Doce Pecado
41 Entre conversas: Algo a mais...
Notas iniciais
E lá estava ele, em frente à soleira, de joelhos. Com o rosto vermelho, banhado em lágrimas, me implorando para que eu o ouvisse. Aquilo só fez com que minhas barreiras desmoronassem de vez.
Deus, por que ele estava fazendo isso?
Eu não conseguia mais. Por quê ele estava fazendo isso comigo? Tudo estava tão bem nos últimos meses. Bom, na realidade ‘’bem’’, não é a palavra, mas eu estava de certa forma resignada. Aceitei que Freddie amava e ficaria com Melanie. Aceitei que minha vingança era uma faca de dois gumes, que acertou em cheio a mim mesma. Aceitei que meu futuro seria Ryan. E principalmente, aceitei que nunca mais teria Freddie Benson em minha vida.
Mas se isso fosse realmente verdade. Por quê eu abri está maldita porta novamente? Parece que o objetivo de sua vida era me fazer de trouxa. Ele parecia tão sincero, ajoelhado em frente a porta, me pedindo para ouvi-lo. Mas aí eu me lembrava que naquele dia, no jardim, ele também parecia. Infelizmente, depois daquilo veio minha maior decepção.
Se não fosse trágico, seria até engraçado. Me esforcei tanto para separá-los, e no fim, eles estão juntos e felizes. Não valeu de nada todas as armações, mentiras, todos os joguinhos que eu tive que fazer para tê-lo. A ironia do destino foi que mesmo assim, eu não fiquei com ele.
— Conversa comigo, por favor... – Escutei seu murmúrio ao fundo, dispersando minhas inúmeras divagações.
— Eu- Eu... Freddie, eu não sei se é uma boa ideia! – Confessei nervosamente, desviando o olhar.
— Por favor... – Suplicou, finalmente levantando a cabeça. Me mostrando novamente seus olhos avermelhados, parecia que ele havia chorado muito.
— Tudo bem! – Concordei derrotada. Que droga, por quê tenho que ser tão fraca? – Mas não aqui, vamos conversar lá em baixo. Você tem cinco minutos.
— Dá última vez que você me deu cinco minutos nós transa...
— Shiu! – Olhei pra ele com uma cara feia e começamos a andar. O idiota se referia a vez em que me levou para um piquenique, disse palavras bonitinhas e conseguiu me levar pra cama. Mas foi bom ele ter me feito lembrar disse, me deu mais certeza do que não fazer.
Para a minha sorte o elevador estava cheio, se estivéssemos sozinhos aquilo seria com certeza mais desconfortável do que o já imaginável. Após mais alguns segundos e o elevador chegou ao térreo. Freddie sussurrou algo sobre um Café que tinha bem em frente ao prédio, concordei automaticamente com a cabeça. Não faria diferença, talvez até conseguíssemos conversar como gente civilizada. Ou provavelmente essa conversa viraria um barraco, mas mesmo assim, acho que precisava acontecer.
— Pode começar! – Falei assim que nos sentamos em uma das mesas.
Já bastava o silêncio que nos rondou desde a saída do apartamento, não aguentava mais. Mas também considerei que talvez ele fosse nosso melhor amigo. Uma conversa após os últimos acontecimentos poderia ser cruel. Tanto pra mim, como pra ele. Sei que minhas atitudes não foram as melhores, tão pouco as dele. Sei que nós dois erramos. Mas não tem mais chances. As feridas foram mais fundas do que o esperado, não tem mais volta. E eu estava disposta a deixar isso bem claro pra ele.
— Não vai dizer nada? Me fez vir até aqui para ficar calado? – Perguntei ríspida. Após alguns segundos, ele não havia falado.
— Eu pensei em tantas coisas pra te dizer, mas parece que todas sumiram da minha cabeça quando eu te vi. – Olhei em volta, desconfortável com aquilo. Talvez tenha sido uma péssima ideia. – Sei que te machuquei. Que nos machucamos. Acredite, doeu saber que eu só fui parte de uma vingança. Mas surpreendentemente, eu não me importei com isso, porque eu...
