Notas iniciais
Oieeeeee... voltei mesmo que beeeeem depois, estava morrendo de saudades de att DV e agradeço o carinho e apoio de cada leitora, vocês são incríveis e a cada comentário eu sinto um quentinho no meu coração que chega a soar mágico. Eu lancei uma fanfic novo "Águas Profundas" desde o Halloween, será curtinha 13 capítulos e minha meta é concluir antes do ano novo rsrs. E pra quem ainda não sabe tirei ODQMA (O Duque que Me Amou) dos hiatos ebaaaaaa, gente eu amo esse enredo de época e aguardo vcs lá. Bora ao capítulo e dedico as meninas do grupo, principalmente a VIVI e a VI (Vitória) amo vcs! Pra quem gosta de ouvir aqui vai uma trilha https://youtu.be/806hr880AB8


O carro preto do Uber a deixou diante da mansão Everdeen, a brisa fria fazia com que o cheiro das flores do jardim cochichasse memórias. Tudo ali exalava passado, mas Katniss já não sabia onde estava. Entrou no hall e mentalmente agradeceu que os pais não haviam retornado do baile. Cada passo era um borrão de imagens sobrepostas — fogo, fumaça, a sombra de Peeta desaparecendo sob a luz do inferno que ela mesma acendera.

Subiu as escadas com pressa, quase tropeçando no vestido. Segurava o tecido com força enquanto galgava degrau por degrau como se fugisse de si mesma. Assim que entrou no quarto, trancou a porta com um estalo seco.

O silêncio a engoliu.

Sem pensar, arrancou o vestido como se ele queimasse sua pele. Atirou-o longe, contra a parede. Livrou-se dos saltos JIMMY CHOO, seus pés descalços afundaram no tapete felpudo, o corpo vestindo apenas a lingerie bordô, ousada, que deveria ser de prazer para aquela noite — mas que terminou em ruína.

Agora, ela estava em chamas por dentro.

Gritou. Um grito doído, rasgado, agudo como vidro partindo.

— O que eu fiz?! — Sua voz reverberou entre as paredes como um lamento ancestral.

A adolescente humilhada anos atrás, a que foi alvo de risadas e desprezo... essa, enfim, estava livre. Mas a mulher que se entregou a ele, que amou com o corpo e com a alma, essa agora jazia ferida. E o golpe havia partido dela mesma.

Peeta.

O homem que deixou para trás o garoto prepotente e cruel que um dia foi. Que a olhava agora com reverência e dor. O homem que ela havia ferido sem chance de reparo.

As últimas imagens dele invadiram sua mente como uma tortura — os olhos baixos, o queixo trêmulo, a dor resignada estampada em cada linha de seu rosto. Ele não gritou. Não explodiu. Só... foi embora.

E ela o deixou ir.

Katniss deslizou até o chão, como se fosse feita de cinzas. Encostou as costas na cama e deixou o corpo desabar. O choro emergiu sem controle, pesado, úmido e feio — o tipo de choro que só o arrependimento conhece.

— Peeta... — sussurrou, entre soluços.

Ela queria ir atrás dele. Queria correr pelas ruas, invadir sua cobertura, implorar por perdão. Mas seus pés não se moviam. A covardia a prendia como correntes invisíveis.

Nos dias que se seguiram, Katniss entrou num mundo de sombras.

Ficou no quarto. As cortinas fechadas. O vestido do baile ainda jogado no canto, como uma cicatriz aberta. As horas se misturavam. Dormia pouco. Chorava muito. Não ligava para o tempo. Não ligava para mais nada.

Era como luto.

A única vez que sentira algo semelhante foi quando perdeu Prim.

E agora, perder Peeta, mesmo que vivo, doía com a mesma intensidade. Talvez pior. Porquê dessa vez, não foi o destino. Foi ela.

Ah, os estágios do luto... A negação chegou primeiro. Ela recusava-se a acreditar que o havia perdido. Que havia destruído o único homem que a amou com verdade. Que ela decidiu odiar — e amar — na mesma proporção. A vingança teve seu ápice. Mas o preço? Esse estava sendo cobrado a cada segundo de silêncio.

Do outro lado da porta, vozes suaves tentavam resgatá-la.

— Filha? — A voz de Asterid soava hesitante. — Você precisa se alimentar... ou pelo menos me escutar.

Três batidas, depois silêncio.

— Trouxe um chá. Converse comigo. Não vou te julgar. Você e Peeta... terminaram? O que aconteceu depois do baile?

