Mellark!
Peeta entrou vestindo um terno azul marinho, sem gravata, cabelo alinhado, o rosto ainda com sinais da tempestade recente, mas o olhar seguro. Ao fundo, Katniss, em um vestido vinho discreto, assistia com atenção ao lado de Effie Trinket, assessora de imagem e relações públicas da Atlas, que parecia mais tensa que o próprio entrevistado.
— Seja bem-vindo, Peeta. Estávamos todos muito ansiosos pra te ver de volta. Vivo, saudável e... sóbrio.
— Obrigado, Caesar. Bom estar de volta.
Caesar abriu um sorriso afiado.
— Vamos direto ao ponto? Vídeos, escândalo, ex-colegas de ensino médio com péssimo senso de oportunidade... O que você tem a dizer sobre tudo isso?
Effie, do canto do estúdio, negou com a cabeça lentamente, os olhos semicerrados em um “não se atreva a ir longe demais”. Caesar notou, mas fingiu não ver. Peeta ajeitou-se na cadeira, passou a mão no queixo e respondeu com a calma de quem havia ensaiado a verdade.
— Eu me deixei levar, Caesar. Me deixei influenciar por pessoas que eu pensava serem meus amigos. E por muito tempo, fiz o que achava que esperavam de mim… pra pertencer. — Ele fez uma pausa. — Mas, hoje, entendo que só você tem o poder de escolha. Eu poderia ter simplesmente dito a eles “não”. Eu deveria ter dito “não”.
Katniss desviou o olhar por um instante, apertando levemente os próprios dedos.
— Mas a verdade é que… se tudo isso não tivesse acontecido, talvez eu nunca tivesse notado a garota nerd. Talvez eu nunca tivesse dado a chance de conhecer alguém real, verdadeira. Alguém que não me queria por status, mas que enxergava o que estava por baixo de tudo. A essência.
Effie soltou um discreto suspiro aliviado. Ele estava dentro do script — mas com alma.
— E hoje, Caesar… eu não trocaria o que tenho por nada. Nenhum carro de luxo, nenhum networking poderoso, nenhum título a mais. Porque eu tenho tudo o que mais preciso.
A câmera fechou nos olhos de Peeta.
Ele então olhou discretamente para a lateral do palco. Katniss sorriu, sem graça, mas visivelmente tocada. Não era uma declaração pública, mas era tudo que ela precisava ouvir — e que o público precisava ver.
Caesar colocou a mão no peito, teatralmente.
— Eu… estou emocionado. E olha que nem estou atuando agora.
Risadas no estúdio. Peeta apenas sorriu, discreto.
— Última pergunta. Se você pudesse voltar no tempo e fazer tudo diferente... faria?
Peeta pensou por dois segundos, depois respondeu:
— Não. Porque tudo me trouxe até aqui. E aqui… é o lugar onde eu quero estar.
A câmera focou novamente em Katniss. Effie ajeitava os óculos e limpou um canto dos olhos com um lencinho dourado.
— E com isso, senhores telespectadores… eu declaro oficialmente encerrada a era da especulação e aberta a era do novo Peeta Mellark. — Caesar vafariou a mão dramaticamente. — Obrigado por confiar em nós.
Peeta desceu do palco retirando discretamente o microfone. Katniss foi ao seu encontro e o abraçou apertado, sussurrando no ouvido dele:
— Você foi perfeito.
Ele sorriu, ainda levemente suado pela tensão.
— Só falei a verdade.
Effie Trinket, impecável em um terninho rosa-pálido, se aproximou com o ar de quem acabara de vencer um Oscar de Relações Públicas.
— Bravo, Peeta! Bravo! Você não derrapou, não foi passivo-agressivo, não entregou nenhuma tragédia... e ainda fez o público se apaixonar de novo por você. — Ela passou o lencinho no canto do olho com drama. — Estou orgulhosa como uma mãe de comercial de margarina!
Peeta riu e a puxou para um abraço respeitoso.
