Doce Pecado
43 Reconciliações?
Notas iniciais
Acordei me sentindo um pouco tonta. Forcei os olhos, sentindo eles arderem por causa da claridade. Sentia meu corpo doer, um leve formigamento nas mãos e minha garganta estava seca. Meus olhos lutavam, querendo se fechar de novo, eu só queria dormir. Minha boca tinha gosto horrível, parecia remédio, eu acho.
Abri meus olhos inteiramente, minha visão estava um pouco turva. Tentei me levantar, mas um peso na cabeça me fez retroceder. Seguido de uma dor terrível nas minhas costas. Com certeza, parecia que tudo doía. Ou eu tinha sido atropelada por um caminhão, ou então não sabia.
— Ainda bem! – Escutei uma voz ao meu lado e me esforcei para virar a cabeça. Vi alguém. – Você dormiu por quase dois dias. Está se sentindo bem? Quer que eu chame o médico?
— Preciso de água! – Sussurrei após alguns segundos, minha voz estava fraca e rouca. Minha garganta parecia arranhada.
Minha visão voltou, vi Carly sentada na beira da cama, ao meu lado. Estava com as mãos juntas, em forma de agradecimento. Sua expressão parecia preocupada, ela me olhava com aflição, me analisando.
— Sam... Como você está?
— Com fome. – Respondi no momento que senti meu estômago roncar.
— Sempre a mesma. – Ela sorriu, um pouco mais calma.
— O que aconteceu? – Perguntei finalmente me dando conta de onde estava. Olhei em volta, o quarto de hospital branco, com tons de branco e azul não me remetia uma coisa boa. Eu estava certa, o sorriso de Carly se desmanchou instantaneamente, me assustei – Oh, meu Deus! Meu bebê. Por favor, me diga que ele está bem. – Olhei para minha barriga já bastante avantajada, tocando-a com apreensão.
— Não se preocupe o bebê está bem, agora! – Me tranquilizou, mas aparentava estar ainda mais nervosa que eu. – Só que a partir de agora a senhorita vai precisar de muito repouso. Vai precisar ficar no hospital até o final da gravidez.
— Tanto assim? – Perguntei angustiada. Ainda faltava algumas semanas para completar o sétimo mês de gestação.
— É importante Sam. Você teve uma hemorragia grave, poderia ter morrido. Tanto você quando o bebê. Sua placenta está descolada, ela pode se estabilizar naturalmente, mas se isso não acontecer, vai precisar ficar no hospital, para o seu próprio bem. – Disse tocando minha mão, num gesto de carinho. – E mesmo que esteja tudo bem agora, seu parto pode ser bem complicado. Não queria te falar isso, mas você e meu afilhadinho ainda correm risco. Vou estar com você para o que precisar, mas precisa ser forte.
Eu levei alguns minutos digerindo tudo aquilo. Meu bebê quase morreu. Pode morrer. Não posso correr esse risco. Não posso perder um filho outra vez. Não irei aguentar.
Tentei me lembrar dos últimos acontecimentos, lembrava da discussão com Freddie. O início das dores, já durante a nossa conversa. Ryan indo embora, depois de mais uma discussão. E então o sangue entre minhas pernas. Depois, tudo se tornou um borrão.
— Você quer alguma coisa? – Perguntou, após meu silêncio de alguns minutos. Chacoalhei a cabeça, negando. – Eu vou chamar o médico. – Sussurrou após alguns segundos, saindo do quarto em pânico.
Gritei para ela voltar, mas não adiantou, devo tê-la assustado com a minha reação. Alguns poucos minutos depois ela voltou com o médico.
[...]
— Está bem, mesmo?
Carly perguntou segundos após o médico sair. Ela ainda me olhava com uma preocupação evidente. Como se eu estivesse péssima, ou como se eu fosse um objeto de vidro prestes a se quebrar. O que podia ser verdade. Mas eu estava bem, pelo menos na medida do possível.
— Sim. Você não ouviu o médico? Ele fez um ultrassom, o bebê está bem. Desde que eu fique de repouso nada vai acontecer comigo, não se preocupe. Não quero ficar louca. E se eu ficar pensando em coisas ruins que podem ou não acontecer, vou ficar. Preciso passar calma, conforto para o bebê, e você me olhando com essa cara não ajuda. – Sorri tentando acalmá-la, não deu certo.
