Doce Vingança
7 Perdição
Notas iniciais

O som do despertador vibrando suavemente no criado-mudo foi o primeiro sinal de que a manhã havia chegado.
Katniss abriu os olhos com preguiça. Por alguns segundos, ficou deitada, contemplando o teto branco com molduras elegantes, como se ainda absorvesse os fragmentos do fim de semana.
Peeta. Os beijos. As sensações. O clube.
E aquele sorriso bobo na última mensagem da noite.
Suspirou.
Levantou-se com leveza e caminhou até o banheiro. A água quente caiu sobre seu corpo como um chamado de realidade. Enquanto passava o sabonete, não pensava apenas nele, mas também na semana que teria pela frente — e na reunião importante que abriria a manhã na Atlas Technology. Desejo era perigoso. E distração, imperdoável.
Depois do banho, foi até seu closet. Um espaço digno de editorial de revista — painéis iluminados, gavetas automáticas, araras organizadas por cor. Katniss passou os dedos pelas opções, até escolher seu look com cuidado.
Uma blusa de seda acetinada em tom vinho, com mangas três quartos e decote em “V” elegante.
Uma saia lápis de couro caramelo, cintura alta, presa por um cinto do mesmo material com fivela dourada. A fenda lateral discreta deixava parte da coxa à mostra, equilibrando ousadia e sofisticação.
Nos pés, sapatos de salto alto em tom neutro, que alongavam sua silhueta com naturalidade.
Completava o visual com brincos dourados, um colar delicado, pulseira fina e uma bolsa estruturada de couro marrom com alça curta.
O cabelo castanho caía solto em ondas sutis, enquadrando o rosto marcado pela maquiagem impecável. Não era apenas estilo; era armadura.
Katniss olhou seu reflexo por um instante. Ali estava a mulher elegante, sedutora e impecável que todos viam. Mas por trás da seda, do couro e do sorriso ensaiado, havia algo que ninguém enxergava — uma atriz. Que desejava, sim, mas que não podia perder o foco.
Descendo as escadas, encontrou os pais já sentados à mesa. A luz do sol penetrava pelas cortinas brancas da enorme sala de café da manhã. Frutas frescas, pães integrais, geleias caseiras — o habitual requinte da casa.
Katniss respirou fundo, endireitando os ombros. Se a manhã começava com lembranças de Peeta, que fosse. Mas o dia seguia seu plano.
— Bom dia, querida — disse Asterid, sem desviar os olhos do tablet onde lia os relatórios financeiros do SPA.
— Dormiu bem? — perguntou Burdock, com uma xícara de café na mão.
— Muito — respondeu Katniss , sorrindo de leve.
Serviu-se de algumas fatias de manga e morangos, pegou suco de laranja, sua garrafa térmica com água e se aproximou dos pais, dando um beijo em cada um.
— E então, pai... a pesca foi boa?
Burdock sorriu, deixando a xícara de lado.
— Maravilhosa. Silêncio, natureza e zero e-mails. Recomendo.
— Fico feliz. Pois hoje o dia vai ser cheio.
— Sim — disse ele, erguendo as sobrancelhas. — Teremos reunião com o conselho. Peeta vai apresentar o planejamento do lançamento do Synapse.
Ao ouvir o nome, o coração de Katniss pulou discretamente. Mas seu rosto permaneceu calmo enquanto terminava de comer as frutas e beber o suco.
— Vai ser um grande dia — respondeu ela, pegando sua bolsa.
— Vou com você, assim alinhamos algumas coisas no caminho — disse ele, ajustando o paletó e se despediu de Asterid com um suave beijo.
— Até mais tarde querido e cuide-se, minha filha — disse Asterid, sem tirar o olho do tablet.
— Sempre — respondeu ela, saindo pela porta principal com a elegância de quem sabia exatamente onde queria chegar.
O sol da manhã refletia nos vidros polidos da mansão enquanto Katniss e o pai atravessavam a entrada principal, os saltos de seus sapatos ecoando no mármore. O motorista já os aguardava ao lado do carro da família, a porta aberta.
No interior climatizado do carro, o silêncio inicial foi quebrado pela voz grave de Burdock:
— Tenho observado como você se adaptou rápido à Atlas. Nem todos conseguiriam lidar com a pressão de tantos olhos em tão pouco tempo.
Katniss manteve a concentração na janela, observando as ruas de Manhattan.
— Eu só sigo o que aprendi com o melhor — respondeu, com a voz calma.
Ele a olhou de soslaio, intrigado pela escolha de palavras.
— O melhor?
— O senhor, papai. — Ela virou o rosto e deixou escapar um sorriso sutil. — Se hoje eu sei me portar lá dentro, é porque tive o melhor mentor.
Burdock soltou uma risada breve, mas carregada de significado.
— Então mostre isso a eles, Katniss. Hoje, mais do que nunca, todos estarão atentos.
Ela apenas assentiu, sem tirar o olhar da janela. Por dentro, cada momento com Peeta queimava como uma réplica mal ensaiada que insistia em atravessar sua mente. Mas por fora, era apenas a filha impecável de Burdock Everdeen.
O carro desacelerou diante das portas de vidro da Atlas.
O palco a aguardava.
A sede da Atlas Technology refletia uma energia diferente naquela manhã.
Os painéis digitais da recepção exibiam a contagem regressiva para o lançamento do Synapse, o software revolucionário de integração de dados pessoais e corporativos, idealizado inicialmente por Burdock Everdeen e aprimorado com a equipe de T.I. da Atlas.
