Doce Vingança
26 Revelação
Notas iniciais

O tempo passou e, como as estações, levou com ele algumas arestas do passado. Peeta deixou o assunto dos filhos repousar entre eles com respeito — sem cobranças, sem pressões. Seu amor por Katniss era maior do que qualquer desejo, mesmo os mais profundos.
Ele mergulhou de cabeça no trabalho na Atlas Technology. Expandiu as áreas de pesquisa e desenvolvimento, mas foi nos projetos beneficentes que encontrou uma nova paixão. Juntando à ideia de Katniss, ele expandiu além do Bronx e criou um programa de inclusão educacional que equipava outras escolas públicas com laboratórios de última geração. Computadores de ponta, impressoras 3D, robótica, acesso à internet e, mais importante, bolsas integrais para os estudantes mais dedicados.
Foi esse esforço que, meses depois, levou Peeta até o gabinete do prefeito Undersee.
A sala era espaçosa, com janelas amplas e uma vista ampla do Central Park. O prefeito, tinha a fala polida e olhos atentos, logo estendeu um documento e um troféu de cristal com base de mármore negro. No topo, uma escultura abstrata representando crescimento, união e educação.
— Senhor Mellark, em nome da cidade de Nova York e do conselho municipal, tenho a honra de conceder a Comenda Cidadã Aurora. É uma homenagem rara, oferecida a quem transforma vidas de forma silenciosa. — Ele sorriu. — E, diga-se de passagem, sem pedir nada em troca.
Peeta olhou o troféu e depois o deixou repousar na mesa.
— Eu agradeço, senhor. Mas não faço isso por holofotes. Faço porque é o certo.
Undersee assentiu, tocado pela sinceridade.
— Se todos os empresários tivessem esse tipo de consciência... o mundo seria um lugar melhor.
Peeta sorriu de leve e respondeu:
— Sou apenas um grão de areia, senhor prefeito. Mas sei que, com os ventos certos, até a menor parte pode mudar a paisagem inteira.
Enquanto isso, em Manhattan, Katniss encarava o teto da clínica ginecológica. Estava deitada, vestindo a bata branca do consultório, ouvindo os batimentos do próprio coração misturados ao da médica explicando cada passo.
Ela tomava pílulas de baixa dosagem desde o susto que teve durante a organização do casamento de Delly e Johanna, quando acreditou estar grávida. Não se adaptara a nenhum outro método. Agora, ali, ouvia atentamente a proposta de um planejamento gradual de fertilidade.
— Podemos iniciar devagar. Vamos suspender o contraceptivo e fazer de forma natural. O mais importante é que seja uma decisão sua, Katniss — dizia a médica com calma.
— É minha — respondeu ela, sem hesitar.
E foi assim que, em segredo, ela deu início ao que Peeta tanto desejava. Não porque ele queria. Mas porque, em silêncio, ela também passou a querer. Não mais por obrigação ou medo, mas por amor.
Naquela noite, Katniss não esperou mais.
Vestiu um conjunto preto de renda delicada, lingerie ousada em tiras que abraçavam seu corpo com elegância. Prendeu os cabelos em um coque alto e se sentou na beira da cama do quarto com a luz baixa, as pernas cruzadas. O ar tinha cheiro de jasmim e desejo.
Pouco depois, a porta se abriu.
Peeta entrou com o semblante cansado, a pasta executiva numa mão e a mala de rodinhas na outra. A barba por fazer denunciava as 12 horas de voo. Quando a viu, parou.
Katniss estava ali como uma obra-prima viva — intensa, cheia de mistério e entrega.
Ele largou a mala sem dizer nada, os olhos presos nela.
Ela se levantou e caminhou até ele com passos lentos, felinos. Começou a despi-lo em silêncio. Primeiro o blazer, depois a camisa, cada botão desabotoado com beijos que incendiavam sua pele. Quando chegou ao cós da calça, beijou seu abdômen.
— La mia ragazza in fiamme... (Minha garota em chamas...) — murmurou ele, com a voz rouca em italiano.
— Deixa eu cuidar de você — sussurrou ela, puxando-o com os dedos.
— Só uma ducha rápida, prometo — disse ele, sorrindo, com os olhos em chamas.
Minutos depois, ele retornou do banheiro apenas com uma toalha na cintura, o corpo ainda úmido, o cabelo molhado caindo em fios rebeldes na testa.
Katniss o esperava em pé, de frente para ele.
— Quero assim — disse baixinho.
Peeta largou a toalha e a puxou para si com reverência. A encaixou como quem segura algo muito sagrado. Ela envolveu o pescoço dele com os braços, os corpos se tocando com uma intimidade antiga e eterna.
