Doce Vingança
1 Prólogo
Notas iniciais


O último ano letivo fervilhava de expectativas e muita ansiedade. Alunos eufóricos planejavam o futuro, sonhando com universidades prestigiadas e carreiras promissoras. Cartas de recomendação, notas impecáveis, tudo era crucial para o sucesso.
— Festa na casa do Marvel! — anunciou Clove, a energia contagiante. — Vai ser épico!
— Clo, já não festejou o suficiente? — Glimmer tentou conter o entusiasmo da amiga com um duplo sentido. Clove estava em um relacionamento com Cato Mellark que já cursava a faculdade e o verão tinha sido bem agitado com viagens de iate com o namorado e os amigos universitários dele.
— Cala a boca Glimmer — vociferou a baixinha, mas sem perder o pique.
— Ei, meninas escondam as garras. É o nosso último ano, eu só quero que isso termine logo. — Peeta, ajeitando a mochila nos ombros, recebeu um revirar de olhos de suas amigas.
— Oi pra você também, Mellark. Como foi em Milão? — Glimmer, com um requebrado sensual, se empolgou ao ver o loiro se aproximar.
— Ele foi ao funeral da avó, sua oxigenada — repreendeu Clove.
— Nossaaa... Peetinha, sinto muito, amorzinho. — A loira tentando apagar seu embaraço, o abraçou com um aperto excessivo.
— Tudo bem, Gli... fazia tempo que ela estava doente. — Peeta retribuiu o abraço, sentindo-se desconfortável.
— Cara, você voltou... — Marvel, um amigo próximo, bateu no ombro de Peeta, enquanto Glimmer dava um passo para trás.
— Só pra constar, Clove, meu cabelo é loiro natural. — Clove deu de ombros, indiferente.
— Vai rolar festa mesmo, Marvel? — questionou Peeta.
— Claro que vai, Conquistador. — Naquele instante Peeta revirou os olhos, Marvel só podia estar de zuação com aquele apelido idiota. — A festa rolará no fim desse mês quando meus pais estarão em Miami para um evento da nova rede de hotéis. Já estou organizando tudo. Vai rolar muita bebida e uns doces, claro. — Marvel piscou, a insinuação clara para todos.
Sua fala tinha um único significado para alguns daquela geração “drogas e sexo”.
— Infelizmente, a Fox vai estar lá com o namorado novo. — Clove, com um sorriso malicioso, anunciou.
— Tanto faz. — Peeta demonstrou uma indiferença que não refletia sua verdadeira sensação. — Ela fica com quem quiser. — Ele tentou não se importar com o fato de sua namorada tê-lo traído com um mauricinho mais velho.
— Será que você está mesmo de boa com isso, amorzinho? — insistiu Glimmer, abraçando-o novamente e desta vez ela não o soltou.
— Lógico, ela não é a única garota no mundo. — respondeu Peeta, mas sua falta de convicção era evidente. A chegada de Thresh mudou o rumo da conversa.
— Então prova pra gente que não tá mexido, ué! — Thresh o desafiou.
— Eu consigo fazer qualquer garota se apaixonar por mim — gabou-se, tirando risadas dos amigos. — Façam suas apostas — Peeta, impulsivo, desafio deixando seu grupo instigado.
— Tá legal, Conquistador. Vai ter que pegar a garota mais esquisita do colégio. — Marvel propôs, a ideia foi recebida com entusiasmo pelos outros.
— Tá louco! — indignou-se Peeta, mas já era tarde.
— É pegar ou largar — contrapôs Thresh.
— Beleza, mas não sejam cruéis comigo. — Peeta ergueu as mãos em rendição.
Logo os amigos iniciaram a escolha do alvo da aposta. Lavinia, uma garota gentil, mas bem atrapalhada, passou sorrindo e Thresh apontou, mas o loiro torceu o nariz.
— Aquela tem as pernas tortas, mas acho que você dá conta, Conquistador — sugeriu Marvel, assoviando quando Bianca tentava se equilibrar no pequeno salto. E, novamente, Peeta desaprovou. —Cara, assim fica difícil, você não quer aceitar que perdeu pra Jacqueline.
— Eu não perdi nada — retrucou o loiro.
— Então, como somos garotas, nós é que escolheremos a azarada. — Clove sorriu diabolicamente.
