Doce Pecado

Alexis

Em silêncio, observo Ludwig se inclinar sobre o encosto do banco, os braços apoiados na madeira e no parapeito da janela. O rapaz abaixa o rosto, como se estivesse se preparando para dormir. Observando-o assim quase não consigo acreditar que ele realmente seja irmão de Alexis, mas talvez seja devido a este fato que, desde o começo, Ludwig tenha me parecido tão familiar.

- Esta mansão costumava ser nossa casa. – as palavras deixam os lábios vermelhos em um tom de voz baixo e suave, os olhos permanecem fechados, a face jovem tocada pela luz do sol – Há muito tempo atrás. Era um lugar muito bonito, agora apenas essas ruínas existem. Às vezes, pergunto-me se o que vejo aqui agora é um reflexo de como nossas almas estão.

Instintivamente, olho ao meu redor, reparando mais em tudo que me envolve. Realmente este lugar parece estar abandonado há muito tempo. Tudo está coberto por camadas de poeira, que escondem os verdadeiros detalhes que os quadros ou objetos poderiam mostrar. As cortinas, velhas e rasgadas, aumentam o ar antigo e melancólico que esse lugar possui. O mesmo faz o carpete desgastado que cobre a escadaria.

- Eu ainda me lembro dos bailes que minha família costumava organizar. – a voz de Ludwig adquire um tom saudoso. Pergunto-me se, em sua mente, ele revê as lembranças que descreve – As paredes pintadas de vermelho, os objetos de ouro refletindo a luz das velas. As pessoas dançando, rindo, se divertindo. Era uma boa época.

Mesmo que eu esteja apenas ouvindo, é como se eu pudesse visualizar cada cena que Ludwig cita, como se eu pudesse sentir a emoção que ele passa através das palavras. Volto meu olhar para o rapaz de olhos fechados ao meu lado. Não sei o motivo, mas agora tenho a ligeira impressão de estar olhando para um menino indefeso e não para um vampiro.

- Eu aproveitava muito esses bailes. – Ludwig continua – Bebia, conversava, dançava. Já Alexis... – um suspiro escapa pelos lábios vermelhos – Alexis permanecia em silêncio na maior parte do tempo. Andava pelo salão, cumprimentava os convidados, declinava cortejos. Ela tomava conta da festa.

Ludwig abre os olhos e se levanta, caminhando pelo salão. Conforme ele continua a contar a história dele e de Alexis, ele deixa transparecer tudo o que sente através do tom de voz. Da impessoalidade até a tristeza. Da felicidade ao ódio. E a dor.

- Quando tudo acabava, Alexis me levava até o jardim e passava horas me mostrando a beleza da natureza. Os diferentes tons de verde na grama, as diferentes intensidades nos brilhos das estrelas. Ela me contava histórias de como Deus havia criado tudo no mundo e como tudo estava conectado. Que poderíamos ver o poder, o amor de Deus em tudo o que olhássemos e que, para senti-lo, bastava confiarmos em nossa fé.

Uma pausa e o olhar dourado é dirigido a mim. As íris claras brilham, se negando a derramar as lágrimas que seguram com tanta força.

- Minha irmã já teve uma fé tão forte e inabalável quanto a sua, padre. Ela acreditava na bondade de todos os seres humanos, na misericórdia de Deus e na beleza do mundo. – uma fraca risada – Hoje o que restou foi uma fé na inocência expressa nas atitudes das crianças (1) e uma tentativa desesperada de fazer com que Deus perdoe os pecados que ela cometeu. Ela ainda tem fé, mas não consegue acreditar na própria fé.

Como eu. Esse é o primeiro pensamento a surgir em minha mente. Quando me tornei um pecador, um vampiro, eu não perdi minha fé, mas perdi a capacidade de acreditar que o que eu acreditava poderia acontecer comigo, que Deus poderia me perdoar. Eu possuía fé, mas não tinha fé na própria fé. Eu estava perdido como Alexis está.

