Notas iniciais
[AVISO] Capítulo +18🔴 Bom dia a todos, era pra eu ter postado ontem, mas não consegui. O capítulo ficou bem grandinho, porém dinâmico, venho trabalhando nele um tempo já e creio que consegui colocar tudo que precisava, espero de coração que gostem. Bem no início do capítulo tem uma música rolando, pra quem gosta de saber o que se passa no enredo (pois sou dessas, gosto de sentir toda vibração da escrita) então deixo aqui o nome da música e referência pra vcs ouvirem na plataforma musical preferida de vcs (Hell - Andrea Farri) essa música é uma das trilhas sonoras do filme O FABRICANTE DE LÁGRIMAS. Bem, eu não gosto de falar isso, pois creio que cada um tem liberdade de expressar ou não expressar, mas confesso que sinto muita falta de ler comentários de vcs pra saber o que estão achando, eu amo escrever e ainda estou um tanto viciada em escrever nessa categoria apesar de ter muitos enredos engavetados em original. Eu tenho vivido momentos bem difíceis com minha mãe com a saúde frágil e um outro assunto bem mais complicado, mas a escrita tem me ajudado a sanar essa turbulência e adoraria receber um colo de vcs(ñ é drama, juro kkkk) reconheço que a rotina de cada um é desgastante e nada fácil, mas uma interação vez em quando é libertador ❤️ Sem mais delongas... enjoy!


O clube era um antigo teatro transformado em templo do neon. Flashes de luzes que piscavam em sincronia com a música, intensificando a atmosfera da pista de dança que criavam efeitos visuais impactantes. Batidas eletrônicas vibrando pelo chão e corpos dançando como se o amanhã não importasse.

Peeta entrou encontrando Johanna no bar, mas assim que seus olhos localizaram Katniss, o mundo pareceu parar.

Ela usava um cropped preto rendado de mangas compridas, colado ao corpo. A pele aparecia sutilmente por entre os desenhos do tecido. A saia rodada curtíssima acompanhava os movimentos dos quadris enquanto ela dançava com Delly. O salto alto alongava suas pernas e quando girou de costas, ele viu, a tatuagem do infinito no fim da coluna.

Foi ali que ele perdeu a batalha.

Delly deu um toque para a amiga olhar em direção ao bar, Katniss percebeu o olhar dele.

A sorte estava a seu favor, as batidas da música Hell ecoando conforme o jogo de luzes, apenas a ajudava a usar suas armas.

Ela sorriu. E provocou — dançando com mais intensidade, virando o rosto devagar, mordendo o lábio com leveza.

Peeta cruzou a pista em poucos passos.

— Katniss — chamou, quase sem voz.

Ela se virou para ele, os olhos brilhando sob as luzes. Antes que ela respondesse, ele segurou sua mão e a puxou para um corredor lateral, mais escuro, com uma escada metálica ao fundo.

Lá, ele a prensou contra a parede, as mãos espalmadas sobre a textura fria, uma de cada lado do rosto dela, criando uma barreira íntima os isolando do resto do ambiente. O corpo dele inclinado em direção ao dela, transmitindo desejo contido e foco absoluto.

— Você é uma garota em chamas. — A voz dele era grave, cravada de desejo. Seu olhar, firme e profundo, fixado diretamente nos olhos dela. — E virou o meu inferno desde que entrou na Atlas.

Ela sorriu, provocativa.

— E agora?

— Agora... — Ele se aproximou mais. — Agora eu só quero me queimar.

Katniss ergueu o rosto.

— Então queima comigo.

O beijo que veio depois foi ainda mais intenso que o primeiro. Cheio de fome, verdade e promessas silenciosas. Ali, entre batidas eletrônicas, cicatrizes e vontades, dois passados quebrados começavam a construir algo novo — ardente e impossível de ignorar.

Johanna mal teve tempo de entender o que estava acontecendo quando viu Peeta atravessar a pista de dança puxando Katniss pela mão, os olhos cravados somente nela.

Delly arqueou uma sobrancelha, mas Johanna apenas sorriu de lado, sabendo exatamente o que aquilo significava.

— Eles vão longe... — murmurou, levantando o copo.

Peeta empurrou a porta lateral do clube e guiou Katniss com pressa até a Lamborghini preta, que esperava sob as luzes refletidas da cidade. O ronco do motor preencheu o silêncio entre eles, mas não havia desconforto — apenas uma eletricidade vibrando no ar, como se tudo estivesse prestes a explodir.

No subsolo de seu prédio, a tensão atingiu o limite.

As portas do elevador se abriram e, antes mesmo que pudessem fechar novamente, Peeta a puxou pela cintura e a prensou contra a parede metálica, sua boca colidindo com a dela em um beijo cheio de fúria e desejo acumulado. Era um fogo represado e agora queimava sem controle.

Katniss sabia que não deveria ceder. Cada segundo ao lado dele era um risco — um lembrete de que seu plano era vingança, não paixão. Mas quando os lábios dele esmagaram os seus, quando as mãos grandes percorreram suas costas e encontraram a barra da saia, ela não pensou em nada além de sentir.

Era como se toda a raiva acumulada durante anos tivesse encontrado uma nova forma de existir. Transformara-se em algo selvagem, faminto, perigoso. Peeta era o catalisador. Ele despertava nela algo que ninguém jamais fora capaz – uma ânsia voraz, quase dolorosa, de ter, de possuir, de se entregar.

Chegaram à cobertura sem nem perceber o caminho. Peeta digitou a senha com um gesto automático, os olhos presos nos dela, como se tudo ao redor tivesse se tornado irrelevante. A porta mal se fechara e já estavam se devorando de novo. Ele arrancou a saia habilmente, enquanto ela se ocupava em abrir a camisa grafite dele com dedos trêmulos de desejo.

Ela arfou quando ele a ergueu com facilidade, as pernas envolvendo sua cintura em um movimento natural, inevitável. Cada passo até o quarto era marcado por urgência, por uma fome que não conhecia limites.

Mas quando Peeta a deitou sobre a cama e começou a despir a blusa rendada dela com cuidado, Katniss fez algo inesperado, tocou o rosto dele com delicadeza. Seus olhos ardiam, mas não de inocência — e sim da consciência crua da escolha que estava prestes a fazer.

— Peeta... — Sua voz saiu baixa, quase um segredo. — Eu nunca fiz isso.

Ele parou. O espanto passou rápido, substituído por um respeito profundo que a atingiu em cheio.

— Nunca? — sussurrou, incrédulo.