As duas, implacáveis, se entreolharam antes de apontaram para uma caloura tímida que acabara de tropeçar nos degraus da entrada com seus óculos caindo do rosto. A garota de trança, com acne e aparelho nos dentes, visivelmente insegura, tornou-se o alvo da aposta cruel.
— E a vencedora é... a esquisita ali — declarou Glimmer.
— Lógico que não!!! — protestou o loiro.
— É ela, Mellark ou vamos dizer a Jacqueline que não a superou. — Clove sabia ser cruel. — Que a sorte esteja sempre a seu favor — anunciou.
— Nem sei quem ela é...
— Katniss alguma coisa... — informou Glimmer, sem dar importância.
— Ela faz parte do coral. — Thresh, inesperadamente, forneceu informações sobre Katniss. Os amigos o encararam como se perguntassem como ele sabia. — Eu a vi ensaiando outro dia, enquanto passava pelo auditório.
— Ela é... ela é... — Peeta não sabia como expressar seus pensamentos mais absurdos sobre a aparência da garota.
— Gostosa! — alfinetou Marvel, passando um braço pelo ombro de Peeta. — Admita meu amigo, ela tem bunda, peito...
— E é virgem! — interpôs Glimmer, os demais a encararam. — Quem comeria ela?
— Não seja cruel, Glimmer. — Thresh tentou sanar os adjetivos cruéis que o resto do grupo passou a enumerar.
— Ué, é só ela perder uns quilinhos, dar uma boa repaginada no cabelo, pele e no look que até fica comível — sugeriu Clove.
Peeta, inicialmente hesitante, foi pressionado pelo grupo a cumprir a aposta. A descrição da aparência de Katniss, pelos amigos, repleta de adjetivos negativos, reforçou a crueldade do desafio. Apesar de tentar se esquivar, Peeta acabou concordando com a aposta, sem imaginar as consequências devastadoras que isso teria na vida da inocente garota.
Dias depois, descobriu que ela tinha apenas dezesseis anos, dois anos mais nova que ele, tornando o ato ainda mais repugnante. Mas a aposta já estava selada, Peeta estava preso a uma situação que mudaria para sempre a sua vida e a de Katniss.
✦✦✦
A chuva caía em torrentes, um verdadeiro dilúvio que transformava as ruas em rios. Peeta hesitou por dias, lutando contra sua consciência, antes de finalmente tomar a decisão de se aproximar de Katniss. A culpa o corroía, mas a pressão de seus amigos e a promessa da aposta o impulsionavam para frente. Ele a observava de longe, estudando seus movimentos, suas reações. A oportunidade surgiu em uma manhã cinzenta e fria, quando ele a viu caminhando pela rua, encolhendo-se sob um guarda-chuva pequeno e frágil, que mal a protegia da chuva torrencial. A oportunidade era perfeita. Com um movimento, Peeta esbarrou em Katniss propositadamente, fazendo-a perder o equilíbrio e cair em uma poça de água suja e lamacenta. Seus livros e cadernos se espalharam pela calçada encharcada.
Ela se levantou, encharcada e furiosa, a água escorrendo pelo seu rosto. Seus óculos estavam tortos e seus cabelos grudavam em sua testa. A imagem da garota vulnerável era exatamente o que Peeta queria.
— Me desculpe, eu não te vi. — Peeta disse, sua voz carregada de uma falsa preocupação. — Deixe-me te ajudar. Posso te dar uma carona.
A ironia da situação era evidente. Ele tentaria a todo custo se aproximar dela. Todavia, em que galáxia um garoto como ele se interessaria por ela?
—Droga! Dois desses livros são da biblioteca. — Katniss abandonou o guarda-chuva para recolher seus pertences.
— Bem, vou pagar por esses livros... melhor, vou falar com minha mãe para fazer uma generosa doação à biblioteca.
— Vocês riquinhos, sempre achando que o dinheiro pode pagar por tudo. Dispenso sua gentileza — respondeu Katniss, sua voz fria e seca atingiu Peeta em cheio. Seus olhos, apesar da raiva, brilhavam com uma inteligência e uma força que o deixou momentaneamente sem palavras.
— Não posso deixá-la ir pra casa desse jeito, meu carro está estacionado ali...
— Sem essa, não vou entrar no seu carro. Você já fez o bastante, valeu. — Sua voz, carregada de um sarcasmo cortante, o fez ficar sem ação.
