Notas iniciais
Boa noite pessoal após um mês sem atualizar DV, eis aqui um capítulo frequinho, espero que gostem. Só gratidão por ter cada um de vcs aqui comigo...

O tribunal estava silencioso, exceto apenas pelo o clique seco dos gravadores, o vai e vem sutil dos advogados e o roçar contido de papéis lembravam que aquele julgamento era real — e irreversível.

Alma permanecia sentada diante do juiz. O cabelo platinado, preso num coque impecável, não tinha um fio fora do lugar. O tailleur claro moldava sua silhueta com elegância. O que antes impunha respeito, agora denunciava rigidez. Controle. Medo disfarçado de elegância.

Não havia poder ali. Apenas o eco de alguém que se recusava a admitir a própria queda.

No banco dos presentes, Peeta observava em silêncio absoluto. O maxilar estava travado, os ombros tensos sob o terno escuro. Ao seu lado, Cato mantinha os braços cruzados, o olhar duro; Finnick, sério demais para quem sempre usara o humor como escudo; Presley, com as mãos entrelaçadas no colo, respirando fundo como se contasse o próprio pulso. Katniss estava colada a Peeta — não por dependência, mas por escolha. A mão dela envolvia a dele com firmeza silenciosa, um lembrete físico de que ele não estava sozinho.

Johanna ocupava a fileira atrás, as pernas descruzadas, o corpo levemente inclinado para frente. Seus olhos estavam cravados em Alma com frieza calculada. Não havia curiosidade ali. Havia memória. E julgamento. Peeta era como um irmão para ela e ver como aquela mulher o fez chegar ao limite vezes demais e ter cometido tantas atrocidades a deixava com sangue nos olhos.

O promotor se levantou. Sua voz não oscilou. Cada palavra foi lançada como lâmina.

— Fraude documental. Ocultação deliberada de pessoa incapaz. Falsidade ideológica reiterada. Obstrução de herança legítima. Uso indevido de recursos médicos privados. E conluio com o falecido Coriolanus Snow para fins ilícitos e continuados.

A lista caiu no tribunal como uma sentença antecipada.

Alma sustentou a compostura até ouvir o próprio nome ser chamado.

Levantou-se com a calma treinada de quem passou a vida confundindo controle com cuidado. As mãos estavam perfeitamente posicionadas à frente do corpo. O queixo, erguido. O olhar, seguro demais para ser honesto.

— Excelência… — Começou, a voz firme, quase doce. — Tudo o que fiz… fiz por amor aos meus filhos.

Houve um leve movimento na sala. Um suspiro contido. Um descruzar de pernas. O juiz não se comoveu. Apenas ergueu as sobrancelhas, seco.

— A senhora manteve o próprio marido em cativeiro médico por mais de uma década.

A máscara de Alma trincou por um segundo — quase imperceptível.

— Eu queria protegê-los. — Apressou-se, o tom da fala acelerando. — Peeta, Finnick, Cato, Presley… eles precisavam de estabilidade. Precisavam de segurança. De uma herança sólida. Otho queria abandonar tudo. Queria dissolver a empresa, viver entre vinhos e fantasias. Ele nos arrastaria para a ruína. Coriolanus era… realista. Ele entendia o mundo como ele é.

Peeta se levantou num impulso instintivo, a cadeira raspando no chão. O sangue subiu-lhe ao rosto. Katniss reagiu antes que qualquer palavra escapasse, segurou sua mão com firmeza, os dedos entrelaçando-se aos dele como um freio emocional.

— Não — sussurrou, apenas para ele.

Alma virou o rosto. Pela primeira vez, olhou diretamente para o filho. A voz perdeu o polimento. Tremulou.

— Peeta… — disse, quase suplicante. — Eu só queria te dar o mundo. E você me vira as costas por causa de um velho que mal consegue falar.

A frase pairou no ar como algo indecente.

O martelo do juiz desceu com um som seco, definitivo.

— Basta, senhora Mellark.

O silêncio voltou — agora absoluto.

— Este tribunal reconhece a culpabilidade da ré em todos os pontos denunciados. A sentença será de dez a quinze anos, se houver bom comportamento, entre cinco e dez anos poderá ser cumprida sob regime de detenção domiciliar assistida. E desde já, que a ré seja submetida a supervisão psicológica obrigatória. Fica determinada, ainda, a destituição imediata de qualquer cargo, tutela ou poder legal sobre bens herdados ou transferidos de forma ilícita.

O juiz fez uma pausa curta. O suficiente para que cada palavra seguinte doesse.

— Seus filhos não precisavam da sua proteção. Precisavam da verdade.

Alma empalideceu. Não foi um colapso teatral. Foi pior. Foi o esvaziamento completo. Como se alguém tivesse arrancado o último argumento que a mantinha de pé.