Ela sustentou o olhar dele com firmeza, como quem assume um papel num palco, sem permitir vacilo.

— Nunca achei que alguém merecesse.

Era verdade. Nenhum homem, rosto ou toque havia despertado nela algo que fosse além da apatia. Não era pudor. Era ausência. Até agora. Porque nele, naquele toque, naquele fogo, Katniss descobria que a raiva podia se transformar em paixão. Que seu ódio podia ser combustível para um desejo ainda maior.

Peeta respirou fundo, passando a mão pelos cabelos, tentando organizar a avalanche que aquilo provocava. Quando voltou a encará-la, havia reverência, mas também uma chama incontrolável.

Deitou-se ao lado dela e passou o polegar com delicadeza por seu lábio inferior.

— Se você é virgem... — murmurou ele, ofegante. — Como beija desse jeito enlouquecido? Me faz doer até as entranhas, sabia?

Katniss sorriu, maliciosa, os olhos brilhando de desafio se apoiando sobre os cotovelos.

— Eu posso até ser virgem, Peeta... — sussurrou ao ouvido dele. — Mas não sou nenhuma freira. Dá pra fazer outras coisas sem ir além... Sexo não se resume a uma única forma.

— Já entendi, você é virgem, mas não puritana. — Ele riu com a garganta, rouco, antes de voltar a beijá-la.

— Sou uma mulher curiosa... gosto de entender meu corpo. Gosto de sentir... — disse ela, a boca entreaberta, colada à dele. Ela sorriu — um sorriso perigoso, feito de desafio e rendição.

O beijo que veio depois não era só de paixão. Era guerra. Era um duelo onde nenhum dos dois queria perder. Ela mordia os lábios dele com raiva, ele a puxava mais fundo com fome. Cada toque era uma luta e cada gemido, uma rendição.

Quando ele desviou os lábios em direção as pernas, descendo para beijá-la com devoção, Katniss agarrou os lençóis, a respiração entrecortada, o corpo arqueando em puro instinto. Nunca ninguém a havia feito sentir algo tão devastador. Sua mente gritava que aquilo era perigoso, que Peeta Mellark era o alvo a ser destruído.

Mas naquele instante, entre gemidos e tremores, a vingança se dissolvia em prazer.

Ela chegou ao clímax com lágrimas nos olhos — não de fragilidade, mas de fúria e desejo misturados. Cada onda de prazer era também um lembrete cruel — o homem que ela precisava destruir era o mesmo que fazia seu corpo vibrar como nunca.

Quando Peeta ergueu o rosto, traçando com a boca o caminho pela barriga até o seio, a respiração quente dele provocou nela uma mistura de arrepios e cócegas, Katniss o puxou capturando seus lábios, desesperada, sentindo o gosto de si mesma na boca dele. Um beijo quente, brutal, que parecia querer apagar qualquer vestígio de razão.

— Eu preciso de você... — gemeu, a voz carregada de urgência, mandando o plano ao inferno por um breve instante.

Peeta fechou os olhos, o peito subindo e descendo rápido. Ele a queria, por inteiro. Mas não se tratava apenas de desejo. Para ele, era mais. Queria ela. Queria tudo dela. Mas... não assim. Não ainda.

Para ela... era vingança disfarçada de paixão.

— Eu não vou além com você hoje... Já que gosta de sentir, então você vai sentir... vamos deixar o próximo nível para um outro dia. E vou torná-la inesquecível.

Ela sorriu, com o coração disparado.

Porque amar, odiar e desejar eram só variações da mesma chama. E com Peeta Mellark, ela ardia como nunca.

Mas aquilo não podia acontecer.

Você está aqui para destruí-lo, gritava sua mente.

Então por que seu corpo o deseja tanto?

Murmurava seu coração.

E ainda assim, naquele momento, Katniss escolheu se deixar consumir pelo fogo.

Num impulso, ele se afastou, respirando fundo. Levantou-se, estendeu a mão e sorriu.

— Vem comigo.

Katniss hesitou por um segundo... e aceitou.

No banheiro, o mármore branco refletia a luz suave do teto. O som da água preenchia o ambiente.

Nus, debaixo da água quente, Peeta deslizou as mãos pelo corpo dela, venerando cada parte. Ela, ali tão entregue, não era apenas uma fantasia como vinha criando em sua mente bagunçada, era real. A água escorria pelos corpos colados e Katniss arfava contra o ombro de Peeta enquanto ele a explorava como se quisesse decifrá-la por inteiro. Seus dedos desceram pelas costas dela, até a base da coluna, e ali pararam.

Ele traçou com a ponta do indicador a tatuagem fina e negra.

Peeta sorriu, surpreso.

— Enlouqueci quando vi isso enquanto você dançava. — A voz baixa, embriagada pelo toque dela e pela intensidade da cena. — Que significa?

Katniss mordeu o lábio inferior, pensativa. Ela adorava esse jogo — dar o suficiente para mantê-lo intrigado, nunca o bastante para saciá-lo.

— Infinito vezes infinito — murmurou, os olhos fixos nos dele. — Uma lembrança.

— Do quê?

Ela inclinou o rosto, os lábios quase tocando os dele. O sorriso que veio depois era calculado, afiado, quase cruel em sua sutileza.

— Do dia em que eu decidi que nada em mim seria pequeno novamente. Nem a dor. Nem o ódio. Nem a vontade de ser lembrada.

Peeta ficou em silêncio por um segundo. A intensidade do olhar dela o deixava desnorteado — como se ela escondesse algo enorme por trás de cada palavra medida.

— Parece... pesado — disse ele, curioso. — Como se tivesse marcado isso por alguém.

Ela riu de leve, provocativa.

— Talvez eu tenha.

— Ele te magoou? — perguntou, sem nem perceber a tensão que surgiu na pergunta.

Katniss apenas inclinou o rosto, deixando um beijo lento em seu queixo.

— Ele foi o catalisador de tudo que eu sou hoje — respondeu com doçura, e um leve veneno.

Peeta sorriu, fascinado, sem entender por que aquela frase o gelou por dentro.

Katniss o puxou novamente para um beijo e deixou que a água levasse embora qualquer rastro da verdade. Não havia lógica, apenas pele, apenas instinto. Ela o tocou de volta, com a mesma fome, como se buscasse devorar e ser devorada. Seus dedos exploraram com ousadia, descobrindo cada detalhe do que fazia Peeta Mellark perder o controle.

Ele gemeu, baixo, rouco, encostando a testa no ombro dela, murmurando seu nome como se fosse uma prece.

