Doce Sacrifício
1 Capítulo primeiro: O choque
Capítulo primeiro – O choque
A notícia que Hiashi acabara de dar era perturbadora. Hanabi sentia sua garganta apertar-se numa tentativa de conter o choro. Era sufocante. Sua irmã beirava à loucura, sua cabeça esquentava enquanto projetava mil ideias que fossem satisfatórias de modo que pudessem evitar o que estava por vir. Enquanto Neji, comovido como quem não tem esperança, apenas observava a família, que jamais fora unida por laços afetivos, prestes a se desintegrar.
Enquanto isso, bem longe dali, estava o Kazekage em seu quarto ouvindo seus irmãos discutirem sobre um sério assunto.
– Gaara, não pode deixar que aqueles velhos idiotas tomem conta de sua vida como se você fosse um bebê que não sabe o que quer! – Exclamava pela milésima vez uma estupefata loira. Gaara a encarou fixamente nos olhos pela primeira vez durante aquele monólogo.
– Temari, – Começou a falar logo após cerrar os olhos tentando não perder o controle, fazendo com que seus irmãos se encolhessem sutilmente, por, inconscientemente, se sentirem ameaçados. – eu já disse isso a você uma vez e é com muito desgosto que repito: eles são meus conselheiros, portanto aconselharam-me. Não foi uma ordem. Simplesmente apresentaram-me sugestões às quais acatei. Fiz minha escolha. Eu tomei minha própria decisão. Não quero ouvi-la dizendo asneiras outra vez, por que não vou falar de novo.
Gaara estava tão apreensivo quanto Kankuro e Temari. Sua voz grave ecoava ainda como se fora uma ameaça nos ouvidos dos dois irmãos. Talvez por isso não os expulsara de seu quarto até aquele momento.
O motivo de tamanho atordoamento era que seus conselheiros achavam que não era saudável para um jovem rapaz ocupar-se de responsabilidades como as de um Kazekage sem desfrutar, em sua vida particular, da companhia de uma moça, no sentido sentimental e sexual.
Não era desejado, entretanto, que o garoto se entregasse nas mãos de meretrizes, uma vez que isso prejudicaria sua vida pessoal e pública. Sugeriu-se, portanto, que se casasse e para isso fazia-se necessária uma noiva.
Mas voltando ao drama na mansão Hyuuga, Hinata tentava articular algo que soasse razoável contra o casamento de sua irmã com Gaara.
– Oto-san, por favor, desconsidere este pedido. – Disse serenamente, buscando auto-controle. – Estou certa de que Suna não ficará ofendida se rechaçarmos esta ideia. Há outros clãs muito poderosos em Konoha que provavelmente se interessarão mais na proposta, como o Iamanaka ou o Aburame... Afinal, seguramente essa coisa de casamento não passa de estratégia política para reforçar os laços entre Suna e Konoha. Além do mais, por que logo Hanabi? Há outras moças no clã, muito bonitas que talvez almejem casar-se com o Kazekage.
– Hinata, seja razoável. – Respondeu Hiashi compreensivo. – Sabe que apesar de termos um prestígio que ultrapassa os limites de Konoha, não estamos em lugar de nos desfazermos de uma proposta desta magnitude. O pedido foi feito a nós primeiro. Isso é porque temos a preferência. Se a rejeitarmos seremos tidos como soberbos e haverá uma certa... mágoa, digamos assim. Quanto à Hanabi, receio que não possamos fazer nada a respeito, já que o pré-requisito é que a moça pertença à nobreza de seu clã e como vocês já sabem, em nosso clã há apenas uma família com tal título, no caso, a nossa, apesar de todos usufruírem das mesmas condições financeiras.
– Tudo bem, onne-sama. – Pronunciou-se Hanabi enfim, ainda apenada, porém conformada com sua sentença. – Eu aceitarei meu dever e obedecerei...