O oficial se aproximou. Ela não resistiu. Não protestou. Apenas lançou um último olhar para Peeta — não havia ódio ali. Havia algo mais feio. Amargura. E talvez, pela primeira vez… arrependimento.

Peeta sustentou o olhar. Não recuou. Não respondeu. O silêncio dele foi mais contundente do que qualquer acusação.

Quando Alma deixou a sala, seus passos não ecoaram. Era como se o tribunal a tivesse engolido.

Do outro lado da verdade, os filhos de Otho Mellark permaneceram sentados por alguns segundos, imóveis. Não havia celebração. Apenas alívio. Um tipo de liberdade que não vinha com euforia — vinha com cicatriz.

Katniss apertou a mão de Peeta com mais força.

E, desde que tudo começou, ele respirou fundo. Livre.

O trajeto até a Atlas Technology foi em silêncio.

Não era um silêncio desconfortável — era pesado. Carregado de tudo o que havia sido dito… e, principalmente, do que não fora.

Peeta dirigia com as duas mãos firmes no volante, os olhos atentos ao trânsito de Manhattan, mas o corpo denunciava outra coisa. O maxilar travado. Os ombros rígidos demais. O pé pressionando o acelerador com força contida, como se precisasse manter o mundo em movimento para não pensar.

Katniss observava sem invadir. Conhecia aquele homem o suficiente para perceber quando algo estava errado. E aquilo não era raiva. Nem alívio.

Era rachadura.

Quando chegaram à garagem da empresa, Peeta desligou o carro e permaneceu ali por um segundo a mais do que o normal. Inspirou fundo, como se estivesse se preparando para vestir uma versão funcional de si mesmo.

— Ei, vai ficar tudo bem. — Katniss murmurou, tocando o antebraço dele.

Ele assentiu. Um gesto automático. Ensaiado.

No elevador privativo, o reflexo dos dois no espelho cromado parecia deslocado. Peeta ajeitou a gravata, alisou o paletó. O CEO impecável. Mas Katniss viu o microtremor nos dedos dele antes das portas se abrirem.

A sala de reuniões já estava ocupada.

Diretores, líderes de projeto, heads de setor. O murmúrio cessou no instante em que Peeta entrou. Era sempre assim. A presença dele organizava o ambiente antes mesmo da primeira palavra.

Ele caminhou até a cabeceira da mesa, pousou o tablet à frente, apoiou as mãos no vidro.

Respirou.

E então… travou.

As palavras simplesmente não vieram.

A mente, que sempre funcionara como um sistema preciso, parecia vazia. Um silêncio interno absoluto. O rosto de Alma — erguido, frio — cruzou-lhe a memória. A voz dizendo “eu só queria te dar o mundo”. A sentença. O olhar final. O peso de anos de manipulação disfarçada de cuidado.

Peeta piscou. Uma vez. Duas.

O tempo passou rápido demais.

Alguém pigarreou.

Outro ajustou a cadeira.

Peeta abriu a boca para falar — e nada saiu.

Foi quando Katniss se moveu.

Ela não pediu licença. Não olhou para ele buscando autorização. Apenas assumiu.

— Bom dia — disse com naturalidade firme, projetando a voz com segurança. — Antes de entrarmos nos números gerais, gostaria de alinhar com vocês o andamento do eixo de marketing estratégico do projeto Atlas Seed Labs.

Todos os olhares se voltaram para ela.

Katniss caminhou até a lateral da mesa, ativou a tela, os gráficos surgindo com fluidez. O tom dela era profissional, seguro, mas humano. Explicava resultados, antecipava dúvidas, contextualizava decisões. Falava de impacto social sem soar idealista demais. Falava de números sem perder sensibilidade.

Enquanto isso, Peeta permaneceu em silêncio.

Não por incapacidade, mas porque, pela primeira vez, alguém segurava o mundo por ele.

E isso o desarmou.

Ele ouvia Katniss e sentia algo que não conhecia bem — alívio misturado a vergonha. Gratidão misturada a medo. Porque sempre acreditara que precisava ser o pilar. O inabalável. O homem que sustenta tudo.

E ali, naquele instante, percebeu que também podia cair.

Quando a reunião terminou, foi a mais eficiente das últimas semanas. Decisões tomadas. Direcionamentos claros. A equipe saiu confiante.

Assim que a última pessoa deixou a sala, Peeta sentou-se lentamente, como se o corpo tivesse finalmente entendido que podia ceder.

Katniss fechou a porta e foi até ele sem dizer nada. Ajoelhou-se à frente da cadeira e pousou as mãos nos joelhos dele.

— Você não falhou — disse com suavidade firme. — Você é humano.

Ele passou a mão pelo rosto, os olhos marejados pela primeira vez desde o tribunal.