Na sala de reuniões envidraçada, Katniss já estava sentada, tablet em mãos, quando Peeta entrou acompanhado de Johanna e da chefe de T.I., Cressida, uma mulher de cabelos loiros raspados de um lado, onde exibia uma tatuagem de planta trepadeira.
Peeta estava impecável num terno grafite e gravata azul-marinho. Mas o que mais chamava atenção era o olhar que lançou a Katniss assim que a viu. Discreto, mas intenso.
Ao redor da mesa de vidro, os membros do conselho já aguardavam — Plutarch Heavensbee, sempre com seu ar enigmático e um leve sorriso que parecia conhecer verdades que os outros ignoravam; Messala, de postura rígida, anotando cada detalhe como se tudo fosse uma ata viva; Pollux, o conselheiro mudo, fazia gestos discretos com as mãos, imediatamente traduzidos pela assistente ao seu lado; Lyme, os braços cruzados, encarava os gráficos com frieza militar; e Jackson, atenta, com os olhos de águia fixos ora nos números, ora nas pessoas — especialmente em Peeta e Katniss.
A reunião começou.
Katniss cruzou as pernas sob a mesa, mantendo o rosto impecavelmente sereno. Por fora, era a diretora de marketing atenta, absorvendo cada detalhe da apresentação. Por dentro, sentia cada palavra de Peeta como uma provocação velada.
Ele não olhava diretamente para ela. Não precisava. O modo como modulava a voz, deixando pequenas pausas, em como os olhos corriam pelo ambiente apenas para voltar — inevitavelmente — na direção dela, era suficiente para lembrá-la do fim de semana. Do rosto dele entre suas coxas.
Um arrepio percorreu sua pele, escondido sob a seda vinho.
Droga!
Ela cerrou a caneta com mais força entre os dedos, como se o gesto fosse um antídoto contra o desejo.
Foco, Katniss. Foco.
Peeta conduziu a apresentação com firmeza e clareza. Os gráficos de desempenho da fase beta do Synapse mostravam estabilidade, segurança e compatibilidade com os principais dispositivos do mercado.
— Rodamos o Synapse em mais de cinquenta sistemas da Atlas, incluindo todos os apps parceiros e plataformas de IA — explicou Peeta, enquanto Cressida projetava em uma tela, dados animados. — Os testes foram concluídos com 99,7% de eficiência. Estamos prontos para o lançamento.
Plutarch inclinou a cabeça, sorrindo de canto.
— Impressionante. Mas números não bastam, Sr. Mellark. O que garante que a experiência do usuário será tão estável quanto os gráficos?
Pollux gesticulou algo rapidamente, e a assistente traduziu.
— “Confiabilidade é mais do que porcentagem. É confiança pública.”
Messala fez anotações, como se cada palavra fosse uma peça-chave em um quebra-cabeça maior. Lyme, por sua vez, ergueu a mão com calma.
— Se os testes foram conduzidos em campo real, com falhas mínimas, não há motivo para duvidar. — Ela encarou Katniss brevemente, como se esperasse que a filha de Burdock sustentasse a linha de frente.
Jackson, porém, não tirava os olhos de Katniss. Havia algo de analítico demais em seu olhar, como se percebesse os silêncios mais do que as palavras.
Burdock sorriu, orgulhoso.
— Excelente, Peeta. Exatamente o que esperávamos. — Olhou para a filha. — Katniss, algo a acrescentar?
Ela observava os dois homens — o pai, visionário; e Peeta, executor. Dois líderes. Dois mundos que se cruzavam — e ela no meio, com um plano secreto que não podia mais ignorar o quanto estava sendo corroído por sentimentos verdadeiros.
Manteve o queixo erguido, ciente de que todos os olhares estavam sobre ela.
— O Synapse é sólido. — A voz saiu firme, elegante. — Mas eu sugeriria que, no evento de lançamento, destacássemos não apenas a segurança, mas a experiência personalizada que ele proporciona. É isso que vai conquistar o público final. Tecnologia é poderosa, mas conexão é o que vende.
Plutarch sorriu, satisfeito com a sagacidade da observação. Lyme apenas assentiu. Pollux fez um gesto rápido de concordância, traduzido em voz baixa pela assistente.
Peeta arqueou a sobrancelha, quase imperceptivelmente, como se reconhecesse não só a sagacidade dela, mas também o duplo sentido escondido na palavra conexão.
— Concordo plenamente — respondeu, a voz mais baixa, quase um sussurro projetado. — É sobre impacto pessoal. Sobre deixar marca.
Katniss sentiu o coração acelerar, mas sustentou o olhar dele por um segundo inteiro.
Um segundo longo demais.
Johanna pigarreou, quebrando a tensão no ar.
— Bom, se já está decidido, vamos trabalhar na narrativa de campanha.
A reunião seguiu seu curso, mas para Katniss nada mais parecia importar além daquela batalha muda, feita de olhares, memórias recentes e uma guerra íntima que só ela sabia estar travando.
Quando todos se levantaram, preparando-se para deixar a sala, Peeta se aproximou o suficiente para que apenas ela ouvisse:
— Boa sugestão. Você sempre sabe onde tocar.
Ela sorriu com a polidez de uma dama Everdeen. Mas por dentro, ardia entre dois abismos — o da perdição e o da vingança.
