Doce Pecado
42 Momentos de aflição...
Notas iniciais
P.O.V Da Carly
— Eu lavo e você enxuga. — Apontei para a pequena pilha de louça suja.
— Certo. — Concordou e fez um coque no cabelo. — E você me orienta na hora de guardar! — Disse me observando, enquanto eu começava a lavar as louças.
— O que você tanto olha? — Perguntei depois de alguns minutos, ficando corada com o seu olhar fixo em mim.
— Por acaso é crime admirar a minha garota lavando louças? — Retrucou, me fazendo rir.
— Claro que não, é só que... Me sinto um pouco envergonhada. — Confessei, lavando mais um copo de vidro.
— Você é tão linda. Como não percebi isso antes? — Se indagou, me deixando ainda mais corada.
— Para, Mel, assim você me desconcentra e não quero derrubar nenhum copo. — Avisei, fazendo-a rir. — E seus pais, será que eles vão entender e aceitar a gente? — Peguntei, hesitante.
— Não sei, Carls. Confesso que estou com medo. Seria doloroso demais se eles não aceitarem a nossa relação, e eu não pretendo deixá-la se meus pais derem uma de homofóbicos... Não vou deixar que nada destrua o que sentimos uma pela outra, prometo que vou ficar com você, aconteça o que acontecer. Nada vai nos separar. — Fez uma promessa.
— Não é tão simples assim, e eu não quero ficar entre você e sua família. Sei que devemos enfrentar todo o preconceito, e que tudo isso não é fácil de lidar. No começo foi muito difícil pra mim, meu pai e me avô não queriam me aceitar, apenas tive o apoio do meu irmão mais velho. E eu não quero que você sofra, entende? — Entreguei um copo de vidro para ela.
— Sim. — Respondeu, começando a enxugar o copo.
Virei o rosto e liguei a torneira, tratando de enxaguar alguns pratos que estavam com espuma. Ouvi o barulho do vidro se chocando no chão, olhei para a Melanie e vi que ela estava imóvel, parecia ter levado um susto. Ela havia derrubado o copo que se estilhaçou, a minha loira fechou os olhos e se apoiou na pia, pondo a mão direita no coração.
— O que foi? — Perguntei, preocupada.
— Senti um aperto no coração... Como se fosse um mau pressentimento, sabe? — Respondeu, me olhando angustiada.
— Você está pálida, é melhor sentar e tomar um pouco d'água. — Sugeri, e ela assentiu, sentou-se na cadeira perto da geladeira e eu lhe servi um copo d'água.
— Estou sentindo e meu coração não nega. Aconteceu alguma coisa ruim, sei disso... — Murmurou segurando o copo com as mãos trêmulas.
— Tente se acalmar, ok? Talvez não tenha...
Um celular tocou e ela sobressaltou, também tomei um pequeno susto. Era o meu celular que estava em cima da bancada, corri para atendê-lo.
— É o número da Sam. — Falei, fitando a tela.
Ficamos nos encarando, ambas tensas. Foi apenas um toque, tentei retornar, chamou até cair na caixa de mensagens.
Olhei para a Melanie aflita e ela se levantou, preocupada.
— Por quê ela não atende? Será que aconteceu alguma coisa? Deus, eu disse que tive um mau pressentimento... Tente ligar de novo, Carls. — Pediu, ficando desesperada.
— Vamos para o apartamento do Ryan, eu avisei para ela me ligar, se ela passasse mal e ele não estivesse lá para socorrê-la. — Falei apressada.
[...]
Ao chegarmos no prédio, pedimos informação ao porteiro e ele nos falou que o Ryan havia saído com bagagens. Pegamos o elevador, e assim que chegamos no andar desejado e as portas abriram, corremos o mais rápido possível...
A porta estava destrancada, adentramos sem cerimônia. E nos deparamos com a Sam caída e desacordada, com o celular ao lado dela.
— Ela está sangrando. Será que ela caiu e se machucou? — Melanie se abaixou ao lado da irmã, quase entrei em pânico. Mas eu tinha que manter a calma, e socorrer minha amiga/cunhada.
— Rápido, Mel, me ajude a carregá-la. Temos que levá-la ao hospital. E não precisamos perder mais tempo. — Avisei.
" Por favor, Deus, minha amiga não pode estar sofrendo um aborto... Que isso não seja um aborto. Por favor, Deus, não permita isto..."