— Eu nunca… — A voz falhou. — Nunca fiquei assim. Sempre soube o que dizer. Sempre soube o que fazer. Como esconder.

— Hoje, não. — Ela segurou o rosto dele entre as mãos. — Porque hoje você enterrou uma parte da sua vida. Isso cobra um preço.

Minutos depois, já na sala dele, Katniss voltou com uma xícara de chá quente. Camomila. Mel. Do jeito que ela própria costumava tomar quando o mundo pesava demais.

Ela colocou a xícara em suas mãos, sentou-se no braço da poltrona e o puxou para perto, envolvendo-o num abraço lento, constante.

Peeta encostou o rosto no abdômen dela, os dedos apertando o tecido do vestido como se fosse âncora.

— Vai passar, beba o chá. Minha mãe me ensinou que camomila e mel ajuda a acalmar — murmurou, passando a mão pelos cabelos dele. — Agora a gente precisa focar no que importa. No seu pai. Em cuidar dele. Ele precisa de você inteiro.

Peeta respirou fundo. Uma, duas vezes. O peito desacelerando aos poucos.

— Obrigado… — sussurrou. — Por me segurar quando eu não consegui ficar em pé.

Katniss beijou o topo da cabeça dele.

— Sempre — falou com firmeza. — É isso que a gente faz. Um pelo outro. Afinal, você também já cuidou de mim quando desmoronei uma vez.

E ali, na sala do CEO no coração da empresa, o homem que sempre sustentou tudo aprendeu algo novo.

Ser forte também é permitir-se cair — desde que alguém esteja ali para te ajudar a levantar.

✦✦✦

Três semanas haviam se passado desde a audiência no tribunal, os irmãos Mellark haviam virado a página. Encontraram um motivo a mais para seguirem em frente. A cobertura de Peeta estava em ritmo de festa de noivado. Luzes pendentes como fios de estrelas iluminavam a área da piscina. Pétalas de rosas espalhadas pelo chão, música ambiente suave e uma faixa elegante ao fundo dizia:

“Parabéns, Katniss & Peeta”

A noite era fresca e a cidade aos pés da cobertura parecia brilhar em homenagem ao casal.

Katniss usava o vestido longo de festa em tom rosé/blush, inteiramente bordado com micro paetês e pedrarias delicadas, criando brilho sofisticado e uniforme sob a iluminação noturna. A modelagem ajustada ao corpo, valorizando cintura e quadril com elegância. O decote em V profundo, feminino e refinado, equilibrando sensualidade e classe. As mangas longas, também bordadas, conferindo um toque clássico e luxuoso. Comprimento até o chão, com leve fluidez na barra, o tecido nobre, caimento impecável. Seus cabelos castanhos soltos com ondas suaves e naturais, repartidos levemente de lado. Ela tinha uma expressão serena e segura.

Já Peeta estava de terno escuro, sem gravata.

Eles estavam lado a lado, recebendo os convidados com sorrisos sinceros e abraços apertados.

A música Keep Your Heart Ready, de Emily Baker ecoava pela cobertura quando Peeta caminhou até Johanna, que estava encostada no parapeito segurando uma taça de prosecco.

— Aí está o noivinho. — Ela ergueu a taça com um sorrisinho debochado. — Já se arrependeu?

— Eu nem sonharia com isso. — Ele sorriu. — Vim te fazer um convite oficial.

Johanna arqueou a sobrancelha.

— Se for pra ser padrinho, recuso. Já chorei demais no meu próprio casamento. Não tenho mais dignidade.

— Exatamente por isso. Eu fui seu padrinho e quero que você retribua o favor. Quero que esteja ao meu lado no altar. A Katniss já aprovou. — Ele piscou. — Aliás, disse que só você conseguiria me manter são no dia.

Johanna ficou um instante em silêncio. Depois deu um gole demorado no prosecco.

— Tá... Mas só se o terno for preto. Nada de bege ridículo ou flores na lapela.

— Fechado.

Eles brindaram com um leve toque de taças.

Delly apareceu logo depois com uma prancheta e um fone de ouvido no pescoço.

— A mesa da família tá pronta, os drinks circulando, o DJ alinhado. Isso tá parecendo mais um pré-casamento do que uma festa de noivado. — Ela piscou. — E o bolo de três andares já chegou.

— Você é um anjo — disse Katniss, abraçando a amiga. — Um anjo hiperativo e organizador.

Burdock e Asterid Everdeen estavam sentados com Otho Mellark, que agora se apoiava em uma elegante bengala de madeira escura. Otho ria das piadas de Haymitch, que estava com sua esposa Lenore e os filhos Patrick e Charlotte — que tentavam roubar morangos do topo do bolo.

Finnick e Annie estavam com Anthony e Kate — o pequeno brincando com bolhas de sabão, enquanto a irmã mais velha olhava para Katniss com brilho nos olhos.