✦✦✦
Katniss estava em sua sala compenetrada nos relatórios de campanha.
O lançamento oficial do Synapse aconteceria em um evento de gala na sexta-feira à noite, no Metropolitan Museum. Convidados da elite tecnológica, imprensa especializada, acionistas internacionais. E claro, todos os olhos voltados para Peeta... e o futuro da Atlas.
Seus olhos se desviaram para a tela do celular quando a notificação surgiu, indicando uma nova mensagem.
[14h37] P — 🟢A reunião foi produtiva. Mas... faltou você vir me dar os parabéns pessoalmente.
[14:39] K — Dei parabéns com os olhos. Vc não percebeu?🧐
[14:40] P — Seus olhos me deixaram sem ar. Não sei se conta.
[14:41] K — Drama. 😒
[14:43] P — Vem aqui na minha sala. Tenho um projeto confidencial pra te mostrar 😏
[14:45] K — Isso soa perigosamente interessante…🙃
[14:47] P — É. Mas acho que aguenta. A sala você já sabe o caminho. Estou esperando.😎
Katniss ergueu o olhar do celular, respirando fundo. Sabia que aquilo era um risco — cada passo nessa direção, um perigo calculado. Mas riscos também faziam parte do show.
Pegou a pasta, o tablet, ajeitou a blusa de seda vinho e seguiu em direção ao andar da presidência. O salto firme ecoava pelo mármore, cada passo tão decidido quanto o plano que ainda mantinha preso ao peito.
Ao passar pela mesa de Lucy, a secretária, recebeu um risinho malicioso. Katniss apenas arqueou a sobrancelha e esboçou um sorriso enigmático, como se carregasse um segredo que ninguém além dela compreendia.
Sem bater, entrou.
Peeta estava em pé, esperando, e antes mesmo que a porta se fechasse atrás dela, avançou.
— Tranque.
A voz dele saiu baixa, carregada de urgência.
Katniss obedeceu. A chave girou. E num instante, o mundo sumiu.
Ele a tomou nos braços, o beijo vindo como uma confissão proibida, quente, faminto. As pastas e o tablet escorregaram da mão dela para a poltrona ao lado. O gosto dele dominava sua boca, as mãos em sua cintura a puxando como se tivesse medo de soltá-la.
O corpo dela respondeu sem hesitar — mas a mente gritava.
Controle-se, Katniss.
Ainda assim, quando os lábios dele desceram para o pescoço, arrepiando-lhe a pele, o raciocínio pareceu se dissolver por segundos.
Ela o puxou de volta pelo rosto e, ofegante, sussurrou contra a boca dele:
— Isso… foi um projeto confidencial?
Peeta sorriu com seriedade, os olhos em chamas.
— Não. Foi só um lembrete de que você está me destruindo por dentro, garota em chamas.
Katniss pegou a pasta e o tablet segurando firme antes de se afastar, recompondo-se com a mesma frieza elegante que usava em reuniões.
— Então cuide da sua sanidade, Sr. Mellark. O software não se lança sozinho.
Piscou para ele antes de abrir a porta, deixando-o sentado à beira da mesa, sorrindo como um homem que havia ganhado o mundo sem perceber que, na verdade, estava entregando suas armas.
Katniss saiu ereta, impecável. Por dentro, o fogo ardia.
Mas seu veneno continuava intacto.
✦✦✦
A semana passou como um sopro, entre relatórios, reuniões e aqueles encontros clandestinos que nunca eram longos o suficiente.
Nos corredores vazios da ala executiva, nos elevadores sem testemunhas, atrás da porta fechada do escritório dele... o padrão era o mesmo — beijos que começavam inocentes, mas rapidamente se tornavam mais intensos do que deveriam.
Peeta recuava antes de ultrapassar o limite. Katniss, também.
Ele, por escolha.
Ela, por estratégia.
Mas a linha entre escolha e perdição estava ficando cada vez mais estreita.
Na cafeteria corporativa, as provocações continuavam pelo celular. Olhares escondidos em reuniões. Mensagens noturnas que começavam com risadas e terminavam carregadas de tensão. Ambos sabiam que algo maior estava prestes a acontecer.
E então, chegou a sexta-feira.
O dia do lançamento do Synapse.
O clima na Atlas era agitado, um estado quase febril. Equipes circulavam em trajes escuros, todos ocupados com os últimos detalhes. Conversas sobre cronogramas e imprensa ecoavam por cada corredor.
Katniss apareceu cedo.
Calça flare preta, blazer bordô, o cabelo preso num rabo de cavalo elegante, colar de quartzo transparente iluminando a gola. Entrou no escritório de Peeta com uma xícara de chá fumegante nas mãos.
— Achei que precisava de algo que não fosse café — disse, pousando a xícara na mesa.
Peeta ergueu os olhos do notebook. O olhar demorou nela. Depois se levantou devagar, como se cada gesto controlado fosse um peso. Quando a puxou pela cintura, Katniss sentiu o ar mudar.
— Na verdade, acho que preciso de algo mais sério.
Ela arqueou a sobrancelha, divertida.
— Sério? Às oito da manhã?
Ele respirou fundo.
— Quero te perguntar uma coisa. E não quero que pense que é impulsivo.
Katniss sentiu o coração acelerar — e odiou sentir.
— Tá... pergunta.
Peeta segurou o rosto dela, firme.
— Quer namorar comigo?