— Obrigado, Effie. De verdade. Você é incrível. Serei eternamente grato por tudo que tem feito por mim e pela empresa.
Effie deu um leve tapinha no peito dele, emocionada.
— Sempre, querido. Só me prometa que não vai sumir de novo ou me obrigar a lidar sozinha com a Johanna em modo crise institucional.
— Falando nela… — disse Katniss, rindo e apontando para o fim do corredor.
Johanna vinha em passos firmes, blazer aberto, com as mangas dobradas até os cotovelos, óculos escuros e um humor ácido prestes a ser liberado.
— PEETA MELLARK! — gritou ela. — Por acaso você tem ideia de quantos cabelos brancos eu ganhei nesse último mês? Eu quase fui internada com gastrite emocional! E você aí, dando discurso de comercial de Dia dos Namorados! Vai à merda!
Todos caíram na gargalhada. Peeta ergueu as mãos, sorrindo.
— Eu mereço. Pode bater.
— Não, não vou bater. — Johanna cruzou os braços, olhando de cima a baixo. — Você tá muito bonito, não quero machucar o rosto do garoto-propaganda da Atlas. Mas juro que se me fizer passar por outro caos desses, eu dou na sua cabeça.
Delly surgiu logo atrás com um sorriso simpático, usando um vestido esvoaçante e um colar de pedras azuis. Ela deu um beijo na bochecha de Katniss e em Peeta, e então anunciou com um tom cerimonial:
— Eu decreto que esta crise está oficialmente encerrada. E para celebrar: almoço no Il Fiorentino, por minha conta. Preciso de risadas, vinho e minha esposa claramente precisa relaxar.
— Amém! — exclamou Katniss, pegando na mão de Peeta.
— Se tiver bruschetta, eu topo — completou Johanna, já jogando o celular dentro da bolsa. — E se tiver vinho, melhor ainda. Talvez eu até volte a gostar de vocês dois.
✦✦✦
Os dias passavam e finalmente tudo parecia nos eixos.
A manhã estava cinza do lado de fora, mas a parede de vidro da sala deixava tudo à vista: o skyline de Manhattan, os carros como formigas lá embaixo, e as nuvens arrastadas pelo vento. Lá dentro, o silêncio predominava.
Peeta estava sentado à cabeceira da mesa, camisa branca dobrada nos antebraços, sem terno, sem gravata.
Burdock Everdeen estava à frente, de pé, mãos nos bolsos do terno azul-marinho impecável. sério, com os ombros largos e uma postura que lembrava mais um senador que um empresário.
— Peeta... — Começou Burdock, após um longo suspiro. — Eu sei que isso não muda nada, mas... eu realmente sinto muito pelos transtornos que minha filha causou. Pelo envolvimento dela com a imprensa, com... — hesitou ele.
Peeta cruzou os braços sobre a mesa, mas um leve sorriso apareceu nos cantos de seus lábios.
— Com todo respeito, sogrão... — disse ele, inclinando-se um pouco para frente. — Lembra o que você me disse, naquele dia quando eu pedi permissão pra namorar a Katniss?
Burdock arqueou uma sobrancelha.
— Disse muitas coisas, Mellark.
— Mas você disse uma frase específica que eu nunca esqueci. — Peeta ergueu os dedos como se citasse um versículo bíblico. — “Bem-vindo ao olho do furacão, rapaz.”
O canto da boca de Burdock começou a subir, mas ele ainda tentava manter o ar sério.
— E então? Foi como eu disse?
— Não só foi, como o furacão derrubou tudo o que eu achava que era fixo. Me arremessou pra longe da sanidade por um tempo. Mas... — Peeta fez uma pausa, os olhos mais suaves. — Ele também devolveu tudo que eu realmente precisava.
Burdock respirou fundo. O silêncio se esticou por alguns segundos.
— Você ainda a ama mesmo depois de tudo?