— A mamãe vai usar um vestido igual ao seu? — Kate perguntou.

— Vai ser ainda mais bonito, querida. — Annie respondeu, sorrindo para Katniss.

Gale chegou com uma postura impecável, vestindo terno grafite. Ao lado dele, Madge Undersee — a filha do prefeito — vestia um vestido azul escuro de cetim com alças finas e um sorriso gentil. Ela acenava para Delly e Katniss de longe.

— E aí, detetive... — sussurrou Johanna ao passar por Gale.

— Gostava mais quando era meu motorista ouvinte? — brincou Peeta, apertando sua mão.

— Só a Catnip pra me arrastar pra uma missão impossível dessas. — Gale revirou os olhos, segurando a cintura de Madge. — Nunca mais faço isso na vida.

— Aham... até a próxima. — Johanna riu e foi pegar outra taça de vinho.

Katniss foi até Madge e a abraçou apertado.

— Eu não acredito que você veio! Isso tá parecendo os tempos de colégio.

— Só que agora a gente troca uniforme por vestido de gala e café da cantina por champanhe. — Madge riu.

Katniss conhecera Madge e Delly na época do colégio interno o qual ela quis ser transferida após ser humilhada na época do colegial. Elas se tornaram grandes amigas e mesmo na época de faculdade não se separavam. Assim que Katniss havia contratado Gale, em uma ocasião ele viu Madge e o interesse foi imediato. A morena os apresentou, um encontro após o outro e os dois já namoravam há um longo tempo.

O momento do brinde chegou, Peeta ergueu a taça.

— Quero agradecer a todos vocês... Família, amigos, e até os figurões da Atlas escondidos ali no canto tentando não parecerem emocionados. — Algumas risadas se espalharam. — Esse momento é mais do que um simples noivado. É a celebração de tudo o que construímos, apesar de tudo.

Ele olhou para Katniss, que estava ao seu lado, emocionada.

— Obrigado por dizer sim. E por me mostrar que vale a pena resistir ao caos... pra merecer a paz de estar ao seu lado.

Ele ergueu a taça em direção a ela, e todos os convidados repetiram o gesto, aplaudindo.

— Ao casal! — bradaram em uníssono.

E as luzes de Manhattan, ali em volta, pareciam piscar em sincronia com os corações que vibravam naquela noite.

Enquanto os convidados se espalhavam pela área da piscina iluminada, Peeta foi abraçado por três pessoas especiais.

Finnick, com o mesmo carisma que sempre carregava, ergueu a taça.

— Finalmente, irmão. A mulher da sua vida, a festa da sua vida... Agora só falta aprender a relaxar. — Ele piscou.

— Caramba, o que mais tenho feito nos últimos tempos é relaxar, Finn.

Cato, mais relaxado do que nunca, após ter conseguido provar sua inocência diante das acusações de Clove e o divórcio que chegou ao fim, com ela sendo inapta da guarda da filha Skye, Cato finalmente sentia-se em paz e com os olhos cheios de emoção, apertou a mão do irmão com firmeza.

— Você merece isso. Alguém que te enxerga além das manchetes, das ações, do CEO. Alguém que conhece o Peeta de verdade. E essa pessoa é a Katniss.

— Obrigado, irmão.

Presley, chegou saltitante com seus cachos dourados e um sorriso de orelha a orelha.

— Eu sempre soube! — disse abraçando Katniss, emocionada. — Desde que você começou a falar dela no grupo da família, eu sabia que era sério. E agora você vai virar minha cunhada oficial! Já tenho vestido pra cerimônia, só falta o penteado. —Seremos irmãs.

Katniss riu, abraçando a jovem Mellark com carinho.

— Sim, seremos Pres... e prometo dividir meu closet com você. — As duas trocaram um suave beijo nas bochechas, Katniss emocionada por ganhar uma irmã como cunhada.

Então, Otho, com sua bengala elegante e uma taça de vinho tinto na outra mão, se aproximou devagar, os olhos úmidos e orgulhosos. Ele colocou a mão no ombro de Peeta e depois olhou para Katniss.

— Quando vejo vocês dois juntos, vejo mais do que amor. Vejo parceria. — Ele parou por um segundo. — Katniss, você é forte, corajosa, determinada. Você ama meu filho com tudo o que tem... e isso basta. É tudo o que um pai pode desejar.

Katniss sorriu emocionada e o abraçou com ternura.

— Obrigada, meu querido sogro. Isso significa muito.

Otho sorriu, e logo Haymitch se juntou a eles, com sua esposa Lenore ao lado.

— E aí, Peeta, se tiver qualquer dúvida sobre casamento, é só lembrar que eu sobrevivi. — Ele piscou. — Mesmo sendo seu padrinho e irmão do seu pai, ainda sou o mais sensato da família. Isso diz muito sobre a genética dos Mellark.