O silêncio se espalhou pela sala, quase palpável. Katniss piscou, como se precisasse confirmar se tinha ouvido certo. Então riu. Não de escárnio — mas de incredulidade.
Ela riu porque:
1. Ele já estava praticamente entregue.
2. Nunca imaginou Peeta Mellark, o CEO calculista, sendo tão direto.
3. E porque cada vez que ele se aproximava, seu plano de vingança parecia se dissolver mais rápido.
— Tá rindo por quê? — perguntou ele, confuso.
— Por muitos motivos — respondeu ela, controlando o riso. — Mas não significa que não gostei do que ouvi.
Os olhos dele ficaram sérios.
— Katniss... eu estou falando sério. Quero te assumir. Quero falar com o seu pai.
Ela arregalou os olhos.
— Falar com o meu pai? Peeta, pelo amor de Deus... a gente tá em 2024. Não precisa pedir bênção em varanda de fazenda.
Ele sorriu de leve, mas o olhar era firme.
— Eu sei que não preciso. Mas eu quero. Sou tradicional no que realmente importa.
O peito de Katniss vacilou. Aquilo era diferente.
Verdadeiro.
E perigoso.
Ela poderia cortar o momento. Relembrar a si mesma do motivo de estar ali — vingança, estratégia, jogo. Mas as palavras que saíram foram outras.
— Ainda é sexta-feira, Mellark. Sobreviva ao evento de gala... e depois a gente conversa.
Peeta a encarou, um meio sorriso surgindo.
— Isso é um “talvez”?
— Isso é um “depende de como você vai se comportar hoje à noite”.
— Ótimo. — Ele a puxou de novo. — Vou me comportar pessimamente bem.
Ela deixou escapar uma risada, antes que os lábios dele voltassem aos seus. O beijo foi quente, prolongado, carregado de promessas que ela não queria admitir que desejava.
Quando saiu do escritório, Katniss mantinha a postura impecável de sempre.
Mas, por dentro, o coração estava em guerra.
E ela sabia, aquela noite no Met poderia ser a jogada definitiva...
Ou o momento em que perderia totalmente o controle.
✦✦✦
À noite, o Metropolitan Museum of Art havia sido transformado em um palco de tecnologia, luxo e inovação para o lançamento do software revolucionário. Sob os imensos candelabros de cristal e colunas clássicas, uma elite de executivos do Vale do Silício, imprensa internacional, sócios, investidores e empresários desfilavam entre taças de champanhe e apresentações tecnológicas impecáveis.
Mas nenhum holofote brilhou tanto quanto, quando Peeta Mellark e Katniss Everdeen entraram no salão.
Ele usava um smoking preto perfeitamente ajustado, com lapela acetinada e camisa branca engomada, finalizado com uma gravata borboleta de seda e um relógio escuro de aro metálico. O cabelo loiro natural bem penteado para o lado e a barba rala aparada davam a ele um ar de CEO maduro e sedutor. Mas seu olhar... estava totalmente fixo nela.
Katniss, ao seu lado, parecia ter saído de um sonho.
Vestia um vestido longo em tule champagne com aplicações brilhantes, alças finas, um decote suave e uma fenda que revelava a perna de maneira sensual. O tecido leve esvoaçava com cada passo dela, acompanhando o movimento dos quadris. O cabelo castanho fora preso parcialmente, deixando ondas soltas caírem pelas costas. Uma gargantilha dupla de pérolas adornava o pescoço e os olhos cinzentos estavam maquiados com perfeição, levemente esfumados.
Assim que atravessaram o salão, muitos sussurraram. Câmeras se voltaram. Os dois se entreolharam e sorriram discretamente, como se aquilo fosse apenas mais uma noite comum. Mas ambos sabiam que não era.
Johanna e Delly logo os alcançaram. Johanna vestia um terninho vermelho de alfaiataria impecável e Delly apostara em um vestido prata vintage com corte reto e salto agulha. Elas comentaram discretamente o quanto Katniss estava deslumbrante e Johanna lançou um olhar maroto para Peeta.
— Você tá ferrado, Mellark — murmurou ela, em seu ouvido. — Vai ser o último a perceber que já se apaixonou de verdade.
— Talvez não tão último assim — respondeu ele, sério.
Burdock caminhava ao lado da esposa, observando o casal ao longe. O olhar dele parou por um tempo no modo como Peeta a conduzia com a mão delicadamente em sua cintura e em como Katniss olhava para ele com brilho nos olhos.
— Você sabia disso? — perguntou para Asterid, com um tom curioso e leve preocupação. — Sabia que os dois estavam assim?
Ela riu suavemente, tomando um gole de sua taça.
— É o amor, Burdock. Ele chega assim, de mansinho, e quando vê, já floresceu.
— Minha garotinha... — suspirou ele. — Era comigo que ela passava os domingos na sorveteria, lembra?
— Ela ainda é sua garotinha — disse Asterid, colocando a mão no braço dele com carinho. — Mas agora ela também é uma mulher. E está linda, feliz. Não é isso que importa?
Burdock assentiu em silêncio, com um sorriso nostálgico.
Horas depois, após discursos inspiradores, a apresentação holográfica do Synapse arrebatou a plateia com aplausos de pé. Peeta agradeceu ao time, citou o trabalho de Burdock e Katniss como pilares da evolução da Atlas, e quando seus olhos encontraram os dela, parecia que o mundo inteiro desaparecia.
