Notas iniciais
Heyyyy voltei com mais um capítulo e estamos na reta final, então continuem comigo aqui mais um pouquinho.

O avião pousou em Nova York sob um céu cinzento e úmido, como se a cidade soubesse que eles voltavam com saudade do sol italiano.

Katniss olhava pela janela da BMW enquanto os prédios de Manhattan se erguiam à sua frente. Os vidros escurecidos refletiam a silhueta elegante dela — cabelos presos em um coque limpo, maquiagem leve, e os olhos fixos na cidade que agora voltava a ser palco de sua nova vida.

Peeta segurava a mão dela com firmeza.

— Pronta para o mundo real? — perguntou ele, com um meio sorriso.

Ela respirou fundo.

— Sempre fui boa em realidades difíceis.

Peeta soltou uma risada baixa.

— A diferença agora é que a gente tá junto nisso.

Na manhã seguinte, a sede da Atlas Technology parecia mais fria e mais frenética do que nunca. O hall de entrada cintilava com painéis de vidro e obras de arte digital, e os funcionários cruzavam os corredores em passos apressados, tablets em mãos, olhos atentos.

Katniss subiu direto para o 22º andar — o de marketing, onde agora seu nome “Katniss Everdeen Mellark” já estava impresso na porta de vidro da sala executiva.

Ela parou por um segundo antes de entrar. A mão tocou o puxador, mas o olhar percorreu o andar inteiro. Todos a encararam, discretamente.

O look preto composto pela saia lápis textura de couro e a blusa de renda impecável, o salto fino, a postura ereta. Aquela não era mais a jovem que chegara ali pouco mais de um ano com sede de vingança.

Agora ela era a esposa do CEO.

E mais que isso; era a mulher que havia sobrevivido à dor, ao ódio e ao amor — e transformado tudo isso em força.

Quando entrou na sala, Peeta estava à sua espera, sentado na poltrona de visitas, duas xícaras de café à sua frente.

— Bom dia, diretora Mellark — disse ele, com aquele tom provocador.

Ela fechou a porta, caminhou até ele e parou ao seu lado.

— Senhor CEO... espero que esteja pronto.

— Pra quê?

Ela se inclinou, beijou sua bochecha e sussurrou:

— Pra enfrentar o mundo comigo.

Peeta se levantou, segurou o rosto dela com as duas mãos, e por um instante ali no meio do escritório envidraçado, eles ficaram em silêncio. O tempo parou.

Do lado de fora, Manhattan rugia.

Do lado de dentro, o jogo estava apenas começando.

Stuart Campbell quase derrubou o tablet quando viu Katniss e Peeta tão próximos.

— Meu Deus… desculpa. Senhora Mellark — corrigiu rapidamente, endireitando a postura.

Katniss reconheceu o rosto imediatamente. Os cabelos castanhos continuavam bagunçados do mesmo jeito da época do estágio, mas agora ele usava um crachá definitivo da Atlas e carregava três relatórios sob o braço.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Stuart Campbell.

— Você lembra de mim?

— Você foi o único estagiário que sobreviveu à minha fase insuportável sem pedir transferência.

Ele riu, nervoso.

— Tecnicamente eu chorei no banheiro duas vezes.

— Mas voltou depois.

— Porque você tinha razão em quase tudo.

Peeta observava a cena parado perto da mesa dela, com um sorriso divertido.

— Stuart o sobrevivente? — perguntou.

— O traumatizado funcional — respondeu Katniss.

Stuart apontou para ela.

— Foi ela quem me ensinou que apresentação bonita não salva campanha ruim.

— E foi você quem apagou o servidor de testes numa sexta-feira às sete da noite — rebateu Katniss.

— Uma única vez.

— O suficiente pra entrar pra história.

Os três riram.

Mas então Stuart ficou um pouco mais sério.

— É bom ter vocês de volta. O andar ficou estranho sem… vocês.

Katniss trocou um olhar rápido com Peeta. A palavra “vocês” ainda parecia nova. Boa. Quente.

— Obrigada, Stuart — disse ela, mais suave.