Risos se espalharam ao redor.

Peeta ergueu a taça em direção ao tio e ao pai.

— Eu sou quem sou por causa de vocês. Obrigado por sempre estarem ao meu lado.

Era estranho para Katniss ser o centro de todas aquelas atenções. Não era do tipo que buscava holofotes. Mas quando desviava o olhar e encontrava Peeta ao seu lado, lembrava-se de que estava exatamente onde queria estar.

Delly, assumiu naturalmente o posto de mestra de cerimônias improvisada. Sorridente, pegou o microfone e se posicionou no centro da cobertura. O vestido rosa-claro dela parecia brilhar sob as luzes.

— Boa noite, família, amigos e... curiosos — disse em tom brincalhão, arrancando risadas. — Eu prometi que faria dessa festa de noivado algo memorável e vou cumprir. Então, apresento a vocês um joguinho chamado Manual de Instruções.

Katniss arqueou a sobrancelha, trocando um olhar divertido com Peeta. Ele inclinou levemente a cabeça em direção a ela, o canto dos lábios curvado.

— Isso pode ser perigoso — murmurou em voz baixa, e ela conteve uma risada.

Delly ergueu a mão teatralmente.

— Eu faço perguntas, eles respondem. Nada de colar, nada de fugir. Estamos combinados?

A cobertura vibrou em aplausos e gritos de incentivo.

Primeira rodada.

— Katniss, qual é a mania mais fofa ou engraçada do Peeta?

Ela respirou fundo, sabendo exatamente qual escolher.

— Ele fala sozinho quando está trabalhando. Às vezes até discute com o próprio computador.

Risos ecoaram entre os convidados, e Peeta corou levemente, levando a mão à nuca.

— Isso não é mania, é brainstorming.

Katniss mordeu o lábio para não rir mais alto.

—E ainda tem coragem de se justificar.

Segunda rodada.

— Peeta, qual foi a primeira coisa que você reparou na Katniss?

Os olhos dele buscaram os dela, como se não houvesse mais ninguém na cobertura.

— Os olhos. Eles intimidam e acolhem ao mesmo tempo.

Um silêncio breve se instalou, seguido por suspiros e aplausos. Katniss desviou o olhar, sentindo o calor subir às bochechas.

— Terceira rodada — anunciou Delly, puxando o cartão com ar conspiratório. — Quem é o mais teimoso?

— Ela — respondeu Peeta imediatamente, com um sorriso quase orgulhoso.

Katniss ergueu as sobrancelhas, ofendida de brincadeira.

— Eu?! Você faz parecer que sou insuportável!

Ele apenas deu de ombros, o sorriso mais largo.

— Não é insuportável. Só… imbatível.

Os convidados caíram na gargalhadas, e Katniss sentiu o calor subir às bochechas. Não queria admitir, mas adorava quando ele falava dela com esse misto de irritação e admiração.

Quarta rodada.

— Quem é mais provável a começar uma briga por bobagem?

Peeta ergueu o indicador na direção dela sem pensar duas vezes.

— Ela.

— Eu?! — Katniss arregalou os olhos, o tom incrédulo disfarçando a risada. — Você é quem implica com o jeito que dobro os guardanapos!

A explosão de gargalhadas foi quase imediata. Peeta suspirou, erguendo as mãos em rendição.

— Ela nunca vai admitir.

Katniss mordeu o lábio, tentando segurar o riso, mas por dentro sabia que ele tinha razão. Adorava cutucar pequenas brigas, só para ver até onde ele iria com a calma habitual.

As rodadas avançaram entre provocações, risadas e respostas que arrancavam reações genuínas. Katniss se pegava observando Peeta quando ele falava — a firmeza do tom, o brilho dos olhos, a forma como todos prestavam atenção nele. Era natural, quase magnético.

Quinta rodada.

— Se vocês pudessem escrever uma regra de ouro no manual de instruções do casamento de vocês, qual seria?

Peeta e Katniss se olharam, como se não precisassem pensar muito.

— Lealdade — disse Katniss.

— E cumplicidade em tudo — completou Peeta.

Sexta rodada.

— Quem disse “eu te amo” primeiro?

Peeta levantou a mão.

— Eu.

Katniss arqueou as sobrancelhas.

— Mas quem pensou primeiro fui eu.

Os convidados explodiram em gargalhadas, e ele apenas riu, rendido.

— Ela nunca me deixa ganhar uma inteira.

Sétima rodada.

— Se pudessem reviver um dia juntos, qual seria?

Katniss respondeu primeiro, com firmeza.

— O dia em que nos reencontramos. Tudo mudou ali.