Katniss desviou o olhar por um instante. Ela estava ali como profissional, como filha... mas, no fundo, sentia que o universo todo girava em torno daquele homem que agora ocupava seu coração em silêncio.
Aquela noite não era apenas o lançamento do Synapse.
Era o início de algo que nenhuma tecnologia poderia prever.
O burburinho do salão seguia animado, entre jornalistas apressados com câmeras e investidores eufóricos com as projeções do Synapse. O som de taças tilintando se misturava ao som do jazz que tocava discretamente ao fundo.
Mas, para Peeta, nada era tão hipnótico quanto a imagem de Katniss.
Ela conversava com Delly e um grupo de investidores franceses, a postura impecável, os gestos contidos, o sorriso treinado. E, mesmo assim, havia algo que escapava ao controle dela — o brilho nos olhos cada vez que seu olhar encontrava o dele, como se fosse impossível esconder.
Ele sabia que aquela noite seria decisiva.
— Você deveria estar celebrando com os acionistas. — Johanna surgiu de repente, sempre afiada, apoiando a taça no balcão do bar. — Mas está aí, feito um adolescente de 17 anos que não sabe se chama a garota pra dançar ou se morre de nervoso.
Peeta arqueou a sobrancelha, mas não negou.
— Quem disse que não vou chamá-la?
Johanna riu baixo.
— Boa sorte. Se eu conheço a Everdeen, ela vai transformar esse salão inteiro num palco só pra brincar com você.
E, de certo modo, foi exatamente o que aconteceu.
Quando Vintage Dream, de Mathilda June iniciou, Peeta atravessou o salão, determinado. O olhar de Katniss pousou nele de imediato, como se o tivesse esperado o tempo todo. Ele estendeu a mão.
— Dança comigo.
Os convidados se entreolharam, curiosos. Ela hesitou apenas por um segundo, antes de entregar a mão a ele.
No centro do salão, sob a luz difusa dos candelabros, os dois deslizaram pela música. Peeta conduzia com firmeza, uma mão na cintura dela, a outra entrelaçada aos dedos delicados. Katniss o acompanhava com graça, mas dentro dela, o conflito era feroz, cada passo parecia rasgar um pedaço da armadura que havia construído com tanto cuidado.
— Você está me olhando como se eu fosse a única pessoa aqui — sussurrou ela, a voz, quase desafiadora.
Peeta inclinou o rosto, os lábios próximos ao ouvido dela.
— Porque é exatamente isso que você é.
O coração dela disparou.
Ela queria rir, fazer uma piada afiada, reduzir aquele momento a um jogo. Mas não conseguiu. Em vez disso, deixou-se guiar, perdida no calor da mão dele, na intensidade da proximidade.
Burdock, observando de longe, respirou fundo. Asterid pousou a mão no braço dele outra vez.
— Ela está segura. Confie.
Ele assentiu, embora a expressão ainda fosse de um pai que temia perder a filha — ou, talvez, de um homem que percebia que ela já tinha encontrado seu próprio caminho.
Quando a música terminou, os dois permaneceram próximos por um instante além do necessário. Os aplausos polidos ecoaram pelo salão, mas Peeta e Katniss pareciam não ouvir.
— Mellark... — Ela começou, em um tom que misturava alerta e rendição.
— Não diga nada agora — interrompeu ele, a voz baixa, firme. — Só aproveite a noite comigo.
Katniss o encarou, e naquele momento percebeu, por mais que tivesse se preparado para cada jogada, talvez fosse ela quem estava sendo vencida.
Enquanto os convidados se espalhavam pelas mesas conversando sobre o sucesso da apresentação, Peeta caminhava entre cumprimentos e brindes. Todos queriam um minuto com o jovem CEO que havia acabado de lançar o produto mais promissor da indústria tecnológica daquele ano.
Foi quando uma voz familiar e rouca sussurrou atrás dele:
— Ah, garoto… descobri a raiz da sua aflição, daquela tarde em que bebeu quase todo seu estoque de whisky.
Peeta se virou sorrindo. Era Haymitch, com uma taça de bourbon na mão e um olhar sagaz por trás das sobrancelhas arqueadas. O terno azul-marinho alinhado com gravata preta parecia quase irônico em alguém tão despojado no cotidiano, mas ali estava ele — elegante, espirituoso e sempre um passo à frente.
— Você sempre sabe — respondeu Peeta, com um sorriso sincero, dando um leve tapa amigável no ombro do padrinho. — Maldito faro de lobo velho.
Haymitch riu com gosto e ergueu a taça.
— Eu sabia! Então, foi essa garota de olhos de tempestade que mexeu tanto assim com você? Vai com calma, garoto. Ou se joga de vez.
Peeta o encarou por um instante, sério. O coração dele parecia dar um nó sempre que olhava para Katniss. Ele não estava apenas encantado. Estava rendido.
— Eu tô tentando. Mas ela não é qualquer mulher, Hay.
— Por isso mesmo. — O padrinho disse, antes de virar o drink de uma só vez.
O loiro se afastou retirando o celular do bolso que vibrava insistentemente.
Era Finnick, mesmo não podendo estar presente no evento por conta dos plantões, fez uma rápida chamada de vídeo, o congratulando com um...
“Estou orgulhoso de você, irmãozinho. Sabe, o papai também estaria. Foi ele quem te criou e você carrega tudo dele e não aquele homem de gelo repugnante.”