— É que me preocupo com você, Sammy. Esses últimos dias foram terríveis. – Sussurrou com os olhos lacrimejados e me deu um abraço.
— Carlotinha, você precisa confiar em mim. Eu estou bem, me sinto bem. Se eu estivesse chorando, cheia de lamúrias, aí sim você deveria ficar preocupada. Quero levar o resto da minha gravidez na maior tranquilidade possível. Sorrindo. Mesmo que precise ficar aqui. Tenho fé que sairei daqui bem e com o meu bebê nos braços.
— Sei que estou sendo um pouco dramática. – Ela se afastou, secando as lágrimas com um lenço. – Mas você nos deu um grande susto. Nunca mais faça isso, por favor.
— Vou tentar, prometo. – Sorri brincalhona e ela me deu um tapinha no mão. – Mas chega de tristeza por aqui. Não estou morrendo, ao menos por enquanto.
— Não fala assim, e sério não faça mais isso. Todos ficamos aflitos. Freddie e Ryan então, ficaram completamente desesperados. – Carly disse sentando-se na beirada da cama. Já parecia mais calma. — Aliás, deve estar ansiosa para vê-los.
— Na verdade não. São dois idiotas. – Disse irritada me lembrando dos últimos acontecimentos.
Não posso culpá-los pelo que aconteceu. Apesar de saber que foi por culpa deles que eu me alterei, durante minha conversa/discussão com o Benson começaram as dores. E ver o Ryan indo embora fez minha dor retornar e com mais força ainda, e então quando me dei conta já estava me coberta de sangue. Não posso deixar eles me abalarem assim novamente, pelo bem do bebê. Vou pensar somente no meu pedacinho de gente agora.
— Sério? Não parecia, depois de chamar por eles enquanto dormia, seguidas vezes nesses últimos dias. – Carly comentou após alguns segundos, ‘’analisando’’ a situação. – Impressionante como até inconsciente não consegue se decidir qual deles quer. — Riu num tom divertido. Sorri também, a tensão havia ido embora.
— Eu chamei por eles?
— Sim. Chamou, e mais de uma vez. Eu que fiquei aqui escutando o quando você é louca por eles. — Senti minhas bochechas ruborizarem ao escutar seu tom insinuativo. – Eles tinham que estar aqui pra ouvir isso. Eu poderia apostar que eles iam se engalfinhar pra ver qual nome você repetia mais. – Riu mais uma vez e eu revirei os olhos, mas não pude evitar uma risada. Os conhecendo, não era de se duvidar.
— Falando nisso... Cadê aqueles dois imprestáveis? – Disse tentando conter minha ansiedade. Não deu certo.
— Você está de morrendo de vontade de ver eles, admita. — Carly soltou um sorriso convencido.
— Pode ser! – Revirei os olhos, corando.
— Então, eles também não te viram ainda. Houveram alguns probleminhas enquanto você estava inconsciente. – Disse com uma careta.
— Como?
— Eles brigaram. – Disse rápido, quase não entendi. – E sim, estou falando de socos e chutes, na recepção. E o hospital barrou a entrada deles.
— Meu Deus! Por quê? – Disse sem acreditar.
— Jura que não sabe? Qual é o único motivo que faz eles voltarem a pré-história? — Me olhou sugestiva.
— Babacas! – Revirei os olhos. — Como até na hora que estou morrendo eles conseguem arranjar tempo para brigar?
— Pois é. Enfim, o pessoal do hospital só vai autorizar a entrada deles novamente se você autorizar.
— Por mim, pode continuar do jeito que está. – Cruzei os braços, aborrecida.
— Ah, tadinhos Sam. Eles estão muito preocupados com você. E você não pode dizer que não quer vê-los. Além disso, tenho que certeza que meu afilhadinho quer ver o papai... Ou papais. – Tentou se manter séria, mas riu ao final da frase. Por algum motivo ela achava isso hilário.
— Por quê nunca a oportunidade de tirar uma com a minha cara? – Perguntei numa falsa irritação.
— Porque é engraçado. E a culpa não é minha se você me contou como o bebê foi feito. – Me condenei mentalmente por ter contado a Carly como aconteceu. — Pensa só, Sam. Se fossem gêmeos, o Freddie poderia ser pai de um, e o Ryan de outro. – Riu mais uma vez.