Comecei a repetir mentalmente, como um mantra.
— A gente não vai dar conta... — Começou a chorar. — Termos que chamar alguém para nos ajudar... — Minha loira disse, tão preocupada e apavorada como eu.
— Então, desça e peça ajuda para alguém. — Falei e ela assentiu, apoiou a cabeça da Sam nas minhas coxas e saiu correndo, gritando por socorro.
— Não, amiga... Você não vai perder o bebê, a ajuda vai chegar a qualquer momento, e tudo vai ficar bem. — Sussurrei, acariciando seu rosto.
Suas pálpebras tremularam, e ela gemeu de dor, contorcendo-se. Foi recuperando a consciência aos poucos...
— Carls? — Sussurrou, fez careta e se contorceu novamente.
— Estou aqui. Sua irmã foi buscar ajuda. Nós vamos levá-la ao...
— Ainda tô sangrando, não estou? Estou perdendo o meu bebê... Sinto que estou o perdendo... Meu bebê... — Soluçou, tocando no ventre, suas mãos estavam sujas de sangue.
— Não pense nisso, você não vai perdê-lo. Tente se manter acordada, por favor... — Implorei e ela revirou os olhos perdendo o foco, soltou mais um gemido de dor e foi perdendo os sentidos.
Lágrimas banhavam meu rosto, e a Melanie retornou trazendo dois rapazes para nos ajudar.
— Com cuidado, por favor. — Pedi para eles.
Aqueles rapazes a carregaram, pegando-a com cautela.
— Vou ligar para a mamãe. — A Mel começou a procurar os celular nos bolsos. — Droga, esqueci no seu apartamento! — Choramingou.
— Vamos, temos que ir com eles. Estou nervosa demais para ir dirigindo. — Avisei, evitando olhar para a pequena poça de sangue, ali na sala de Ryan.
Minutos depois...
Liguei para o Ryan e ele atendeu de imediato. Eu precisava avisar ele, mantê-lo informado sobre o que estava acontecendo com a Sam. Afinal, ele poderia ter chances de ser o pai daquela criança.
— Fala, morena. — Atendeu fingindo uma falsa animação.
— Onde você está, Ry? — Perguntei, chamando-o pelo apelido.
— O que aconteceu, Carly? — Percebeu o meu tom de voz choroso, e disparou a pergunta.
— Estamos à caminho do hospital mais próximo, a Sam me ligou... Quando cheguei no seu apartamento com a Mel, a encontramos desmaiada e sangrando. — Dei a notícia.
— Fala o nome do hospital. — Pediu e eu lhe informei. — Já tô indo pra lá. Valeu por me avisar! — Agradeceu apressado e encerrou a ligação.
— Me empresta? — Mel apontou para o meu iPhone. — O Freddie também precisa ficar sabendo, o Ryan não é o único que deve se manter informado sobre o estado em que a Sam se encontra. — Justificou.
— Você tem razão. Ligue para ele! — Lhe emprestei o meu celular.
[...]
P.O.V Do Freddie
— Por Deus, será que pode repetir, Melanie? Não estou entendendo nada. A ligação tá ruim. — Pedi, confuso.
Estava no mercado, quando a minha ex me ligou, continuei empurrando o carrinho de compras. A Melanie desatou a falar, parei de andar e paralisei...
— O quê? — Minha voz saiu quase falha, o mundo ao meu redor parou de girar e eu quase deixei meu celular cair.
As palavras dela ecoaram por minha cabeça... Não, não, não. Aquilo não podia estar acontecendo... Por quê, Deus?
— Já estou indo, nos vemos aí. — Falei depressa, desligando, enfiei o celular no bolso.
Larguei o carrinho de compras, comecei a correr, empurrando as pessoas, sequer perdendo tempo para me desculpar. Estava lotado, demorei para sair dali e chegar no estacionamento. Liguei o carro, sequer coloquei o cinto de segurança e pisei fundo no acelerador. Parti, quase voando pelas ruas movimentadas de Seattle, rumando para o hospital.
A mulher da minha vida e o meu filho estavam correndo risco de vida. E eu precisava chegar lá, o mais rápido possível. Antes do Ryan.
