Doce Princesa.
3 Serpente numa caixa.
Notas iniciais
Ao meio-dia Marley não saiu para ajudar na pedreira, Rachel nunca falava desse momento cotidiano quando Marley ia embora e ela ficava. Não deixaria ninguém saber que se sentia muito pequena e feia. Pois fiquem sabendo que não ligo, pensava. Porque não ligo. Não ligo mesmo.
Quando tinha 10 anos, as outras crianças de sua idade já começavam a trabalhar na pedreira: carregando água, buscando ferramentas e executando outras tarefas básicas. Um dia foi perguntar ao pai porque não podia. Ele a abraçou, beijou-a na testa e a embalou com tanto carinho que Rachel teve a sensação de que bastaria ele pedir para que ela saísse pulando de uma montanha á outra. Então ele falou, em sua voz baixa e tranquila:
- Nunca vai precisar pôr os pés na pedreira, minha flor.
Ela não tornou a perguntar a ele por quê. Rachel sempre foi pequenina, desde que nasceu, e aos 16 anos era menor que meninas de 15. Dizia-se pela aldeia que algo considerado inútil era "mais fraco que o braço de um homem da planície". Quando ouvia esse ditado, Rachel tinha vontade de cavar um buraco na rocha e se esconder lá nas profundezas. Um toque de repente de uma corneta ecoou tão subitamente entre os penhascos que Rachel deixou seus pensamentos voarem. Não havia corneta na aldeia, de modo que só poderia ser gente da planície. Ela detestava responder ao chamado deles como um animal a um apito, mas a curiosidade sobrepujou o orgulho. Agarrou os cabrestos e tocou os bichos ladeira abaixo.
- Miri! — Puck veio correndo para perto dela, puxando suas cabras a reboque. Rachel ficou torcendo para que seu rosto não estivesse sujo de terra.
- Olá Puck! Porque você não está na pedreira? — Em quase todas as famílias, cuidar das cabras e dos coelhos era atividade reservada apenas áqueles jovens ou velhos demais para trabalhar na pedreira.
- Minha irmã queria aprender a trabalhar com as cunhas e minha avó estava com dor nos ossos, então minha mãe me pediu para tanger as cabras hoje. Você sabe por que o toque de corneta?
- Mercadores, acho. Mas para que tanta fanfarra?
- Você sabe como o povo da planície é — Disse Puck. — Eles se acham muito importantes.
- Talvez um deles tenha gás e todos saiam tocando as trombetas para que o mundo inteiro saiba da novidade.
Ele abriu um sorriso bem á sua maneira, com a boca puxada para direita que para a esquerda. As cabras soltavam balidos como crianças brigando entre si.
— É mesmo? — Rachel perguntou a líder do rebanho como se entendesse a conversa delas.
— O que foi? — Disse Puck.
- Aquelazinha ali disse que o riacho está tão frio que dá para secar o leite.
Puck riu, deixando-a com vontade de dizer mais alguma coisa, cheia de esperteza e esplendor, mas o desejo impediu os pensamentos, de modo que ela tratou de calar a boca antes de dizer uma besteira. Os dois pararam na casa dela para prender as cabras. Puck tentou ajudar recolhendo as amarras, mas os bichos começaram a se empurrar uns aos outros e foi ele quem acabou com seus tornozelos presos num emaranhado de cordas.
- Ei, parem com isso! — disse, acabando por se desequilibrar e cair.
Rachel se aproximou correndo para ajudar e também estatelou ao lado dele, ás gargalhadas.
- Estamos fritos como costeletas delas numa frigideira. Não há quem nos salve agora!
Quando, por fim, se desvencilharam das cordas e tornaram a se levantar, Rachel teve um impulso de se aproximar dele e dar-lhe um beijo no rosto. Chocou-se com o ímpeto e ficou ali parada, muda e encabulada.
- Que confusão! — ele exclamou.
— Pois é. — Rachel baixou o rosto, batendo das roupas a terra e o cascalho. Achou melhor fazer logo uma piadinha para o caso de ele ter lido seus pensamentos. — Se há uma coisa em que você é bom, Puckermann, é arranjar confusão.
- É o que minha madrasta sempre diz, e todo mundo sabe que ela nunca está errada.
Rachel se deu contra de que a pedreira estava em silêncio e o único barulho que era escutado era o do próprio coração batendo em seus ouvidos. Ficou torcendo para que Puck não conseguisse ouvir. As trombetas soaram novamente, alertando-os fazendo-os correr.