E naquele som, naquela devoção crua, Katniss sentiu o mundo girar.

Ali, no calor do chuveiro, eles se despiram não apenas das roupas, mas das defesas. Um sexo feito de toques, de prazer mútuo, de uma entrega que não precisava de penetração para ser devastadora.

No entanto, enquanto Peeta distribuía beijos e leves mordiscadas contra a pele quente do pescoço dela, Katniss tentou buscar em sua memória qualquer traço que ligasse aquele homem ao outro — o Peeta do passado, aquele que se aproximara apenas para iludir, humilhar, descartá-la. Procurou no olhar, no gesto, no suspiro. Mas não havia semelhança alguma.

E isso a enfureceu.

Porque não conseguir associá-lo ao inimigo a desarmava.

Porque aquele toque parecia verdade demais.

Porque aquele desejo parecia sincero demais.

Então, ela se agarrou à única âncora que lhe restava, não àquela âncora tatuada no centro das escápulas de Peeta, mas ao plano.

Aquilo era apenas parte do disfarce. Era isso que ela repetia para si mesma, como um mantra.

Mesmo que, no fundo, soubesse que não era só isso.

Ali, no calor da água, o mundo deles mudou para sempre.

E nenhum dos dois sabia... se aquilo era o começo da redenção ou da perdição.

Ela havia marcado a própria pele não por saudade, nem por dor romântica — mas por uma promessa.

Uma missão.

Um lembrete gravado no corpo da mulher que deixaria um homem de joelhos.

Peeta saiu do box primeiro, com uma toalha branca envolta na cintura. A luz do banheiro realçava os contornos dos ombros largos e dos músculos definidos. Ele parecia uma tentação feita carne. Katniss teve que morder os lábios para reprimir um xingamento. Ele pegou uma segunda toalha e envolveu Katniss com cuidado, colando um beijo terno em sua testa antes de seguir até o closet.

O espaço era impecável, organizado, frio. Diferente do turbilhão que havia acabado de acontecer entre eles. Peeta puxou uma camiseta de algodão macio e um short de dormir. No corpo de Katniss, ficaram largos, quase ridículos, mas nele, aquilo a deixava ainda mais irresistível.

Ela surgiu minutos depois, cabelos soltos e úmidos caindo pelos ombros, a camiseta descendo até uma coxa nua. Peeta a observou em silêncio, mordendo o lábio inferior, como se aquela visão fosse o bastante para fazê-lo perder o juízo de novo. Havia algo de avassalador na simplicidade dela. Ela não precisava se esforçar para deixá-lo completamente rendido.

— Isso é tudo que você tem pra me oferecer? — Katniss provocou, escondendo sua vulnerabilidade atrás de sarcasmo.

— Por enquanto... — Peeta sorriu de lado. — Mas tenho outras ideias melhores.

Ela arqueou a sobrancelha, divertida, mantendo o controle da cena como se fosse uma atriz que sabia exatamente o papel que precisava desempenhar. E seguiu com ele até a cozinha.

A cobertura estava silenciosa, iluminada apenas pelas luzes de Manhattan piscando pelas janelas de vidro.

Peeta abriu a geladeira. Vasculhou prateleiras e armários.

— Preciso dizer a Ripper para fazer compras... — murmurou, tirando de lá dois pacotes de batata chips e duas latas de Schweppes Citrus.

— Gourmet. — Katniss zombou, pegando a bebida.

— Gourmet desesperado — corrigiu ele, rindo.

Sentaram-se no chão da cozinha, encostados na bancada, dividindo comida barata como se fosse um banquete. Entre um gole e outro, os olhares se encontravam. E no silêncio entre eles, havia uma familiaridade absurda. Um conforto que Katniss não queria sentir.

Mais tarde, já limpos e escovados, recolheram-se ao quarto. Peeta ergueu os lençóis e ela se deitou ao lado dele. Ele a puxou contra o peito nu, o braço forte envolvendo sua cintura.

Katniss deixou os dedos deslizarem suavemente pelo peito dele. Desenhava linhas invisíveis, como se gravasse cada centímetro na memória. Como se quisesse guardar o inimigo inteiro na pele antes de destruí-lo.

Peeta se arrepiou, sorrindo com um suspiro rouco.

— Isso é tortura.

Ela não respondeu. Continuou, até que o corpo amoleceu contra o dele, os olhos se fecharam e o sono a tomou.

A cabeça repousava sobre o peito que ela jurava odiar. O peito que agora parecia seu único abrigo.

Peeta, desperto, manteve o olhar fixo no teto. Cada respiração dela contra sua pele era uma sentença — estava se afundando cada vez mais.

E, pela primeira vez... não queria se salvar.


✦✦✦


Katniss, mesmo dormindo, sonhou com fogo. O mesmo fogo que era vingança, e que agora, por sua maldita vontade, queimava também como paixão.

O sol penetrava preguiçoso pelas cortinas em listras suaves, deixando o quarto com a aparência de um sonho, talvez onde ela pudesse ser outra personagem.

Katniss abriu os olhos devagar.

O primeiro som que ouviu foi o das batidas do coração de Peeta, constante e firme sob sua orelha. Estava deitada sobre ele, o braço dele envolto em sua cintura como se seu corpo fosse a única base capaz de mantê-lo inteiro.

Ela não se moveu de imediato.

Permaneceu ali, ouvindo. Sentindo.

O calor da pele dele.

O cheiro amadeirado e discreto de sua colônia.

A forma como o peito dele subia e descia, ritmado, seguro.

Tudo aquilo... era perigoso.

Tudo aquilo... era bom demais.

E isso a assustava.

Seus dedos deslizaram com leveza pelo abdômen dele, e os músculos responderam de imediato, como se reconhecessem o toque dela mesmo em meio ao sono. Peeta ainda dormia, a expressão relaxada, os cílios dourados pousados sobre a pele clara, a barba rala sombreando o maxilar.

Ele era lindo. Real.

E, naquele instante, dela.

Katniss fechou os olhos por um segundo. Queria aprisionar aquela imagem, congelar o instante em um lugar onde nem o passado, nem a dor, nem o peso da vingança pudesse alcançá-la.

Mas o pensamento veio como uma lâmina fria...

Não se esqueça.

Ele é o homem que você jurou derrubar.

Ele é parte do plano.

Peeta abriu os olhos lentamente. Ainda sonolento, mas com um sorriso suave.

— Você está aqui mesmo? — perguntou, a voz rouca da manhã.

— Não sei... — murmurou ela, brincando, os olhos nos dele. — Você quer que eu esteja?

