Doce Pecado
9 Pecado
Notas iniciais
Doce Pecado
Pecado
Como se estivesse preso em um sonho, olhos negros me hipnotizam e toques suaves me envolvem. Lábios vermelhos e macios beijam meu rosto parecendo me convidar a viajar para algum lugar muito distante daqui. Não consigo resistir a nada que Alexis faz, muito menos ao modo como ela segura minha mão e me guia para o andar superior.
Caminhamos por um longo corredor até pararmos em frente a uma porta, que Alexis abre, revelando um grande e belamente decorado quarto. Entramos e o som da porta se fechando as minhas costas ecoa em minha mente, não sendo completamente registrado. Ao nosso redor, velas estão suspensas no ar, iluminando o aposento agora que a noite começa a cair. A luz do adeus do sol toca a face de Alexis, deixando-a tão real que quase posso acreditar que isso está mesmo acontecendo.
Não que ache que estou realmente preso em um sonho, mas a aura que nos envolve é estranha, calma e ainda assim agonizante, como uma música que anuncia uma tortura, mas procura tranqüilizar ao mesmo tempo. Volto a sentir os toques suaves em minha face, dedos que contornam meu rosto, passam por meus olhos, nariz, lábios... Quase como se Alexis quisesse gravar cada detalhe presente em mim.
– Não pense. – ela pede enquanto em envolve em um abraço, os braços ao redor do meu pescoço e o rosto apoiado em meu colo – Apenas responda. Estava falando a verdade quando disse que me perdoava?
– Sim, estava. – respondo, recordando-me de nossa conversa no jardim, do modo como as palavras saíram naturalmente por meus lábios. Toco a cintura de Alexis, retribuindo o abraço, sentindo-a relaxada e ao mesmo tempo tensa sob meu toque.
Pergunto-me o que está acontecendo. Onde ela estava e por que retornou agora? Sinto que, de alguma forma, meu encontro e minha conversa com Ludwig não foram obras do acaso, na verdade, foram planejados. Por Alexis.
– Já disse para não pensar, Amadeus. – ela diz, levantando o rosto – Apenas se deixe levar... – um beijo é dado em minha face e então o olhar negro procura o meu – Perdoe-me, padre, pois eu pequei.
Antes que eu possa dizer ou fazer algo, Alexis me beija. Um beijo suave, impossível de resistir. Decidido a seguir o pedido que me foi feito, deixo-me levar, tocando-a como ela me toca, beijando-a como ela me beija e indo além. Amando-a como meu coração implora para que eu faça.
Imerso nas sensações, não consigo dizer quanto tempo se passa, quantas vezes sinto a pele de Alexis contra a minha, quantas vezes beijo os lábios vermelhos, reclamando a dona deles para mim, somente para mim. O fogo das velas é refletido nas íris negras e é como se algo fosse revelado nelas, um pedido escondido durante muito tempo. Um pedido de desculpas, uma busca por perdão.
Meu coração bate mais forte, mais dolorido quando vejo esse pedido em meio à escuridão dos olhos de Alexis. Mesmo depois, quando tudo parece começar a se acalmar, eu não consigo me livrar dessa sensação. Sinto como se facas fosse enterradas em meu peito, fazendo meu coração sangrar. E quando encosto meu rosto ao de Alexis, sentindo-a se encolher em meu abraço, sinto vontade de chorar. Sinto medo e desespero. Não entendendo o que está acontecendo.
– Amadeus. – ela chama e eu levanto meu rosto para poder olhá-la – Você é tão belo, Amadeus. – unhas afiadas contornam meu rosto – Nunca deixe essa beleza acabar. – braços envolvem meu corpo, puxando-me de encontro a um corpo que me acolhe amorosamente – Nunca deixe levarem essa bela luz para longe de você.
Essas são as últimas palavras que ouço antes que a escuridão me domine, levando-me para a terra dos sonhos.
Sweet Sin
A manhã chega e eu estou sozinho na cama. Levanto-me e me visto, procurando por Alexis, mas não a encontro em lugar nenhum. Sem rumo e sentindo a dor da noite anterior, permaneço sentado ao pé da escada, meu olhar fixo na porta. Em algum lugar dentro de mim, eu sei que ela foi embora.
– Você entende agora? – viro-me ao ouvir a voz familiar e vejo Ludwig parado a alguns passos da onde estou, as costas apoiadas na parede – Você se tornou o pecado dela, agora precisa se transformar na redenção.
– O quê? – pergunto, não entendendo completamente as palavras do vampiro.
– Você disse que queria se tornar a redenção dela e pareceu aceitar também se tornar o pecado. Um já foi, falta o outro. – Ludwig suspira e caminha em minha direção – Entende? Nunca houve outro, Amadeus, foi sempre você.
– Como...? Do que está falando? – a dor em meu coração aumenta conforme o tempo passa e as palavras de Ludwig começam a fazer sentido, um sentido que não quero admitir.
– Ela nunca amou e abandonou outro. – Ludwig responde – O pecado dela sempre foi você, a redenção dela sempre foi a sua dor. Compreende agora, Amadeus? O homem que Alexis amou sempre foi você. Ela sabia o que iria fazer e expôs para você como se fosse algo do passado, mas não era! Só que você que nunca foi capaz de enxergar a verdade.
Desvio o olhar para o chão, sentindo-me sufocar, a dor em meu peito ainda mais forte. Sem controle, choro, as lágrimas quentes escorrendo e marcando minha face. Ludwig se senta ao meu lado, posso sentir a mão dele em meu ombro, mas não me importo. Só me importo com a dor que me dilacera, com as lágrimas que não consigo controlar, com o amor que me sufoca. Sim, eu amo Alexis e tal amor me faz compreender melhor tudo o que aconteceu ontem à noite.
Ela disse adeus. Em cada abraço, em cada beijo... Cada toque, cada carinho era ela dizendo adeus. Perdoe-me, padre, pois eu pequei. Lembrar-me das palavras dela só me faz repetir, baixinho e de novo e de novo, a única resposta que poderia ter para esse pedido.
Eu te perdoo.
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