— Eu nunca parei de amar, senhor Everdeen. E ela tá diferente agora. A mulher que saiu da tempestade comigo... não é mais a mesma que entrou. E nem eu.
Burdock caminhou até a cadeira à frente e finalmente sentou-se, como se aquele gesto fosse um sinal de trégua.
— E por que você me chamou aqui sem ela?
Peeta então ajeitou-se na cadeira e, com um gesto, puxou uma caixinha de veludo azul escuro de dentro do paletó pendurado ao lado. Colocou-a sobre a mesa e empurrou na direção de Burdock.
— Porque eu quero fazer isso direito. Quero pedi-la em casamento. Quero sua bênção, mesmo que a opinião dela seja a única que vá contar no fim das contas. Mas eu sou um homem de princípios. E o seu respeito... ainda importa pra mim.
Burdock ficou em silêncio por um momento. Seus olhos fitaram a caixa, depois voltaram para os de Peeta.
— Isso é surpreendente, Mellark. Achei que depois de tudo, você fugiria dela como o diabo foge da cruz.
Peeta deu de ombros, sorrindo.
— A Katniss é a cruz... mas também é o paraíso. Vai ver, eu gosto de viver no limite.
Burdock soltou uma gargalhada breve, e pela primeira vez em muito tempo, seus olhos tinham um brilho diferente.
— Você tem a minha bênção, rapaz. Mas que Deus te ajude... porque minha filha é fogo.
— E eu sou um catalisador incrível , senhor. Sei como lidar com fogo.
Eles riram juntos, e Peeta estendeu a mão. Burdock apertou com firmeza.
— Agora só falta ela dizer sim.
— Ela vai dizer — disse Peeta com segurança, já pensando no pedido.
Katniss ajeitava o cabelo no espelho do quarto, o elegante tubinho preto realçando suas curvas e nos pés o par de scarpins preto. Ela estava deslumbrante e sabia disso — mas o olhar atento de Peeta, parado à porta, a fazia corar como se fosse uma adolescente.
Ele a observava com aquele sorrisinho torto, de quem escondia algo.
— O que está aprontando? — perguntou ela, estreitando os olhos, percebendo o brilho misterioso no olhar dele.
Peeta deu um passo à frente, enfiando as mãos nos bolsos da calça social.
— Nada... — disse com um tom arrastado e enigmático. — Só... quero jantar com você hoje. Em um lugar especial.
— Jantar? — repetiu, ainda desconfiada. — Está bem...
Um jantar qualquer, ela pensou. Talvez ele só quisesse sair um pouco. Relaxar.
Peeta sorriu, o tipo de sorriso que dizia tudo menos inocência.
— Mas antes desse jantar... — Ele se aproximou, encurtando a distância entre eles. — Te quero sentada... na minha mesa.
A frase foi carregada. Seu olhar era pura provocação. Katniss ergueu uma sobrancelha, rindo pelo nariz.
— É mesmo?
Ele respondeu em italiano, a voz baixa, rouca, quente como o verão da Toscana:
— Mi fai impazzire, amore. Voglio assaggiarti prima del vino.
Trad-[Me deixa louco, amor. Quero te provar antes do vinho.]
Katniss se derreteu ali mesmo.
— Deus... eu amo quando fala com esse sotaque — sussurrou ela, dando um passo mais perto, os lábios a milímetros dos dele. — Minhas pernas tremem como gelatina.
Ela deslizou uma mão pelo peito dele até o colarinho da camisa, puxando-o suavemente.
— E o seu pedido... — Ela roçou os lábios nos dele, sem beijá-lo. — Sr. Mellark, é uma ordem.
Com a segurança de uma mulher que sabia exatamente o efeito que causava, Katniss caminhou até a sala de jantar sendo seguida por ele. Sentou-se sobre a mesa com elegância, cruzando lentamente as pernas, e o olhou por cima do ombro, mordendo o lábio inferior.
— Vai ficar parado aí, ou vai cumprir sua ameaça?