A morena ajeitou os livros em um dos braços, a mochila nas costas e a mão livre segurou seu guarda-chuva em seguida com passos firmes seguiu seu caminho, abandonando um Mellark com cara de idiota.
Após várias tentativas frustradas de se aproximar de Katniss, Peeta, impulsionado pela aposta e pela crescente pressão de seus amigos, decidiu usar sua habilidade de persuasão, ou melhor, manipulação. Passou a investigar coisas simples sobre Katniss. Como sua comida favorita, preferência por músicas, filmes e hobbies.
Em uma quarta-feira após seu treino, ele ficou esperando que Katniss encerrasse o ensaio com o coral da escola. No dia anterior, ele tinha ido até a biblioteca e explicou que havia causado o acidente em que os livro que Katniss carregava foram danificados pela chuva. Ele pagou o prejuízo e ainda se voluntariou para auxiliar na biblioteca da escola por algumas semanas. Peeta vinha se esforçando bastante para vencer a aposta. Ele jamais teria seu orgulho ferido. Ainda mais pela ruiva que nutria sentimentos desde a infância.
— Oi, Katniss. Tudo bem? – Ele a abordou assim que a morena saiu do auditório.
— Oi, Peeta. Tudo ótimo e você? – Ela estranhou sua presença.
— Tudo tranquilo. Escuta, sexta à noite tem uma sessão de Edward Mãos de Tesoura, uma releitura na versão musical, gostaria de ir comigo?
— Sério? Como sabe que eu queria ver esse filme há semanas? Ninguém que eu conheça curte musicais… e minha mãe está numa correria danada ultimamente. – A surpresa estava estampado na fala de Katniss.
— É, eu sei... Vi um post seu no Facebook, faz tempo. Achei que você ia gostar — disse ele, coçando a nuca.
— Nossa, você acompanha meus posts? — questionou ela, curiosa.
— Às vezes… alguns… Você posta coisas bem legais. Então… vai ou não? — Peeta já estava ansioso. Não era de seu feitio levar um fora ou esperar demais.
— Ah… sim! Quero muito ir! Mas… espera aí… Por que você está me chamando? — perguntou ela.
— Por que não? — contrapôs-se ele.
— Sei lá… você é o Peeta Mellark. O cara mais popular da escola. Você normalmente sai com a Glimmer, a Clove… Por que está me chamando e não uma garota com os mesmos status que você, Mellark?
— Porque… eu gosto da sua inteligência, do seu jeito… E você é bem legal. As outras garotas só querem saber de ir ao shopping ou ao clube — explicou ele, tentando convencê-la.
— Sério? Você gosta de mim?
— É… pelo menos, quero te conhecer melhor. Esse filme parece perfeito pra gente conversar.
— Ah… tá. Tudo bem, então. Sexta à noite, Edward Mãos de Tesoura, musical. Combinado.
— Perfeito! Te pego às sete. Até lá.
— Até, mas prefiro que nos encontremos na entrada do cinema. — Mesmo que lá no fundo uma vozinha dizia que aquilo não era real, Katniss aceitou, porém, não ficou criando expectativas.
— Como quiser.
✦✦✦
A casa de Katniss era uma bela mansão, refletindo a prosperidade da família Everdeen. Seu pai, Burdock, um bem-sucedido desenvolvedor de software, garantia um estilo de vida confortável e repleto de oportunidades. Sua mãe, a bela Asterid, gerenciava o próprio boticário, produtos skincare exóticos e de qualidade, requisitado pelas mulheres da alta sociedade. No entanto, Katniss ocultava esse privilégio com maestria. Morreria antes de admitir que era uma “patricinha”, como a maioria das garotas de seu colégio se autodenominavam. Preferia ser vista como a nerd bolsista, a garota discreta e inteligente, que passava despercebida entre a multidão.
Ela possuía uma beleza peculiar, uma beleza que não se encaixava nos padrões de beleza convencionais. Sua aparência física, todavia, era um dos seus maiores fantasmas. Sua tendência insaciável por comida a deixava acima do peso, um fato que a tornava alvo fácil para as piadas cruéis dos populares. Apelidos maldosos e risadas zombeteiras eram a trilha sonora de sua vida escolar. Estava acostumada com a crueldade, exclusão e solidão que a acompanhava desde sempre.