— E parabéns pela efetivação — completou Peeta.

O rosto dele iluminou na hora.

— Você viu?

— Eu aprovo tudo que acontece nesse andar agora. Então sim… eu vi.

Ele praticamente saiu andando mais reto depois disso.

Peeta se aproximou dela devagar.

— Você tem noção do efeito que causa nas pessoas?

Katniss deu de ombros.

— Trauma corporativo cria caráter.

— Isso explica metade da Atlas.

Antes que ela respondesse, Gina, a assistente de Katniss surgiu lembrando das demandas do dia.

— Sra. Mellark, Mavie Robson na linha um.

Katniss assentiu enquanto recebia um selinho de seu marido que saía com a promessa de se verem mais tarde.

Peeta estava submerso em pensamentos quando a porta de sua sala foi aberta sem cerimônia.

Johanna entrou usando um sobretudo vinho, óculos escuros enormes e a expressão de quem claramente não acreditava em protocolos corporativos.

Ela caminhou direto até o minibar da sala do CEO.

— Nem bom dia? — perguntou Peeta.

— Já ouvi a sua voz hoje. Isso conta.

Johanna pegou a garrafa de whisky sem pedir permissão, serviu-se com intimidade ofensiva e se jogou na cadeira em frente à mesa dele, cruzando as pernas.

— Vamos lá, Mellark… desembrulhar. Que nível de felicidade foi essa lua de mel em solo italiano?

Peeta encostou na cadeira executiva, relaxado pela primeira vez desde que tinham voltado.

E respondeu em italiano, com um sorriso lento:

— Più che perfetta.

Johanna estreitou os olhos.

— Ah, ótimo. Agora ele voltou mais metido e apaixonado. Estamos perdidos.

Johanna abriu uma pasta grossa cheia de relatórios.

— Certo. Enquanto vocês estavam vivendo um comercial de perfume de luxo na Costa Amalfitana, o mundo corporativo continuou girando.

Ela começou a deslizar documentos pela mesa.

— A aquisição da Novatek foi concluída sem sangue.

— Milagre — comentou Peeta.

— Brian quase flertou com o conselho inteiro durante a negociação.

— Isso significa que ele estava trabalhando.

Johanna apontou outro relatório.

— As ações subiram três pontos depois do casamento de vocês. A internet tá obcecada com o “casal Atlas”. Tem gente fazendo compilado de olhares no TikTok.

Peeta quase engasgou.

— O quê?

— Bem-vinda ao capitalismo emocional.

Peeta pegou o relatório seguinte.

— E os contratos asiáticos?

— Fechados. Ah, e o Roger insultou dois investidores alemães, mas aparentemente isso ajudou.

— Claro que ajudou — murmurou ele.

Johanna tomou mais um gole de whisky.

— No geral, a Atlas sobreviveu muito bem sem você, Mellark.

Ela inclinou a cabeça com um sorriso debochado.

— Diferente de quando eu e a Delly estávamos em lua de mel e você virou colapso puro.

Peeta levou a mão ao peito, ofendido.

— Eu estava administrando uma crise.

— Você ligou pra mim às três da manhã porque não achava uma planilha.

— Era uma planilha importante.

— Você quase abriu uma guerra financeira por causa de uma célula do Excel.

Peeta começou a rir de verdade pela primeira vez naquela manhã.

Johanna o observou em silêncio por dois segundos longos demais.

Então fez careta.

— Credo. Você está com cara de homem emocionalmente resolvido.

— Isso te incomoda? — perguntou.

— Profundamente.

Ela terminou o whisky, levantou da cadeira e pegou outra pasta.

— Ótimo. Agora que o romance europeu acabou, temos uma empresa bilionária pra administrar e uma reunião infernal em vinte minutos.

Peeta levantou-se rapidamente ajeitando o paletó.

— Então vamos.

✦✦✦

Seis anos depois...

A manhã chuvosa pintava o céu com tons frios de cinza e azul. Lá do alto da torre da Atlas Technology, os carros lá embaixo pareciam meros pontos em movimento. A cidade seguia seu ritmo frenético — mas, dentro da sala executiva, o tempo corria devagar.