- Você nunca esteve perdido. – a voz de Ludwig me traz de volta à realidade – Apesar de se renegar, de fazer a luz o machucar, você nunca abandonou seu caminho, Amadeus. – a sombra de uma profunda mágoa aparece nas íris douradas – Você nunca conheceu a verdadeira escuridão, o verdadeiro pecado. Você nunca se afastou da Luz. Alexis não permitiu.

Parecendo perceber minha confusão acerca de suas palavras, Ludwig continua, caminhando em minha direção.

- Ela nunca deixou que você esquecesse quem você é ou o que você sente. Você pode dizer que tudo o que ela já te disse só serviu para te confundir ou até mesmo te machucar, mas, ao mesmo tempo em que ela tentava te mostrar a realidade desse mundo, ela não deixou que você se afastasse da Luz. Ela sempre esteve ao seu lado, te questionando, obrigando você a ver a verdade sobre o mundo e sobre si mesmo.

Não digo nada, sendo capaz de perceber o fundo de verdade nas palavras de Ludwig. Tudo o que já ouvi de Alexis e dele... Todas as palavras, todas as perguntas me ajudaram a entender quem eu realmente sou, no que realmente acredito e que caminho preciso seguir.

- É a sua fé, Amadeus. – Ludwig continua, o tom de voz mais baixo – É isso o que ela quer. Alexis quer ser capaz de acreditar com a mesma força que você, ter uma fé como a sua. Ela quer recuperar o coração que ele arrancou.

- Ele? – pergunto, curioso por saber se “ele” se refere ao homem que Alexis amou ou a outra pessoa.

- O homem que transformou a mim e a minha irmã em vampiros. – Ludwig para por um momento, ajoelhando-se a minha frente. Toco o ombro do rapaz, sentindo-o tremer sob minha mão – Ele a queria. Ele passou meses a cortejando, mas ela sempre o recusava. Então ele se irritou e ameaçou me transformar se ela não aceitasse ficar ao lado dele.

O tremor que percorre o corpo de Ludwig só piora conforme ele continua a falar. A cada palavra, ele treme mais e mais, tentando controlar a dor que ameaça dominá-lo.

- Eu estava tão assustado! – as pálpebras se fecham sobre os olhos dourados – Estávamos na igreja. Alexis havia ido me buscar. Eu estava lá para falar com padre. Como disse, eu queria ser um. Ele apareceu do nada! Em um segundo, o padre estava morto e ele me ameaçava! – Ludwig toca o próprio pescoço, como se quisesse se livrar de algo que o incomoda – Eu podia sentir as unhas dele ameaçando cortar minha garganta... Ela... Alexis implorou para que ele não me machucasse! Ela prometeu ficar ao lado dele enquanto ele não me ferisse! Mas...

Ajoelho-me em frente a Ludwig, abraçando-o. Ele treme tanto! Toda a confiança que eu vi nele até agora sumiu. Nesse momento, chorando em meus braços, ele realmente parece apenas um menino. Um garoto profundamente machucado.

- Ele aceitou a promessa dela. – a voz de Ludwig não passa de um sussurro – Ele a transformou na minha frente! Eu o vi matar minha irmã e não fiz nada! O medo me paralisou. Eu ainda me lembro do que ele disse depois que matou Alexis: “Você é apenas uma criança, mas até mesmo as crianças são úteis.” E então ele tomou o meu sangue.

- Quantos anos você tinha? – pergunto, estranhando o fato de o vampiro ter chamado Ludwig de “criança”.

- Dezesseis. – a resposta me surpreende – Alexis tinha vinte e cinco. – os dois eram mais novos do que eu sou agora (2) – Ela o matou quando despertou e viu o que ele tinha feito comigo. Ela o jogou em meio às velas que iluminavam o altar. Ele não conseguiu sobreviver ao fogo. Apesar da aparência, ele era fraco. – Ludwig respira fundo antes de continuar – Depois, Alexis me abraçou com força e pediu desculpas. Eu não fui capaz de contar quantas vezes ela disse “sinto muito” enquanto se recusava a me soltar.