Mesmo que, estranhamente, Peeta Mellark a tivesse chamado pra sair desconfiava as reais intenções. Ela escolheu uma roupa da moda e passou uma leve maquiagem. Ao avisar a mãe que iria sair com um amigo, escutou a mesma advertência de todos os dias.
— Escolha algo saldável e de baixa caloria para comer, querida. —Asterid amava a filha e só queria o melhor para ela. Ainda assim, Katniss sentia-se sufocada com as exigências da mãe que, claramente não precisava de dietas, pois, era linda e esbelta.
— Sim, mãe.
Katniss preferiu pegar um taxi do que ser levada pelo motorista da família ou ter sido pega pelo Mellark, como ele mesmo tinha sugerido. Não se perdoaria se soubessem onde residia.
A ida ao cinema havia sido revigorante. Peeta parecia genuinamente interessado no filme, comentando com entusiasmo as músicas e a história. A conversa fluiu naturalmente durante a caminhada até o McDonald's.
— Você só vai beber água? — perguntou Peeta, um pouco surpreso pela mudança repentina no comportamento de Katniss. No cinema, ela havia comido pipoca com entusiasmo.
— Estou sem fome. — Ela deu de ombros, evitando o olhar dele.
— Ah, impossível! Só comemos pipoca, refrigerante e aquelas finis. — Peeta sorriu, tentando quebrar o clima.
— Minha mãe é cuidadosa com essa questão de saúde… então ela prefere que eu coma mais saudável — declarou, sem querer expor sua mãe como uma vilã. Não que Asterid fosse uma, mas Katniss detestava quando a mãe a regrava demais. Diferente de seu pai, que aos domingos, a levava à sorveteria favorita, um momento só deles.
— Eu que queria ter uma mãe tão zelosa. A minha não se importa nem um pouco nesse quesito — disse Peeta, revelando um pouco mais de sua vida pessoal.
— Depois que minha irmã faleceu, foi um momento muito difícil para todos nós. Eu entrei nessa compulsividade de comer. Minha mãe ficou mais obcecada em cuidar de mim e meu pai se afundou no trabalho — desabafou Katniss, as palavras saindo em um fluxo contínuo.
— Sinto muito. Como foi isso? — perguntou ele, com sinceridade, sua voz suave e compassiva.
— Faz quatro anos. Nós tínhamos ido para o interior visitar alguns parentes e ficamos em uma fazenda. Prim adorava explorar, sabe… e em uma tarde chuvosa ela ficou se balançando em uma corda na beira de um rio… a corda arrebentou, Prim caiu batendo a cabeça e se afogou. Estávamos dentro de casa e ela tinha saído de fininho. Tinha apenas oito anos e era bem sapeca. — Katniss enxugou algumas lágrimas que insistiam em cair, enquanto uma enxurrada de lembranças dolorosas invadia sua mente. A dor ainda era palpável.
— Nossa… deve ter sido muito difícil para vocês — disse Peeta, sua voz baixa e respeitosa.
— Nunca mais fomos para a fazenda — respondeu ela, sua voz carregada de tristeza.
— Minha vó faleceu no fim do mês... Eu adorava as histórias que ela contava, os pães e bolos que preparava. Apesar de ela estar bem doente há um tempo, nunca estamos preparados para dar adeus a quem amamos. — Peeta compartilhou sua própria perda, criando uma ponte de empatia entre eles. A conversa, inesperadamente íntima, criava um laço entre dois corações que carregavam suas próprias dores.
✦✦✦
Quanto mais tempo Peeta passava na companhia de Katniss mais queria se afastar da aposta. Entretanto, os amigos o lembravam o que estava em jogo.
A água pingava dos cabelos úmidos de Peeta enquanto ele saía do vestiário, após o treino, a toalha jogada sobre o ombro. O vapor quente do chuveiro ainda pairava no ar, contrastando com a frieza que começou a se instalar em seu peito. Ao se aproximar da porta, ouviu uma voz feminina, familiar, falando em tom baixo e irritado. Era Jacqueline, sua ex-namorada e outra garota, cuja voz ele não reconheceu.
— ... e os dramas dos Mellark? Meu Deus, é insuportável! A mãe dele ligando a cada cinco minutos, o irmão mais velho com os problemas dele… E o Peeta? Jamais vai superar o nosso fim. Ele ainda me liga às três da manhã, lezado pela maconha, bêbado, chorando… — A voz de Jacqueline era carregada de frustração e exaustão.