Peeta suspirou com calma, arregaçou as mangas da camisa e caminhou até ela com a mesma intensidade de um predador encantado pela presa que ele mesmo amava.
Quando chegou perto, Katniss o puxou pela gola, e ele a beijou com uma fome guardada por dias, semanas, meses — mas com a reverência de alguém que finalmente reencontrou sua casa.
O mundo inteiro pareceu desaparecer.
RESTAURANTE ITALIANO “LA STORIA” – MANHATTAN, 20H45
O ambiente era envolto por uma luz suave, âmbar, com velas acesas em todas as mesas. Um quarteto de cordas tocava discretamente em um canto, enquanto os garçons caminhavam entre as mesas. O restaurante “La Storia” não era apenas renomado — era um pedaço da Itália no coração de Manhattan. Reservado, requintado, intocável.
Peeta segurava a mão de Katniss sobre a mesa. O polegar dele acariciava as costas da mão dela, como se estivesse memorizando a textura da pele. Katniss sorriu, ainda com um leve rubor no rosto pelos momentos anteriores na mesa, mas agora havia algo no olhar de Peeta. Algo diferente. Intenso.
— Por que está tão quieto? — perguntou ela, brincando. — Não vai me provocar em italiano de novo?
Peeta soltou um riso baixo, mas não respondeu de imediato. Ele olhou para ela como se estivesse reunindo coragem. O garçom apareceu, serviu duas taças de vinho tinto e desapareceu.
Então, ele falou.
— Katniss... — Ele começou, a voz baixa. — Eu pensei em mil formas de fazer isso. Mil. E nenhuma delas me pareceu boa o suficiente.
Ela piscou, confusa. Um brilho de curiosidade dançava em seus olhos.
— Fazer o quê?
Peeta soltou um suspiro contido, tirou do bolso interno do paletó uma pequena caixinha de veludo azul escuro. Colocou-a delicadamente sobre a mesa entre eles.
Katniss arregalou os olhos.
— Peeta…
Ele abriu a caixinha.
O anel cintilou sob a luz morna do restaurante — platina com um diamante central lapidado em formato de lágrima, ladeado por dois menores. Era clássico, mas havia algo nele que parecia único. Especial. Delicado, como o amor que sobrevivera ao caos.
Peeta olhou para ela, os olhos marejando de emoção.
— Comprei esse anel bem antes de tudo... Quando estávamos ajudando Johanna e Delly com o casamento. Naquela época, eu tinha certeza de que você seria minha esposa. Depois... tudo desmoronou. Mas nunca consegui me desfazer dele.
Katniss já estava com lágrimas nos olhos, as mãos tremendo suavemente.
— Eu... Peeta…
Ele se levantou devagar, deu a volta na mesa e se ajoelhou ao lado dela, ignorando olhares discretos dos outros clientes. Pegou sua mão com carinho, como se fosse um segredo precioso.
— Não sei o que o futuro nos reserva, Katniss. Mas sei que não quero enfrentá-lo com mais ninguém ao meu lado. Você é o caos mais bonito que já entrou na minha vida... E também é minha paz. Minha verdade. Minha casa. — Ele ergueu o anel. — Então, por favor... me deixa continuar sendo seu. Me deixa ser seu lar também. Casa comigo, amor?
Katniss estava visivelmente emocionada. As lágrimas rolavam livremente pelo rosto. Ela riu entre soluços, cobriu a boca com a mão e assentiu, com o coração disparado.
— Sim... sim, Peeta! Mil vezes sim!
Ele deslizou o anel no dedo dela e se levantou. Ela o puxou para um beijo arrebatador, entre palmas discretas e sorrisos ao redor. Mas para eles, só existia um mundo — o que começava ali, naquele exato instante.
No ouvido dele, ela sussurrou:
— Você me salvou... de mim mesma. E agora é o meu lar.
Peeta sorriu contra seus lábios.
— Eu só fui atrás do que sempre foi meu.