— Eu me apaixonei por você. E você não faz ideia de como doeu continuar com aquela vingança, mas eu sentia que precisava. O rancor foi mais forte, e você não sabe como eu me arrependi por ter seguido esse caminho, Freddie. Eu fiz todos sofrerem, você, Ryan, Melanie, meus pais. E inclusive eu mesma. – Senti meus olhos marejarem. Falar nisso era doloroso demais. Me traz muitas lembranças ruins.
— Eu não estou te julgando. Sei que teve razões pra fazer o que fez. – Disse ele. Só então me dei conta de que estava me justificando. Logo pra ele, como se ele não fosse o campeão em magoar os sentimentos das pessoas. – Eu me sentia atraído por você de uma maneira que nunca me senti na vida, não foi culpa sua, eu sempre quis. Acho que desde o momento em que vi você, entrando na minha casa, linda, forte, segura de si, uma mulher que eu nunca havia visto antes. Me encantei desde o primeiro segundo.
— Eu não sou a pessoa que você conheceu, aquela Sam cínica, egoísta, com vestidos curtos, sensuais, linguagem vulgar e chula, nunca foi eu. Era uma personagem que eu inventei, você não me conhece de verdade, então todo esse amor, que você diz sentir, não existe. E olha só, tempo esgotado. Sendo assim, adeus! – Fui rápida e grossa, pronta para sair dali logo.
— Espera... Por favor, não vai ainda. – Ele segurou meu pulso, com um olhar suplicante. – Não se trata disso. Se é o que está dizendo, eu não quero você pelo sexo. Se fosse assim, eu ficaria com qualquer uma. Temos uma ligação, e você sabe disso. – Fechei os olhos, sentindo sua mão tocar a minha com carinho.
— Não! – Puxei minha mão rapidamente – Freddie, entende, a única ligação que podemos ter é essa. – Apontei para o meu ventre — E mesmo assim, não significa que temos que ficar juntos, ou algo parecido.
— Não é assim, e você sabe que não é. Eu te amo!
— PARA! – Gritei, obtendo atenção de todos ao nosso redor – O que você quer? Me enganar de novo? Você se diverte com isso por acaso? Porque parece que sim. Nós estávamos praticamente juntos, Freddie... E no mesmo dia encontro você num jantarzinho romântico com a minha irmã. Qual o objetivo disso? Brincar com a imbecil aqui e depois correr para os braços da sua mulherzinha de novo?
Me exaltei, estava ofegante, nervosa. Sentia inúmeros olhares pra cima de nós. Toda aquela gente nos olhando me deixava mais inquieta, eu sabia que ia acabar nisso. Minhas mãos tremiam, eu estava tremendo. Me sentei na cadeira rapidamente, sentindo uma leve dor na parte inferior do abdome. Senti o bebê se mexer em seguida, ele estava inquieto.
— Tá tudo bem? – Perguntou Freddie preocupado, se ajoelhando ao meu lado e pondo a mão na minha barriga.
— Sim, tudo. Eu tenho que ir! – Levantei rapidamente, tentando fugir de tudo aquilo.
— Espera. Tem uma coisa que você precisa saber... Melanie e eu nos separamos! – Ele se levantou, me olhando esperançoso.
— Então ela te deu um chute e eu virei prêmio de consolação? – Soltei um riso forçado.
— O que? Claro que não. Eu voltei com ela, mas por uma questão de responsabilidade, culpa, é você que eu amo. – Ele tentou se aproximar, mas eu dei um passo para trás, me afastando.
— Eu não acredito, você fala isso, mas suas atitudes são totalmente contrárias... Não quero passar por isso novamente, Freddie. Entenda! – Dessa vez, sem ao menos um tchau, virei as costas ansiando sair logo deste lugar.
— Não vai... – Senti sua mão puxar meu braço com cuidado. Eu já estava lá fora – Eu não posso mais continuar sem você. Eu só preciso de mais uma chance. Por favor? – Suplicou, me encarando com os olhos marejados e baixos.