— Para, não é engraçado. E essa não é a melhor forma de não me deixar nervosa, Carls!
— Tá, desculpa. Mas vai que aconteceu algum tipo de mutação genética e os dois são pais...
— CARLY!
— Tá, parei. – Riu – Sabe que estou brincando.
— Não devia ter te contado. – Disse emburrada.
— Devia sim, senão eu não poderia achar engraçado. Mas agora sério, posso avisar que eles podem vir te ver?
— Não!
— Ah, Sam. Eles estão desesperados, todos nós estávamos. Agora você está bem, mas eu tenho certeza que eles vão querer vir conferir com os próprios olhos. E além do mais, a senhorita deve ficar no hospital por uns bons dias. – Carly como sempre, tentou ser convincente.
— Tudo bem. – Concordei ainda incerta. Não posso dizer que não quero vê-los. E ela estava certa. – Mas avise que se forem pra vir aqui brigar, ou me irritar nem precisa.
— Ótimo, eles vão ficar muito felizes. – Ela disse, e caminhou até o sofá, pegando sua bolsa. – Nossa, já está tarde. Eu tenho que ir, Sammy. Ligo para os meninos no caminho. Melanie já deve estar chegando.
— Melanie? – Indaguei sem entender.
— Estamos nos revezando pra cuidar de você nesses dias. Na verdade, ela fica aqui a maior parte do tempo. Até pediu uma licença do trabalho.
— Sério? – Perguntei surpresa.
— Sim. Pode ser que não acredite, mas sua irmã gosta muito de você. Eu tenho que ir, ela deve vir logo. Fica bem, loira! – Ela se aproximou dando um beijo na minha testa.
Carly então saiu. Me deixando com um grande ponto de interrogação na cabeça. Melanie estava mesmo cuidando de mim?
[...]
Fazia algumas horas que estávamos num silêncio assustador no quarto. Claro, ainda era muito estranho minha irmã, aquela que eu havia descaradamente tentado transar com o marido, estivesse cuidando da amante dele. E pior, ela parecia realmente preocupada comigo e com o bebê. Isso me deixa ainda mais confusa. Imaginava que Melanie estivesse me odiando, que na primeira oportunidade que tentasse me esganar. Era o que eu achava, mas ela parecia bastante dedicada a cuidar de mim. Me ajudou a ir ao banheiro, tomar banho, me levou até o jardim para pegar um pouco de Sol. Estava me tratando muito bem. Era muito estranho.
Ela devia me odiar. Mas estava cuidando de mim, e me tratando sem o mínimo rancor. Durante o dia, me peguei pensando em várias coisas. Talvez ela estivesse aqui comigo por conta do remorso, de se sentir culpada pela perda do meu primeiro bebê. Ou fosse pela possibilidade de ser filho de Freddie, afinal é seu marido. Lembro dele comentar algo sobre eles terem se separado, mas eu não tinha certeza. Eu realmente não conseguia entender.
— Por que está fazendo isso? – Ouvi minha voz ecoar pelo quarto. Não consegui mais segurar, eu precisava perguntar.
— Isso o quê? – Melanie perguntou, tirando os olhos do livro e me encarando. Ela estava sentada no sofá, no canto do quarto.
— Você sabe... Cuidar de mim. Por quê? A Carly eu entendo, somos amigas. Mas você... – Indaguei desconfiada.
— É o meu sobrinho, Sam! – Ela levantou, e se aproximou, tocando minha barriga com um sorriso doce. – E você é minha irmã...
— Você me odeia, Melanie. Pelo menos deveria... – Disse ainda mais confusa.
— Eu nunca te odiei, nunca mesmo. Eu achei que sim. Mas não. – Ela sorriu, sentando-se na poltrona ao meu lado.
— De novo, você deveria. Eu te humilhei na frente de várias pessoas, Melanie. Dormi com seu marido, engravidei dele. Como pode estar nesse hospital cuidando daquela que deveria ser a pessoa que você mais odiaria na vida? – Perguntei incrédula, mas para minha surpresa pareceu se divertir com minha expressão.