✦✦✦
A luz suave da manhã penetrava pelas enormes janelas panorâmicas da cobertura. O céu amanhecia pintado de tons dourados e rosados, mas dentro do quarto, o clima era mais quente — e não por causa do sol.
Katniss estava deitada sobre o peito nu de Peeta, o lençol branco cobrindo-a até os seios, as pernas entrelaçadas às dele. O cabelo castanho espalhado sobre o travesseiro e a respiração ainda preguiçosa.
Peeta pegou o celular na mesinha de cabeceira com uma expressão marota.
— Acho que é hora de contar pra elas.
— Agora? — Katniss ainda com a voz rouca e risonha. — A gente nem saiu da cama.
— Exato. — Ele piscou. — Justamente por isso.
Com um toque, a tela se iluminou. A chamada de vídeo começou a conectar.
TELA DIVIDIDA – VÍDEO CHAMADA
Johanna apareceu primeiro, com os cabelos bagunçados e uma xícara de café na mão, sentada no sofá em um short de moletom. Ao fundo, Delly estava sentada em uma poltrona, lendo um roteiro todo rabiscado com marca-textos. Ela usava óculos e tinha um coque improvisado no alto da cabeça.
Assim que a imagem do casal apareceu, Johanna arregalou os olhos.
— Peraí... Vocês tão pelados?! — Quis saber ela, apontando a xícara pra tela. — Qual é a novidade? Isso virou tradição agora?
Peeta riu.
— Tecnicamente, não estamos pelados. Estamos cobertos com o lençol da vergonha.
— Hm. Lençol da vergonha... ou do orgulho? — Johanna levantou uma sobrancelha. — Depende da performance.
Delly, ainda imersa no roteiro, só levantou os olhos quando Katniss estendeu a mão e mostrou o anel.
Por um segundo, houve silêncio.
E então, Delly gritou. Um grito agudo, emocionado, absolutamente teatral.
— AAAAAH! Meu Deus! — Ela jogou o roteiro pro alto e correu até a tela do celular. — MEU DEUS, VOCÊS VÃO SE CASAR! Finalmente! Finalmente! — As lágrimas já desciam pelo rosto. — Olha isso, Johanna! É tão lindo, tão... tão... é perfeito!
Katniss sorriu, emocionada, limpando uma lágrima que escorria com o dedo.
— Você vai ser madrinha, tá? — disse ela, com a voz embargada.
— EU VOU SER MADRINHA? — Delly agora soluçava. — Eu sabia, eu sabia que esse dia ia chegar!
Johanna tomou um gole de café, fingindo não se abalar.
— Eita, Mellark... finalmente tomou coragem e algemou essa morena. — Ela apontou para Katniss. — É isso aí, loiro. Estou orgulhosa de você. Achando que ia morrer CEO solteirão, mas deu a volta por cima. Agora vão aí, continuem a comemoração íntima... que eu vou ali aproveitar a Delly também, se é que me entende.
Delly deu uma risadinha tímida.
— Jo!
— O quê? Esses dois me fazem aumentar a diabetes e a libido ao mesmo tempo. É difícil viver assim.
E com um toque dramático, Johanna encerrou a chamada.
Peeta e Katniss ficaram olhando pra tela por dois segundos. Então se entreolharam... e começaram a rir.
Riram até as lágrimas escorrerem de novo. Não de emoção, mas de leveza. De alívio. De alegria pura.
Peeta se inclinou e beijou a ponta do nariz de Katniss.
— É oficial... vamos nos casar.
Katniss sorriu, os olhos ainda marejados.
— E sua melhor amiga já deu a bênção mais debochada da história — comentou ela.
— E eu não trocaria por nada no mundo. — Peeta a puxou de volta para o peito, aconchegando-a. — Então fica assim... Você, eu, um anel da Tiffany... e uma madrinha surtada.
— Receita do casamento perfeito — sussurrou ela, fechando os olhos com um sorriso.

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