Os quadris dela começaram a se mover, lentos, intensos, e cada gemido sussurrado era uma saudade devolvida.
— Mi sei mancata, amore mio... (Senti sua falta, meu amor...) — murmurou ele, ofegante. — Você é a mulher da minha vida. A única. A única que me faz feliz.
Ela gemeu alto, o puxando com força, como se quisesse fundi-lo não apenas ao seu corpo, mas à sua alma.
Ali, entre respirações entrecortadas, suor, desejo e amor, Katniss entregou-se de verdade. Não ao momento, não ao ato — mas ao futuro que, aos poucos, começava a ser plantado dentro dela.
As luzes estavam apagadas, mas a cidade continuava a brilhar além das janelas panorâmicas da cobertura. Katniss e Peeta estavam deitados, os corpos ainda entrelaçados sob os lençóis. O silêncio agora era outro — não mais tenso, mas confortável. Profundo.
Katniss apoiava o queixo no peito dele, os dedos deslizando suavemente pela pele levemente úmida. Observava o rosto de Peeta sob a penumbra com um carinho silencioso.
— Como foi em Londres? — sussurrou, quebrando o silêncio com doçura.
Peeta sorriu de leve, passando a mão pelos cabelos dela com calma.
— Longo. A Johanna ficou entediada na primeira reunião, ameaçou quebrar a mesa de vidro com o coturno. Tive que dar um discurso sobre “inovação com propósito” enquanto seu pai cochichava piadas infames no meu ouvido... — Ele riu. — Mas conseguimos fechar a parceria com a New Horizons Institute. Vamos implantar um programa de bolsas lá também. É um bom começo.
Katniss sorriu, o coração aquecido pela forma como Peeta se dedicava a tudo que fazia.
— Você e essa sua mania de salvar o mundo.
— Eu tento — murmurou ele, os olhos fixos nos dela. — Mas minha prioridade está bem aqui.
Ela o beijou devagar e depois se aconchegou de lado, os pés entrelaçados nos dele, como costumava fazer nos primeiros meses de casamento.
— Amanhã é aniversário da Joy — lembrou, com um sorrisinho que nasceu no canto da boca.
— É mesmo. Cinco anos... já? — Peeta se virou um pouco, apoiando o rosto na mão, surpreso com o tempo.
— Cinco. E ela tá convencida de que vai ganhar um unicórnio de verdade. — Katniss soltou uma risada baixa.
— Não duvido. Com aquelas covinhas e os cachinhos loiros, ela consegue tudo o que quiser.
Katniss assentiu, o olhar suavemente nostálgico.
— Temos que comprar um presente bem especial. Nada comum. Ela é... nossa menina mágica.
Peeta ficou em silêncio por um instante, os olhos fixos no teto.
Joy era mesmo especial. A filha biológica de Delly e dele, gestada com amor por Delly, fruto de uma decisão feita a três, numa noite carregada de emoção e carinho, em que Johanna chorou pela primeira vez na frente dele.
A pequena loira de cabelos cacheados e olhos azuis havia crescido cercada de amor — duas mães que a adoravam, dois padrinhos que se derretiam a cada sorriso dela. Ela chamava Katniss de “Tia Kat” e Peeta de “Tio Pê”, mas nos momentos mais doces — quando estava sonolenta ou em seus desenhos infantis — escrevia “mamadrinha” e “papadrinho”.
— Ela mudou tudo, né? — falou Katniss, quase lendo os pensamentos dele.
— Mudou. — Peeta sorriu. — Lembro quando Delly me ligou chorando dizendo que tinha dado certo... E depois quando Joy nasceu... E aquele momento em que a enfermeira colocou ela no colo da Johanna, e ela travou, sabe? Ela ficou paralisada. E eu nunca vi Johanna com medo de nada. Mas ali, ela tremia.
— E você pegou Joy no colo e ela parou de chorar — completou Katniss, com ternura.
— É. Ela segurou meu dedo tão forte... — Peeta engoliu o nó na garganta. — E eu prometi pra ela que ia protegê-la sempre, como se fosse minha filha. Porque, no fundo, ela é.
Katniss passou a mão suavemente sobre o peito dele, sentindo o coração que batia ali. Forte, vulnerável, amoroso.
— A gente vai pensar em algo especial. Uma coisa que ela nunca esqueça — disse ela, firme.
Peeta a olhou com um brilho renovado nos olhos, aquele que surgia quando Katniss deixava o amor falar mais alto que os medos.
— E vamos estar lá, como sempre. Os quatro — completou ele.
Katniss sorriu.
— Os quatro?