— Sempre a mesma, Sam. – Soltou uma leve risada — Se o seu objetivo era me fazer sofrer tanto que eu a odiasse para o resto da vida, fico feliz em te informar que não deu certo. No começo, sim. Você me fez sofrer sim, e muito. Mas eu soube admitir que eu mereci. Sabia o quanto você amava o Austin e mesmo assim cedi as investidas dele e fomos pra cama. – Ela fechou os olhos, com uma expressão enraivecida.
— Isso não importa mais. – Disse incomodada com o assunto. Mas ela continuou.
— Importa sim. Precisamos falar sobre nosso passado, Sam. E talvez agora seja o momento.
— Precisamos mesmo falar? Conhecemos nosso passado. Não há muito para ser dito.
— Há muito ainda, Sam. Pense o quanto nos machucamos. Por Deus, somo irmãs. Sei que maior culpa foi minha. Fugi como uma covarde depois que você perdeu o bebê. Eu deveria ter ficado, implorado seu perdão de joelhos se fosse possível, mas ao invés disso eu fugi. Fui embora porque estava com vergonha, me sentindo culpada, o remorso me corroendo, não conseguia olhar na sua cara. Então fui embora, tentando deixar todo o meu passado que me envergonhava para trás. Mas agora vejo que esse foi meu maior erro. Porque admito, eu consegui esquecer. Conheci Freddie, ele era o homem dos meus sonhos, eu sabia que não poderia haver ninguém melhor, em seguida nos casamos. E eu me senti a pessoa mais feliz do mundo. E fui egoísta o suficiente pra ser feliz e esquecer o que tinha feito a você... Mas então você voltou, tudo veio à tona. No fundo, eu sabia que um dia pagaria por ter feito você sofrer... E o dia chegou! – Ela soltou sorriso triste e melancólico. Seus olhos já escorriam algumas lágrimas. Percebi que meus olhos também estavam marejados.
— Planejei durante anos me vingar de você! – Contei e ela me olhou, prestando atenção. — Nunca consegui superar saber que enquanto você estava cursando a faculdade com honras, vivendo sua vida feliz, e da melhor forma possível, depois saber que você estava casada. E eu ainda morava com nossos pais e vivia uma vida regada a sexo e bebidas, sem o menor comprometimento com nada. Não consegui ficar nem um semestre inteiro na faculdade. Não consegui em um só momento ser feliz depois do acidente. E eu só conseguia pensar que a culpa era sua. Eu nunca fui uma pessoa amargurada e vingativa. Isso acabou comigo.
— Eu sei. Sei que a culpa é minha. E às vezes acho que mereci sua vingança. Mereci o sofrimento. Por isso peço desculpas. Mais uma vez, com toda sinceridade do mundo. Eu aprendi com meu erro.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas. Por quê não sinto o conforto que eu imaginei que sentiria? Sempre achei que quando a fizesse sofrer tudo o que eu sofri eu me sentiria bem. Que o vazio que estava presente no meu peito se fechasse quando eu conseguisse. Por quê não consigo sentir essa satisfação? Muito pelo contrário, parece que esse vazio só aumentava.
— Eu até tentei esquecer a ideia... Mas quando me dei conta, já havia ido longe demais. Me apaixonar pelo Freddie não estava nos planos, e a gravidez muito menos. Eu não consegui parar. – Sequei uma lágrima insistente que caiu. – Admito que ver você sofrendo foi muito bom... Me senti vingada. Não me importei em ter usado o Freddie, magoado o Ryan, ter sido expulsa de casa. Tudo compensou, mas foi aquele momento... Agora que vejo o quanto foi estúpido. Essa maldita vingança só trouxe dor para todos. — Respirei fundo, tentando não chorar. — Eu só não conseguia entender o porquê você me tirou o meu namorado e o meu bebê e acabou tendo uma vida maravilhosa. Isso me dominou, eu só conseguia pensar em uma maneira de acabar com a sua vidinha perfeita. – Falei de uma vez. Pela primeira vez, sentindo raiva de mim mesma... Por tudo.
— Eu não posso julgar você por me culpar. Porque eu sei que fui culpada. Quando você descobriu que estava grávida ficou tão feliz. Eu fui a primeira pessoa que você contou, lembra? Estava radiante apesar de ser tão jovem. – Ela tocou minha barriga num gesto de carinho. – Lembro de você me contando como tinha imaginado um futuro com Austin e o bebê. Eu estava feliz por você apesar de não gostar muito do Austin. Mas minha irmãzinha estava feliz, eu não poderia querer mais nada.