Peeta parou, seu corpo enrijecendo. As palavras de Jacqueline o atingiram como um soco no estômago. Ele não esperava que ela falasse sobre ele dessa forma, expondo sua fragilidade e sua incapacidade de seguir em frente. A raiva, quente e intensa, subiu por sua garganta, sufocando-o. Ele não era um fraco, não era um sentimental. Era Peeta Mellark e iria provar isso.
A aposta com Marvel e os demais amigos, inicialmente um desafio divertido, agora se transformava em uma questão de honra. Uma necessidade de provar a si mesmo e aos outros que ele era capaz de superar a dor e seguir em frente. A voz de Jacqueline, carregada de desprezo e descrença, o impulsionava. Ele iria conquistar Katniss, não apenas para ganhar a aposta, mas para provar a Jacqueline, a si mesmo e a todos, que era capaz de superar, mesmo após uma decepção. A determinação brilhava em seus olhos, fria e implacável. A aposta, custe o que custar, seria vencida.
Katniss ficou surpresa por ele convidá-la para ir até a cobertura dos Quaid. Marvel havia organizado uma mega festa na área da piscina. O hip-hop Shake It, de Jake Miller ecoava alta por todo o ambiente, misturando-se ao barulho da água na piscina de borda infinita. Luzes coloridas dançavam na superfície, criando um ambiente frenético e excitante. A sala de jogos era o ponto de encontro para as drogas. Katniss, um pouco desconcertada pela grandiosidade da festa, sentia-se fora do lugar com seu vestido comportado, diferente das outras garotas, quase nuas.
— Você está linda, Kat — elogiou Peeta, sua voz se sobressaindo ao som da música, entregando-lhe um copo com uma bebida.
— Obrigada — respondeu Katniss, passando a mão nervosamente sobre a saia rodada, como se o comprimento pudesse se alongar magicamente. Ela não estava acostumada a usar algo tão curto, mas não queria parecer deslocada, apesar de muitas garotas estarem quase sem roupa.
— Uau, você veio, que surpresa! E ainda trouxe sua amiguinha — disse Clove, abraçando Peeta com familiaridade, um sorriso triunfante em seus lábios. Katniss percebeu a tensão no olhar de Peeta.
— Na verdade, eu vim sozinha... — respondeu Katniss, um pouco tensa.
— Ah, relaxa, Katniss. É só uma festa — disse Glimmer, se aproximando, seu olhar avaliador sobre Katniss.
— É, se divirta. Tem muita gente legal aqui — falou Marvel, surgindo do nada, um sorriso arrogante em seus lábios. Ele estava visivelmente alterado.
— Katniss, esse é o Thresh. — Peeta apresentou Thresh, que acenou com a cabeça para ela, seu olhar sério e observador.
— Prazer — respondeu Katniss, um pouco intimidada pela presença de Thresh, talvez fosse o olhar intenso dele.
— E então, Katniss, o que achou da festa? — perguntou Clove.
— É… impressionante. — Katniss, ainda um pouco insegura, falou. A música, as luzes, as pessoas… tudo era muito diferente do seu mundo.
— Impressionante, né? — concordou Marvel, rindo alto. — É só o começo. Tem muita coisa acontecendo por aqui. Se precisar de alguma coisa, é só me chamar.
Thresh observou Katniss com atenção. Clove, com um olhar malicioso, sussurrou algo para Glimmer, que riu baixinho. Peeta, percebendo a tensão, tentou mudar de assunto, mas a sensação de que algo estava errado pairava no ar. Katniss, apesar de não entender o que estava acontecendo, sentia os olhares sobre si, uma pressão que a deixava desconfortável.
— Peeta, você está bem? — perguntou Katniss, percebendo a tensão em seu rosto.
— Estou ótimo. Só… um pouco cansado. A semana foi puxada — respondeu ele, forçando um sorriso. A conversa, apesar de superficial, carregava uma tensão que nenhum deles conseguia disfarçar. A festa, que prometia diversão, se transformava em um palco de segredos e intrigas.
— Peeta, por que não mostra a casa para a Katniss? — sugeriu Marvel, piscando um dos olhos sugestivamente.
Peeta, sem responder, pegou a mão de Katniss e a conduziu para dentro da cobertura. A cada cômodo que apresentava — sala de estar ampla e moderna, sala de jantar com vista panorâmica, cozinha gourmet — Katniss expressava admiração, como se estivesse encantada com o luxo. Era uma atuação convincente, considerando que Asterid March Everdeen, sua mãe, era a personificação da sofisticação. Peeta percebeu a encenação, mas não conseguiu reprimir um sorriso.