— Joy, Delly, Johanna... e a gente. A família que a gente escolheu.
Katniss se aninhou mais perto, beijando de leve a clavícula dele, onde um dia cogitou tatuar o nome dela.
— La famiglia che abbiamo scelto (A família que escolhemos.) — murmurou ela em italiano, com o sotaque errado, mas o sentimento certo.
Peeta sorriu, os olhos fechando-se de paz.
Naquele momento, nenhum dos dois sabia do que o futuro guardava. Mas havia amor ali. Em todas as formas possíveis. E esse era o maior presente que poderiam oferecer — a Joy, a si mesmos, ao mundo.
O shopping em Midtown Manhattan era um verdadeiro parque de diversões para adultos — vitrines reluzentes, música ambiente suave, cafés sofisticados... Mas naquele sábado ensolarado, Katniss e Peeta tinham uma missão muito mais importante do que qualquer reunião de negócios ou evento social: escolher o presente de aniversário da pequena Joy.
— Você acha que ainda estamos a tempo de encontrar o presente perfeito? — perguntou Katniss, ajeitando os óculos escuros no rosto enquanto subia ao lado de Peeta pela escada rolante.
— Sempre há tempo quando se trata da nossa afilhada mágica. — respondeu ele, com um sorriso despreocupado. — Mas temos que pensar como uma criança de cinco anos. E não uma criança qualquer. Estamos falando da Joy.
— A Joy que pediu um unicórnio de verdade. — Katniss riu, revirando os olhos. — Vai vendo.
Entraram em uma loja infantil de brinquedos sofisticados, o tipo de lugar onde um cavalinho de pelúcia custava o mesmo que uma bolsa de grife. Em meio a uma fileira de bichos de pelúcia gigantescos, Peeta parou, apontando com empolgação.
— Katniss, olha isso.
Ela se virou e… ali estava ele: um unicórnio. Mas não qualquer unicórnio. Um unicórnio robótico, do tamanho de um bezerro, com pelos brancos macios, crina que mudava de cor conforme o toque, olhos que piscavam e uma voz suave que dizia frases como “Estou aqui para realizar seus sonhos!” e “Vamos brincar nas nuvens?”.
— Esse bicho pisca, canta, e… — Peeta apertou um botão. — Fala em cinco idiomas. Meu Deus, Katniss, ele fala italiano.
— Isso é um perigo — disse ela, contendo o riso. — Joy vai surtar. Delly e Johanna vão me matar.
— E vale cada segundo disso. — Peeta pegou o brinquedo como se fosse um troféu. — Vamos embalar com um laço enorme. Mas…
— Mas? — Katniss arqueou uma sobrancelha.
— Isso vai ser o presente de aquecimento. O verdadeiro, a grande surpresa... só depois.
Horas mais tarde, a cobertura de Johanna e Delly estava tomada por bexigas coloridas, bandeirolas, glitter e música infantil. A decoração era toda temática: arco-íris, estrelas e — claro — unicórnios. Um enorme painel brilhante dizia “Joy faz 5!” com letras douradas e uma nuvem sorridente no canto.
Joy surgiu no meio da sala usando um vestido lilás esvoaçante, uma tiara de unicórnio e um par de botas de borracha cor-de-rosa. Os cachinhos loiros sacudiam enquanto ela corria de um lado para o outro como se o mundo fosse o seu playground.
— Tio Pêêêêê!!! Tia Kat!!! — gritou ela, correndo ao ver o casal se aproximar com uma enorme caixa prateada e um laço branco gigantesco.
Katniss se ajoelhou no tapete e abriu os braços, recebendo a garota com um abraço apertado.
— Feliz aniversário, minha estrela! — disse ela.
Peeta se abaixou também, entregando o presente com uma piscadela cúmplice.
— Acho que você vai gostar disso.
Joy abriu a caixa com a ajuda de Delly, e quando viu o unicórnio robótico, soltou um grito agudo e adorável, daqueles que só crianças puras e felizes conseguem emitir.
— É TÃÃÃÃO FOFOOOOO!!! — gritou ela, agarrando o pescoço do unicórnio como se fosse real. — Ele é meu? DE VERDADE?
— Todo seu. — Peeta riu, e Katniss tirou uma foto exatamente no momento em que os olhinhos da menina brilhavam de pura magia.
Delly levou a mão ao peito, emocionada.
— Peeta, isso foi... demais.
Johanna, com um copo de suco na mão, só riu.
— Vocês mimam demais essa criança. Já tô vendo ela pedindo um dragão no Natal.
— Ah, mas ainda não acabou — disse Peeta, levantando-se com um olhar sapeca. — Tem mais uma coisinha.