— Eu era só uma adolescente iludida achando que tinha achado seu príncipe encantado. Agora vejo o quanto fui estúpida. Na verdade, a vingança, vir para Seattle, tudo foi. – Mais uma vez, percebi o quanto minhas atitudes tinham sido erradas.
— E sabe o que é irônico... Sua vingança foi estúpida sim, porque o mundo acabou se encarregando disso por você. – Ela ainda acariciava minha barriga, com um sorriso triste no rosto. – Descobri a algum tempo que não posso engravidar, sou estéril. Nunca poderei gerar um bebê. – Ela finalmente me olhou, sua face estava coberta de lágrimas. – E às vezes acho que mereço. Sempre quis ter um filho, mas sei que fui culpada por você não ter o seu. Aquele acidente jamais teria acontecido se eu não tivesse caído em tentação, levada por uma atração estúpida. Sempre me senti culpada e sei que sou. De certa forma, recebi o castigo.
Meu queixo simplesmente caiu. Há alguns meses se soubesse que Melanie era estéril riria até ficar rouca, comemoraria como uma vitória pessoal. Mas agora... Admito, que não senti um mínimo de felicidade. Na verdade, me senti mal. O modo como eu contei que estava grávida de Freddie, gritando aos quatro-ventos, a humilhando. Deve tê-la machucado tanto. Oh ,céus! Por quê me sinto tão mal?
— Eu nunca imaginei que... – Comecei, mas acabei me cortando. Eu não sabia o que dizer. O que poderia falar... Tentar conforta-la? Há quem estou querendo enganar? Não é como se nossa relação estivesse às mil maravilhas.
— Tudo bem. Eu estou bem com isso, de verdade. – Disse numa tentativa falha de sorrir. – Freddie foi bem compreensivo na época em que descobri. Quero dizer, ele me ajudou bastante e... – Ela se calou ao perceber o nome que havia dito. Não havíamos trocado uma palavra sobre ele.
— Eu imagino! – Disse curta. Isso me incomoda muito.
— Sabe, ele será um pai maravilhoso, Sam. Tenho certeza que essa criança será sua vida. – Ela tentou contornar o assunto.
— E você uma madrasta maravilhosa, imagino? – Percebi uma pitada de sarcasmo sair da minha voz, mesmo não sendo proposital.
— Madrasta? Não, com certeza não. Mas espero ser uma excelente tia. – Ela riu — Achei que soubesse que Freddie e eu nos separamos.
— Ele disse. Mas ele normalmente fala tantas mentiras, nunca se sabe. Isso sem falar que pelo que vi no restaurante aquele dia, vocês não estavam tão separados assim, não como ele me disse... – Não pude ocultar a raiva na minha voz. Esse dia ainda me causava náuseas.
— Carly e eu estamos namorando, sabia? – Me interrompeu com um sorriso, trocando de assunto, já prevendo uma possível discussão.
— Vocês estão juntas? – Perguntei surpresa.
Sabia que Carly havia se apaixonado por ela. E que havia rolado alguma coisa. Mas nunca imaginei que Melanie teria coragem de assumir um relacionamento com ela.
Me surpreendi também como saímos de assuntos conturbados, como traição, passado, e homens para uma conversa mais ou menos amigável sobre seu novo relacionamento.
— Sim. Há poucos dias, mas estamos. Já dei entrada nos papéis do divórcio e em breve vamos oficializar. – Sorriu contente.
— Vocês querem se casar? – Perguntei chocada.
— Sim. Quer dizer, conversamos pouco sobre isso. Mas ela deixou claro sua vontade e eu também desejo isso. Então não haverá problemas. – Contou.
— Uau. Por essa eu não esperava. Já conta para Pam e John? – Perguntei curiosa. Duvidava muito que eles aceitassem isso numa boa.
— Não. Ainda não. – Ela ficou tensa. Acho que também tinha medo que eles não aceitassem.
— Pode ser difícil, mas... Carly é uma pessoa maravilhosa, não desista dela, ela merece ser feliz... E você também. – Completei a última parte baixo. Minhas palavras saíram automaticamente, sem controle. Mas para minha surpresa, eu me senti bem após ter dito.