Peeta apertou a mão dela, completando:

— E eu escolheria esse momento aqui.

Um silêncio emocionado tomou conta do espaço, até que os aplausos e gritos de comemoração preencheram a noite.

Oitava rodada.

— Se o Peeta fosse um prato de restaurante, qual seria?

Katniss ergueu uma sobrancelha, divertida.

— Seria um prato sofisticado e caríssimo, daqueles que você pede sem entender metade dos ingredientes... mas no final percebe que valeu cada centavo.

A cobertura veio abaixo em gargalhadas.

Peeta, com um sorriso encantado, respondeu:

— Nesse caso, Katniss seria o prato simples, mas impossível de esquecer. Uma única vez e já muda sua vida.

Ela sentiu o coração disparar, e por um instante esqueceu-se de todos os olhares ao redor.

Nona rodada.

— Qual hábito do outro você mais gosta?

Katniss sorriu antes mesmo de responder.

— Quando ele fala em italiano comigo. — Alguns assobios brincalhões surgiram no ambiente, mas ela ignorou, inclinando-se para perto do ouvido dele. Seu sussurro foi baixo, destinado só a ele. — Principalmente na cama.

Peeta engasgou discretamente com o champagne, tossindo enquanto Johanna batia no ombro dele e o restante explodia em gargalhadas curiosas. Katniss apenas ergueu o queixo, disfarçando o rubor com um ar de inocência. No fundo, adorava ter esse poder de desconcertá-lo.

Décima rodada.

— Qual é o maior sonho que vocês compartilham para o futuro?

O silêncio que se seguiu foi quase reverente. Katniss respirou fundo, escolhendo as palavras com cuidado.

— Ter uma vida tranquila juntos.

— Construir algo que dure além da Atlas Technology. Nosso lar. — Peeta completou sem hesitar, a voz firme e carregada de uma certeza que a desarmava.

Alguns convidados enxugaram discretamente os olhos, emocionados. Katniss, no entanto, sentiu um nó se formar na garganta. Ele falava como se já enxergasse esse futuro diante deles, sólido, palpável. Mas dentro dela, o medo ainda era um sussurro constante: filhos. Ela não queria — não conseguia sequer se imaginar nesse papel — e guardava isso em silêncio, como um segredo perigoso.

Forçou um sorriso suave, apertando a mão dele. Ele acreditava que estavam sonhando juntos, e talvez, por enquanto, bastasse deixá-lo acreditar.

O jogo seguiu, mas Katniss mal registrava as próximas rodadas. O riso das pessoas à volta parecia distante, abafado pelo som acelerado do próprio coração. Peeta a puxou para mais perto, beijando o alto da cabeça dela como se quisesse selar aquele momento. E por um instante, só por um instante, ela deixou-se convencer de que talvez a tranquilidade que tanto desejava não fosse um delírio inalcançável.

Enquanto o público vibrava, Peeta inclinou-se até ela, murmurando apenas para os dois.

— Esse jogo só provou o que eu já sabia. Não existe manual que explique o que sinto por você.

✦✦✦

Quando a última risada ecoou pelo elevador e a porta se fechou com um clique suave, a cobertura silenciou quase que instantaneamente. As luzes pendentes ainda brilhavam como constelações particulares, refletidas na água tranquila da piscina. Taças esquecidas, pétalas espalhadas — vestígios de uma noite perfeita demais para acabar ali.

Katniss apoiou-se no parapeito, sentindo o próprio pulso ainda acelerado.

— Acho que sobrevivi — disse, rindo baixo.

Peeta se aproximou por trás, lento, não a tocou de imediato. A presença dele, tão próxima, era quase pior — o calor, a respiração roçando sua nuca, a certeza de que ele estava ali.

— Sobreviveu… — murmurou, finalmente envolvendo sua cintura. Os dedos se fecharam com firmeza suficiente para prometer, não para prender. — Agora é oficial, não tem mais escapatória.

Ela inspirou fundo antes de responder, o corpo reagindo antes da razão.

— Acha que eu quero fugir?

O sorriso dele se insinuou em sua pele antes mesmo de ser visto.

— Eu sei que não quer.

Peeta a puxou para mais perto. Não havia pressa — havia domínio calmo. Ele encostou a testa na dela, respirando fundo, como se escolhesse cada palavra.

Amore mio… — sussurrou, tão baixo que parecia um segredo compartilhado só entre os dois.

Katniss fechou os olhos no mesmo instante. O som da língua, a intimidade da escolha, o jeito como ele disse “meu amor” como se fosse um fato incontestável — tudo nela cedeu um centímetro a mais.

— Você faz isso de propósito… — falou, a voz já mais fraca.

O sorriso dele veio antes da resposta. Peeta deslizou os dedos por sua cintura, lento, paciente.