No fim da tarde, após a festa, Peeta, Katniss, Delly, Johanna e Joy chegaram até um haras nos arredores de Nova York. Um espaço tranquilo, cheio de verde, com animais bem cuidados e um celeiro charmoso decorado para receber a pequena aniversariante.
Joy caminhava de mãos dadas com Katniss, com os olhos arregalados.
— Onde a gente tá indo? Isso é uma fazenda?
— É um lugar mágico — respondeu Katniss, sorrindo.
Peeta se adiantou e parou ao lado de um cercado. Dentro dele, um pônei branco, de olhos doces e crina rosa-clara estava esperando, com um lacinho azul preso à orelha.
— Joy... — chamou ele, se abaixando para ficar na altura dela. — Esse aqui é o Astor. Ele é seu.
Joy piscou. Depois piscou de novo. A respiração dela ficou curta.
— Meu? — sussurrou ela, com os olhos marejados. — De verdade?
Peeta assentiu, emocionado.
— Você vai vir visitar ele sempre que quiser. Ele vai ser seu amigo, seu companheiro. Ele é real. Não é um unicórnio, mas...
— É TÃO MELHOR!!! — gritou Joy, correndo até o cercado e abraçando o pescoço do pônei, que relinchou docemente.
Delly chorava em silêncio, e até Johanna precisou virar o rosto.
Katniss se aproximou de Peeta e entrelaçou seus dedos nos dele.
— Sabe o que você fez hoje?
— O quê?
— Realizou um sonho de verdade.
Peeta olhou para Joy, rindo e conversando com Astor como se ele entendesse cada palavra.
— Eu faria isso mil vezes. Porque ela me lembra... do porquê vale a pena querer um futuro.
Katniss não respondeu. Só o abraçou de lado, sentindo o coração bater mais forte. E, por um segundo, deixou-se imaginar... um dia, ali do lado de Joy, um novo par de olhos — olhos cinzentos, talvez — correndo pelos campos com os braços abertos, como se quisessem abraçar o mundo.
E ela soube. O sonho estava se aproximando.
✦✦✦
As semanas que se seguiram ao aniversário da Joy foram suaves como um sonho morno de fim de tarde. Peeta e Katniss estavam mais próximos do que nunca — na cama, nos almoços apressados entre reuniões, nos olhares que trocavam nos corredores da Atlas Technology. A conexão entre eles se expressava em toques, silêncios confortáveis e momentos intensos em que o mundo parecia parar.
E, mesmo assim, Peeta nem sonhava com o que Katniss vinha secretamente preparando dentro de si.
O que começou como uma promessa sussurrada no chuveiro, tornou-se um plano silencioso, depois uma esperança... e agora, algo que começava a tomar forma — dentro do seu corpo.
No início de outubro, dias antes do aniversário de Peeta, Katniss começou a perceber pequenas mudanças. Nada gritante. Mas havia algo diferente.
Primeiro veio o cansaço — um peso doce nos ossos. Depois, as tonturas leves ao levantar da cama. E então, o sono. Um sono que invadia o corpo sem aviso.
Uma tarde, depois de almoçarem juntos, Peeta caminhava ao lado dela pelos corredores modernos do 23º andar. Ele falava algo sobre uma fusão tecnológica na Europa, mas parou ao ver Katniss simplesmente abrir a porta da sala dele, se jogar no sofá de couro e se encolher como um gato sonolento.
— Amor...? — Ele se aproximou, preocupado.
— Me dá só vinte minutinhos... — murmurou, os olhos já se fechando. — Só um cochilo rápido...
Peeta a observou em silêncio. Ela dormiu quase imediatamente. O coração dele apertou.
Mais tarde, enquanto a observava assinar alguns documentos na sala de marketing, ele sussurrou:
— Será que estou te sobrecarregando demais?
Katniss olhou por cima dos papéis, com um sorriso sereno.
— Você nunca me sobrecarrega, Peeta. Eu estou bem. Só… cansada.
Mas a verdade é que algo dentro dela começava a despertar. E no fundo, ela sabia.
Naquela terça-feira cinzenta, Katniss marcou uma consulta de rotina com a ginecologista. Não queria levantar suspeitas, nem de Peeta, nem de ninguém. Mas quando mencionou, entre perguntas habituais, as vertigens, o sono em excesso e a última menstruação…
— Agosto? — A médica repetiu, franzindo levemente a testa.
Katniss hesitou.
— É, acho que foi… segunda quinzena. — disse, fazendo as contas mentalmente e percebendo o silêncio incômodo que se seguiu.