Peeta estava sentado à mesa de madeira escura, a manga da camisa social dobrada até os antebraços, os olhos azuis mergulhados na tela de um relatório. O cabelo um pouco bagunçado denunciava que ele já estava ali há horas.

A porta se abriu sem anúncio. Ele olhou por cima do ombro — e o mundo, de repente, desacelerou um pouco mais.

Katniss entrou com passos silenciosos, os cabelos presos em um coque elegante, usando um trench coat vermelho sobre o vestido tubinho creme. Na mão, segurava um copo de papel com o nome dele rabiscado em caneta preta.

— Trouxe reforço — disse ela, com um sorriso quase tímido, estendendo o café.

Peeta pegou o copo e seus dedos roçaram nos dela. O toque ainda causava aquele arrepio sutil que ele fingia já ter se acostumado, mas não.

— Obrigado. — Ele sorriu de volta, mas depois hesitou. — Sabe... ainda tô me acostumando com isso.

— Com o quê?

— Com você entrando na minha sala como esposa. — Ele se levantou, caminhando até ela. — Como a minha esposa. Não sei se já te agradeci por ter tornado minha vida real.

Katniss abaixou o olhar, levemente envergonhada.

— Você tá dizendo como se eu tivesse vindo de um sonho.

— Às vezes parece mesmo.

Ela riu, e por alguns segundos, ficaram apenas olhando um para o outro, embalados por aquele silêncio confortável que só os íntimos conhecem.

Mas então Peeta respirou fundo. Um peso invisível tomou seus ombros. Ele não queria estragar aquele momento, ainda assim, havia algo que não podia mais adiar.

— Katniss... — disse devagar. — A gente já falou disso antes, ou pelo menos tentei... E eu sei que você sempre muda de assunto, mas... eu queria tentar de novo.

O sorriso dela desapareceu aos poucos. Ela sabia exatamente do que ele estava falando.

— Peeta...

— Eu quero ter um filho, Katniss. — A voz dele era firme, mas suave, carregada de sinceridade. — Quero ver você grávida. Quero sentir aquele chute pela primeira vez. Ensinar uma criança a segurar um pincel, a amassar massa de pão ou de macarrão... A gente construiu tanta coisa juntos. E eu só... quero dar um passo além.

Ela desviou o olhar e caminhou lentamente até a janela, observando as gotas de chuva escorrendo pelo vidro. Ficou em silêncio por longos segundos.

— Você já tem tantos compromissos. A Atlas, sua família, a vinícola na Itália... É muita coisa. — Tentou desviar.

— Não tô falando de agora, apesar dos anos que estamos casados. Tô falando do nosso futuro. — Ele se aproximou. — Só quero saber se isso é algo que você... pensa também.

Katniss apertou a mão contra o vidro, sentindo o frio do lado de fora atravessar a pele.

— Eu nunca pensei em ter filhos. — A frase saiu seca, crua, como uma flecha lançada sem alvo.

Peeta recuou, como se tivesse levado um golpe no peito.

— Nunca? — murmurou.

Ela se virou para ele, os olhos já marejados.

— Não é sobre você, Peeta. Não é. É só... Eu nunca me vi nesse papel. Nunca me imaginei criando alguém. Não sei se teria algo bom pra oferecer. Eu ainda tô tentando me reconstruir de tudo que eu fui... e fiz.

Ele ficou em silêncio por um momento. Depois assentiu, devagar, tentando esconder a decepção no rosto.

— Eu entendo — disse por fim.

Mas não entendia. Não completamente. E não doía menos por isso.

Katniss caminhou até ele e encostou a testa em seu peito.

— Me desculpa — sussurrou.

Ele a envolveu nos braços com delicadeza, sem dizer nada. Só fechou os olhos e respirou o perfume dela, tentando silenciar aquela pontada no coração. Porque ele a amava. Com tudo o que ela era — e com tudo o que talvez nunca fosse.

