Doce Pecado
11 Sangue
Doce Pecado
Sangue
A noite cai mais uma vez. Seu manto de sombras cobre o mundo, escondendo-o da luz do sol, mas deixando-o sob a proteção da luz da lua. O som de meus passos parece ecoar pela rua praticamente vazia. Respiro fundo, olhando para o céu, procurando por forças para continuar meu caminho, para atingir o objetivo que tenho esta noite. Penso nas crianças que aguardam meu retorno e no que elas não sabem sobre mim. Duzentos anos se passaram, mas eu não deixei de ser o que era quando Alexis me abandonou: um filho de Deus perdido no caminho vermelho do pecado.
Vermelho. Deus, como dói! O vazio em meu peito parece mais profundo em noites como essa. Queima como o sol um dia já me queimou, ameaçando me transformar em cinzas se eu não ceder a esse desejo insano. Apóio-me em uma parede e respiro fundo, tenho que me controlar. Uma senhora passa ao meu lado e, ao ver minha batina, sorri para mim. Isso não está certo. Eu quero voltar para casa, para minhas crianças, mas não posso. Não enquanto estou assim.
Viro em uma esquina e continuo a caminhar. Uma mulher se aproxima e faz uma mesura. Respiro fundo, sentindo meu coração ser esmagado pelas garras da escuridão. Eu toco o pescoço da desconhecida, que sorri, envergonhada. Abaixo meu rosto e fecho os olhos por um momento, reunindo toda coragem que possuo.
- Perdoe-me. – peço em um sussurro.
Antes que ela possa perguntar o motivo de meu pedido, faço com que meus dentes rasguem a pele macia, libertando o líquido pelo qual anseio. Doce e amargo ao mesmo tempo, o sangue toca minha língua e acalma o fogo em meu peito. Como um monstro que começa a ser saciado, o desejo em mim vai perdendo a força. Assim como a mulher em meus braços. Logo, sinto o corpo dela solto, sem vida. E então vem o ódio, a mágoa e a dor.
Por que eu tenho que matar para continuar vivendo? Por que Alexis me transformaria em um ser assim? Para ver a luz, eu tenho que estar tão afundado na escuridão? Deus, cada inocente que mato é como um pedaço de mim que é destruído e nada posso fazer para trazê-los de volta. Só posso pedir perdão por matá-los, por tirar deles aquilo que eles possuem de mais valioso: suas vidas inocentes.
O sangue que roubo foge de meu corpo através de meus olhos. Lágrimas vermelhas que denunciam que não sou um ser normal, que estou perdido, marcado como um eterno pecador em busca de redenção. Mas como posso conseguir me redimir se, a cada noite como essa, eu só aumento meu débito? Tenho me perguntado isso nos últimos dois séculos. Como posso me tornar a redenção de Alexis se não consigo ser a minha própria?
A redenção dela sempre foi a sua dor. Lembro-me das palavras de Ludwig. Será que meu sofrimento eterno é a única maneira que Alexis tem de se redimir? Quanto mais me afundo, mais ela se liberta? Saber disso não é a pior parte. O pior é saber que eu não sou capaz de negar. Eu quero ser a redenção de Alexis e, se para isso, tenho que passar a eternidade sofrendo, matando, aumentando o meu pecado, que assim seja.
Coloco minha última vítima deitada no chão. Limpo o sangue que marca o pescoço pálido e faço com que a marca de meus dentes desapareça. Então eu oro. Rezo para que ela descanse em paz e que, um dia, ela possa me perdoar. Permaneço ajoelhado ao lado dela por alguns minutos, as lágrimas ainda escorrendo por meu rosto, molhando minhas mãos enquanto tento pará-las.
Um ruído, como o som de um salto sobre o chão, chama minha atenção. Levanto-me e olho ao meu redor. Não há ninguém nessa rua. Dou alguns passos, procurando, mas não encontro nada. Ouço outro ruído, metálico, e viro, entrando em outra rua. Conforme caminho, o som se torna mais alto, insistente. Mais forte e então mais fraco. Indo e voltando. Como o som de um balanço.
Procuro e encontro o portão que dá acesso a um parque. Empurro-o, conseguindo entrar. Apesar de ter uma corrente bloqueando a entrada, o obstáculo logo vai ao chão, acompanhado pelo cadeado quebrado. Uma defesa falha. Dou alguns passos sobre a grama, ouvindo o ruído cada vez mais alto do metal sendo balançado.