— Sempre — confessou, aproximando os lábios do ouvido dela. — Sei exatamente o que essas palavras fazem com você.

Katniss engoliu em seco quando ele continuou, a voz mais rouca, mais íntima.

Sei la mia casa. Il mio posto sicuro.

Trad-[Minha casa. Meu lugar seguro.]

Ela abriu os olhos, o coração errando o compasso.

— Peeta… — O nome dele saiu como um pedido.

Ele não parou.

Quando ti tengo così, — disse, ajustando o corpo dela contra o dele, sem deixar espaço para dúvidas. — Il mondo smette di fare rumore.

Trad-[Quando te abraço assim, o mundo para de fazer barulho.]

Katniss apoiou a testa no ombro dele, derrotada de um jeito doce, perigoso. O mundo realmente tinha parado.

— Não é justo você ser romântico assim… — murmurou, rendida.

Peeta riu baixo, o som vibrando contra a pele dela.

È solo la verità.

Trad-[Só a verdade.]

Ele levantou o rosto dela com dois dedos, obrigando-a a encará-lo.

Ti scelgo. Sempre. — Trad-[Escolho você. Sempre.]

O olhar de Katniss se desfez ali. Não houve resposta imediata. Apenas a mão dela agarrando o tecido da camisa dele, como se precisasse se segurar em algo sólido.

— Você não pode falar assim comigo… — disse, quase sem fôlego. — Não quando eu já sou sua.

— Eu sei. — O polegar dele traçou lentamente a linha do maxilar dela. — E é por isso que falo.

O beijo que veio depois foi lento, profundo, carregado de tudo o que ele não precisou traduzir. Katniss se derreteu completamente, o corpo seguindo o dele sem resistência alguma, como se cada palavra em italiano tivesse destravado algo que já era inevitável.

Peeta a ergueu nos braços sem aviso, o movimento seguro, decidido. Katniss soltou uma risada curta, surpresa, que se perdeu quando percebeu o quanto gostava daquela falta de controle. Passou os braços pelo pescoço dele, os corpos alinhados demais.

— Peeta… — protestou, mais pelo ritual do que por vontade. — Está me sequestrando?

— Não — respondeu, caminhando em direção ao quarto, a voz baixa, carregada de intenção. — Isso é apenas consequência. Não pode fugir de mim.

Ela inclinou o rosto, os olhos presos aos dele.

— É perigoso você fazer isso, senhor Mellark, não eu.

Ele abriu a porta do quarto com o pé e só então a colocou no chão, mas não se afastou. Pelo contrário. As mãos permaneceram firmes em sua cintura, os corpos tão próximos que qualquer movimento mínimo mudaria tudo.

— Fugir de você? — disse, aproximando-se ainda mais, a testa quase tocando a dela. — Jamais.

Katniss levou as mãos ao paletó dele, deslizando o tecido com lentidão, sentindo o quanto ele estava atento a cada gesto. Peeta deixou que ela conduzisse por um instante — apenas um — antes de responder, os dedos encontrando o zíper do vestido, não para abrir, mas para marcar presença.

Cada toque era uma pergunta.

Cada pausa, uma provocação.

As respirações se tornaram mais profundas, sincronizadas. O mundo pareceu encolher ao redor deles, reduzido àquele quarto, àquele espaço mínimo entre boca e boca que ele se recusava a atravessar rápido demais.

Quando finalmente se deitaram, não houve urgência. Houve intenção.

Peeta a puxou para perto, a mão firme em suas costas, como se quisesse gravar aquele encaixe na memória. Katniss se acomodou contra ele, sentindo o coração dele bater forte sob sua mão — uma confissão silenciosa.

Ele beijou sua testa. Depois a têmpora. Depois parou.

Esperou.

— É oficial — sussurrou, a voz rouca, carregada de algo que ia além do desejo. — Você é minha casa.

Katniss ergueu o rosto, os lábios a um sopro dos dele, os dedos entrelaçados aos seus.

— Sempre fui.

O beijo que se seguiu não foi apressado. Foi profundo. Demorado.

Como tudo naquela noite.

E ali, entre respirações quentes e promessas sussurradas se amaram não como quem celebra uma festa — mas como quem sabe exatamente o que está escolhendo… e escolheram ficar.

✦✦✦

A manhã no prédio envidraçado da Atlas Technology começava com o céu pálido sobre Manhattan e uma brisa suave cortando os prédios. No 23º andar, a sala de reuniões já estava em movimento. Telões ativados, gráficos projetados nas paredes de vidro, tablets distribuídos sobre a longa mesa. Havia algo de especial naquela reunião — uma energia rara, que misturava propósito com planejamento.

Peeta entrou primeiro, vestindo um blazer cinza-chumbo sobre uma camisa preta. Seus olhos, embora cansados, brilhavam com determinação.