– Não, Hanabi! – Interrompeu-a Hinata abruptamente, assustando aos demais. – Eu não permitirei tal loucura. Tenho certeza de que Gaara-sama compreenderá perfeitamente nossa situação. Hanabi, se você aceitar não estará apenas decidindo largar sua família, seus amigos e seu país. Você vai ter que se habituar a um ambiente totalmente diferente, será uma nova cultura e você terá que dividir sua vida pessoal com um homem que não conhece.
– Eu já sei, Hinata! – Alterou-se a menina, sem sequer lembrar-se de falar de modo mais polido com a herdeira. – Mas que escolha eu tenho afinal?
– Exato, Hinata. – Interpelou Hiashi. – Não há qualquer escolha. Não sei por que ainda está discutindo sobre isso. Acha que não me importo de mandar minha própria filha para longe dos meus olhos a outro país para os cuidados de um homem cujo caráter jamais tive a oportunidade de analisar? Pois engana-se. Até porque, a questão é que esta proposta veio em hora propícia, uma vez que brevemente você será apresentada à sociedade como minha herdeira oficialmente, o que implica que Hanabi deverá tornar-se membro da Bunke. – Nessa hora a ficha caiu. Todos perceberam o real motivo pelo qual o patriarca Hyuuga não voltava atrás com sua decisão. – É o que você quer? Certamente não. Portanto assunto encerrado.
Silêncio geral, ninguém ousava dizer mais nada. Hinata, no entanto ainda não concordara.
– Não, Oto-sama. Eu já sei o que deve ser feito.
Dito isto, ambos passaram a olhá-la fixamente aguardando a solução de todo aquele problema. Hinata tinha estampada em seu rosto toda a dificuldade que tinha em tomar sua próxima decisão. Pois afinal ela seria radical e mudaria tudo.
– Gaara, explique, por favor, porque concordou com essa ideia? – Dessa vez quem questionava o Kazekage era Kankuro. – Você pode conhecer uma garota legal e se apaixonar. Por quê se casar com uma garota que não te ama? Só a fará sofrer. Meninas costumam ser românticas e não gostam nenhum pouco da ideia de um casamento arranjado. Confie em mim: uma menina que aceitar de bom grado esse casamento é uma interesseira e não é do tipo que vale a pena. Mas e se a família da moça a obrigar a aceitar o compromisso? E se ela já estiver apaixonada por outro cara? Como ela vai se sentir aqui? Como ela vai se sentir com você?
– Talvez até me odeie... – Disse ele tristemente, mas de um jeito quase imperceptível a quem não o conhece ou não possui sensibilidade para reconhecer tamanha discrição.
– Exato. – afobou-se Temari ao notar que ele estava cedendo. – Desista dessa besteira enquanto há tempo! Você pode gostar de uma garota daqui mesmo. Se apaixonar é tão bom!
– Este é o problema Temari, não tenho tempo para me apaixonar. – Disse ele friamente de volta a si. – Por isso concordei com esta história toda. Agora chega deste assunto.
– Ahr... – Suspirou cansando, Kankuro. – Se é isso mesmo então por mim tudo bem. Vou procurar o que fazer. – E retirou-se, deixando os irmãos a sós.
Temari, que estava sentada numa poltrona, jogou-se sobre a enorme cama onde estava Gaara.
– Você está me contando tudo? – perguntou olhando profundamente nos olhos do rapaz.
– Meus embaixadores provavelmente já apresentaram a proposta ao clã Hyuuga. – Disse ele como se isto não significasse nada para ele. Mas sua irmã sabia que para ele ter falado sobre isso assim do nada, significava sim alguma coisa.
– Seria muito bom se o clã Hyuuga aceitasse. Seria um aliado e tanto e uma ponte inquebrável com Konoha. – Comentou ela, observando-o deitar-se com a cabeça sobre suas pernas e fechando os olhos ao receber sua carícia nos cabelos ruivos.