Sigo uma trilha de terra, subindo e chegando até uma árvore. Toco o tronco, sentindo a aspereza da madeira e, ao olhar além, vejo dois balanços, indo e voltando, sendo empurrados pelo vento. Respiro fundo, me aproximando e tocando um deles. Distraído, ajudo a empurrá-lo. Para frente e para trás. O movimento me lembra o pêndulo de um relógio. De um lado para o outro. Seguindo, ininterrupto, como o próprio tempo, a própria vida e então tudo para. Fecho minha mão sobre o ferro, parando o balanço. O tempo acaba, a vida se encerra. Momentaneamente.
Uma nova corda é dada ao relógio e o pêndulo volta a se movimentar. Para um lado e para o outro. Como o balanço quando o solto. Para frente e para trás. Uma nova vida começa, em outro lugar, em outra época. Não há um fim definitivo para o tempo, somente um intervalo. Uma pausa que a maioria das pessoas não sente, mas que eu acompanho. Minha vida continua, sem pausa, sem intervalo entre as épocas. Eu continuo indo e vindo, de um lado para o outro. Um relógio eterno, um balanço que não para.
- Padre? – o chamado familiar me desperta de meus devaneios.
Viro-me e vejo Ludwig caminhando em minha direção. A luz da lua toca a pele pálida e é refletida nos olhos dourados fazendo com que eu tenha a impressão de estar observando o reflexo de um espelho quebrado. O rapaz para a alguns passos de onde estou, as mãos nos bolsos e o olhar baixo. O vento bate e eu tenho a impressão de ver o corpo magro tremer.
- As crianças estavam preocupadas. – Ludwig diz – Então disse que viria procurar por você.
Assinto e Ludwig volta a andar, passando por mim e se aproximando do balanço, sentando-se. O ruído metálico se torna mais alto devido ao impulso dado pelo rapaz, que começa a balançar. Para frente e para trás, como se estivesse tomando impulso antes de se jogar ao céu.
- Você matou. – Ludwig comenta sem me olhar – Pude ver o brilho do sangue em seus olhos.
- Sim. – confirmo.
- Machuca, não é? – o rapaz pergunta, fincando os pés no chão, parando o balanço – Machucar.
- Sim. – respondo, me aproximando e tocando o rosto de Ludwig, levantando-o – Machuca.
- E dói... Se tornar pó? – não digo nada, não tendo certeza de compreender a pergunta – Do pó viemos e ao pó retornaremos, certo? Dói? Retornar ao pó?
- Do que está falando, Ludwig? – pergunto, ajoelhando-me ao lado do rapaz.
- Eu não quero... – Ludwig olha para além de mim, parecendo procurar forças para terminar de responder – Desaparecer.
Olho nos olhos de Ludwig, tentando compreender sobre o que ele fala, mas assim que encaro as íris douradas, sinto algo em mim se quebrar. Assim como a própria imagem, os olhos de Ludwig parecem um reflexo quebrado, sem o brilho e a força que normalmente exibem. As íris estão mais escuras, em um tom que se assemelha ao do bronze e praticamente opacas, só há um fraco brilho vermelho, causado pelas lágrimas que ele se controla para não derramar.
- Você não vai desaparecer. – digo.
Ludwig não diz nada, apenas sai do balanço, caindo ajoelhado a minha frente. Abraço-o e então Ludwig não tenta mais se controlar. O corpo dele treme sob meu toque e eu posso sentir as lágrimas molhando meu peito. Com um braço, apóio as costas de Ludwig e com a outra, procuro a mão dele. Só então noto que Ludwig segura uma rosa vermelha. Observo a flor contra a pele pálida por alguns segundos. Ludwig levanta o rosto e uma lágrima vermelha cai sobre as pétalas. E então eu entendo o que Ludwig é nesse momento.
- Posso? – ele pergunta. Sabendo o que ele pede, permito – Deus, perdoe-me por meu pecado e me conceda a sorte de me penitenciar – essa oração, desde que a ouviu de mim, se tornou a preferida de Ludwig – Do pó ao pó. Das cinzas as cinzas. Da terra a terra. Amém.
- Amém. – repito.
Ludwig é apenas uma criança. Uma criança que chora no mesmo silêncio em que uma rosa desabrocha... E sangra.
Fale com o autor