— Obrigado a todos por estarem aqui. — Começou, ao tomar seu lugar na cabeceira da mesa. — A reunião de hoje não é sobre números. É sobre o futuro. Nosso futuro e principalmente o de crianças e adolescentes que poderiam estar em qualquer um de nossos escritórios um dia, se dermos a eles as ferramentas certas.

Ao lado dele, Johanna ajeitou seu tablet com a típica expressão debochada no rosto.

— Isso aí, nerds. Preparem os dados porque vamos mudar o mundo — disse, arrancando risos da sala e um olhar de repreensão divertido de Burdock, que se sentou à direita do genro.

— Mudança real requer estrutura — falou Burdock, a voz grave ecoando na sala. — Quando Katniss me falou desse projeto meses atrás. A ideia dela era sólida. Ela viu o que falta em muitos bairros do Bronx. O mínimo. E é esse mínimo que vamos superar. Com todas as doações feitas no baile de máscaras já é um bom ponta pé.

Effie, já com pastas coloridas organizadas ao seu redor, assentiu.

— Vamos apresentar o Atlas Seed Labs. Um braço educacional e social da Atlas Technology. Nosso objetivo inicial: instalar laboratórios de tecnologia completos em cinco escolas públicas do Bronx, em um projeto piloto que será expandido para outros distritos da cidade em até dois anos.

A tela mudou. Fotos de escolas depredadas, quadros brancos manchados, salas sem computadores.

— Vamos reestruturar espaços, equipar com notebooks, impressoras 3D, placas de desenvolvimento, kits de robótica e fornecer conexão de internet de alta velocidade. O laboratório vai funcionar também aos sábados, com oficinas extracurriculares — completou Beetee, diretor de engenharia.

— E os instrutores? — perguntou uma voz ao fundo.

— Já estamos em contato com ex-bolsistas de universidades parceiras — respondeu Johanna. — Jovens que saíram de contextos parecidos e que topam fazer a diferença. A ideia é inspirar por identificação.

— Eu me pergunto — disse Cyril, do setor de comunicação — Como vamos comunicar isso para a mídia sem parecer filantropia de fachada?

Effie nem precisou olhar para Peeta.

— Contamos histórias reais. Mostramos os resultados. E, sim, vamos mostrar a Katniss nas escolas, como mentora. Porque foi ela quem sugeriu tudo isso. E a ideia de Peeta é reforçar isso com um programa de bolsas para os cinco alunos com melhores desempenhos em cada escola — disse ela.

— Precisamos de métricas de impacto, desde o primeiro mês. Para apresentar ao conselho e aos investidores. E manter a transparência — reforçou James, o analista de dados.

— Já está previsto — respondeu Burdock. — Relatórios trimestrais com base em desempenho acadêmico, engajamento nas oficinas e relato dos próprios professores.

Peeta se levantou e caminhou até a tela.

— Esse projeto… não é só uma resposta ao vídeo vazado ou à entrevista. Isso nasceu antes. Nasceu do olhar da Katniss. Ela viu garotos que têm talento mas não têm acesso. E queríamos fazer algo com propósito real. A Atlas sempre foi sobre tecnologia de ponta. Mas agora… também vai ser sobre oportunidade.

O silêncio reverente na sala foi quebrado apenas por Johanna.

— Quem diria que o loirinho CEO agora tem coração de filantropo. Vou até reavaliar nossa parceria, Mellark.

— Só se você prometer parar de me chamar de loirinho — retrucou ele, com um meio sorriso.

Risadas suaves.

— Ok, mas quero garantir que os contratos com as escolas deixem espaço para autonomia local. Isso tem que ser parceria, não imposição. —Johanna direcionou o olhar para o diretor jurídico.

Peeta concordou.

— Exato. O objetivo é ouvir, adaptar, não ditar regras.

Plutarch, que havia chegado atrasado com um copo de café na mão, apoiou-se contra a parede.

— Aposto uma garrafa de single malt que, no final, vamos tirar um gênio daquelas escolas que vai acabar assumindo o meu lugar no conselho. E é isso que mais me empolga.

Todos riram.

A reunião se encerrou com aplausos e entusiasmo. Peeta ficou para trás, observando a cidade lá fora, os prédios espelhados, o Central Park ao longe.

Johanna se aproximou, braços cruzados.

— Vai contar pra Katniss que já estamos colocando tudo em prática?

Ele sorriu, lembrando-se de que ela estava com Delly no estilista escolhendo um modelo do vestido de noiva.

— Ainda não. Quero ver o rosto dela quando visitarmos juntos a primeira escola transformada.

Ela bateu em seu ombro.

— Você tá mesmo ferrado de amor, hein?

— Completamente.


Notas finais
Obrigada por tudo amores, me digam o que estão achando, beijos e até!!!