Ele passou o dorso da mão pelo rosto dela.

— Sempre.

O peito dela se apertou. Por um segundo, quis dizer que também queria.

Mas não disse. Se inclinou, apenas, e o beijou devagar. Um beijo calmo, sem urgência, que dizia coisas que ela não podia permitir que fossem ditas em voz alta.

Peeta retribuiu com ternura, os dedos traçando círculos lentos nas costas dela.

Quando se afastou, manteve-a perto, o polegar acariciando a lateral da cintura.

— Fica comigo hoje — sussurrou. — Só nós dois.

Katniss hesitou. Uma parte dela gritou “sim”. Mas a outra — a parte que lembrava da cicatriz, do juramento, da missão — tomou o controle.

— Hoje é sábado... — suspirou. — É a inauguração do SPA da minha mãe. Se eu faltar, ela me mata.

Peeta assentiu, mas ela viu a sombra cruzar o olhar azul dele.

— Tudo bem... só achei que talvez você quisesse ficar mais um pouco.

— Eu queria. E adorei o que senti ontem... de verdade. Foi mais do que eu sabia que precisava. Mas não posso deixar minha mãe na mão. — Ela o tocou no rosto, gentil, sincera o suficiente para convencê-lo. Mas dentro dela, a lembrança ecoava, não se trata do que eu quero. Trata-se do que eu preciso fazer.

— Entendi — disse apenas. Peeta se levantou da cama e pegou o celular. Ligou para Gale e deu instruções rápidas. — Pedi pra ele passar numa loja no shopping. Você não vai sair daqui com a roupa da festa... — Lançou um olhar sugestivo para a roupa que havia improvisado como pijama. — Quero que vá com algo que condiz com sua beleza e elegância de sempre.

— Você está me vestindo agora? — provocou ela, cruzando os braços enquanto imaginava seu aliado Gale comprando roupas e até lingerie para ela.

— Estou te devolvendo ao mundo do jeito que merece — respondeu ele, com um sorriso que misturava carinho e desejo contido.

Cerca de quarenta minutos depois, Gale voltou com sacolas discretas e elegantes. Katniss abriu cada uma com curiosidade — um short alfaiataria off-white com corte leve e sofisticado, uma blusa riscada vintage, um vestido primaveril de alcinha, salto branco de tiras finas e até uma nécessaire com maquiagem básica e perfume delicado.

Ela se vestiu no closet de Peeta, onde o espelho de corpo inteiro refletia cada curva dela envolta naquele cuidado.

— É, devo confessar... — disse ela, girando sobre os calcanhares. — Você acertou meu tamanho.

Peeta, escorado no batente da porta, com os braços cruzados, a observava em silêncio. Havia admiração nos olhos dele. Mas também um certo medo. Medo de que aquela noite tivesse sido só isso — um capítulo isolado.

Katniss ao se aproximar dele com a roupa impecável, o sorriso no canto dos lábios dela já era outro. Controlado. Calculado.

— A gente se vê por aí, Mellark? — sussurrou.

— Não vou parar de te ver nem que queira.

Ela o beijou rápido, deixando nele um gosto de fogo. E saiu.

O rastro do perfume ficou no ar, junto com a lembrança da noite.

Peeta permaneceu parado, olhando a porta. Com a sensação de que aquela mulher não entrara em sua vida por acaso.

E que, se ela fosse uma armadilha... ele já estava preso.

Katniss, do lado de fora, ajeitou os óculos escuros no rosto.

O coração ainda martelava com o gosto dele nos lábios.

Mas, em silêncio, repetiu o que precisava ouvir...

Não se esqueça, Katniss. Ele é o alvo. Não o abrigo.


✦✦✦


O brunch estava impecável.

O novo SPA “Aurum”, um projeto de Asterid Everdeen em sociedade com outras empresárias de renome, havia sido cuidadosamente montado para transmitir sofisticação e bem-estar. Mármores claros, plantas pendentes, sons suaves de piano ao fundo e garçons circulando com taças de mimosa e canapés veganos completavam o ambiente.

Katniss entrou com passos firmes, como se estivesse em casa. Seu vestido leve e elegante, o cabelo perfeitamente pra cima em um volumoso rabo de cavalo, tudo nela exalava uma naturalidade intocada. Nenhum olhar diria que ela havia passado a noite fora — muito menos nos braços de Peeta Mellark.

Ela pegou uma taça da bandeja em que o garçom servia, o vidro gelado encontrou seus lábios, mas o sabor doce-ácido da mimosa não foi capaz de apagar o gosto que ainda carregava da boca dele.

Katniss fechou os olhos por um instante, deixando a brisa fresca de Manhattan arrepiar sua pele. Bastava isso — uma lembrança — e seu corpo já a traía.

Peeta era um veneno lento. Um que corria pelas veias com uma doçura perigosa.

E o pior? Parte dela queria mais.

Ela apertou o cristal entre os dedos quase o quebrando.

“Não se esqueça do script, Katniss”, murmurou para si mesma.

Ela não era a mocinha da peça, nem a donzela perdida no olhar de um homem. Não.

Era a atriz principal.

Era quem ditava as falas, os gestos, os aplausos.

Ele pode tê-la tirado do eixo, mas não mudava o desfecho do espetáculo — Peeta cairia.

O coração dele seria palco da sua vingança, mesmo que, para isso, ela tivesse que se despir em todas as cenas.

Asterid a avistou de longe e caminhou até ela com o porte de quem sempre teve tudo sob controle.

— Pensei que se atrasaria — comentou, entregando um beijo leve no rosto da filha, mas os olhos analisando os mínimos detalhes.

— Nunca perderia sua inauguração. — Katniss sorriu. —Tudo está lindo mãe, parabéns!

Asterid assentiu, orgulhosa. Mas seu olhar de mãe não era facilmente enganado.

— Você parece... diferente. Aconteceu alguma coisa?

Katniss hesitou. A fragrância familiar da mãe a envolveu — um misto suave de flores delicadas e notas amadeiradas que sempre pareciam aquecer o coração. Era o cheiro que a acompanhara na infância, quando acordava com o barulho suave da mãe iniciando o dia, trazendo uma sensação de conforto e leveza. Naquele instante, Katniss não sentiu apenas o perfume, mas todo o peso da memória que ele carregava — a segurança, a ternura e a lembrança de que, apesar de tudo que elas passaram com o luto de Prim, ainda havia um lugar que lhe era lar. Ela engoliu em seco e disfarçou.