Nenhuma resposta.

A única reação de Katniss foi puxar os joelhos contra o peito e enterrar o rosto entre eles. Um sussurro quase inaudível escapou de seus lábios rachados:

— Eu o amava...

Mas as palavras caíram no quarto vazio.

E ela ficou ali. Envolta em escuridão. No lugar onde nem o perdão ousava entrar.

O relógio marcava quase uma da manhã. O céu de Manhattan parecia ter engolido todas as estrelas naquela noite pesada.

Katniss estava sentada no chão do quarto, encostada na poltrona. Vestia um moletom, os cabelos presos de qualquer jeito. A taça de vinho ao lado, intocada.

A porta se abriu devagar. Asterid entrou em silêncio, usando um robe de cetim claro. Seus cabelos loiros estavam soltos e o olhar materno carregava uma preocupação silenciosa.

— Não consegui dormir — disse ela, suavemente. — E pelo visto, você também não.

Katniss fez que não com a cabeça, os olhos vermelhos.

— Mãe… eu preciso te contar uma coisa que escondi por muitos anos.

Asterid se aproximou e sentou-se no chão ao lado da filha, como fazia quando Katniss era pequena e tinha medo do escuro.

Katniss respirou fundo. E começou.

— Eu já conhecia o Peeta. Desde o colégio. Nós estudamos juntos. Ele… ele se aproximou de mim fingindo interesse. E depois… ele me humilhou. Riu de mim junto com os amigos. Me expôs. Me destruiu. Eu nunca contei a ninguém. Nem pro papai. Eu só… engoli.

As lágrimas começaram a cair, silenciosas.

— Naquela época vocês saíam muito. Eu fiquei sozinha. E aquilo virou um buraco dentro de mim. Cresceu com os anos. Por anos nutri uma sede de vingança. Eu jurei que ele ia sentir a mesma dor. E ele sentiu.

Asterid a ouviu em silêncio, os olhos marejados. Então pegou a mão da filha com carinho e firmeza.

— Minha filha… —Ela fez uma pausa, contendo a própria emoção. — Eu me culpo todos os dias por não ter estado mais presente naquela época. Eu confiava que você estava bem, mas deveria ter enxergado os sinais. Deveria ter perguntado mais. Ficado mais ao seu lado. Eu sinto muito...

Katniss deitou a cabeça no ombro da mãe, desabando em um choro que parecia vir de uma década escondida.

— Agora eu o quebrei, mãe. Quebrei alguém que… me ama. Que me pediu em namoro pro papai. Que te elogiava. Que me olhava como ninguém mais olhou.

Asterid passou os dedos pelo cabelo da filha.

— E eu te pergunto, querida… valeu a pena? Essa vingança curou sua dor?

Katniss respondeu sem hesitar, entre lágrimas:

— Não... Só me deixou vazia.

A mãe segurou o rosto da filha e a olhou nos olhos.

— Então agora, você tem uma escolha. Seguir nesse vazio ou correr atrás do que ainda pulsa dentro de você. Porque eu vejo. Ainda há amor aí dentro. Apesar de tudo.

As duas ficaram em silêncio por alguns segundos. Até que Katniss murmurou:

— Eu sinto falta da Prim.

Asterid não aguentou. As duas se abraçaram com força, chorando como duas mulheres feridas pelo tempo e pelas perdas.

Naquela noite, Katniss dormiu abraçada a mãe.


✦✦✦


O quarto de Katniss era um contraste cruel com o estado dela: amplo, elegante, com móveis sofisticados e janelas altas que deixavam entrar a luz da tarde, as cortinas blackout abertas. As paredes estavam adornadas por quadros modernos, mas o ar ali dentro parecia quase sufocante.

Katniss estava caída na enorme cama, vestida com um robe de seda amassado, os cabelos despenteados e o rosto pálido, quase sem vida. O silêncio do lugar parecia um eco do que ela sentia por dentro.

As portas do quarto se abriram com firmeza. Johanna entrou primeiro, seguida por Delly. Ambas pararam por um instante, tomadas de surpresa pelo estado deplorável em que encontraram a amiga.

— Katniss? — A voz de Johanna soou dura, mas carregada de preocupação.

Katniss não respondeu, nem sequer se moveu.

Delly deu um passo à frente, os olhos marejados.

— Você não atende o telefone. Não atende as mensagens. A gente tinha que ver o que tava acontecendo.