— Eu... Eu não posso. Não consigo. Não dá. – Disse com a voz trêmula, vê-lo daquele jeito era demais pra mim.
— Você ama o Ryan? – Perguntou de repente, após alguns segundos, sem me encarar.
— Isso não tem nada a ver com o Ryan. Até que não estivéssemos juntos, eu não voltaria pra você, nunca! – Tentei dizer minhas palavras com firme. Acho que no fundo era pra mim acreditar nelas.
— Tudo bem, eu já entendi. Só saiba que eu não vou desistir de você, muito menos do meu filho... Sim, eu sei que esse bebê é meu. É nosso! – Ele disse com tanta certeza que eu senti todos os meus músculos ficarem tensos. Acho que no fundo, eu sabia.
— Eu tenho que ir! – Sussurrei.
— Só mais uma coisa... – Escutei sua voz as minhas costas.
— O qu...
Fui interrompida por um beijo. Rápido e ao mesmo tempo intenso. Não correspondi, também não o impedi. Me mantive imóvel, não sabia o que fazer, sentia falta dos seus lábios. Após alguns tomei coragem e o empurrei com força.
E então saí praticamente correndo para que ele não viesse atrás de mim. Meu coração estava acelerado, minhas mãos tremiam. Entrei novamente o prédio e decidi ir de escada. Eram poucos lances e principalmente, eu poderia pensar antes de chegar no apartamento e receber uma enxurrada de perguntas. Por que ele me beijou? Por que ele me disse tudo aquilo? Com certeza sabia que me quebraria.
Minha cabeça palpitava de dor, me sentei em um dos degraus pressionando minhas têmporas com força. O que fazer? O que fazer? O que fazer?
Essa pergunta me rondava. Eu sei que o certo era Ryan. Mas não posso negar que meu coração me faz parecer uma idiota as vezes. Talvez ele tenha mudado...
Não. Não posso. Ele é um canalha que só quer brincar comigo. Após alguns minutos tentando encaixar isso na minha cabeça, levantei disposta a esquecer dessa ideia absurda de perdoá-lo de uma vez por todas. Subi alguns degraus, mas uma dor intensa me fez retroceder. Me curvei sobre o corrimão, cerrando os olhos. Em alguns segundos a dor se esvaiu, respirei aliviada. Na verdade, nem tanto, isso não era comum...
Mais alguns minutos se passaram e então me levantei, subindo os degraus ligeiramente. Logo cheguei ao andar correto e entrei no apartamento.
— Você demorou! – Comentou Ryan assim que me viu, ele estava sentado no sofá, distraído com o celular nas mãos. – Está tudo bem?
— Sim. É que eu subi de escada. E antes que você comece, eu sei que não posso ficar subindo e descendo escadas, me desculpe! – Revirei os olhos, com o possível sermão que viria a seguir.
— Eu não ia falar nada. Mas já que você comentou. Não faça mais isso, não quero que você, e muito menos o bebê se machuque! – Me olhou com uma carranca, mas em seguida veio um sorriso.
— Não vai perguntar nada? – Questionei, indo para a cozinha pegar um copo d’água. Era melhor vir logo o questionário.
— Não preciso. Sei o que conversaram! – Disse ainda com os olhos no celular.
— Sabe? – Voltei minha atenção para ele.
— Imagino. Não é muito difícil de saber o que aconteceu...
— Se é o que quer saber, eu mandei ele me deixar em paz! – O cortei imaginando onde aquilo iria chegar.
— Eu também já esperava isso! – Ele realmente parecia calmo demais para o que estava acontecendo. – E por isso já sei o que fazer...
Dizendo isso ele subiu as escadas rapidamente, em direção ao quarto. Estranhei seu comportamento, mas decidi deixa-lo. Eu queria ficar sozinha, precisava de paz e silêncio. Mais alguns minutos se passaram e Ryan desceu novamente, dessa vez na companhia de uma mochila nas costas, e uma mala razoavelmente grande.
— O que é isso? — Perguntei sem entender aquilo.
— Estou me mudando!
— Como é? – Indaguei incrédula.
— Eu vou pra um hotel, pelo menos por uns dias.