Peeta sentiu um misto de alegria e tristeza. Desejou que o homem que o criou desde sempre estivera ali.
Mais tarde, Cato aproximou-se com a mãe ao lado.
Cato, mantinha o semblante confiante, usava um terno claro e falava com a calma ensaiada de quem nunca queria demonstrar fraqueza. Alma, estava impecável em um vestido preto longo com bordados de renda e um colar de esmeraldas que chamava mais atenção que seu sorriso contido — um sorriso que sempre escondia mais do que mostrava.
— Parabéns, mano — disse Cato, tocando o ombro do irmão. — Isso aqui tá gigante. O mundo todo tá prestando atenção em você hoje.
Peeta inclinou-se levemente, como se fosse apenas um gesto de gratidão, mas sua voz saiu baixa, só para Cato ouvir:
— Já passei todos os documentos que me enviou para os advogados. Aqueles em que a Clove tentou usar sua assinatura. Eles estão analisando tudo e vão me manter informado.
Cato piscou uma vez, surpreso com a firmeza do irmão. Depois assentiu discretamente.
— Obrigado.
Antes que pudesse dizer mais, Alma se adiantou.
— Você estava incrível no palco, Peeta. Impecável. Mas é claro, eu sempre soube que você era o mais sensato dos meus filhos — disse, sorrindo de um jeito ambíguo, como quem acaricia com uma mão e aperta a garganta com a outra.
Peeta travou o maxilar. Por fora, manteve o sorriso social; por dentro, tudo se retraía. Alma tinha esse dom — transformar elogios em fardos. A mãe que sufocava com zelo excessivo, como se cada conquista dele fosse apenas uma confirmação do que ela já proclamava ao mundo — e não fruto do próprio esforço dele.
— Obrigado, mãe — respondeu simplesmente, desviando o olhar para evitar o contato visual que sempre o deixava sufocado.
Logo em seguida, como um raio de sol depois da tempestade, Presley surgiu.
Com um vestido esvoaçante azul celeste e cabelos dourados presos num coque baixo, o abraçou como se não o visse há anos.
— Você foi sensacional! Eu me arrepiei quando o palco subiu com o Synapse projetado em 3D!
Peeta riu e a ergueu em um abraço, girando-a no ar.
— Ainda é minha fã número um?
— Sempre! — disse ela, rindo, antes de cochichar em seu ouvido: — Mas... quando vai me apresentar aquela morena maravilhosa do marketing?
Peeta arqueou a sobrancelha.
— Katniss?
— É esse o nome dela? Então é ela mesma. Se não quiser me apresentar como irmã, posso fingir que sou uma das investidoras curiosas.
Peeta riu e apertou o nariz da irmã com carinho.
— Um passo de cada vez, Press. E sem planos de espionagem.
Presley deu um sorrisinho sapeca.
— Mas se ela virar minha cunhada, eu vou querer dividir o closet com ela.
Peeta apenas balançou a cabeça, mas o coração deu um tropeço.
Será que Katniss um dia se encaixaria de verdade naquele universo tão complexo — entre o zelo sufocante da mãe, a lealdade questionável dos irmãos e a leveza luminosa da irmã?
Por ora, ele só sabia que não conseguia tirar os olhos dela.
✦✦✦
Após cumprimentar os últimos convidados, Peeta e Katniss deixaram o salão sob olhares atentos e câmeras discretas. Ele a conduziu até o BMW Série 7 preto, estacionado na entrada lateral sob as luzes douradas da cidade.
Gale, com terno impecável e expressão contida, já os aguardava ao volante. Seu olhar atento nunca perdia nenhum detalhe, mesmo sob o disfarce da neutralidade.
Assim que a porta foi fechada atrás deles e o carro deslizou pelas ruas de Manhattan, Peeta puxou Katniss para perto, com aquele misto de urgência e adoração que vinha se tornando sua marca registrada.
— Você estava deslumbrante hoje — murmurou ele, sua mão deslizando pela fenda do vestido dela, subindo com uma ousadia deliciosamente lenta. — Incrível. Hipnotizante. Cada centímetro seu...
Os lábios dele encontraram o pescoço dela, provocando um arrepio que correu pela espinha como fogo. Katniss fechou os olhos por um segundo, absorvendo o calor, o perfume amadeirado, a barba rala arranhando sua pele sensível. Era uma onda que seu corpo não sabia resistir.
Mas ela abriu os olhos e encontrou o retrovisor. Gale a observava, silencioso, com aquela sobrancelha arqueada e o olhar que parecia sussurrar...
“Esse jogo perigoso está te desarmando, Catnip.”
Katniss conteve o suspiro que ameaçava escapar. Ele tinha razão? Estava se deixando desarmar? Ela ainda sabia o que precisava ser feito, mas, naquele instante, sua razão parecia uma peça de teatro mal ensaiada diante da verdade incontestável, ela queria Peeta.
O carro os deixou na entrada privativa do prédio. Peeta entrelaçou os dedos nos dela com firmeza, puxando-a com pressa para dentro. O elevador fechou as portas e ele a beijou como se fosse a última chance de ambos.
Katniss arqueou o corpo contra o dele, respondendo sem hesitar. Suas mãos deslizaram para a gravata, puxando-a com impaciência, e em seguida atacaram os botões da camisa social, abrindo caminho com uma urgência que queimava entre eles.
