Doce Princesa.

2 Ao leste desponta o Sol.


Notas iniciais
Antes de tudo, quero dedicar a história para bons amigos meus. Especialmente Lisa Mélore, a minha verdadeira Rachel. E, para meu Pai que estava do meu lado ajudando com as palavras difíceis.

Rachel acordou com o balido sonolento de uma cabra. De tão escuro que estava lá fora, era como se os olhos ainda permanecessem fechados, mas talvez as cabras já percebessem o aroma da manhã entrando pelas frestas entre as pedras nas paredes da casa. Meio acordada, meio dormindo, sentia a friagem do outono enregelando-lhe as cobertas e teve vontade de se aconchegar ainda mais para dormir como um urso de dia ou de noite sob frio intenso.

De repente, lembrou-se dos mercadores, chutou para longe as cobertas e sentou-se na cama. Seu pai acreditava que aquele era o dia em que as carroças passariam pela quebrada da montanha e chegariam á aldeia. Nessa época do ano, os aldeões se empertigavam para as últimas permutas da temporada, apressando-se em dar acabamento a mais alguns blocos de cantaria, que seriam trocados por igual quantidade de alimento para os meses em que a neve não os deixariam trabalhar. Rachel queria ajudar.

Cuidando para evitar o barulho do colchão de palha, Rachel se levantou e passou delicadamente por cima do pai e da irmã mais velha, Marley, adormecidos em suas esteiras. Passara a semana inteira anciosa, queria já estar na pedreira trabalhando quando o pai chegasse lá. Talvez assim ele não a mandasse embora. Vestiu as ceroulas de lã por cima do pijama, mas ainda nã tinha amarrado a primeira bota quando o farfalhar da palha revelou que alguém havia acordado. Papai agitou as brasas e acrescentou um pouco mais de esterco de cabra. A luz alaranjada se instensificou, projetando uma imensa sombra dele contra a parede.

– Já amanheceu? — Marley se apoiou num dos cotovelos e esticou os olhos na direção da lareira.

– Só para mim — Disse o pai.

Ele olhou para Rachel ali no canto, parada como uma estátua, com um pé de bota calçado e os cadarços nas mãos.

– Não — Foi tudo o que ele disse.

– Papai. — Rachel calçou o outro pé e foi até ele, arrastando os cadarços pelo chão de terra batida. Manteve o tom de natual, como se o pensamento tivesse acabado de surgir.

– Achei que seria bom eu ajudar um pouco, por causa dos acidentes e do mau tempo, só até os mercadores chegarem.

O pai não tornou a dizer não, mas ela percebeu pela concentração ao calçar as botas que ele não mudara de ideia.

Encabulada por ter mostrado vontade de ir, Rachel deu de ombros e disse:

– Que droga! — Pegou a última cebola de uma tigela, cortou uma fatia de queijo de cabra curtido e entegou o alimento para o pai quando ele abriu a porta.

– Obrigado, minha flor. Se os mercadores vierem hoje, quero ficar orgulhoso de você. — Deu um beijo no alto da cabeça da filha e foi-se.

Rachel sentiu a garganta arder. Iria deixá-lo orgulhoso, sim.

Marley a ajudou com os afazeres de casa, juntando as cinzas e varrendo a lareira, colocando o esterco das cabras para secar ao sol e mais água na carne para o jantar. Enquanto a irmã cantarolava, Rachel tagarelava sobre qualquer assunto, sem no entanto mencionar a recusa do pai em deixá-la trabalhar.

– Semana passada, fui á casa da Santana e o avô dela estava sentando lá fora pegando sol. Fiquei olhando, intrigada, porque ele nem se incomodava com uma mosca que não parava de esvoaçar ali por perto. De repente, pimba! Esmagou a mosca com um tapa certeiro em cima da própria boca. — Contou Rachel.

Marley se arrepiou toda.

– E, o que é pior, Marley, ele deixou a mosca lá. — Disse. — O bicho morto, grudado bem ali, embaixo do nariz do velho. E, quando ele me viu, disse: "Boa tarde, senhorita" e a mosca balançava enquanto ele mexia a boca, e aí ela levantou a asinha amassada... como se tivesse acenando para mim!

Marley costumava dizer que não conseguia resistir á risada baixinha e gutural de Rachel, e dasafiava a própria montanha se conter. Rachel gostava mais da risada da irmã do que de um prato cheio de sopa. Só de ouvi-la, seu coração ficava mais leve.

Elas tocavam as cabras e ordenhavam as leteiras nas primeiras horas da manhã. O frio que fazia agora no alto da montanha era prenúncio do inverno, mas a temperatura arrefecia um pouco com a brisa que soprava do vale.

– Resolvi permutar com o Will de novo — Rachel falou — E estou determinada a arrancar mais alguma coisa dele. Não seria um feito e tanto?

Marley sorriu, cantarolando.

– Talvez um pouco mais de cevado ou de peixe salgado — Rachel falou.

– Ou de mel — Disse Marley.

– Melhor ainda. — Sua boca ficou aguando só de pensar em comer bolinhos quentes e nozes com mel no feriado, guardando um pouco para embeber biscoitos numa das áridas de inverno.

Agora Rachel estava determinada a fazer com que aquele pão-duro do mercador do pé da montanha, Will, entregasse mais do que prentendia. E ficou imaginando o sorriso silencioso no rosto do pai quando lhe contasse o que havia conseguido.

– Não consigo parar de pensar — Disse Marley, segurando a cabeça de uma cabra particulamente resmungona enquanto Rachel ordenhava — Depois que você saiu, por quanto tempo a mosca ainda ficou lá pendurada nele?