Melanie sorriu, parecendo satisfeita com meu comentário. Na verdade, pareceu contente. Ela ia responder mais foi interrompida pela toque do celular e saiu, pedindo licença pra atender. Voltei pouco tempo depois, entrando sorridente no quarto.
— Boa notícia. Parece que vai receber visitas.
— Quêm?
— Mamãe e papai! – Respondeu sorrindo.
— Por quê? Para fingir que eles se importam comigo? – Dei de ombros, me sentindo chateada.
— Sam... Eles se importam com você. Só foi um baque eles descobrirem daquela forma. Sei disso por quê, né?... Bem, é óbvio. Mas não é como se eles não ligassem pra você.
— Faz mais de cinco meses que eu não os vejo. Eles me expulsaram de casa e simplesmente esqueceram da minha existência. Nem ao menos recebi uma ligação. Por quê isso, agora? – Disse magoada.
— Eles ficaram muito preocupados quando eu contei que você estava no hospital. Só não vieram antes porque estavam fora do país. Eles chegaram agora a pouco e já estão vindo pra cá. Por favor, Sam. Colabora. – Pediu.
— Eles podem até vir. Mas vão ser tratados como essa parede. – Resmunguei apontando e ela riu.
— Tente ser boazinha. – Ela disse e riu. O celular deu mais um toque. Uma mensagem – Uau. Parece que você vai receber muitas visitas! — Sorriu sugestiva.
P.O.V Freddie
Batia meus dedos ansiosamente no sofá. Ryan estava sentado na poltrona, logo a minha frente, tão ou mais nervoso do que eu. Estávamos esperando Carly com as autorizações para podermos ir ao hospital. Hoje, um pouco mais cedo, Ryan recebeu uma ligação dela. Sam havia acordado. E estava bem.
Graças a uma estupidez, uma briga sem sentido, não pude vê-la. Hoje, Ryan me ligou a menos de duas horas, me dando a notícia. Fiquei tão feliz, tão aliviado. Meu amor estava salvo, e nosso bebê também. Os últimos dias foram tão difíceis, imaginar ela lá, correndo risco. Imaginar que meu filho correu tanto risco quanto ela. Não consigo pensar em minha vida sem ela de agora em diante. Mesmo nunca a tendo por completo, sinto como se ela fosse minha. Perdê-la não é uma cogitação.
Por conta das circunstâncias, combinamos de ir nós dois juntos vê-la. Talvez não fosse uma boa ideia, nos deixamos levar por qualquer coisa. Isso ficou bem claro após a briga idiota no dia que ela passou mal. Não podemos deixar que isso aconteça novamente. Carly avisou a ele que o caso de Sam ainda era bem delicado, que ela precisava de repouso, tranquilidade e sossego. Teríamos que nos controlar para não acabar caindo em alguma discussão.
— Será que é mesmo o certo irmos juntos? – Compartilhei meu pensamento com ele. – Talvez não seja uma boa ideia. – Disse apreensivo.
— Carly acha que é uma boa ideia. – Deu de ombros, deixando claro que também não tinha total certeza que era a coisa certa a se fazer. – Só não podemos nos deixar levar por qualquer besteira. — Disse. Pelo visto estávamos pensando a mesma coisa. — Não que seja uma besteira não saber a paternidade do bebê. Ou não ter certeza sobre qual de nós ela realmente ama... – Ele completou desviando o olhar, mostrando na sua expressão o quanto se incomodava com aquilo.
— Eu sei. Mas no fundo você sabe que brigamos por ela. Se tivesse, ou não bebê, ainda brigaríamos. E acho que agora não importa qual é o pai biológico dele. Nós dois temos que cumprir esse papel. – Conclui com pesar, mas sei que é o certo. Sinto que é meu filho. Não consigo explicar, mas sei que é. Mas também sei que Ryan agiu muito mais como pai dele do que eu.