— A gente tá namorando, né? — sussurrou ele, com um sorriso travesso entre um beijo e outro.
Katniss riu ofegante, os olhos brilhando, o vestido já desarrumado pelas mãos impacientes dele.
— Ué… eu disse que te daria a resposta depois do lançamento.
Peeta estreitou os olhos, fingindo indignação, embora o sorriso estivesse à espreita em seus lábios.
— O evento já passou, Everdeen. Não me torture mais.
Ela o encarou intensamente, deixando que o olhar cinzento faiscasse com a mesma provocação que o acompanhava desde o início. E então, roçando os lábios no ouvido dele, respondeu num sussurro carregado de promessa:
— Sim…
Peeta fechou os olhos, pressionando a testa na dela, rindo baixo — vencido, rendido, apaixonado.
O elevador anunciou a chegada com um som discreto. As portas se abriram, revelando a cobertura iluminada à meia-luz.
Katniss respirou fundo. Parte dela sabia que estava atravessando um limite. Mas seu corpo, seu coração, já haviam feito a escolha.
E o que aconteceria a partir dali… seria apenas o começo.
Peeta parou diante dela, sem dizer nada. Apenas ergueu a mão e afastou delicadamente uma mecha de cabelo de seu rosto. O gesto era íntimo, terno, quase reverente.
— Katniss... — balbuciou, e a forma como seu nome soou em sua voz foi suficiente para que ela esquecesse, por um segundo, quem era e por que estava ali.
Não permitiria que ele a tivesse sem mais. Segurou o pulso dele, firme, impedindo que continuasse. Seus olhos cinzentos faiscavam.
— Você disse que seria inesquecível — provocou, a voz baixa, carregada de desafio. — Prove.
Um brilho perigoso atravessou o olhar dele. Em um movimento rápido, Peeta a puxou contra si, e a boca dele desceu sobre a dela em um beijo que não pedia permissão — tomava. O beijo era faminto, quente, como se guardasse semanas de espera.
A chuva fina batia contra as amplas janelas da cobertura, compondo um fundo suave e íntimo para o silêncio denso que pairava entre eles.
Peeta e Katniss estavam sentados na beira da cama, ainda meio vestidos, ainda meio suspensos em um desejo que crescia desde o elevador. O ar estava carregado. Denso. Quente.
Os olhos cinzentos de Katniss o encaravam com uma firmeza crua. E ele via aquilo.
— Tem certeza de que quer isso agora? — perguntou ele, a voz rouca, embargada de contenção. As mãos dele ainda repousavam em suas coxas. Quentes. Tremendo levemente.
Katniss assentiu, sentindo o coração acelerar.
— Eu quero sentir tudo — disse ela, baixinho, com uma urgência que queimava. — Não quero isso com mais ninguém, só com você...
— Se é o que quer... — suspirou ele, longo, como quem tentava se conter.
— É o que eu quero. — Ela não vacilou.
Ele levantou-se e caminhou até o banheiro. Abriu o armário branco e pegou o pequeno nécessaire preto.
“Você precisa estar preparado pro dia ‘D’.”
Ouviu Johanna dizer, rindo alto enquanto o arrastava pela farmácia naquele sábado.
“Kit de primeiros socorros sentimentais.”
Lubrificante à base d’água, preservativos finos e protetor diário. Na época, Peeta achara exagero. Agora, fazia todo o sentido.
Quando voltou ao quarto, Katniss estava sentada no centro da cama, ofegante. O vestido já havia escorregado pelos ombros e as alças pendiam soltas, preguiçosas, como se o tecido também se rendesse. Seu olhar era um convite e um desafio.
— Katniss… — Começou ele, depositando o nécessaire na mesa lateral.
Ela franziu o cenho, percebendo a hesitação.
— Não quero que pare — disse firme, lendo seus olhos. — Você sempre se segura por mim, mas eu não sou de vidro.
Peeta se aproximou, sentou-se na cama e passou a mão devagar em seus cabelos, roçando os lábios contra sua testa.
— É só que... isso é muito mais pra mim. Eu sei que você controla quase tudo. Mas eu… eu quero que você se sinta segura, não só desejada. Quero que seja bom. Que seja nosso.
Ela quase chorou pelas palavras dele. Mas em vez disso, segurou o rosto dele e o trouxe para perto.
— Peeta… se tem alguém em quem eu confio pra ser meu primeiro tudo, é você.
E naquele instante, tudo ao redor desapareceu.
Eles não correram, mas também não pararam.
Peeta foi cuidadoso. Katniss, intensa. Trocaram carícias demoradas, beijos febris, sorrisos nervosos e suspiros entrecortados.
Houve um “sim” sussurrado e um suspiro aliviado quando seus corpos finalmente se uniram.
Não foi perfeito. Mas foi real. Foi deles.
Depois, deitada sobre o peito dele, Katniss fechou os olhos. Sentia o coração dele acalmar no compasso do seu. Por um momento, quis acreditar que era só isso — dois corações batendo juntos.
Mas sabia. No fundo, sabia.
Ela não poderia tê-lo para sempre. E ainda assim, escolheu tê-lo naquela noite.
Era entrega. Era desejo.
Era a doce lembrança que, cedo ou tarde, ela teria que deixar escapar.
O quarto estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pelas luzes que vinham da cidade além das janelas. O corpo de Katniss ainda estava colado ao de Peeta, ambos ofegantes, como se o mundo tivesse parado dentro daquela cama.