— Pelo amor de Deus, Everdeen... Que ironia, até nisso vocês dois se parecem! — gritou Johanna, sem cerimônia. — Eu te odeio nesse momento. Mas odeio ainda mais o cabeça da Atlas estar inativo há três semanas! Que porra é aquela empresa sem ele? Um manicômio! Sua desmiolada, vai até ele! Tentei, ele não quer ver ninguém. Tenho medo de que faça algo pra se machucar ou Deus me livre...

Katniss não respondeu. Só chorou.

Johanna avançou até a cama, cruzando os braços.

— O que você fez com ele? — Sua voz agora era uma acusação direta, cortante. — Me dê um bom motivo pra eu não te matar agora mesmo!

Katniss ergueu os olhos, vazios e cansados.

Johanna continuou, a raiva misturada com desespero.

— Eu sempre estive com ele, Katniss. Sempre! Nos dias em que a insegurança esmagava o peito dele. Quando ele dizia que não sabia se valia a pena. Eu falava pra ele ir com tudo. Que você valia a pena.

Delly segurou a mão trêmula de Katniss.

— Ele te amou. Te amou por inteira.

Katniss tentou falar, mas a voz saiu fraca e arrastada.

— Eu só quis que ele sentisse o que eu senti…

Johanna se aproximou, a voz cortante.

— Parabéns! Você conseguiu. Quebrou o homem que sempre lutei pra manter inteiro.

Finalmente, Katniss se levantou da cama, o rosto marcado de lágrimas.

— Ele destruiu minha vida no colegial! Me humilhou!

O silêncio tomou o quarto.

Delly falou com ternura.

— Você tinha direito de sentir dor, se proteger e gritar. Mas se vingar até quebrá-lo? Isso não é justiça, Katniss. É só mais dor.

Katniss se jogou de volta na cama, as mãos no rosto.

— Eu não sei mais quem eu sou. Eu o amei e o odiei ao mesmo tempo. Agora só resta um vazio.

Johanna respirou fundo, suavizando o tom.

— Você ainda o ama?

Katniss ergueu os olhos, úmidos.

— Mais que tudo.

— Então vai até ele, idiota — disse Johanna firme, cruzando os braços. — Conserta o que quebrou antes que seja tarde demais.

Delly sorriu triste.

— Você ainda tem uma chance. A gente sabe como o amor pode destruir, mas também como ele pode curar.

Katniss enxugou as lágrimas.

— Obrigada por não desistirem de mim.

Johanna deu de ombros com um leve sorriso.

— Eu ainda quero te socar, mas se você fizer a coisa certa, talvez eu só te empurre na piscina.

As três riram, um riso dolorido, mas sincero.

À noite, ela teve um sonho.

Katniss caminhava por um campo florido. A luz era suave, quase etérea. E então ela a viu.

Prim. De vestidinho branco, com os cabelos dourados balançando ao vento, sorrindo como quando tinha oito anos.

— Oi, Katniss. — A voz da menina era doce, cristalina.

Katniss caiu de joelhos.

—Eu me perdi, Prim. Me perdi de mim mesma.

Prim se aproximou e tocou seu rosto com as mãozinhas pequenas.

— Você só esqueceu por um tempo. Mas o amor tá esperando você voltar.

— Mas e se for tarde demais?

— Nunca é tarde demais pra amar. Só não pode esquecer quem você é.

Prim sorriu. Um vento suave passou por elas, levando flores no ar.

— Vai atrás dele. Ele ainda tá lá.

Katniss acordou com lágrimas no rosto e o coração aos cacos — mas, pela primeira vez em muito tempo, disposta a recolher cada pedaço.

Ela ainda estava sentada sobre a cama quando ouviu a porta do quarto abrir. Não era Johanna, Delly em em mesmo sua mãe. Era ele.

O som dos sapatos sobre o piso de madeira soou mais pesado do que nunca. Katniss não ousou levantar o olhar. Seu pai raramente entrava em seu quarto. Quando o fazia, era sério. Disciplinado. E agora, ela sabia, não seria diferente.

— Eu soube — disse ele, com a voz contida, grave, firme.

Ela fechou os olhos. Uma única lágrima escorreu pelo canto.

— Sei o que você fez, Katniss.

Silêncio.

O ar pareceu pesar no ambiente. Ele não gritava. Não perdia o controle. Isso era ainda pior.