As carroças dos mercadores estavam enfileiradas no centro da aldeia, aguardando o início das trocas, mas todos os olhos se voltavam para uma carrugem pintada de azul que surgia entre os demais. Rachel já ouvira falar de carruagens, mas nunca tinha visto uma. Deveria ser alguém importante que chegava com os mercadores.
- Puck, vamos olhar lá de... — Rachel começou a dizer, mas nesse exato momento Santana e Brittany gritaram o nome de Puck e acenaram para que se aproximasse. Santana era da mesma altura que Puck, seu cabelo era preto como a escuridão da noite, e Brittany com seus cabelos loiros, ondulados. Tinham a mesma idade que Rachel. Nos últimos tempos, ele era o menino para qual preferiram sorrir.
- Vamos ficar com elas para olhar de lá — disse Puck correspondendo ao aceno, com um sorisso subitamente tímido.
Rachel deu de ombros.
- Pode ir. — Saiu correndo na direção oposta, embrenhando-se na multidão de operários na pedreira até encontrar Marley, sem olhar para trás.
- Quem você acha que é? — Perguntou Marley, aproximando-se de Rachel assim que ela chegou. Mesmo no meio de um grupo grande, Marley ficava ansiosa por estar sozinha.
- Não sei — Disse Quinn — mas minha mãe me disse que qualquer surpresa do pessoal da planície é como uma serpente dentro de uma caixa. Quinn era a menina mais bonita da aldeia, conhecida por todos, e tinha a mesma idade que Rachel, as duas nunca tinham se falado direito, apenas um bom dia ou um boa tarde talvez. Tinha o cabelo loiro quase igual ao de Brittany, era irmã de Puck embora os dois sejam apenas irmãos por parte do pai, que foi embora e largou a esposa e seus filhos. Ela observava a carruagem, com o olhar intrigado. A mãe de Quinn, que era a madrasta de Puck, era conhecida pelos ditados sábios que costumava proferir.
- Uma surpresa — Disse Finn. Seus cabelos eram negros, e ele trazia no rosto uma expressão quase sempre maravilhada. Embora tivesse apenas 16 anos, os ombros eram quase tão largos e os braços pouco grossos. — Quem poderia ser? Algum mercador rico?
Um dos mercadores virou-se para eles com um olhor condescendente.
- Está claro que é um mensageiro do rei.
— Do rei? — Rachel ficou embasbacada como uma das deselegantes meninas das montanhas, mas não conseguiu evitar. Até aquele momento de sua vida, nenhum emissário do rei visara ás montanhas.
- Talvez tenham vindo declarar o Monte Eskel a nova capital de Danland — disse um mercador.
Mais um toque de trombeta. Um homem de roupas vistosas subiu ao banco de cocheiro e gritou uma voz alta e estridente: — CONVOCO SEUS OUVIDOS A DAREM ATENÇÃO AO MANDÁTARIO DE DANLAND.
Um homem delicado de barba afiada e curta surgiu de dentro da carruagem, ofuscando pela luz do sol que refletia nas paredes da pedreira. Ao tentar enxergar a multidão, foi apertando os olhos até franzir totalmente a testa. Ao lado dele tinha uma mulher muito bonita, de cabelos ruivos, vermelhos e curto na altura dos ombros. E, uma pele branca como a neve.
- Lordes e damas de... — Ele parou e riu, regozijando-se com alguma piada particular. — Povo do Monte Eskel. Como seu território não tem represetando na corte para se reportar a vocês, Sua Majestade, o rei, me enviou para lhes dar esta notícia. No verão passado, os padres de Deus criador formaram um conclave sobre o aniversário do príncipe. Leram as augúrios e divisaram o lar de sua futura noiva. Todos os sinais indicaram o Monte Eskel. Conforme reza a tradição, o rei mandou criar uma academia para o preparo das jovens com esse potencial. Embora a lei mande formar essa academia na escola escolhida, esta aldeia de fato não tem ficações de porte apropriado para tal. Dadas as circunstâncias, os padres acharam por bem que a academia seja instalada na velha casa de pedra do pastor perto da quebrada da montanha. Agora mesmo os criados do rei estão preparando a casa. Doravante, todas as moças da aldeia dos 12 aos 17 anos, deverão se preparar na academia para o encontro com o príncipe. Daqui a um ano, o príncipe subirá a montanha para vir ao baile da academia. Ele próprio escolherá sua noiva dentre as frequentadoras. Pois então, preparem-se.
- Serpente numa caixa — disse Rachel.
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