— Só dormi melhor do que o normal — respondeu com um sorriso contido.

A mãe não insistiu. Mas algo em seu semblante sugeria que havia anotado mentalmente a resposta para revisitar mais tarde.

O evento prosseguiu entre discursos, brindes e fotos. Katniss cumprimentou socialites, executivas e influencers da alta sociedade de Manhattan com toda etiqueta e elegância que a mãe a treinara desde cedo. Mas por dentro... sua mente ainda estava na cobertura de Peeta. No cheiro dele. No toque. No jeito como ele a olhou depois de tudo.

Por que aquele homem a desestabilizava tanto?

Foco, Katniss, foco!

Pegou outra taça de mimosa da bandeja de um garçom e se afastou discretamente até uma das varandas do SPA, onde a cidade se estendia à frente dourada pelo sol da manhã.

Inspirou fundo.

Ela estava ali para se vingar. Para fazê-lo sofrer.

Mas tudo nela ainda queimava com o calor da noite anterior.

Enquanto isso, Peeta permanecia em seu apartamento, parado diante das janelas de vidro que iam do chão ao teto, com uma caneca de café quente entre as mãos.

Pensava nela.

Em como Katniss parecia se encaixar tão perfeitamente em seus braços. Como a respiração dela desacelerava contra seu peito. Como os olhos dela carregavam o universo...

Ele odiava aquele vazio que veio depois que ela partiu. Como se seu amplo apartamento tivesse ficado ainda maior, silencioso demais.

As inseguranças que carregava vinham como ecos — o medo de ser enganado novamente, de amar errado, de mergulhar fundo só para ser deixado sem ar.

Entretanto, mesmo com todos os alarmes soando dentro de si, ele sabia, estava perdido nela.

Pegou o celular. Encarou a tela por longos segundos. Pensou em mandar uma mensagem.

“Me avisa quando chegar.”

Ou talvez:

“Não paro de pensar em você.”

Mas, ao invés disso, digitou outro número...


✦✦✦


O sol filtrava por entre as árvores no Central Park. Peeta e Johanna corriam lado a lado na trilha, próxima ao lago, ambos ofegantes. Usavam roupas esportivas, o fone de ouvido over-ear bluetooth de Johanna entorno do pescoço, já que ela preferia conversar.

— Você me fez pular da cama em um sábado pós festa e tá mais calado que o normal... — disse ela, arqueando uma sobrancelha. — O que foi?

Peeta suspirou e diminuiu o ritmo.

— É sobre ontem à noite… depois do NIGHTCLUB.

Johanna esticou o braço e pausou o cronômetro no relógio.

— Ahn… finalmente transaram e você está se sentindo culpado? — provocou ela, mas ao notar o olhar dele, ficou séria. — Fala, Peeta.

— A Katniss... ela é virgem, Jo.

Johanna piscou.

— Espera, o quê?

— Exato isso que você ouviu. Ela me disse. A gente estava... muito perto. E ela pediu, queria. Mas eu travei. — Ele passou a mão nos cabelos molhados de suor. — Não é por não querer. Deus, eu quero. Mas... eu nunca estive com alguém assim antes. Nunca fui o primeiro de ninguém.

Johanna respirou fundo, agora caminhando ao lado dele.

— E você está assustado porque...?

— Porque eu não quero machucá-la. Sei que para as mulheres é diferente, pode até ser traumático, não quero isso... — suspirou ele, guardando para si o que houve. — E aí aparece a Katniss, com aquele jeito seguro e ao mesmo tempo tão vulnerável... e me confia isso. — Ele parou de andar. — Como eu posso fazer isso certo?

Johanna tocou o ombro dele com firmeza.

— Aaah... que fofo tinha que ser o irmãozinho do Finnick mesmo — brincou ela. — Primeiro, você é um romântico perdido. Segundo, invista nas preliminares. E terceiro... ela confia em você. Só isso já diz muito. Você não precisa fazer tudo perfeito. Só precisa estar presente. Com o coração.

Peeta assentiu, os olhos baixos. Mal sabia a amiga que não faltou preliminares entre eles.

Johanna então sorriu de lado e puxou o amigo pela camiseta.

— Mas você vai precisar de um kit de emergência.

— O quê?

Johanna tirou o celular do bolso, procurou algo, e o puxou pela mão até uma farmácia próxima da trilha.

— Vamos dar um jeito nisso.

— Como assim?

Minutos depois, Peeta estava parado na seção de cuidados pessoais enquanto Johanna largava na cestinha: lubrificante à base de água com anestésico suave, preservativos e protetor diário.

Peeta riu, envergonhado.

— Hahaha... valeu o apoio, amiga.

— De nada, amorzinho. Só quero que você seja feliz. Mas, sério... se for com amor, vai ser certo.

Peeta lembrou então de uma coisa.

— E, você como foi a primeira vez?

— Por incrível que pareça foi com o Finnick. Tínhamos dezesseis anos. Ele também era virgem. Foi fofo, meio atrapalhado, mas sincero. Eu era apaixonada por ele e ele por mim, apesar de a gente nunca ter sido oficialmente um casal. Depois ele conheceu a Annie... e eu nunca deixei de querer o bem dele.

Peeta sorriu com carinho.

— Eu lembro de você indo lá em casa... você e Finnick sempre juntos.

— E você era um nerdzinho calado e fofo que vivia à sombra dele.

— E agora?

— Agora você é um CEO que precisa transar com a garota mais gata da empresa sem ferrar tudo.

— Você é impossível. — Peeta riu, finalmente aliviado.

— E você tá ferrado, Mellark. — Johanna estreitou os olhos. — Porque quando uma mulher como a Katniss entrega o corpo... ela entrega mais do que isso. Então se não tiver pronto pra amar de verdade, melhor parar agora.

Eles riram e seguiram o caminho de volta.

Ainda era sábado. Mas para Peeta, o fim de semana já estava marcado por uma coisa, Katniss Everdeen estava mexendo com tudo o que ele acreditava.


✦✦✦


Katniss estava sentada à mesa, ao lado da mãe. Em volta, mulheres poderosas, exuberantes, envolvidas em risos e taças de espumante. O brunch transcorria com a leveza de um evento de revista — uma sinfonia de colheres de prata, batons vermelhos e filtros solares com aromas florais.

Ela acabara de mastigar o último canapé vegano — alguma coisa com tofu, trufas e uma pétala comestível — quando a música soou da sua bolsa.

Holding Out for a Hero, de Bonnie Tyler.

Alta. Icônica. Inesperada.