Ludwig me faz soltá-lo e então ele se levanta, afastando-se alguns passos.

- Não demorou muito e alguns humanos apareceram. Eles perceberam o que tínhamos nos tornado e tentaram nos destruir. Alexis me protegeu e me levou para longe. Passamos um longo tempo longe de casa. E durante esses anos, percebemos que o mundo não é como imaginávamos. Há muito mais escuridão ao nosso redor do que poderíamos sonhar. A verdadeira fé, o amor de Deus, a beleza do mundo... A humanidade está esquecendo todas essas coisas e aumentando a escuridão. Há muito pecado manchando esse mundo.

- O mundo do pecado... – digo, lembrando-me do que Alexis me disse uma vez.

- Sim. – Ludwig concorda – Mas este também pode ser o mundo da redenção, basta querer encontrá-la, coisa que muitos humanos, hoje em dia, nem cogitam querer. Eles estão completamente perdidos em sua própria escuridão.

Ludwig suspira e continua:

- Mas não é difícil compreender por que o pecado é muito praticado e a redenção praticamente esquecida. Muitas vezes, o pecado se encontra em algo considerado “bom” e a redenção em algo considerado “mau”. Por exemplo, o pecado de Alexis foi amar e a redenção dela é a dor daquele que ela amou.

- Quem ela amou? – pergunto, realmente curioso.

- Um homem de coração e alma puros. Alguém que parecia ser capaz de devolver algo que minha irmã tinha perdido há muito tempo. Eu me pergunto se ele realmente foi capaz, se o coração dele foi forte o suficiente.

- Por que ela o abandonou?

- Porque foi necessário. Ela não podia ficar ao lado dele. Uma vez que ela tinha recuperado o que precisava, ela não tinha mais nenhum motivo para ficar ao lado dele.

- Então tudo não passou... De egoísmo? – pergunto. Não consigo acreditar que seja realmente isso. Ao falar sobre o que fez, Alexis pareceu completamente consciente de seus atos e nem um pouco arrependida por eles, mas mesmo assim... Tudo não passou disso? De puro e simples egoísmo?

- Será? – Ludwig pergunta, encostando-se ao corrimão da escada – Alexis realmente o amou, isso eu posso afirmar. Mas amar verdadeiramente não exclui o sentimento de egoísmo, não é? Se você é egoísta e se importa unicamente consigo mesmo, você não pode se importar com outra pessoa, certo? Ou será que pode? Quem garante que o fato de me preocupar com o outro não significa que eu me preocupo apenas comigo? Talvez eu apenas cuide do outro para não ficar sozinho. Ou cuide dele porque gosto de tê-lo por perto. Essas duas ações implicam egoísmo, pois expressam preocupações com os meus sentimentos e não com os do outro. Amar e ser egoísta não são coisas muito diferentes. Não concorda, padre?

Por alguns segundos, fico em silêncio, observando Ludwig. Toda a fragilidade desapareceu tão facilmente quanto surgiu. Ele já volta a exibir a confiança e altivez de antes. Inconstante. Diferente de Alexis. Respiro fundo e volto meus pensamentos para a pergunta de Ludwig.

- Então todo amor é egoísta? – pergunto.

- Em tudo e em todo lugar nós nos apaixonamos por nós mesmos. (3) – Ludwig responde – Há sempre o pensamento sobre nós misturado ao pensamento sobre o outro. É preciso tomar cuidado com isso. Alexis se aproximou desse homem por ver nele algo que ela queria recuperar, mas, com o tempo, ela se apaixonou por ele. O amor dela é verdadeiro. O que não significa que seja livre de egoísmo.

- Então, mesmo quando amamos, nós ainda somos egoístas? – pergunto, levantando-me e caminhando em direção à Ludwig.