Ele não respondeu. Olhou para a parede com o olhar vago, parecia a milhas de quilômetros daqui. De repente uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Então ele começou:
— Como chegamos a isso? Quero dizer, a pouco mais de um ano éramos melhores amigos, você foi o irmão que eu nunca tive. Meu parceiro. Tínhamos uma vida estável, você casado com a Mel, feliz, planejando filhos e comprar uma casa maior. Eu, tendo uma vida de balada que eu amava, ficando com uma mulher atrás da outra. Eu me sentia tão jovem para amar, para namorar, e quem dera casar. E de repente tudo isso foi embora... Agora, não conseguimos ficar no mesmo cômodo por mais de alguns minutos sem discutir e querer quebrar a cara um do outro. Seu casamento desceu pelo ralo e sua mulher assumiu uma relação com a Carly. E eu? Não consigo pensar em outra mulher que não seja ela. No dia em que eu saí de casa sabe pra onde eu fui? Para uma balada, tomar umas bebidas e tentar pegar algumas gatas. É o que eu sempre fazia depois de um coração partido, e sempre deu certo. Não dessa vez, porque eu só conseguia pensar na Sam. No quanto eu tinha sido egoísta em abandonar ela grávida. Mesmo sabendo que fiz isso para o seu bem. Porque quero que ela seja feliz. Sei que ela me ama, mas sinto que... Ela não me ama como ama você. – Ele tomou fôlego, angustiado com sua última frase.
— Está dizendo que... – Comecei, mas ele me interrompeu.
— Não. Não me arrependo de ter conhecido ela. Nem de nada do que aconteceu, a amo, não tenho dúvida. Mas sei que você a ama também, tanto ou mais do que eu. Eu só... Não sei como chegamos a isso. Se vamos aguentar. Nos odiamos, certo? E se o bebê for seu filho, mas a Sam quiser ficar comigo? Ou se o filho for meu, mas a Sam ficar com você. Eu não consigo me adaptar a essa situação, você não sabe como eu penso nisso nos últimos tempos. Mas o fato que mais me apavora é que o bebê seja seu e ela fique com você. Isso me deixa louco. Porque eu vou ter que me afastar, não sei se consigo suportar vocês como uma família feliz. Mas também não sei se consigo ficar longe. – Ele desabafou, tudo de uma vez. Sua voz estava embargada.
Não soube o que dizer. Não pensava muito nisso. No geral para não sofrer. Não deu muito certo, porque exatamente o que ele descreveu foi minha vida nos últimos meses. Eu não conseguia suportar saber que eles estavam felizes, juntos curtindo a gravidez. Eu deveria estar lá. Ou talvez não, como minha consciência adora me lembrar.
— Sabe, eu cheguei a implorar a Sam para fazermos um teste de DNA de uma vez. Talvez fosse melhor que a tristeza ou alegria de ver o resultado logo e fosse menos desgastante. Isso está me matando.
— Sei como se sente, Ryan. A Sam virou minha vida de cabeça pra baixo. De repente eu me vi apaixonado pela minha cunhada. Era completamente estranho, já que eu estava com a sua cópia ao meu lado. Só consegui perceber o quanto a amava quando voltei com a Melanie e vocês ficaram juntos. Como você disse, agindo como uma família feliz. Percebi que mesmo estando com alguém igual a ela do meu lado, não era a mesma coisa. Nunca foi. Preciso dela. Mas pra ser sincero, não quero mais brigar com você. Sei que nossa relação nunca mais vai voltar a ser mesma. Mas precisamos ter ao menos uma relação amigável, para o bem da Sam e do bebê.
— Eu concordo, é o melhor. Esperamos até o bebê nascer, fazemos um teste de DNA e essa dúvida acaba. Mas por enquanto vamos tentar segurar a onda, e confortar a Sam.
Concordei com a cabeça e a campainha tocou. Era Carly. Levantei rapidamente, andando apressadamente até a porta, estava ansioso para ver minha loira. Ryan seguia atrás de mim.
— Olá, meninos. – Ela nos cumprimentou simpática. – Preparados?
— Sim. Eu acho. – Respondi um pouco nervoso.
— Já aviso que ela está chateada com os dois. Por favor, lembrem que a Sam está frágil. Uma briga de vocês não ajudaria nada. Fora que eu tive um trabalhão para convencer o hospital para deixar vocês voltarem lá. Prometam que vão se comportar na frente dela, sem se provocarem, sem discussões e muito menos brigas.
Concordei com a cabeça, olhando para Ryan e esperando sua confirmação. Ele assentiu, olhando para e depois para Carly. Estendi a mão e ele apertou, selamos um pacto. Pelo bem da Sam haveria uma trégua.
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