– Sim, certamente. – Respondeu sem se esforçar para fingir que aquilo lhe importava.
– Já conhecemos alguns Hyuugas, não é mesmo?
– Suponho que sim.
– Tinha aquele rapaz bonito, o Neji e aquela irmã ou prima dele, sei lá! Como ela se chamava mesmo? – Tentou “jogar um verde”.
– Hinata. – Gaara se lembrava do nome dela. E respondeu como se estivesse esperando que a irmã perguntasse.
– Sim, isso mesmo. Ela levou a maior surra do primo na primeira vez que fomos à Konoha. Você se lembra?
O comentário pareceu incomodá-lo. Ele abriu os olhos para encará-la logo depois do que a irmã disse. Será que ele poderia estar interessado na Hyuuga?
– Lembro-me perfeitamente. Tivemos, porém oportunidade de vê-la desempenhando melhor seu papel como kunoishe. Evoluiu consideravelmente.
– Sim, isso é fato. Está bem mais bonita também, devo ressaltar. – Comentou maldosa atraindo o olhar seco e reprovador do irmão sobre si. – Oras, parecia até um menininho.
– Bem a questão é que eu a acho interessante. E gostaria de poder escolhê-la. Ou ela a Iamanaka Ino. Foram as duas garotas em quem pensei quando os conselheiros apresentaram as características mais favoráveis para minha noiva. – Disse ele quase engasgando ao pronunciar a palavra noiva. Reação essa quase cômica aos olhos de Temari, se não fosse tão preocupante.
– Então está interessado na Iamanaka e na Hyuuga... Não teria imaginado nunca... – Comentou séria.
– Sim. As acho muito bonitas e são muito boas ninjas. Mas sinceramente tenho uma preferência maior pela Hyuuga, por ser mais forte e me parecer mais madura, talvez me passe esta impressão de maturidade por ser tímida e discreta. Não sei.
Temari estava muito preocupada com Gaara. Ele achava mesmo que teria a sorte de se casar justo com uma das princesinhas de Konoha.
– Gaara, as chances de Ino ou Hinata aceitarem a proposta são muito remotas. Hinata então é praticamente impossível. Ela é a herdeira do clã Hyuuga, quando o pai se aposentar ela assumirá seu lugar. Não poderia ficar indo e vindo de Konoha para Suna. Se o clã Hyuuga aceitar, coisa de que eu duvido, no máximo será sua irmã mais nova Hanabi. Afinal ela terá que ir para a rama secundária de sua família e eles não querem que isso aconteça.
– Está muito bem informada sobre o clã Hyuuga para quem não se lembrava do nome da herdeira. – Disse ele ironicamente fazendo-a sorrir.
– Gaara, por favor, não se iluda. – Implorou.
– Temari, estou apenas interessado e não obcecado. – Protestou ele sentando-se diante dela. – Não vou criar expectativas, não se preocupe.
– Não é só você que me preocupa. Tenho medo que você seja um marido babaca. – Gaara a encarou em silêncio durante alguns segundos para ter certeza de que ela estava falando sério.
– Hum, pode me explicar como eu seria um marido babaca? – Ele realmente não sabia que podia ser tão ruim assim.
– Olha, não pode tratá-la como nos trata. Essas intimidações e grosserias não funcionam com garotas. Se quiser ter um casamento feliz, você vai ter que mudar esse seu jeitinho de interagir com os seres humanos. – Eles se encaram por alguns segundos. Gaara realmente não acreditava que estava ouvindo aquilo. Afinal ele já tivera um ou outro relacionamento. É claro que ele sempre manteve tudo em segredo, mas seus irmãos sempre suspeitaram. Ele sabia muito bem como tratar uma garota; pelo menos nenhuma moça jamais reclamou.
– Sei. – Respondeu ele. Não sabia o que dizer além disso. Queria ficar sozinho e pensar. E como se tivesse lido seus pensamentos, Temari se retirou.
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