— Sabe o que mais me dói nisso tudo? — Continuou ele, dando alguns passos à frente. — Não foi apenas ter visto minha filha se perder. Foi vê-la fazer algo que eu jamais imaginei que fosse capaz. Manipular alguém. Seduzir, enganar... trair.

Katniss sentiu como se cada palavra arranhasse a alma.

— Não só um homem, mas um homem que confiou em você. Que confiou em mim. Na nossa empresa. Na nossa história.

Ela respirou fundo, tentando falar, mas ele levantou a mão, em um gesto lento.

— Não quero desculpas agora. Nem justificativas. Já ouvi muitas nos últimos dias.

O silêncio entre eles era espesso, carregado. Então ele finalmente se sentou na ponta da cama. O peso dele afundou o colchão levemente.

— Eu estou decepcionado, Katniss, achei que o amava — disse ele, enfim. A dor em sua voz era nítida, mesmo que tentasse manter o tom neutro. — Não cometeu um erro qualquer. Você destruiu algo que levou anos pra ser construído. Não só profissionalmente. Mas pessoalmente. Você destruiu confiança.

Ela então se aproximou devagar, os olhos marejados, mas não implorou. Não tentou se defender. Apenas sussurrou:

— Eu não sei mais quem eu sou, pai.

Ele virou o rosto lentamente em sua direção. Os olhos duros, mas não cruéis.

— Então comece a descobrir. E comece fazendo o certo.

Ela engoliu em seco.

— Eu vou.

Ele não respondeu de imediato. Apenas assentiu levemente com a cabeça e se levantou.

— Espero que não seja tarde demais.

Antes de sair, ele parou na porta, ainda de costas para ela.

— Você é minha filha, Katniss. E eu a amo. Mas amar não é o mesmo que aprovar tudo o que você faz. Se quer minha confiança de volta, vai ter que conquistar de novo. Assim como a dele.

E então ele saiu.

A porta se fechou com um clique sutil, mas foi como um trovão na alma dela.


✦✦✦


“Você não pode apagar o passado. Mas pode escolher o que fazer com as cinzas.”

Àquela altura, o escândalo na sala VIP do baile de máscaras já estava em todos os portais de fofoca e notícias financeiras. Empresas sendo investigadas. Ações despencando. Famílias inteiras se desintegrando em público.

O espelho não mentia.

Katniss encarava seu reflexo como se visse outra mulher. As olheiras cavavam vales profundos sob os olhos; a pele, antes cheia de viço e cuidada com os melhores skincare, agora parecia opaca, apagada como sua alma. Os quilos que perdeu não vieram de dietas ou treinos, mas do luto silencioso que consumia até sua fome.

O cabelo, ainda úmido do banho, caía em mechas sobre os ombros. Vestia jeans, tênis confortáveis e um sobretudo caqui que pertencia a um mundo onde o coração ainda batia inteiro.

As palavras da mãe haviam sido um sussurro firme. A repreensão do pai, necessária. A tempestade, Johanna Mason, explosiva como sempre quando invadiu seu quarto com Delly ao lado fora o sacode de que precisava. Entretanto, o que realmente a arrancou do abismo foi o sonho com Prim tão nítido em sua mente como se pudesse tocá-la. Ela passou as mãos sobre o rosto secando as insistentes lágrimas.

E agora, minutos depois, a mala de mão estava pronta. Gale abriu a porta do Lexus para ela e a envolveu num abraço silencioso.

— Tá melhor?

A pergunta foi gentil. Porém, mesmo sem tom acusatório, Katniss sentiu o peso. Olhou para o horizonte e respirou fundo.

— Vingança não vale a pena, Gale. Ela apenas te cega, domina, mas te afasta de si mesma. Destrói tudo ao redor. Eu não quero isso nunca mais. Nem se ele me odiar pro resto da vida. Eu vou trazê-lo de volta, porque eu o amo.

Gale, ao volante, segurou a mão dela.

— Catnip, escuta. Não acho que o Peeta te odeie, mesmo que ele queira. Nesse tempo todo de disfarce, eu vi. O que ele sente por você é mais real do que esse céu sobre nós. Então... abre teu coração. Fala tudo. Devolve tudo a ele. O pai... a vida que acha que perdeu. O ame sem reservas. E para de se martirizar. Você causou dor, sim. Mas também fez justiça.

Ela secou os olhos.

— Obrigada por não desistir de mim, Gale. Por ter tentado me parar centenas de vezes... Você é o amigo mais leal que eu tenho.

Ele sorriu de canto, uma ruga leve no canto do olho.