Ultrapassei alguns sinais vermelhos, e por pouco não atropelei alguns pedestres. Fui buzinando, ignorando alguns xingamentos de outros motoristas e não me importando se eu seria multado ou não. Por sorte, nenhuma viatura me seguiu. E também não provoquei nenhum acidente.
Cheguei ao hospital, estacionei de qualquer jeito e sai correndo.
Adentrei a recepção, aonde encontrei Carly e Melanie. Ambas nervosas, discutindo com uma das recepcionistas.
— EXIJO QUE MINHA AMIGA SEJA ATENDIDA AGORA! VOCÊS ESTÃO ESPERANDO MINHA AMIGA MORRER E SÓ DEPOIS TOMAREM ALGUMA PROVIDÊNCIA?- Carly gritou brava, batendo no tampo da bancada.
Avistei a Sam, que estava sentada no banco comprido, no corredor de espera, sendo segurada por um cara desconhecido.
— MINHA IRMÃ GRÁVIDA ESTÁ TENDO UM SANGRAMENTO. CADÊ O ATENDIMENTO QUANDO A GENTE PRECISA? CHAMA A PORRA DE UM MÉDICO. EXIJO QUE ELA SEJA ATENDIDA AGORA. E VOCÊS VÃO SE ARREPENDER SE ACONTECER ALGUMA COISA COM ELA OU COM O MEU SOBRINHO! — Melanie berrou, se debruçando na bancada.
A mulher ficou com medo da loira, e pegou o telefone. Entregou uma prancheta pra Melanie, para a loira preencher uma ficha de entrada.
Carly e Mel nem me viram chegar, fiquei um pouco aliviado vendo a recepcionista pedir para trazerem uma maca urgente. A Sam ia já ser atendida...
Corri para ficar ao lado da minha loira, e fiquei mais apavorado quando cheguei perto e vi suas pernas manchadas de sangue.
— Estou aqui, meu amor! — Sentei ao seu lado, ignorando dois rapazes que falaram alguma coisa pra mim.
— Graças à Deus que você chegou, Ryan... — Ouvi a voz da Carly.
Olhei para a recepcão, e vi meu ex-amigo todo descabelado, e ele veio em minha direção.
— A CULPA É SUA! — Gritou, apontando para mim. — Você fez ela ficar nervosa... Ela passou mal e a CULPA TODA É SUA, MALDITO! — Me agarrou pela gola da camisa, me tirando do banco.
— Tire as mãos de mim. A Sam é minha e o filho é meu. Você não tem nada para fazer aqui, vai embora! — O empurrei, me soltando das mãos dele.
— PAREM JÁ COM ISSO VOCÊS DOIS. PRECISAM ESTAR UNIDOS E NÃO BRIGANDO, SEUS IDIOTAS! — A Shay berrou, tentando nos apartar.
Olhei para o banco, e a Sam não estava mais lá. Vi alguns enfermeiros colocando-a numa maca. A Melanie estava ao lado da irmã.
— Pra onde você pensa que vai? — Segurei o braço do Collins.
— Vou acompanhar ela. A Sam precisa de mim. — Tentou se soltar, aumentei o aperto. — Me solta, porra! — Gruniu.
Ele me empurrou e desferiu um soco, acertou meu maxilar. Cambaleei, mas não cai. Senti algo quente escorrendo por meu queixo, era sangue. Parti pra cima dele, nós dois caímos e rolamos pelo chão. Trocando socos. Ignorando os gritinhos da Shay.
Dois seguranças apartaram a briga, e nos colocaram pra fora. Nos proibindo de voltar a pôr os pés lá dentro do hospital.
— Tá satisfeito, Benson? E de novo a culpa é sua! — Reclamou segurando um lencinho no nariz que gotejava, sangrando.
— Vai se foder, Collins! — Trinquei os dentes, sentindo dor no meu maxilar.
Cuspi um poquinho de sangue e sentei na calçada, ele fez o mesmo. Abaixei a cabeça pensando na Sam e no bebê, comecei a chorar.
— Vamos dar uma trégua e rezar? — Ele também tava chorando, e estendeu a mão.
— Sim, vamos. — Concordei, segurando na mão dele. E juntos, começamos a rezar.
[...]