A médica sorriu gentilmente.
— Katniss, com seu histórico e o que me contou… acho que vale fazermos um teste. Só para tirar a dúvida.
Ela assentiu com um aperto no peito. Nem esperava. Nem tinha planejado. Mas no fundo... desejava.
Minutos depois, no consultório, sentada com as mãos entrelaçadas no colo, ela viu a médica retornar com o resultado do teste rápido.
O mundo pareceu parar.
— Parabéns, Katniss — disse a médica com voz suave. — Você está grávida. Cinco semanas, aproximadamente.
Katniss sentiu o chão sumir.
As mãos tremeram. Os olhos se encheram de lágrimas antes que pudesse reagir. Ela levou uma das mãos à boca e a outra ao ventre, como se tentasse proteger aquela centelha recém-descoberta.
— Eu… — sussurrou, quase sem voz. — É real?
— Muito real. — A médica sorriu. — Vamos começar as vitaminas e alguns exames. E faremos uma ultrassonografia ainda hoje.
Katniss assentiu com a cabeça, muda, as lágrimas escorrendo silenciosamente enquanto o coração pulsava num ritmo novo, quase infantil, quase instintivo.
A sala de ultrassom era tranquila, iluminada suavemente. A médica passava o transdutor sobre o ventre exposto de Katniss, enquanto a tela exibia imagens borradas em tons de cinza.
— Com cinco semanas ainda é cedo para ouvir os batimentos... — explicou ela. — Mas com sorte... conseguimos ver.
E então, a médica congelou a imagem e sorriu.
— Aqui. Tá vendo?
Katniss arregalou os olhos, sentindo o ar escapar.
Na tela, dentro do saco gestacional, havia um pequeno ponto brilhante. Um piscar rítmico, quase tímido, que se assemelhava a um coraçãozinho pulsando.
— Parece um coração... — murmurou Katniss, com a voz embargada.
— É o seu bebê — disse a médica com ternura. — E isso aí... são os batimentos. Ainda frágeis, mas firmes.
Katniss desabou.
Chorou silenciosamente, as mãos cobrindo os olhos, o peito se contraindo em emoção. Não de medo. Mas de um amor tão avassalador que a fez tremer.
A médica a tocou gentilmente no ombro.
— Quer que eu ligue para o seu marido?
Katniss enxugou os olhos, com um sorriso molhado.
— Não… não ainda — disse, arfando.
— Tem certeza?
Ela assentiu, olhando de volta para a tela.
— Eu quero fazer uma surpresa pra ele.
E após tanto tempo, muito tempo... Katniss sentiu o mundo girar ao redor de um novo centro.
Agora, ela carregava dois corações.
Desde o dia da consulta, Katniss passava por uma metamorfose silenciosa.
As manhãs deixaram de ser tranquilas. Eram dominadas por náuseas insistentes e vômitos que chegavam com pontualidade cruel. Às vezes bastava o cheiro do café da manhã para fazê-la correr até o banheiro, e outras, o perfume de alguém no elevador da Atlas a fazia engolir seco e respirar fundo até o andar final.
Peeta notou.
— Está tudo bem com você? — perguntou uma manhã, ao vê-la pálida e com os olhos semicerrados na cozinha da cobertura.
— Acho que é só um resfriado. Ou uma virose chata... Mas estou me cuidando — disse ela, com um sorriso forçado, o rosto enfiado numa caneca de chá de gengibre.
Na cabeça dele, não havia motivo para suspeitar de nada. Ele acreditava que ela tomava o contraceptivo. E confiava. Nunca houve segredos entre eles — até agora.
Mas Katniss guardava o maior segredo de todos. E faria valer cada segundo até poder revelá-lo da forma certa.
Com o aniversário de Peeta se aproximando, Katniss canalizou sua energia no que sabia fazer bem: surpreender.
Ligou para todos os irmãos dele, um por um.
Finnick atendeu do hospital, e prometeu estar lá com Annie e os gêmeos. Annie chorou no telefone dizendo que mal podia esperar para abraçar Katniss.
Presley atendeu da Califórnia, onde morava com o marido Jason Kim, e confirmou o voo para dois dias antes do evento. Disse que Jason mal via a hora de reencontrar os cunhados.
Cato foi um pouco mais difícil por conta do trabalho, como sempre. Mas ao ouvir sobre o plano, sua voz ficou mais suave.
— A Skye vai amar. Ela vive perguntando pelo tio Peeta — disse. — E a Madeline também ficará animada.
Madeline era a esposa dele que amava e cuidava da Skye como se fosse sua.
Katniss sorriu. Sabia o quanto Peeta ficaria feliz em ver a família toda reunida.