— Sempre estarei aqui por você. Agora vai lá... e conserta isso.

Quando chegaram aos Hamptons, o sol estava baixo no céu, tingindo as nuvens com tons dourados e rosa. A brisa marítima tinha gosto de sal e promessas quebradas. Gale parou o carro antes da entrada principal. Katniss desceu, se despediu do amigo, ajeitou a alça da bolsa no ombro e fitou a casa à frente.

Ali estava ela. A casa da praia.

Intocada.

Isolada como o coração de Peeta.

Ela respirou fundo, sentindo as pernas tremerem. Não fazia ideia do que diria. Ou como. Mas sabia que não podia voltar atrás.

Um passo de cada vez, pensou. Eu vou até ele. E vou dizer a verdade. Toda ela.

Katniss seguiu pela trilha de areia, contornando arbustos, ouvindo apenas o barulho do mar quebrando suavemente adiante. O convés da casa se aproximava como uma ponte entre o inferno que viveu e a chance de redenção.

Ela não sabia o que encontraria do outro lado da porta.

Mas sabia o que trazia consigo: amor, culpa, coragem... e a esperança de reconstruir o que havia sido destruído.

A porta rangeu quando Katniss a empurrou com a ponta dos dedos. O cheiro de maresia e álcool adocicado invadiu suas narinas. O interior da casa... não era como ela imaginava.

Era uma zona de guerra.

Sacolas de delivery vazias espalhadas pelo balcão da cozinha. Pratos empilhados, alguns com restos de comida que já não sabiam o que tinham sido. Garrafas — garrafas demais. Vodka, vinho, whisky... e uma em particular, a garrafa de single malt vazia, jogada de lado no tapete da sala.

A música preenchia o ar em um sussurro contínuo, uma ária italiana que cantava tragédias com beleza ferida. Não havia luz além da fraca claridade natural que entrava pelas janelas de madeira salinizada.

Katniss largou a mala na entrada. O coração acelerado, a garganta seca.

— Peeta...?

Nada.

Subiu a escada, os degraus rangendo sob seus pés. O quarto principal estava bagunçado. Roupas jogadas, lençóis amarrotados, sem sinal de que alguém dormia bem ali. O banheiro exalava um cheiro forte de loção pós-barba e algo mais amargo... talvez enjoo.

Ela percorreu cada cômodo, procurando por ele. Pela sombra dele. Mas só encontrou ausência.

Até que...

Saiu pela varanda lateral que dava para a trilha da praia. Retirou o tênis, os pés afundaram na areia fina. O sol estava começando a descer no céu, tingindo o mar com tons que doíam de tão bonitos.

E foi quando o viu.

Lá na frente, distante, quase como parte da paisagem, estava ele.

Peeta.

Sentado à beira da praia, de costas para ela. A camiseta azul-marinho com as mangas arregaçada até os cotovelos, os braços apoiados nos joelhos dobrados, calça cinza de moletom emboladas com a areia. O mar lambia seus pés como se também quisesse consolá-lo.

Ele não se movia.

Estava imóvel. Como uma escultura moldada pela tristeza.

Katniss sentiu o coração parar por um segundo.

Ali estava o homem que ela amava. O homem que ela quebrou. Que sangrava em silêncio, dia após dia, no exílio que ela mesma provocou.

Ela desceu o resto da trilha com cuidado. Não quis assustá-lo. Nem tinha certeza de como ele reagiria. O som do vento e das ondas era tudo que a acompanhava enquanto caminhava até ficar a poucos metros de distância.

Ela parou. Respirou. Um segundo. Dois.

E então, com a voz quebrada, mas firme, disse:

— Peeta...


Hamptons, três semanas e quatro dias antes...


A madrugada era fria quando Peeta chegou aos Hamptons. Não procurou a mansão suntuosa de sua mãe, decorada com colunas importadas e mármores que jamais tocaram barro. Em vez disso, seguiu por uma estrada secundária, ladeada por pinheiros enegrecidos pela noite. Parou diante de uma casa um pouco menor que o palácio de sua mãe — um refúgio antigo, afastado da civilização e do escárnio.

Jogou a mochila no sofá com um suspiro pesado. As chaves caíram no balcão da cozinha, junto com o celular, que vibrava freneticamente com ligações não atendidas. Mas ele sequer olhou para a tela.

Deslizou os dedos pelo rosto e só então notou as lágrimas escorrendo sem pudor. O peso que esmagava seu peito não dava trégua. Era como se o coração estivesse sendo quebrado lentamente, pedaço por pedaço, sem anestesia.

