Doce Pecado

Tempo

Duzentos anos se passaram e eu ainda chamo o nome dela. Quando estou sozinho, ajoelhado em frente ao altar dessa catedral, eu chamo por ela, rezo para que ela possa me ouvir e então retornar para mim. Eu não esqueci Alexis, não fui capaz. Minha vida está profundamente ligada à existência dela e a ausência dela faz com que um vazio nasça em meu peito, um vazio que nada pode preencher.

Em silêncio, caminho pelo corredor, tocando os bancos de madeira, observando os pequenos adormecidos. Continuo sendo padre, mas já não ouço confissões ou discurso em missas, meu trabalho mudou. Hoje, cuido de crianças que não possuem nada nem ninguém, nenhum parente ou lugar para ficar. Minha igreja se torna o lar delas e elas se tornam minha pequena e inocente família.

Tento passar para minhas crianças tudo que aprendi nos últimos dois séculos. Tento fazer com que elas não percam a fé na humanidade, no mundo. Tento plantar nelas a semente da força da mudança. Oro para que, no futuro, essas pequenas crianças possam mudar o mundo, apagar as sombras e deixar que a luz brilhe e reine.

Ajoelho-me ao lado de um banco ao perceber íris verdes me observando. Sorrio para a menina que me olha. Um pequeno sorriso nasce nos lábios vermelhos, fazendo o meu aumentar. Passo minhas mãos pelos cachos dourados em um suave cafuné. Ela ri baixinho, se encolhendo no banco, sob o cobertor. Pego-a no colo, voltando a caminhar.

Paro em frente ao altar e passo minha mão sobre as velas apagadas, acendendo-as. Conforme o tempo passa, descubro mais sobre minha condição, sobre os poderes que possuo. O fogo ilumina a face da menina em meus braços e, mais uma vez, eu me lembro dela.

Aielin me lembra Alexis. Não que elas sejam parecidas física ou psicologicamente, mas algo na minha pequena criança me faz lembrar de minha bela vampira. Volto a me aproximar dos bancos, colocando Aielin, novamente adormecida, ao lado de Dreatih. Nesse momento, ouço uma voz conhecida me chamar:

- Padre?

Ergo meu olhar e vejo minha criança mais velha caminhar em minha direção. Cumprimento-a com um sorriso, que ela retribui. Apesar do passar contínuo dos anos, os olhos dourados não mudam, permanecem brilhantes, parecendo sempre roubar o brilho do fogo e do sol.

- Em que posso ajudá-lo, Ludwig? – pergunto.

Mesmo passando os últimos dois séculos desfrutando, ocasionalmente, da companhia de Ludwig, nunca perguntei a ele nada sobre Alexis. Não por não querer saber, mas por saber que ele não diria nada, pois ela não quer que eu saiba de nada. Se não fosse assim, Alexis não teria desaparecido sem dizer nenhuma palavra.

- Eu quero dormir. – Ludwig diz em um sussurro.

Eu não posso dizer quantas vezes já ouvi essa frase. É o modo dele de dizer que quer ficar um tempo aqui. Nunca perguntei por que e nunca perguntarei, embora algumas atitudes dele me intriguem. Ludwig, como eu já vi antes, é instável e isso me preocupa, pois não sei o que essa instabilidade pode fazer a ele.

- Claro. – digo, aproximando-me e passando um braço pelos ombros de Ludwig, guiando-o até um dos bancos.

O rapaz se deita em silêncio e eu o cubro com um cobertor, embora eu saiba que ele não sofre com as mudanças bruscas de temperatura. Permaneço algum tempo ajoelhado ao lado dele, observando-o dormir. Algumas vezes, Ludwig chora durante o sono, finas lágrimas vermelhas marcam a face pálida e eu as seco antes que ele possa acordar. Pergunto-me com que ele sonha nessas ocasiões, que espécies de medos ou lembranças poderiam atormentá-lo a esse ponto.

Mas eu não perguntarei. Se quiser, Ludwig me contará um dia. Ele tem o direito de manter seus segredos, mesmo que isso apenas o machuque. Suspiro e me levanto, voltando a me aproximar do altar e me ajoelhando perante as velas. Peço a Deus para que proteja a mim e a minhas crianças, que nada de mal aconteça a elas. Peço também para que, se possível, eu possa voltar a vê-la um dia.

Alexis.

Notas finais
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