O carro cruzava as avenidas molhadas com suavidade, cortando o reflexo dos faróis na pista como se deslizasse por dentro de um filme antigo. A chuva caía ritmada, mas dentro do automóvel havia apenas silêncio. Um silêncio pesado, quase físico.

Peeta mantinha os olhos fixos no vidro, as mãos firmes no volante, mas sua mente estava em qualquer outro lugar — talvez no passado. Talvez num futuro que agora parecia distante demais.

Katniss, ao lado dele, também permanecia calada. Mas ela sentia. Sentia o vazio que se abriu entre eles desde a conversa na sala da Atlas. Sentia a dor que ele não estava permitindo transbordar.

Quando o elevador privativo os levou à cobertura, o céu noturno de Manhattan surgiu à frente como um quadro. A cidade toda se estendia embaixo deles, acesa, viva, indiferente ao que se quebrava ali dentro.

Assim que entraram no apartamento, ele largou o paletó no sofá e foi direto para o banheiro. Não disse nada. Nem olhou para trás.

Katniss ficou alguns segundos parada no meio da sala, o coração apertado, o ar carregado de tudo que não foi dito. A chuva tamborilava nas amplas janelas de vidro enquanto ela retirava lentamente o casaco. Seguiu até o quarto.

A água do chuveiro começou a correr e o som ecoou como um sussurro abafado. Ela retirou as roupas, os saltos e desfez o cabelo indo até o banheiro.

Abriu a porta do box com cuidado. O vapor já embaçava o espelho e fazia a pele vibrar com o calor úmido. Peeta estava de costas, os músculos tensos sob a água que escorria sobre suas costas largas. A tatuagem da âncora parecia ainda mais marcada em meio às gotas.

Katniss não disse nada. Apenas entrou no chuveiro. E o abraçou por trás, encaixando o rosto entre as escápulas dele, como fazia quando tudo ainda era simples.

Seus braços o envolveram, as mãos deslizando com ternura por seu abdômen, subindo até o peito molhado. Beijou os ombros, o pescoço, e por fim a âncora — o símbolo de tudo o que o mantinha firme em meio à tempestade.

Mas ele não se moveu. Não respondeu.

Quando ela tentou aprofundar o toque, ele levou a mão até a dela e, com delicadeza, a afastou.

— Não... — disse, a voz baixa, mas firme. — Hoje não.

Ela congelou.

— Peeta...

— Eu só... — Ele virou-se devagar, encarando-a. O olhar estava vermelho, não de raiva, mas de exaustão. — Eu só queria... algo que talvez você nunca vá querer me dar. E isso não tem nada a ver com sexo.

Katniss baixou os olhos, como se a água quente que escorria agora fosse punição.

Peeta passou os dedos molhados pelo rosto dela, enxugando uma lágrima que ela nem tinha percebido que caiu.

— Eu não tô bravo com você. Só que dói. Porque… — respirou fundo. — Quando eu descobri que meu pai tava vivo... e que passou anos num hospital porque foi traído... esquecido... abandonado pela minha mãe... Eu prometi que, se um dia tivesse um filho, ele nunca ia passar por nada parecido. Meu pai nos amava com tudo o que tinha, mesmo dopado, mesmo doente. Eu cresci vendo ele colocar nós quatro como o centro do mundo dele. E agora... eu não sei se vou ter isso. Com você.

Ela tentou responder, mas as palavras não saíam.

— Eu te amo, Katniss — disse por fim. — Mas tem partes de mim que continuam quebradas. E essa... essa era a que eu mais queria consertar.

Ele saiu do chuveiro sem dizer mais nada, deixando para trás o som da água e o silêncio de tudo aquilo que ainda não sabiam como lidar.

Katniss permaneceu ali, imóvel, sentindo a ausência dele como um peso dentro do peito. Ela o tinha, mas ao mesmo tempo... estava perdendo um pedaço dele.

E talvez, isso a assustasse mais do que qualquer coisa que passara na vida.