P.O.V Da Melanie
Liguei para os meus pais, mas nenhum dos dois atendeu. A ligação ficou caindo na caixa-postal, desisti de entrar em contato com eles e guardei o celular da Carls. Fazia um bom tempo que a Sam havia sido levada para ser atendida, acho que mais de meia hora. Suspirei, por mais que ela tenha sido vingativa, rancorosa e tenha me magoado, não só a mim. A Sam continua sendo minha irmã, e eu decidi deixar todas as coisas ruins que aconteceu entre nós para trás, pelo menos naquele momento.
E eu preciso estar aqui por ela, pois me preocupo e a amo apesar de tudo, estarei mentindo se eu alegasse o contrário. E sei que ela faria o mesmo por mim.
— Aqui está, chá de camomila com adoçante do jeito que você gosta. — A morena retornou da lanchonete/cafeteria trazendo uma caneca de chá para mim.
— Obrigada. — Peguei a caneca branca com desenhos na borda.
Carly sentou ao meu lado, repousando a mão na minha coxa direita.
— Tenha fé, nós duas sabemos que a Sam é forte. Ela e o bebê ficarão bem. — Tentou me tranquilizar.
Assenti, beberiquei um pouco do chá e apoiei a cabeça no seu ombro.
— Ela estava chamando o nome dele, quando a colocaram na maca... Ouvi ela sussurrar e chamar por ele. — Falei baixinho.
— Está se referindo ao Benson? — Perguntou, afagando meus cabelos.
— Sim. — Respondi.
— E no carro ela só sabia murmurar o nome do Ryan... — Suspirou, triste.
— Se eles fossem maduros o suficiente e civilizados não teriam sido expulsos do hospital. — Resmunguei, chateada com os rapazes.
— Verdade. — Carls, concordou.
— Está vindo um doutor aí. — Ela avisou, coloquei a caneca em cima de uma cadeira vazia e esperamos ele se pronunciar.
— Algum parente ou responsável pela paciente, Samantha Joy Puckett? — Ele perguntou parando à nossa frente, segurando uma prancheta.
— Sou irmã dela. — Levantei, me sentindo aflita.
— Sou o doutor, Devon Humberts e estou cuidando do caso da sua irmã. — Se apresentou, me cumprimentando com um aperto de mãos.
Era um homem charmoso, não aparentava ser tão velho. Era alto, tinha os olhos claros e cabelos ficando grisalhos.
— Prazer, doutor, sou Melanie B. Puckett. — Pulei o meu sobrenome de casada, usei apenas o B de Benson emendando com o meu sobrenome de solteira. — Como estão minha irmã e o bebê? — Perguntei, louca para ter notícias dela.
— A examinamos e descubrimos a causa do sangramento. Por pouco sua irmã não teve um aborto, seu sobrinho é um pequeno guerreiro. Foi um milagre ele ter sobrevivido. Devido à algum esforço, alguns vasos sanguíneos se romperam, e ela está com a placenta levemente deslocada, e isto é o que mais me preocupa. Teremos que mantê-la internada, sua irmã precisa de repouso absoluto. Ela ficará alguns dias ou até semanas em observação, sendo medicada. Iremos esperar a placenta se estabilizar naturalmente, e se isto não acontecer. Ela ficará aqui até o final da gestação, sendo acompanhada por um obstetra. Não vou negar, o caso da sua irmã é muito delicado. E se o estado dela agravar, teremos que fazer uma cesariana quando ela completar o sétimo mês de gestação. A mãe e o bebê correm riscos, mas farei tudo o que estiver ao meu alcance para salvá-los. E se infelizmente, for preciso fazer um procedimento extremo para evitar uma hemorragia ou para evitar que a placenta se desloque ainda mais, teremos que ter a permissão do pai da criança. Pois nesses casos extremos, ele conversará com os pais da paciente e escolherá se devemos salvar a mãe ou o bebê. E Deus queira que isso não aconteça, e infelizmente já perdi uma paciente e o bebê no ano passado... Agora se me der licença, preciso voltar ao trabalho. Desculpe se estou assustando vocês, mas faz parte do meu trabalho manter os familiares e amigos informados. — O doutor resumiu tudo com pesar, pediu licença e se retirou.
Desabei na cadeira, sentindo minhas pernas fraquejarem. Não conseguia formular uma palavra sequer.
— Infelizmente temos que avisar aos rapazes que a gravidez da Sam é de risco. — Carly me abraçou, e eu assenti.
— Minha irmã não merecia estar passando por isto... — Sussurrei, minha voz soou embargada e eu me permiti chorar, temendo o pior.
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