O riso elegante ao redor cessou por um instante. Algumas mulheres olharam curiosas, outras com divertimento contido. Katniss sentiu as bochechas arderem como se estivesse sob refletores. A trilha sonora dos anos 80 não era exatamente algo comum no brunch de inauguração do SPA mais exclusivo de Manhattan.

— Merda... — murmurou entre os dentes, puxando o celular às pressas.

Na tela, como se a música não bastasse, surgiu uma self de Peeta — sem camisa, com aquele sorrisinho cínico e olhos perigosamente azuis. Ela arregalou os olhos, sentindo o suor frio brotar na nuca.

— Desculpem, licença! — disse, já se levantando da cadeira com um sorriso amarelo e caminhou apressada, longe o suficiente para ninguém àquela mesa escutar.

Atendeu.

— O que pensa que está fazendo? — sussurrou, aflita.

Do outro lado, Peeta riu. Um riso leve, provocador.

— Gostou da self e da música? Salvei enquanto você se arrumava.

— Por pouco minha mãe viu!

— Ah, então agora vamos manter isso escondido? — O tom dele suavizou, curioso.

— Não quis dizer isso... — rebateu ela, e suspirou. — Mas o que foi? Tá tudo bem?

— Só pensei... sei lá, em te ver. Te tirar daí. Te roubar por umas horas.

Katniss sorriu, mesmo tentando manter a compostura.

E era isso que a enfurecia. Como ele conseguia quebrar suas defesas sem esforço algum?

Parte dela queria dizer sim. Deixar o brunch, a fachada e se perder na bagunça de Peeta.

Mas a outra parte lembrava do plano. Do peso do sobrenome Mellark. Do passado que ainda ardia como brasa.

— Depois a gente conversa. Minha mãe já tá olhando pra cá com aquele faro aguçado. Ela sente cheiro de macho no ar.

— Vai me chamar de macho agora? Tô ganhando pontos.

— Tchau, Peeta — disse em tom ameaçador, mas divertido, antes de desligar.

Mal voltou à mesa e o celular vibrou de novo. Ela o colocou no colo, discretamente, e desbloqueou a tela.


[9:45] P – Ainda tô esperando minha heroína. 👀


Ela riu, digitando rapidamente por baixo da toalha da mesa.


[9:46] K – Heroína está ocupada com damas da alta sociedade e canapés sem gosto. 🥴


[9:48] P – Se quiser, eu te sirvo um café da manhã sem roupa amanhã. Também tem gosto duvidoso, mas a vista compensa.


Katniss arregalou os olhos e mordeu o lábio, tentando disfarçar a risada.


[9:49] K – Isso foi uma cantada ou uma ameaça?


[9:51] P – As duas coisas. Mas se quiser, posso melhorar. 😏


[9:53] K – Melhor não, ou vou ter que sair dessa mesa e ninguém vai acreditar que é só TPM.


[9:55] P – Ok... mas só porque você me pediu com tanto charme. Miss Everdeen, estamos longe... mas sua boca ainda está na minha.


[9:57] K – Cala a boca, Mellark.


[9:58] P – Você que começou. 😈


Ela bloqueou o celular com um suspiro profundo, tentando se recompor. Quando olhou para o lado, sua mãe a encarava com aquele olhar enigmático.

Katniss ergueu a taça e sorriu, como se nada estivesse acontecendo.

Mas dentro dela... o corpo ainda queimava.

O desejo pulsava como fogo sob a pele.

O plano, como gelo cravado no coração.

E talvez fosse isso que tornava tudo tão viciante:

Se entregar a Peeta Mellark era arriscar sua vingança.

Mas mantê-lo distante... era arriscar a si mesma.

O brunch se aproximava do fim.

Convidadas começavam a se dispersar após os últimos discursos de agradecimento. Taças vazias deixadas sobre mesas de vidro. Katniss já tinha feito todas as poses para fotos que sua mãe queria e cumprimentado mais socialites do que gostaria para um único sábado.

Elas deixaram o SPA sob a brisa quente de junho, Dalton o motorista da família, já aguardava. As duas entraram na SUV que as levaria de volta para o Upper East Side.

No banco, Katniss prendeu o cinto de segurança e se recostou.

— O brunch foi um sucesso — comentou. — O lugar ficou lindo.

Asterid, ao seu lado com seus óculos escuros Dior e expressão triunfante, assentiu.

— Claro que foi. Nada que leva meu nome tem permissão pra fracassar.

Katniss sorriu de lado, mas algo em sua expressão a fez mudar de assunto.

— Onde o papai foi mesmo? Não o vi desde que saí ontem.

Asterid relaxou um pouco os ombros.

— Foi pescar. Na cabana em Cold Spring. Disse que precisava de ar puro e solidão... sabe como ele é.

Katniss assentiu. O pai sempre fora mais reservado, sim, mas ultimamente ele andava especialmente distante.

— E você? — perguntou Katniss. — Vai ficar sozinha o fim de semana todo?

Asterid olhou de relance para ela, com aquele olhar que sempre sabia mais do que dizia.

— Estava pensando em passar o domingo com você. Só nós duas. Faz tempo, não?

Katniss ergueu as sobrancelhas, surpresa, mas genuinamente tocada.

— E o que a magnata dos spas e skincare quer fazer comigo num domingo?

Asterid sorriu.

— Clube. Tênis. Exercício e fofoca. O básico.

Katniss fingiu um suspiro dramático.

— Tudo bem. Mas só se eu puder usar a sua raquete da sorte.

Enquanto o carro seguia pela Park Avenue, o celular de Katniss vibrou discretamente.

Peeta Mellark ligando. De novo.

Ela ignorou. Até quando conseguiria equilibrar desejo e vingança sem se destruir no processo?

— Você anda diferente, Kat — comentou a mãe.

— Diferente como? — perguntou, tentando soar desinteressada.

— Não sei... — Asterid cruzou as pernas, ainda elegante apesar do cansaço do evento. — Parece mais... distraída.

Katniss deu uma risadinha curta.

— Talvez seja o efeito colateral de conviver com influencers que falam mais de colágeno do que de política mundial.

A mãe arqueou uma sobrancelha, não convencida.

— Distraída... e com um certo brilho nos olhos.

Katniss desviou o olhar para a janela. O reflexo da cidade deslizava como um palco de luxo, mas dentro dela o cenário era outro — o toque de Peeta ainda queimava na pele, como se ele tivesse deixado marcas invisíveis que nenhum banho apagaria.

— Brilho nos olhos pode ser só insolação — respondeu, seca.