A noite caiu sem que eles dissessem mais nada. O apartamento permaneceu em silêncio, exceto pelo som abafado da cidade lá embaixo e o zumbido da chuva persistente contra os vidros da cobertura.

Mais tarde, Katniss se deitou ao lado de Peeta na imensa cama. O peito dele subia e descia com suavidade, como se estivesse dormindo. Porém, ela sabia que não. Assim como ela, ele apenas fingia descansar, esperando o peso do mundo ficar mais leve no dia seguinte.

Com a cabeça repousada sobre o peito dele, Katniss desenhava círculos invisíveis com os dedos. Ficou assim por longos minutos, sentindo o coração de Peeta bater forte, firme — como uma âncora, como sempre.

E então, sem pensar, ela começou a sussurrar:

— Os paramédicos chegaram rápido... tiraram o corpo dela do rio, mas eu... eu já sabia. Eu vi o corpo da Prim inerte à margem, as trancinhas loiras encharcadas, o vestido florido grudado na pele. Minha mãe correu até ela... e o som que saiu da boca dela quando a abraçou... — Katniss fechou os olhos com força. — Foi o pior som que já ouvi na vida.

O peito de Peeta se contraiu sob ela.

— Depois disso, minha mãe virou um fantasma. Trancada no quarto, dopada de remédios. E meu pai se afundou no trabalho... Passava os dias na EverdeenTech como se pudesse fugir da dor. E ninguém olhava pra mim. Eu era a que sobrou. A que respirava. A invisível.

Ela engoliu em seco e sua voz embargou.

— Até o dia que eu desmaiei. Tinha só nove anos. Fiquei sem comer, sem dormir, achei que era normal... até cair no chão da cozinha. Eles pensaram que eu também... que eu tinha ido. — Uma lágrima escorreu pela lateral do rosto. — E foi naquele momento que decidi. Eu nunca ia ter filhos. Porque... eu vi o que aquilo fez com eles. Eu vi o que é perder. E eu não acho que sobreviveria a isso.

Peeta, que estava de olhos fechados, abriu os braços e envolveu o corpo dela com firmeza. Enxugou as lágrimas de Katniss com a ponta dos dedos, depois beijou o topo de sua cabeça.

Ele sabia que ela sofria com a ausência da irmã. Sempre soube. No entanto, não imaginava o quanto aquilo ainda moldava cada escolha dela, cada medo escondido sob a armadura.

— Ei... — sussurrou contra os cabelos dela. — Tá tudo bem. Eu tô aqui com você. Me desculpa se te pressionei com isso. É só que... quando eu olho pra você, eu vejo tudo. Tudo que eu amo, tudo que eu quero cuidar. E eu sei o quanto seus pais te amam, mesmo com todos os erros deles. Eles até já me intimaram algumas vezes pra “iniciar a prole”, acredita?

Ela soltou um riso fraco, abafado pelo peito dele.

— Imagina só... sua mãe e seu pai como avós. — Ele continuou, com a voz mais leve. — Meu Deus... quanto amor nossos filhos teriam. E meu pai... não sei se reparou, mas ele é louco pelos netos. Finnick e Cato... os dois com filhos e meu pai vive com brinquedos até no bolso do paletó.

Katniss levantou um pouco a cabeça e o encarou com um olhar enigmático.

— Espera... você disse nossos filhos?

Peeta deu de ombros, com um meio sorriso provocador.

— Sou filho de italiano, sabe... Tenho que honrar meu legado. Meu pai teve quatro. Meu tio cinco. E tem uma tia minha... que teve sete.

Ela arqueou a sobrancelha e se aproximou.

— É melhor ficar em silêncio, Sr. Mellark — sussurrou contra os lábios dele antes de beijá-lo.

E naquele instante, entre o som suave da chuva e o calor do corpo dele junto ao dela, Katniss pensou que talvez, um dia, apenas talvez... ela pudesse reescrever algumas promessas que fez a si mesma. E que talvez, só talvez, o amor que eles construíram pudesse ser grande o bastante para acolher até mesmo os medos que ela sempre achou que precisaria carregar sozinha.