E, claro, ligou para Otho.
— O senhor vai estar aqui, né? — perguntou, com a voz trêmula de emoção.
— Claro! — disse ele do outro lado da linha. — Não perderia esse aniversário por nada.
Otho agora morava numa casa adaptada em Westchester, sob os cuidados de uma equipe e visitas frequentes dos filhos. Katniss ainda não sabia com qual deles ele passaria a morar definitivamente — talvez Finnick —, mas a decisão viria em breve.
No fim da tarde de 16 de outubro, a cobertura de Peeta estava transformada. A área da piscina estava decorada com tons neutros e sofisticados — luzes pendentes, velas flutuantes e arranjos com ramos de oliveira e rosas brancas. Uma mesa com doces italianos e bolo de chocolate com camadas de avelã aguardava os convidados.
Katniss usava um vestido preto de tecido leve, que realçava seu corpo ainda discreto, mas já mais sensível. Estava com um brilho nos olhos que ela não podia esconder.
Peeta, ao vê-la naquela noite, disse:
— Você está ainda mais linda do que eu lembrava.
— E você está prestes a ter o melhor aniversário da sua vida — respondeu ela, beijando-o com carinho.
Conforme os irmãos foram chegando, o clima esquentou com abraços, risadas, crianças correndo e velhas histórias sendo recontadas entre taças de vinho.
Quando finalmente cantaram parabéns, Peeta segurava Skye no colo e Joy puxava o dedo dele pedindo para repetir a música “do unicórnio”.
Após os aplausos, Katniss pediu um momento.
Pegou uma pequena caixinha branca, delicada, com um laço de cetim vermelho escuro — a única cor forte entre toda a paleta suave daquela noite.
— Esse é seu presente, Peeta — disse, com a voz firme, mas os olhos marejados. — E antes de abrir... só quero dizer que eu te amo mais do que tudo. Que tudo o que você representa pra mim... agora representa ainda mais.
Peeta franziu as sobrancelhas, curioso. Pegou a caixinha e desfez o laço devagar. Ao abri-la, encontrou o teste de gravidez — duas linhas cor-de-rosa intensas — e dobrada cuidadosamente, a primeira imagem da ultrassonografia.
Um pequeno ponto com formato de coração, dentro de um universo em preto e branco.
O mundo parou.
Peeta ficou em silêncio. O peito se elevando como se o ar fosse denso demais para ser respirado.
— Eu... — sussurrou ele, com a voz embargada. — É... é de verdade?
Katniss assentiu, os olhos transbordando.
— Cinco semanas. Eu queria fazer surpresa. Queria que fosse hoje. Que todo mundo estivesse aqui.
Peeta levou a mão à boca, depois à cabeça, e então à barriga dela, onde pousou os dedos com reverência.
— A gente vai ter um bebê?
— A gente vai ter um bebê. — ela confirmou, chorando e rindo ao mesmo tempo.
Ele a puxou para um abraço apertado, o rosto escondido no pescoço dela, como se quisesse gravar aquele momento na pele.
— Grazie, amore mio... (Obrigado, meu amor...) — sussurrou em italiano. — Você acabou de me dar tudo.
Ao redor, a família se aproximava sem entender direito, até que Peeta ergueu a pequena ultrassonografia com um sorriso aberto e lágrimas correndo pelo rosto.
— Nós vamos ter um bebê! — anunciou, a voz trêmula de felicidade.
E ali, no coração da noite, ao som dos aplausos e dos sorrisos emocionados, Katniss percebeu que não havia mais medo.
A vida que ela tanto temia, agora se tornava a maior das promessas.
Depois que todos foram embora e o silêncio da madrugada abraçou a cobertura, Peeta fechou a porta devagar, como se o menor ruído pudesse quebrar a magia que ainda pairava no ar.
Katniss estava descalça, o vestido preto levemente amarrotado, os olhos ainda úmidos da emoção. Ela olhou para ele com um sorriso suave, e Peeta a encarou por um longo momento, como se estivesse vendo algo sagrado.
Sem dizer nada, ele caminhou até ela.
Ajoelhou-se lentamente, pegando-lhe as mãos com delicadeza, como se fossem feitas de cristal.
— Mia dea... mia vita, mia casa... (Minha deusa... minha vida, meu lar...) — sussurrou ele, com os olhos marejados. — Tu sei il mio miracolo. Sei la mia eternità in um solo sguardo. Ti ho amata quando non sapevi. E ora... ti amo in ogni battito che cresce dentro di te. (Você é o meu milagre. Você é a minha eternidade em um único olhar. Eu te amei quando você nem sabia. E agora... eu te amo em cada batimento que cresce dentro de você.)