Asterid riu, satisfeita em provocar.

— Amanhã vamos descobrir. Não aceito desculpas. Quero você em quadra.

— Tudo bem. Mas já aviso que se perder, vai dizer que a “minha geração é mais rápida”.

O carro parou no sinal. O celular vibrou de novo no colo de Katniss.

Uma nova notificação.


[15:45] P – Tá ocupada ou fugindo de mim?


Katniss apertou os lábios para conter o sorriso. Asterid, claro, notou.

— Quem é? — perguntou a mãe casualmente, mas os olhos atentos no reflexo do vidro entregavam sua curiosidade.

— Trabalho — respondeu Katnis, rápido demais.

E nesse instante percebeu, estava encurralada entre duas peças no mesmo palco.

De um lado, a mãe — seu orgulho, seu lar, o laço que a mantinha firme.

Do outro, Peeta — o homem que ela queria destruir... e no qual, perigosamente, também queria se perder.

Asterid voltou a se recostar no banco, satisfeita com o silêncio que provocara.

Katniss, no entanto, sentia o coração bater no mesmo ritmo acelerado das mensagens que piscavam na tela.

Entre vingança e desejo, era como caminhar sobre vidro fino.

E a cada passo, a fissura se aprofundava.


[15:47] K – Estou com minha mãe. Ela quer passar o domingo comigo. Clube, tênis, tortura emocional.


[15:48] P – Clube? Qual?


[15:50] K – O Vanderbilt, claro.


[15:52] P – Hmm... olha só. Coincidência, adoro tênis. E tortura.


[15:54] K – Se aparecer lá vou te ignorar solenemente. 😌


[15:56] P – Ok. Vou só passar pra tomar um drink e fingir que tropecei em você.


[15:57] K – Idiota.


[15:58] P – Seu idiota.


Ela guardou o celular tentando não sorrir, mas o rubor já lhe subia às bochechas.


✦✦✦


No domingo, o céu estava absurdamente azul. O Vanderbilt Club parecia saído de um cartão-postal de verão: quadras perfeitamente limpas, cercadas de arbustos milimetricamente podados, e garçons uniformizados servindo limonada gelada e morangos frescos.

Katniss e Asterid estavam na quadra 4, aquecendo com raquetes novas.

— Preciso me mover mais — disse Asterid. — Estou me sentindo uma estátua premiada.

— Você é uma estátua premiada — respondeu Katniss, rindo.

Foi então que ela viu Peeta.

Ele surgiu como quem não quer nada, de óculos escuros e camisa polo branca, impecável. Passou por elas com naturalidade, como se não tivesse planejado absolutamente tudo com antecedência.

— Olha só... Everdeens unidas no esporte — saudou ele, com um sorriso despretensioso.

Asterid ergueu uma sobrancelha com interesse, a boca curvando-se em um meio-sorriso.

— Mellark? Ora, ora... a que devemos a honra de ter o CEO da Atlas por aqui?

— Manhattan é pequena. Preciso de um pouco de sol e esporte — respondeu Peeta, e seus olhos cortaram para Katniss com sutileza.

— E quente demais pra casualidades — murmurou Asterid para o loiro, num tom que só ele ouviu.

Joanna chegou minutos depois, acompanhada de Delly — ambas em roupas de tênis estilosas e sorrisos prontos.

— Vamos formar duplas? — Joanna sugeriu. — Eu e Peeta contra vocês duas, Everdeens. Ou preferem perder separadas?

Katniss lançou um olhar desafiador.

— A gente nasceu vencendo.

Começaram o jogo. Asterid até fez um ponto digno de replay. Risadas, suor, provocações. Em meio às trocas de bola, Katniss sentia o olhar de Peeta em cada movimento, como se o jogo fosse apenas a superfície de algo muito mais profundo. Ele a desconcentrava. E isso a irritava tanto quanto a excitava.

No intervalo, aproveitou que a mãe retocava o protetor solar e se afastou para a sombra ao lado do vestiário. Peeta a seguiu.

Ela se encostou na parede, braços cruzados.

— Armadilha bem arquitetada.

— Eu diria... destino. Ou GPS — rebateu ele, um canto da boca arqueado.

Ele se aproximou.

Katniss sentiu o corpo clamar por ele, mas dentro da mente, o lembrete frio sussurrava — não esqueça porque está aqui. Ele é o alvo, não o prêmio.

— Você me deixa maluca — confessou, quase sem voz.

— E você me deixa vivo — disse ele, tocando a testa na dela.

O beijo foi quente, rápido, furtivo. Um sopro de prazer que quase apagava o fogo mais sombrio dentro dela. Quase.

Quando voltaram à quadra, Asterid arqueou uma sobrancelha.

— Onde estavam?

— Falando de táticas de jogo —respondeu Katniss, com um sorriso e gosto de Peeta neles.

Asterid não respondeu, mas seus olhos de mãe sabiam mais uma vez que algo estava mudando. E não havia nada que ela pudesse fazer quanto a isso.

O almoço foi servido na varanda do Vanderbilt Club, em mesas brancas decoradas com arranjos delicados de hortênsias azuis. O sol brilhava com suavidade e uma brisa fresca soprava entre as cortinas leves de linho, tornando o momento mágico.

Katniss se sentou ao lado da mãe, enquanto Peeta e Johanna riam de algo na outra extremidade da mesa, dividindo comentários e goles de vinho branco com Delly.

As duas Everdeen escolheram pratos leves — salada de quinoa, salmão grelhado e uma taça de mimosa cada.

Por um tempo, o clima foi apenas de risos, elogios à comida e pequenas provocações sobre quem jogou melhor na quadra. Mas, em um momento em que todos pareciam distraídos, Asterid se inclinou levemente em direção à filha, falando em tom baixo e casual:

— E então... onde passou a noite de sexta pra sábado, minha cara senhorita Everdeen?

Katniss quase se engasgou com a mimosa. Tosse leve. Olhar de pânico momentâneo.

— Mãe... — Ela riu, tentando parecer natural. — Tá me interrogando agora?

Asterid ergueu uma sobrancelha, elegante como sempre.

— Claro que não. Você tem vinte e quatro anos, minha filha. Só estou perguntando... como quem conhece o brilho no seu olho.

Katniss mordeu o lábio, sem saber se queria sorrir ou esconder-se sob a mesa. Respirou fundo e decidiu ser sincera.

— Eu estava com Peeta.

Asterid assentiu, sem surpresa alguma.

— E foi bom?

Katniss deu um meio sorriso.