Os dois subiram alguns lances da escada de vidro, o som de seus passos ecoando no silêncio do corredor. De repente, uma porta se abriu e a voz de Jacqueline ecoou, clara e irritante. Peeta, em um movimento instintivo, encostou Katniss na parede, sua respiração ofegante.
— Seus olhos são lindos, Katniss — disse ele, sua voz rouca, retirando os óculos, modelo Harry Potter do rosto dela com um gesto suave, antes de aproximar seus lábios dos dela.
O beijo foi inesperado, intenso. Katniss, surpreendida pela ousadia e pela intensidade do momento, inicialmente se assustou, mas logo se entregou ao beijo, permitindo que Peeta a guiasse. Era a primeira vez que estava sendo beijada por alguém. As mãos dele percorreram sua cintura, puxando-a para mais perto.
— Ah, fala sério, tentando provocar ciúmes em mim com essa aí, Mellark? — A risada zombeteira de Jacqueline cortou o ar, quebrando o momento íntimo. Peeta se virou, seu rosto contorcido em uma expressão de desprezo.
— Eu não tenho que te provar nada, Fox — vociferou, a raiva explodindo em sua voz.
Sem esperar uma resposta, Peeta segurou a mão de Katniss e a puxou para o quarto de Marvel. O movimento foi brusco, deixando Katniss ainda mais confusa.
— O que está acontecendo, Peeta? — perguntou Katniss, recolocando os óculos sobre o rosto, sua voz baixa, carregada de uma mistura de medo e confusão. Ela conhecia os boatos corriqueiros em que ele foi traído pela ruiva, líder de torcida, mas não conseguia entender o que estava acontecendo naquele momento. A situação era confusa e a intensidade do beijo, seguida pela reação de Peeta e a aparição de Jacqueline, a deixava completamente desorientada.
— Quem ela pensa que é? — murmurou Peeta, para si mesmo, sua voz carregada de uma raiva contida. A confusão de Katniss pareciam ter sumido, substituídos por uma determinação fria.
— Ok, acho melhor eu ir embora… — Katniss fez menção de sair do quarto, mas Peeta a segurou pelo pulso com força, impedindo sua fuga. A gentileza desaparecendo, sendo substituída por uma urgência momentânea.
— Foi mal, Katniss. Não quero te incomodar com meus problemas — disse ele, sua voz rouca e a respiração ofegante. Com um movimento urgente, ele a empurrou até a cama, fazendo-a se deitar sobre o colchão. O toque era ligeiramente possessivo.
— Peeta… eu não quero… — protestou Katniss, sua voz trêmula, seu corpo tenso. Ela não estava se sentindo confortável.
— Shhh… É só relaxar… — disse Peeta, ofegando enquanto beijava seu pescoço, suas mãos passando sob seu vestido, ignorando completamente seu estado.
Em um rompante, Katniss o empurrou com força, libertando-se de suas garras. Saiu do quarto apressadamente, seu coração batendo forte no peito. Desceu a escada correndo, seus passos ecoando no silêncio do corredor. Ao chegar na área da festa, deu de cara com o grupo de amigos de Peeta. Marvel, Glimmer, Clove e Thresh dançavam loucamente, suas bebidas em mãos, seus rostos iluminados por uma mistura de diversão e malícia. Eles pareciam estar esperando por ela.
— Nossa, que rápido, amiguinha — comentou Clove, sua risada carregada de sarcasmo, enquanto observava Katniss com um olhar triunfante. A fragilidade dela era evidente.
— O Peeta está fora de forma, só pode. — Jacqueline se aproximou, seu namorado atarracado a ela como uma sombra. — Onde está indo com tanta pressa, quatro olhos? — Antes que Katniss pudesse responder, Jacqueline jogou o conteúdo de seu copo em seu rosto, o líquido gelado escorrendo por seu cabelo e roupa.
Peeta surgiu logo atrás, um sorriso vitorioso dançando em seus lábios, os olhos brilhando com uma mistura de satisfação e triunfo.