Katniss ficou em silêncio. Sentia-se tocada em camadas que nunca havia deixado ninguém alcançar. Peeta levou os lábios até o ventre dela e deixou ali um beijo tão lento, tão reverente, que parecia uma prece.
— Eu estou com você em tudo, Katniss. Sempre — murmurou ele, contra a pele dela.
Ela passou os dedos pelos cabelos dele e suspirou.
— Promete que vai lembrar disso quando eu estiver vomitando meu estômago até a alma? — brincou, e ele soltou uma risada abafada contra sua barriga.
— Prometo. Vou estar segurando seu cabelo. E depois limpando o chão.
— Então, é isso que chamam de romance italiano? — zombou ela, com carinho.
— Não, isso se chama amor irracional e irreversível — respondeu, sorrindo com os olhos.
Duas semanas depois, Katniss acordava diariamente com os enjoos lhe dominando o corpo e a alma.
Era quase cruel.
O cheiro do alho, da cebola, da comida pronta... até mesmo o sabão da cozinha era o suficiente para deixá-la correndo até o banheiro. Vomitava tanto que às vezes chorava de frustração. Nada descia. Nem arroz, nem torradas, nem chá. Apenas algumas frutas, água de coco e ainda assim, gelada.
As vitaminas ajudavam a sustentar o bebê. E os exames estavam impecáveis. Mas ela já havia emagrecido três quilos.
Peeta acompanhava tudo com uma preocupação imensa. Seguia cada orientação médica como se fosse um contrato de investimento da Atlas. Tinha um estoque de água de coco na geladeira, pegava as toalhinhas mornas para ela, aprendia os horários das vitaminas e massageava suas costas nas madrugadas em que ela gemia baixinho entre uma crise e outra.
Ela brincava:
— Peeta, estou grávida, não terminal. Pode respirar.
— Eu respiro melhor quando você está bem — retrucava ele, e ela rolava os olhos, mas se derretia por dentro.
Na consulta das sete semanas, o consultório parecia ter uma aura diferente. Peeta segurava a mão de Katniss como se ainda não acreditasse que tudo aquilo fosse real.
— Hoje vocês poderão ouvir os batimentos — disse a médica, sorrindo ao ajeitar o aparelho de ultrassonografia.
Katniss deitou-se na maca. Peeta, ao lado, parecia estar prestes a presenciar a aurora.
A imagem apareceu. A médica ajustou o volume e então, como uma música antiga voltando à memória, um som preencheu a sala:
Tum-tum... tum-tum... tum-tum... tum-tum...
Rápido. Ritmado. Forte.
O coração do bebê.
Peeta tapou a boca com a mão, os olhos marejando no mesmo instante. Katniss virou o rosto e o viu assim — rendido, emocionado, completamente vulnerável.
— È lei... (É ela...) — murmurou ele, ainda sem saber, como se o coração dissesse. — È nostra figlia, lo sento. È lei... (É nossa filha, eu sinto. É ela...)
Katniss chorou. Não de tristeza, nem de alívio, mas de uma certeza que surgia ali, entre aqueles batimentos minúsculos que já batiam mais forte que qualquer coisa que ela conhecera.
— Está tudo ótimo. Crescendo dentro do esperado — confirmou a médica, animada.
Peeta apertou os dedos de Katniss.
— Você é incrível — disse a ela. — Eu sabia que você seria, mas ver isso... ver você assim... é maior do que tudo que imaginei.
Katniss riu entre lágrimas.
— Mesmo enjoada e só conseguindo tomar água de coco?
— Principalmente assim. Porque mesmo nos piores dias, você ainda é minha garota em chamas.
Katniss passou a mão em seu rosto e puxou-o para um beijo.
Ali, no som abafado de um coração que cabia em milímetros, o amor deles se expandia de um jeito que não cabia mais só nos dois.
Era mais... Era eterno.
✦✦✦
A manhã estava clara, o céu no início de novembro pincelado de azul suave, e Katniss se sentia tão ansiosa quanto encantada.
Ela e Asterid haviam saído cedo para buscar o resultado do exame de sexagem fetal. Katniss estava com 10 semanas, e o pequeno envelope branco que agora repousava nas mãos da mãe parecia conter o segredo mais precioso do mundo.
— Promete que não vai me contar? — Katniss pediu pela terceira vez, sorrindo nervosa enquanto encarava a mãe no estacionamento da clínica.
Asterid assentiu, com os olhos brilhando.
— Prometo, querida. Mas vou te dizer... — Ela segurou a mão da filha com carinho. — Seja menino ou menina, essa criança já é muito amada.