Ele não falou logo. Apenas passou os dedos devagar pelas mechas bagunçadas do cabelo dela, como quem tenta memorizar cada detalhe. Mas então a voz dele saiu, baixa, rouca, trêmula.
— Katniss… eu preciso saber… — hesitou, os olhos azuis buscando os dela como se temesse a resposta. — Eu não te machuquei, né? Eu juro que tentei ser cuidadoso, mas… não quero que você guarde isso como algo ruim.
Ela sentiu o coração apertar. Por um instante, quis brincar, cortar a tensão, mas a sinceridade dele a atingiu fundo. Katniss deslizou a mão pelo peito dele, até repousar sobre o coração que batia acelerado sob sua pele quente.
— Uma fisgada, no começo — confessou, sem desviar os olhos. — Mas depois… — Um sorriso pequeno curvou seus lábios, cúmplice. — Depois você foi perfeito.
O alívio que atravessou o rosto de Peeta quase a fez rir. Ele fechou os olhos por um instante, respirando fundo, como se tivesse tirado um peso do peito. Quando voltou a encará-la, ainda havia preocupação em seus traços.
— Eu não queria apressar nada. Quero que cada vez com você seja… inesquecível.
Katniss se aproximou mais, colando a boca ao ouvido dele, deixando a respiração quente escorrer pela pele.
— Então mostra... — sussurrou, com aquela provocação que era ao mesmo tempo um convite e um desafio. — Ainda dá tempo de me ensinar mais.
O brilho que surgiu nos olhos dele não deixou espaço para dúvidas.
E foi assim que, pouco depois, a espuma branca da banheira envolvia os dois, as velas tremeluziam ao redor.
Katniss fechou os olhos, a cabeça deitada sobre seu ombro, e pensou...
“Era assim que era pra ser?”
E então decidiu que não importava. Nunca passou por sua cabeça que seria com ele. Ainda assim, verdadeiro ou não ali estavam eles.
Katniss se ajeitou mais entre as pernas de Peeta, de costas para ele. Os braços dele a rodearam com naturalidade, ele depositou um beijo demorado em seu ombro molhado, a respiração entrecortada.
— Preciso admitir uma coisa… — suspirou ele, com um sorriso de canto, roçando o queixo em seu pescoço. — Eu cheguei rápido demais.
Ela soltou uma risada abafada, jogando a cabeça pra trás e o encarando por sobre o ombro.
— Você acha mesmo que eu estou reclamando? — Ela ergueu uma sobrancelha provocativa. — Foi especial pra mim, Peeta. Foi o bastante. Aliás… — Ela pegou a mão dele e a guiou devagar entre suas pernas, murmurando com um sorriso. — Ainda dá tempo de me mostrar o quanto se importa.
Peeta não precisou de mais palavras.
Seus dedos deslizaram entre as coxas dela reverentemente. Um gemido escapou dos lábios de Katniss enquanto ela se arqueava contra ele, o corpo reagindo como se já o conhecesse há anos. Mas sua mente… sua mente gritava.
“Você o odeia.”
“Ele te humilhou no passado.”
“Se sentiu um rei enquanto você sangrava em silêncio.”
O prazer, no entanto, a engoliu. Seu corpo o queria. Seu coração estava dividido.
Quando finalmente se acomodaram na cama, os cabelos ainda úmidos e os corpos entrelaçados nos lençóis, Peeta adormeceu rapidamente, uma expressão tranquila no rosto. Katniss, por outro lado, permaneceu acordada.
Quando teve a plena certeza dele estar dormindo profundamente, lentou-se e na beira da cama fitou o próprio reflexo no espelho do quarto.
Estava vestida apenas com uma calcinha com o pequeno absorvente e a camisa branca de Peeta, aberta, solta, o tecido leve tocando sua pele nua. Havia marcas de beijos nos ombros, um leve rubor nas coxas. Ela parecia outra pessoa. Sentia-se uma nova mulher.
Vingança ou perdição?
O conflito se refletia em seus olhos cinzentos.
Ela se levantou, silenciosamente, e caminhou pelo apartamento como uma sombra inquieta. A cobertura era elegante, moderna, mas aconchegante. Um reflexo de Peeta. O homem que ela jurara destruir… e agora desejava cada toque, cada olhar, cada pedaço.
Na cozinha, preparou um chá de camomila e se acomodou na poltrona junto à parede de vidro que dava vista para Manhattan. As luzes da cidade refletiam em seus olhos e o vapor do chá subia suavemente entre seus dedos. Sentiu os olhos pinicarem e lágrimas se empoçando. Sentia um misto de melancolia, raiva e desejo.
Não soube quanto tempo ficou ali divagando em lembranças do passado, quando ouviu os passos. Apenas sentiu uma presença.
Peeta se agachou diante dela, com os olhos carregados de ternura e dúvida.
— Você está arrependida, Katniss? — perguntou ele, suave, mas firme. Seu dedo indicador deslizou sob os olhos e desceu para o queixo dela, erguendo seu rosto para que o encarasse.
Ela hesitou.
Por dentro, o eco da vingança rugia, ferido. Mas por fora…
— Não — disse, firme.
Convicta.
Não era arrependimento. Era algo muito mais perigoso.
E ela sabia, naquele instante, que seguiria com o plano… mas mergulharia fundo no prazer que Peeta Mellark a fazia sentir.
Mesmo que isso a consumisse inteira.
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