Sentou-se por um momento na penumbra da sala. Não acendeu as luzes. As sombras eram mais acolhedoras que qualquer conforto artificial.

Ele merecia aquilo.

Sim, Katniss o havia traído — mas não como Jacqueline, Glimmer ou sua própria mãe. Ela o traiu com o passado que ele mesmo havia construído, pedra por pedra, ofensa por ofensa. E agora o castelo ruía inteiro sobre ele.

Fechou os olhos. A lembrança veio como um espectro.

O dia no refeitório. O riso zombeteiro. O desprezo na frente de todos. Ele se lembrava da sensação de poder, do escudo que a arrogância lhe dava. Mas não havia glória em machucar alguém — só covardia.

O preço veio em ondas: o AVC do único homem que considerava pai, Otho Mellark, seu herói… depois, a morte. A traição da mãe, que se escondeu sob véu negro apenas para se casar, poucos meses depois, com Coriolanus Snow — amigo de seu pai e, descobriu-se depois, seu pai biológico.

Tudo era podridão disfarçada de prestígio.

Agora, tudo fazia sentido.

A dor de Katniss.

O plano.

A vingança.

E, ainda assim… ele a amava.

Não como um adolescente ama a primeira garota bonita que cruza seu caminho. Mas como um homem ama a mulher que o reconstrói e, ironicamente, também o destrói. Era irracional. Doloroso. Inevitável.

Lembrou-se dela na festa de Marvel — no corredor entre os quartos, o olhar tempestuoso, os óculos que ele arrancou num impulso. O beijo. Ele achava que era só um jeito de curar a traição de Jacqueline. Idiota.

O que sentia agora era mil vezes mais forte.

Seus olhos. Ele se perdia neles sempre que os encarava, mesmo sem saber que já os conhecia desde o colegial. Como não a reconheceu?

A raiva contra si mesmo tomou forma no peito. Foi até o bar, no canto escuro da sala. Por um segundo, hesitou. Observou o copo e a garrafa de single malt, lacrada. Entre um e outro, a garrafa venceu.

Desrosqueou a tampa com mãos trêmulas. Levou a garrafa à boca e bebeu direto, como quem buscava apagar lembranças no fundo de um abismo.

As noites seguintes passaram como um jogo sombrio, como os que ele jogava na adolescência — Silent Hill, lembrou. Ambientes nebulosos, monstros internos, portas trancadas por dentro. Era assim que se sentia agora: um personagem perdido em seu próprio pesadelo.

Ele não atendeu ninguém.

Não respondeu e-mails.

Não olhou para os relatórios da Atlas Technology. Não voltou à Manhattan. Apenas existiu entre um gole e outro, tentando encontrar perdão dentro de um copo vazio.

— Me perdoa, Katniss... — murmurou certa noite, voz embargada.

Mas ela não estava ali.

E o silêncio da casa de praia devolveu o eco da sua própria solidão.

No chão da sala, com a garrafa tombada ao lado, Peeta fechou os olhos mais uma vez.

Esqueceu de si.

E se entregou à dor.


✦✦✦


O vento da manhã vinha frio, cortante, empurrando contra o corpo de Peeta enquanto corria descalço pela orla. A areia úmida amortecia seus passos, marcando o caminho atrás dele como se o tempo quisesse registrar cada fragmento do que ele estava tentando esquecer. Ou tentar entender.

Os fones vibravam com Rivals, de Sam Tinnesz — grave, metálica, perfeita para um coração quebrado e faminto de respostas.

"You were never on my side…"

A música parecia zombar dele.

Peeta apertou o passo. O ar queimava dentro dos pulmões, mas não se comparava ao fogo incômodo no peito.

Dias isolado. Dias tentando colocar ordem no caos do baile de máscaras, da revelação, do choque. Do rosto de Katniss por trás da máscara dourada e do veneno suave da verdade.

Ela o enganara. Tivera um plano. Jogara com ele desde o início.

Mas quanto mais Peeta corria, quanto mais o sal da maresia secava em sua pele, mais uma outra verdade também gritava:

Katniss Everdeen o amara. Ou algo muito perto disso.

E ele sabia.

Porque ninguém finge daquele jeito.

Ninguém mente com tanta entrega.

Ninguém inventa uma conexão que ferve no sangue.

A praia estava deserta, exceto pela casa de madeira atrás dele — a casa em que ele se escondeu do mundo, do trabalho, da família e, principalmente… dela.