Katniss respirou fundo. Tinha razão.
— Mãe, já que o Peeta... desejou isso tanto, mais até do que eu... vamos fazer tudo que tem direito, sim? Um chá revelação de verdade. Com todos os clichês. Balões, fumaça colorida, o que for — disse ela, com um sorriso tímido.
Asterid a olhou com ternura e puxou-a para um abraço.
— Já está feito, meu amor. Delly, Presley e eu vamos cuidar de tudo. Você só precisa aparecer linda com aquele marido maravilhoso de mãos dadas. O resto... deixa com a gente.
A mansão dos Everdeen, com seus jardins amplos, parecia saída de um conto de fadas naquele fim de tarde.
A área externa que, fora palco para o casamento deles, foi transformada: grandes tecidos brancos esvoaçavam entre as árvores, luzes penduradas em galhos brilhavam como vaga-lumes, e mesas de madeira rústica estavam decoradas com arranjos florais delicados — tons de rosa antigo, lilás, branco e toques de dourado. Uma imensa parede verde natural com a inscrição “Você já é nosso mundo” dominava o centro do jardim.
No canto, uma mesa com docinhos artesanais, cupcakes com pontos de interrogação rosa e azul, sucos naturais, água de coco e uma enorme caixa decorada no centro da área de celebração: era lá que o mistério seria revelado.
Katniss usava um vestido midi em um delicado tom champanhe, confeccionado inteiramente em renda trabalhada e cabelo preso em um coque baixo, delicadamente adornado com pequenas flores. Peeta usava uma camisa branca dobrada até os cotovelos, calça bege clara e o olhar cheio de amor só para ela.
Joy corria pelo jardim com uma tiara de unicórnio e uma varinha rosa, perseguindo Anthony e Kate, enquanto Skye desenhava flores com giz colorido no piso de pedra.
Otho Mellark, apoiado em sua bengala, estava sentado entre Finnick e Cato, sorrindo com aquele orgulho silencioso de quem havia vencido tantas guerras. Presley tirava fotos com Jason Kim ao lado de Delly e Johanna, que fazia piada com Burdock segurando a bandeja de macarons com cara de “isso é mesmo comestível?”
Katniss observou tudo com o coração apertado. Nunca pensou que viveria algo assim.
Peeta a puxou pela cintura quando chamaram os dois para o centro.
— Preparada?
— Nem um pouco — disse ela, rindo. — Mas contigo do meu lado, eu vou a qualquer lugar.
A contagem regressiva começou, comandada por Joy com seu megafone infantil:
— TRÊS! DOIS! UM... JÁ!
Um canhão de fumaça colorida estourou ao lado da caixa decorada. Junto com a fumaça rosada, centenas de pequenos balões brancos e rosas subiram ao céu.
A plateia explodiu em gritos, aplausos e lágrimas.
— É MENINA!!! — Todos gritavam, enquanto Katniss e Peeta se abraçavam no meio da comoção.
Peeta colou a testa na dela, o sorriso emocionado.
— Uma bambina... (Um menininha...) — sussurrou. — Nossa filha... (Nossa filha...)
Eles dançavam devagar, no meio da grama, entre os balões caindo suavemente do céu.
As brincadeiras começaram.
— Vai se chamar Petta? — provocou Finnick, fazendo todos rirem.
— Ou Everllark? — brincou Johanna.
— Já pensei em Sophie! — sugeriu Annie.
Katniss ficou em silêncio por um momento. Então se aproximou do ouvido de Peeta e, com os olhos marejados, sussurrou:
— Prim. Quero que ela se chame Primrose.
Peeta congelou por um instante.
Depois, sem conseguir conter a emoção, a abraçou com força e beijou sua cabeça com delicadeza.
— É perfeito, amor. Tão perfeito quanto você.
Katniss caminhou até seus pais. Asterid e Burdock estavam lado a lado, com os olhos marejados, observando tudo de longe.
Ela os abraçou forte. Muito forte. Como há anos não fazia.
— Obrigada. Por hoje. Por tudo — disse.
— É você quem nos dá motivos para acreditar de novo — murmurou Asterid, com os olhos molhados.
— Prim teria amado isso — completou o pai.
Katniss sorriu, com lágrimas silenciosas descendo pelo rosto.
— Eu sei. Por isso... eu quis que ela vivesse de novo. Dentro da nossa menina.
E ali, entre beijos, abraços e sorrisos banhados em amor, uma nova Primrose foi celebrada — antes mesmo de nascer — cercada por tudo que a primeira havia deixado de mais bonito no mundo: o amor que permanece.

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