Katniss não se permitiu derramar uma lágrima sequer na frente daquele grupo desprezível. Sem nem mesmo olhar para trás, saiu correndo, agradecendo pelas portas do elevador social estarem abertas. Na saída do prédio discou rapidamente o número do taxi. Em minutos estava em sua casa. Seus pais estavam em um jantar na casa dos Undersee. Ela correu até seu quarto, as lágrimas embaçando sua visão. Retirou os óculos lançando para longe. Tirou a roupa e entrou no banheiro deixando a água lavar toda raiva e escorrer ralo abaixo. Após o banho, levou suas roupas até a lavanderia na área de serviço e as colocou pra lavar.
— Sou uma garota idiota mesmo... — Ela deixou que seu corpo escorregasse pelo chão frio enquanto a máquina de lavar fazia todo o processo. Chorou sentindo raiva de si mesma. Repetindo o quanto foi ingênua em acreditar nas mentiras do loiro.
Todavia, o que ela não sabia, era que o pior daquela noite, teria repercussão nos próximos dias.
✦✦✦
Clove e Glimmer, implacáveis como sempre, entraram em ação, espalhando um rumor devastador pelos corredores da escola.
“Katniss havia seduzido Peeta, dopando sua bebida para conseguir o que queria.”
A notícia se espalhou como um incêndio, chocando a todos. Peeta Mellark, o garoto popular, astro do time de futebol, dormindo com aquela garota? A nerd, a gordinha, a quatro olhos cheia de espinhas? Era inacreditável. A humilhação de Katniss atingiu um nível ainda mais profundo, pois o boato não apenas a expunha, mas também a retratava como uma sedutora desesperada e manipuladora.
A estratégia de Peeta era cruel e calculada. Ele sabia que o boato, por mais absurdo que fosse, atingiria Katniss em seu ponto mais vulnerável. Ele esperava que a humilhação pública a quebraria, a deixaria tão envergonhada e desolada que nunca mais iria desejar pisar naquele colégio.
— Por isso ela batizou minha bebida — disse Peeta, seu tom era carregado de um cinismo calculado, enquanto ria alto para seus amigos assentados à mesa dos populares no refeitório. — Só assim eu me renderia. As santinhas são as piores — declarou, sua voz ecoando por todo local, exatamente quando Katniss passava segurando a bandeja com seu almoço, indo em direção à mesa, sua cabeça baixa, seus ombros curvados sob o peso da humilhação.
O olhar de desprezo de Katniss, apesar da sua aparente fragilidade, foi o único sinal de resistência à sua crueldade.
Mas o boato espalhado por Clove e Glimmer, a humilhação pública arquitetada por Peeta Mellark, ultrapassou todos os limites. Foi uma ferida profunda que atingiu seu núcleo mais vulnerável. A mentira cruel, a difamação, a exposição – tudo isso a deixou devastada.
Ao chegar em casa, as lágrimas rolavam pelo seu rosto, um turbilhão de dor e raiva, a consumia. Ainda assim, escondeu suas lágrimas dos pais, protegendo-os da dor que a assolava. Não queria que soubessem que havia sofrido bullying. Eles já tinham sofrido demais com a perda de Primrose. Com toda certeza, iriam até aquele colégio de pompas e fariam muito barulho do tipo que causaria a detenção ou expulsão daqueles mauricinhos.
Em seu quarto, sozinha, um novo sentimento tomou conta de seu coração. A imagem de Peeta, rindo e se gabando de sua conquista inexistente, queimava em sua mente. Um ódio profundo, uma sede de vingança insaciável, se apossou de seu ser.
Nas semanas seguintes, ela conversou com os pais para a transferirem para um colégio interno e terminar seus estudos. Disse estar decidida a mudar seus hábitos. Burdock e Asterid, apesar de acharem a mudança repentina e estranha, apoiaram. A mãe tinha alguns contatos na Lèman Manhattan Preparatory. E, na mesma semana, Katniss estava estudando no novo colégio, longe dos abutres.
Como o colégio ficava situado em Manhattan, Katniss iniciou sessões de terapia para a ajudar em sua autoestima. Passou com uma excelente nutricionista, incumbida a propor uma reeducação alimentar e esses primeiros passos foram essenciais. Também passou a praticar natação e a frequentar a academia.
Jurou odiar Peeta Mellark por toda a eternidade, Katniss traçava, em sua mente, os primeiros passos de sua vingança. A semente havia sido plantada e ela a nutriria cuidadosamente até que florescesse em um ato de justiça implacável.
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