— O quê? Por quê? – Exclamei sem entender.
— Você estava demorando, então eu desci pra saber se estava tudo bem e vi... – Ele se calou, torcendo a boca, aborrecido.
Eu entendi. Ele havia visto o beijo.
— Se tudo isso foi por causa daquele beijo, não significou nada e....
— Não é só por conta do beijo, Sam. Eu percebo a cada dia que passa, que você o ama. E agora, com a Melanie fora de jogada...
— NÃO. RYAN! – Gritei vendo-o se aproximar da porta. – Eu empurrei ele, eu juro. Você não pode me deixar por causa disso
— Sam, eu não estou indo embora pra sempre. Mas hoje, vendo vocês conversarem, eu percebi que não tenho você. Não como eu quero.
— Não... Por favor. – Supliquei, vendo algumas lágrimas brotarem dos seus olhos azuis. – Eu quero você. Eu quero ficar com você...
— Você acha que quer, meu bem. Mas eu não tenho certeza. Vamos dar esse tempo, pra mim e pra você. Não vou te abandonar, muito menos o nosso bebê, eu só preciso disso.
— Mas... Você não pode ir. Eu preciso de você...
— Eu também, você não acredita como... Mas eu preciso me afastar. E acho que você também precisa desse tempo...
— Mas esse apartamento é seu, se for assim, eu saio...
— Não. Quero que fique aqui, protegida. E também o quartinho do bebê está quase pronto, fique aqui. Se decidir que quer o Freddie, eu vou entender. Pode me chamar de covarde por desistir de você assim, mas eu comecei a perceber que isso não faz sentido. Eu sempre vou te querer, te amar, mas só quero receber esse amor de volta se você desejar isso mesmo. Não quero mais te forçar a ficar comigo. Quero que me ame de verdade.
— Mas eu...
— Não, Sam. Não diga nada. Eu vou, mas venho sempre te visitar, ver como está nosso bebê está! – Ele tocou minha barriga com uma das mãos, e com um sorriso triste em meio as lágrimas. – Um dia você vai entender. Só quero que você seja feliz.
— Se isso for uma maneira de me empurrar pra cima do Freddie. Você, não vai conseguir. Eu não vou voltar com ele. – Tirei sua mão do meu ventre com rispidez, me afastando.
— Não foi isso que eu disse. Mas se você associou felicidade ao nome dele, quer dizer que estou certo.
— NÃO. Você não está. Eu não quero, não preciso, e não vou ficar com ele! – Me irritei, limpando alguma das lágrimas copiosas que caiam.
— Mesmo assim. Não quero que passe uma vida ao meu lado, amando outra pessoa. Se eu realmente estiver errado, me procure, se não... – Se afastou, passando os dedos nervosamente no cabelo, seguido de um resmungo. – Desculpe, eu estou indo.
— Ryan...
— Eu te amo.
Dizendo isso, ele abriu a porta e se foi, deixando um devastador silêncio para trás. Deixei meu corpo cair no chão, não conseguia ficar mais de pé. Os acontecimentos dessa noite quicavam na minha cabeça como uma bolinha de pingue-pongue, de um lado para outro.
Porque Ryan fez isso? Estávamos tão bem, tão felizes nos últimos meses. Tudo isso foi culpa do Benson. Não sabia pensar. De uma forma que nem mesmo eu entendo, preciso do Ryan. Não é o mesmo amor insano que sinto pelo Benson, mas também o amo, de uma forma diferente, mas é amor.
Sei disso.
Levanto-me rapidamente, disposta a alcança-lo, mas aquela dor vem novamente, um pouco mais intensa do que a do Café e das escadas. Tentei novamente me levantar, mas fui impedida novamente, mais uma pontada, seguida de um formigamento incomum no meu ventre, olhei para baixo, percebendo a umidade entre minhas pernas, um líquido vermelho, sangue.
Consegui alcançar meu celular no sofá. Digitei o primeiro número que me veio à cabeça. Depois disso, a última coisa que me lembro é de sentir corpo cair desfalecido no chão.
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