✦✦✦

O aroma suave de lavanda pairava no ar como uma carícia. As janelas abertas deixavam a brisa fresca tocar delicadamente as cortinas de linho, enquanto uma música instrumental tocava em segundo plano, quase como um sussurro.

Katniss permanecia sentada em uma das longas chaises do SPA Aurum, envolta num roupão branco felpudo, os cabelos úmidos presos em um coque desleixado. O rosto, mesmo limpo de maquiagem, carregava o peso de uma noite mal dormida e de algo ainda maior — o medo de perder o amor que havia lutado tanto para construir.

A porta se abriu com suavidade e Asterid entrou, descalça, elegante como sempre, segurando duas xícaras de chá de camomila.

— Trouxe chá. E ouvidos — disse com um sorriso maternal.

Katniss sorriu de canto, mas os olhos já marejavam.

Asterid se sentou ao lado dela e entregou a xícara com delicadeza. Esperou. Sabia que a filha precisava de tempo.

E então veio, num fio de voz:

— Ele quer muito um filho comigo. — Katniss murmurou. — Já tínhamos conversado sobre isso antes... mas dessa vez foi diferente. Foi real. Ele estava... tão triste, mãe. Eu vi nos olhos dele. E doeu.

Asterid apenas assentiu, olhando nos olhos dela com ternura.

— E você? — perguntou com calma. — O que sente?

Katniss abaixou o olhar.

— Medo. Medo de colocar uma criança no mundo... e de falhar com ela — respirou fundo, engolindo o nó na garganta. — Você e o papai... depois que a Prim se foi... vocês desapareceram. E eu entendo. Juro que entendo. Mas foi como se... eu também tivesse morrido um pouco. Sozinha. E então, quando desmaiei e acharam que eu... — A voz embargou. — Eu decidi ali que nunca teria filhos. Nunca.

Asterid fechou os olhos por um instante. O coração apertado. A dor da filha era reflexo de uma culpa antiga que ainda vivia dentro dela.

— Oh, querida... — falou com voz trêmula. — Me culpo todos os dias por ter te deixado sozinha naquele período. Pela ausência. Pela dor que eu não soube dividir. O luto... o luto é como um deserto imenso. E eu me perdi nele. Seu pai também. Mas isso não quer dizer que não te amássemos. Muito pelo contrário. Você foi nossa razão para continuar respirando.

Ela segurou a mão da filha com firmeza.

— Ainda dói. Dói muito. Pensar na Prim... pensar que ela não está aqui conosco. Porém, você pode resignificar isso, Katniss. Você não está sozinha. Você tem o Peeta... e meu Deus, como ele te ama. Ele faria qualquer coisa por você. Vocês passaram por tanta coisa juntos... não se feche para o futuro que ainda podem construir.

Katniss começou a chorar em silêncio.

Asterid continuou, com a voz doce:

— Filhos não te tornam vulnerável. Te tornam mais forte. Porque eles te mostram o tamanho do seu amor... e da sua coragem. E, filha... se a Prim estivesse aqui... — Sorriu com olhos úmidos — Ela adoraria paparicar uns sobrinhos. Ia mimar até cansar. Provavelmente ensinar a plantar tomates ou a cuidar de algum bichinho de estimação que estivesse doente.

Katniss sorriu, e as lágrimas desceram mais soltas, agora leves.

Asterid então se levantou, passando a mão pelos cabelos da filha com carinho.

— Agora vem. Deixa eu cuidar um pouco de você. Hoje você não vai carregar nada sozinha.

Katniss foi levada até uma das salas especiais do SPA. Um ambiente à meia luz, onde os sons da natureza preenchiam cada canto. A mãe a ajudou a se deitar de bruços, e em poucos instantes, mãos habilidosas começaram uma massagem relaxante, dissolvendo o peso do corpo... e aos poucos, da alma.

Ali, pela primeira vez em muito tempo, Katniss permitiu-se relaxar. Permitiu-se imaginar um futuro sem dor. Com amor. Com Peeta. E, talvez, com algo a mais.


Notas finais
Me digam o que estão achando... 😘