Peeta passou a mão pelo rosto suado, respirando fundo.

“Você fez aquilo por minha causa… por causa de uma idiotice que eu fiz no colegial.”

As memórias voltavam como ondas que se quebravam sem piedade.

Sua versão aos dezoito anos — cercado de pessoas vazias, rindo de coisas estúpidas, repetindo provocações sem pensar. Ele queria tanto pertencer àquele grupo que deixou de perceber quem feria.

E Katniss… aquela garota silenciosa, inteligente, com olhos que viam mais do que deveriam… virou alvo de uma brincadeira que ele nem soube interromper.

Ele se odiava por aquilo.

"And now we're rivals…"

Peeta fechou os olhos por um instante. A imagem dela veio de imediato.

Katniss na academia, nas discussões de marketing, nos jantares, nas provocações, nas trocas de mensagens ousadas, nas fantasias e brincadeiras nada inocentes, nos beijos e na cama.

Katniss rindo dele.

Katniss desafiando-o.

Katniss mordendo seu lábio no escuro.

Katniss tremendo nas mãos dele.

Katniss… escolhendo-o.

E ele a escolheu — todas as vezes.

A respiração dele começou a falhar, não pelo cansaço, mas pela saudade que se infiltrava como veneno lento.

Ele nunca tivera isso com Glimmer.

Nunca houve intensidade, entrega ou verdade.

Com Glimmer, havia uma imagem perfeita: o noivado dos sonhos, os sorrisos de revista, o casal “ideal” para campanhas corporativas.

Com Katniss… havia vida.

A vida inteira.

O jeito como ela o provocava, o puxava, o acertava onde doía… e onde curava.

Ele nunca se sentiu tão visto — e tão desarmado — quanto com ela.

Peeta desacelerou, parando próximo à arrebentação. O mar avançava e recuava, molhando seus pés. Ele inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos enquanto a brisa abafava o som do mundo.

— Droga, Katniss… — sussurrou.

Ele sentia falta dela.

Do toque.

Da voz.

Da teimosia.

Dos olhos que diziam verdades sem pedir permissão.

Mas, no fundo, o que mais doía era saber que ela só o procurou por vingança.

Por algo que ele fez quando era apenas um garoto estúpido tentando ser alguém que não era.

E, mesmo assim — mesmo com tudo, mesmo com a dor — Peeta sabia, se Katniss batesse à porta daquela casa agora, ele não teria forças para mandá-la embora.

Porque ele nunca pertenceu aos “amigos” do passado.

Nunca pertenceu ao noivado com Glimmer.

Nunca pertenceu à vida impecável que tentaram desenhar para ele.

Ele pertencia a ela.

A Katniss.

A sua bagunça.

A sua luz e sua escuridão.

A tudo que ela despertava dentro dele.

A música terminou.

Peeta abriu os olhos.

E continuou correndo.

Não para fugir.

Mas porque, ele precisava chegar em algum lugar — e talvez esse lugar fosse de volta para ela.



✦✦✦


— Peeta...

Ele não se virou de imediato. Os ombros se contraíram quase imperceptivelmente, como se seu nome tivesse despertado algo antigo. Algo que enterrava desde o momento em que a viu fugir dele no colegial.

Katniss deu um passo à frente.

— Você é real, não é? — Continuou ela, mais suave. — Achei que talvez... que talvez estivesse só me torturando, vendo coisas...

Lentamente, Peeta se levantou, virou o rosto. Os olhos estavam vermelhos, fundos. Mas vivos.

Ele a encarou. E a realidade pareceu vacilar, como se desse um passo para trás para deixá-los no centro.

— Eu não sei o que você quer agora — disse ele, a voz rouca, quase um sopro.

Katniss o olhou nos olhos. Os dela já marejavam.

— Quero que você me odeie… se isso te salvar de me amar de novo.

Peeta não respondeu de imediato. Apenas a puxou contra o peito, apertando-a como quem segura uma lembrança à beira do esquecimento. Uma lágrima solitária escorreu por seu rosto.

— Nunca deixei de te amar.

E não foi preciso mais nada.

Voltaram para a casa em silêncio, lado a lado, como se os passos os mantivessem unidos apesar das cicatrizes que ainda sangravam. Assim que cruzaram a porta, ele a beijou. Primeiro com a delicadeza de quem toca uma flor prestes a despetalar. Depois com a urgência de quem precisa respirar após ficar tempo demais submerso.