- E por que não seríamos? – o rapaz pergunta – É próprio do ser humano se preocupar antes consigo mesmo e depois com o outro. Raríssimos humanos conseguem a proeza de serem completamente altruístas. A maioria não o é. Quando você está com alguém, por que você quer ficar com esse alguém? Por que esse alguém te faz bem ou por que você faz bem a esse alguém? Na maior parte das vezes, é por que esse alguém te faz bem. Vê? O pensamento está em si mesmo e não no outro. Por que você não quer terminar um relacionamento? É por que ama o outro ou é por que teme ficar sozinho?

Permaneço em silêncio, apenas ouvindo as palavras de Ludwig. O modo como ele coloca o egoísmo soa tão prático, que faz com que eu tenha a impressão de que todo ser humano é desprezível. Mas essa impressão é breve e na última pergunta que ele faz se encontra a verdade por trás de todo esse egoísmo. O medo da solidão. Nenhum ser humano deseja ficar sozinho, esse é um medo que aterroriza todos os corações, sem nenhuma exceção. Então seria o amor apenas uma ilusão que encobre esse medo?

- O amor verdadeiro existe, Amadeus. – Ludwig diz – Eu só estou dizendo que ele não é livre de egoísmo, de ser usado em atitudes egoístas. Muitos dizem que precisamos deixar livres aqueles que amamos, mas não é isso que acontece, não é mesmo? – um sorriso nasce nos lábios vermelhos – Nós queremos prender aqueles que amamos, não suportamos a ideia de vê-los se afastarem, de vê-los se envolverem com outras pessoas. O amor que sentimos pode ser o mais verdadeiro possível, mas não significa que não seja egoísta.

O rapaz suspira, voltando a se aproximar da janela. O sorriso vermelho aumenta enquanto as íris douradas observam o jardim.

- Mas voltando a sua pergunta, Amadeus, eu não acredito que houve apenas egoísmo nas ações de Alexis. Ela realmente o amou e o abandonou porque foi necessário. Ele foi a redenção que ela procurava e ao mesmo tempo o pecado que ela cometeu.

- Redenção e pecado? – a pergunta deixa meus lábios sem que eu possa controlar ou até mesmo perceber.

- Sim. – Ludwig responde – Esses dois caminhos estão sempre entrelaçados, padre. Cabe a você escolher se irá trilhar apenas um ou se conhecerá os dois. – o olhar claro é dirigido à mim – Você disse que quer ser a redenção de Alexis, mas pergunto-me se realmente compreende o que isso significa. Ser a redenção dela é o mesmo que ser o pecado. Você consegue entender, Amadeus?

Lembro-me das palavras de Alexis: Quer mesmo ser minha redenção? Então se torne meu pecado. Para me tornar um, eu tenho que ser o outro. Por que isso não me incomoda, nem ao menos me surpreende? Nenhuma palavra deixa minha boca, mas sinto meu coração bater em concordância. Embora eu não expresse, minha alma já decidiu. Serei o pecado e a redenção de Alexis.

- Com certeza. – Ludwig diz, caminhando em minha direção. O rapaz para o meu lado, abaixando o rosto e sussurrando um breve comentário – Alexis realmente escolheu bem.

Ludwig segue seu caminho e eu, instintivamente, me viro. Assim que completo meu movimento, me deparo com a imagem de Alexis abraçando o irmão. O olhar escuro é dirigido a mim, por sobre o ombro do rapaz. Sinto meu coração bater dolorosamente em meu peito. Estar com ela, ser a redenção, o pecado dela... Não... Não é isso o que quero saber...

Minha real dúvida é: O que significa amar Alexis?

Notas finais
Avisando que o próximo capítulo é o último da primeira fase da história.
(1) Apesar das últimas gerações estarem menos inocentes, eu ainda acredito nas crianças como símbolo da inocência.
(2) Só a título de curiosidade: O Amadeus tem 32 anos, ok?
(3)Não lembro se a frase é exatamente assim (com essas palavras), mas ela foi retirada do livro Fonte Viva, de Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel. Sim, eu sou espírita. Quem leu Matteo deve ter percebido isso. =)