— Diferente — admitiu ela. — Ele é... gentil. Intenso. Respeitoso.

A mãe olhou para a filha com um olhar tão orgulhoso quanto cúmplice. Tocou de leve na mão dela sobre a mesa.

— Estão usando preservativo, né?

Katniss arregalou os olhos, quase derrubando o guardanapo do colo.

— Mãe! Pelo amor de Deus!

Asterid riu, discreta.

— Eu avisei que não era intromissão, só responsabilidade. É instinto materno, fazer perguntas inconvenientes com amor.

Katniss suspirou, as bochechas vermelhas.

— A verdade é que... não aconteceu nada. Não tudo, pelo menos.

— Não?

— Eu ainda sou virgem.

Asterid a olhou por um segundo. Depois, sorriu de forma suave, sem nenhum julgamento no rosto.

— E isso é um problema pra você?

Katniss balançou a cabeça.

— Nunca foi. Eu só... nunca senti vontade de ir além com ninguém. Mas com o Peeta... é diferente...

— Então você já tem sua resposta, meu amor — disse Asterid, apertando a mão da filha. — Quando você sentir que é o momento certo... será. E vai ser com quem merece você.

Katniss se emocionou, sem querer, mas logo o pensamento sombrio voltou como um veneno lento. Não esqueça. Ele é parte de um plano maior.

— Você não vai me julgar?

— Por favor. Eu passei por tanta coisa na vida que seria a última a julgar qualquer decisão sua. Além disso, você é a mulher mais forte e sensata que conheço.

Katniss sorriu. Baixou os olhos por um instante, sentindo o coração aquecido.

— Obrigada, mãe.

— E obrigada você — disse Asterid, afagando de leve os dedos dela. — Por esse dia, por me deixar estar com você. Precisamos fazer isso mais vezes, sabe?

— Eu adoraria — assentiu Katniss, com sinceridade.

Asterid a olhou com carinho verdadeiro.

— E não esquece, eu estou aqui. Sempre. Seja qual for o momento. Bom ou ruim. Não importa o que esteja passando... você não está sozinha, Katniss.

Katniss sorriu, os olhos marejando discretamente. Nunca tinha sido do tipo que demonstrava emoção com facilidade, mas naquele momento, sentiu-se acolhida como há muito não se sentia.

Katniss soube que mesmo com todos os planos que tinha, com a vingança em seu peito... o amor verdadeiro — o de mãe, o de homem, o dela por si mesma — estava ali.

No fim do dia, já no estacionamento, Katniss caminhava com a mãe em direção ao estacionamento quando Peeta se aproximou, com os cabelos levemente bagunçados pelo jogo e um sorriso de quem não queria que o domingo acabasse.

— Dona Asterid, foi um prazer imenso dividir a quadra com você hoje — disse ele, educado como sempre.

— Você joga bem... mas não tanto quanto pensa — respondeu ela, com um sorriso misterioso, e seguiu até o carro com sua bolsa Chanel no ombro.

Peeta se voltou para Katniss assim que ficaram sozinhos por alguns passos.

— Então... vai me ignorar mesmo depois da partida épica que a gente jogou?

Katniss cruzou os braços com fingida indignação.

— Você quase me fez perder. Isso não se perdoa.

— Mas te ganhei em outro ponto — sussurrou ele.

Ela ergueu uma sobrancelha, desafiadora. Mas antes que pudesse retrucar, Peeta se aproximou e, com delicadeza, segurou o rosto dela entre as mãos e depositou um beijo nos seus lábios. Calmo. Aconchegante. Um beijo de despedida com gosto de promessa.

— Boa noite, garota em chamas.

— Boa noite, Mellark — respondeu, num sussurro baixo, antes de se virar para entrar no carro com a mãe.

Mais tarde naquela noite, já sozinha em seu quarto, Katniss saiu do banho, colocou uma camisola e se deitou na cama, olhando para o teto por alguns segundos até o celular vibrar.


[21:47] P – Se eu soubesse que jogando tênis eu ganhava beijo... teria me inscrito em Wimbledon.


Ela riu, deslizando os dedos pela tela antes de responder.


[21:49] K – Cuidado com a vaidade, campeão. A próxima vez eu levo minha raquete de competição.


[21:51] P – Aí sim. Mas só jogo se o prêmio for outro beijo.


[21:53] K – Você é viciado em perder?


[21:55] P – Se for por você... sou viciado em tudo.


Katniss rolou os olhos, mas o sorriso teimou em nascer, quente demais para ser ignorado.


[21:57] K – Boa noite, Peeta.


[21:58] P – Já? Tá me dispensando?


[22:00] K – Amanhã é segunda. Lembra? Atlas Technology. Planilhas. Reuniões.


[22:02] P – O terror das segundas... Mas se for pra te ver de novo, que venham as reuniões.


[22:03] K – Bobo.


[22:05] P – Seu bobo. Boa noite, Katniss. Dorme bem.


[22:06] K – Boa noite, Peeta.


A tela apagou. Katniss deixou o celular de lado e respirou fundo, tentando relaxar. Mas o corpo não obedecia — ainda sentia o calor do beijo dele, o arrepio que ficara na pele como uma tatuagem invisível.

E junto com o desejo, a lembrança amarga voltou como veneno lento: Não esqueça o que ele representa.

Ela fechou os olhos, lutando contra a confusão. Queria acreditar no homem que sorria para ela nas quadras, que falava com delicadeza e fazia piadas bobas no celular. Mas conhecia o peso do sobrenome Mellark, o império que ele carregava, o sangue que corria debaixo das cifras.

Katniss puxou o lençol até o queixo, o coração dividido.

Amanhã seria segunda.

Dia de máscaras, de planos, de continuar sua peça de teatro cuidadosamente ensaiada.

Mas, por ora, mesmo com o gosto da vingança ainda queimando no fundo da garganta, ela adormeceu com o sabor do beijo dele nos lábios.

Notas finais
Bem é isso, próximos capítulos nosso casal cada vez mais ladeira abaixo desse desejo kkkkkk Hã... calma que vou começar a trabalhar mais no núcleo da Johanna e Delly, vcs vão que romance fofo entre essas duas e tbm vcs vão descobrir mais sobre outros personagens e principalmente o que aconteceu com o Peeta e todo esse mistério sobre o passado, tem muita camada por baixo. Aguardem os próximos... beijos amo vcs. Ah!!!! Pra quem acompanha Linha Tênue da Sany, loguinho ela estará lançando mais um capítulo maravilhoso e bombástico!