Foi um beijo que implorava perdão e oferecia redenção.

Ele arrancou o sobretudo dela sem abandonar seus lábios. Katniss tirou a blusa dele e em um rompante desesperado, ele a ergueu carregando para o andar de cima. Cada restante de roupa foi tirada como se fosse a primeira vez deles. Fizeram amor como se o tempo tivesse parado para deixá-los inteiros de novo. Sem pressa. Sem vergonha. Sem o peso do passado. Cada toque era uma súplica muda, cada suspiro, um pedido de perdão. As mãos trêmulas exploraram com reverência, os olhos cheios d’água revelavam tudo que as palavras jamais conseguiram dizer.

Um corpo curando o outro. Um amor que sangrava, mas ainda resistia.

Peeta percorreu cada parte dela com os dedos, como quem decora um mapa de volta pra casa.

— Senti tanto sua falta… — murmurou, a voz embargada.

— Eu te amo, Peeta Mellark — sussurrou ela, contra os lábios dele. — Te amo com tudo o que ainda me resta.

— E eu te amo mais do que a própria vida. Mais do que o ar que respiro. — Ele a beijou de novo, com desespero e devoção, arrastando-a com ele para um mundo onde só existia o “nós dois”.

E ali, em meio a lençóis revirados e sentimentos despidos, eles se encontraram de novo. Não como antes. Mas como agora — machucados, sim, mas inteiros um no outro.

Mais tarde, o silêncio da madrugada os envolvia na sala. A lareira crepitava baixo, mas o calor mais intenso vinha do que havia entre eles — não das brasas, mas da verdade. Peeta estava sentado em uma poltrona, os cotovelos apoiados nos joelhos, o copo de single malt largado no chão como se já não tivesse mais serventia.

Katniss, envolta num robe de linho, sentou-se em seu colo. Suas mãos entrelaçaram-se às dele.

Os olhos dele estavam vermelhos — não por causa da bebida, mas por tudo que não fora dito antes.

— Depois do que fiz com você... naquela adolescência estúpida... — falou ele, num fio de voz. — Tudo desabou. Dentro de mim. Ao meu redor. Eu te procurei por anos. Só queria te dizer que… que eu sinto muito. Por cada dor. Por cada marca que deixei em você.

Ela apertou as mãos dele contra o próprio peito nu.

— Nada disso importa mais. Eu também fiz escolhas terríveis. Mas mesmo depois de tudo... ainda é você. Sempre foi.

Ele a puxou para mais perto, como se o mundo lá fora pudesse tentar levá-la de novo.

— Então fica. Por favor. Fica pra sempre.

Ela o beijou no peito, bem onde o coração batia acelerado.

— É tudo que eu mais quero.

E então ela contou.

Sobre a verdade. Sobre Otho. Sobre a mentira cruel que o separou do pai.

Peeta não chorou. Não gritou. Apenas congelou.

Como se dentro dele o tempo tivesse parado.

— Ele está vivo? — sussurrou. — Ele é meu pai e… está mesmo vivo?

Katniss assentiu, olhos marejados.

— Sim. Gale descobriu tudo. Alma e Snow o esconderam. Ele teve um AVC, mas ainda está lá. Ele é seu pai, Peeta. De verdade.

Ele ficou em silêncio. O olhar perdido. Como se tentasse sustentar um universo desmoronando.

— Gale? — Peeta a encarou confuso.

— Eu conheci Gale há uns anos e o contratei para virar sua vida do avesso e descobrir qualquer coisa sobre você. Gale é na verdade, detetive. Ele se disfarçou de seu motorista. E, pouco tempo descobriu sobre seu pai e o que aconteceu realmente — explicou ela.

— Gale sempre foi fiel, mas o que ainda não compreendo é sobre minha mãe e o Snow... Por quê? — perguntou, num sussurro.

Ela o abraçou.

— Porque poder sempre falou mais alto pra eles. Porque te quebrar significava controlar você. Mas agora... agora, você pode vê-lo. Pode dizer tudo ao seu pai. Tudo o que nunca pôde.

Peeta apertou os olhos, lutando contra o choro.

E dessa vez, não era de dor.

Era luto pelos anos que lhe foram roubados.

Mas também... era esperança pelo que ainda poderia recuperar.

Notas finais
É isso pessoal, espero que tenham curtido o capítulo e volto em breve com a continuação. Me digam nos comentários o que esperam daqui pra frente. Beijos e ótimo FDS a todos!