Doce Inverno
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Eu não sabia como me aproximar da garota de novo, á não ser observá-la de sua janela. Ela ficava, normalmente, lendo. Época de férias escolar, algo assim. Brincava com seu gato preto ou com seu Pastor Alemão que ficava nos fundos da casa. Sempre calada.
Não sabia o que pensar sobre essa garota que ás vezes ia dar uma volta na praia sozinha. Ela era a mesma garotinha pequena brincando na neve, só que faltava o brilho em seus olhos, aquela chama de vida. Era como se ela tivesse perdido tanto que perdeu a si mesma no meio de tudo isso.
A primeira vez que a vi triste me surpreendi. Eu tinha acabado de voltar de uma festa qualquer e estava saciado e relaxado. Mesmo sabendo que deveria ir para o hotel, decidi me pendurar, novamente, na arvore da casa de Isabella. E então eu a encontrei, Encolhida na cama, abraçada com uma boneca – a mesma boneca de quando era criança, porém a boneca estava um tanto danificada – e enrolada em uma coberta. Eu mal via seu rosto, mas conseguia escutar seus soluços.
– Volta, por favor... – ela pedia baixo enquanto chorava e chorava sem parar.
Tinha pensado seriamente em entrar naquele quarto e descobrir o que houve, consolá-la, mas simplesmente não consegui sair do lugar. Fiquei na frente da janela, pendurado na arvore como um simples pássaro enquanto ela chorava como se uma tragédia tivesse acontecido. Como se tivesse guardado o choro por tempo demais antes de se aliviar.
Uma hora e pouco depois, ela adormeceu agarrada na boneca. Sua respiração era profunda e ela se remexia fazendo careta, se encolhia cada vez mais suando de tanto calor, mas tentando amenizar o frio interno. Eu continuei a observá-la até o sol nascer, e então, fui para o Hotel dormir um pouco. Quando voltasse daria um jeito de encontrá-la.
Horas depois
Me aproximei devagar, vendo-a parada analisando o mar. Encostada numa arvore embaixo da sombra. Ela olhava o mar com uma admiração que... Ninguém mais tinha. Era como se... fosse algo mais profundo, parte de seu ser. Ela notou minha presença, mas não se moveu. Continuou simplesmente observando o mar.
– Eu gosto daqui. – ela disse. Fiquei calado observando-a o máximo que podia. — Pareço.... estranha, observando o mar. Vestida de calça e tênis em vez de ir até lá e apreciar a água no calor, fico simplesmente parada aqui, o analisando. Mas é... algo a mais do que simplesmente gostar de me refrescar na água. É como se tivesse algo mais profundo ali do que simplesmente... água.
– Eu... --- ela riu fraco, uma lágrima escorreu de seus olhos.
– Sei que pareço uma louca, mas... Nunca imaginei que gostava tanto de praia. Sempre... sempre achei que o calor era insuportável, mas.... Eu não sei. Eu só... Não sei. Desculpe eu.. – ela secou suas lágrimas.
Foi sem pensar. Eu a puxei pelo braço e a apertei contra mim Suas mãos logo se deslizaram em minhas costas e ela me agarrou como se eu fosse seu porto seguro, como se já me conhecesse a muito tempo e que tivesse sentindo saudade. Seu corpo tremeu enquanto ela chorava.
Fiquei uns bons minutos abraçado com ela, até que ela me soltou, pedindo desculpa pela camiseta. Depois riu fraco.
– Você deve achar que alguém morreu.
– Não acho...
– Meu pai matou meu cachorro. Eu sei que é... infantilidade á vista de alguns, mas... eu cresci com meu cachorro, ele era... minha vida. Eu... o amava demais! E meu pai deu veneno á ele.
– Eu sinto muito, sei.. como dói perder um animal assim.
E sabia mesmo. A alguns anos eu tinha comprado um cachorro para mim. Um ato de loucura e saudade, a solidão me assombrava. Então me empenhei em ter um cachorro. Cuidei dele por apenas dois anos. Ele já era meio velho e doentinho, embora eu fizesse tudo que podia, não havia nada a ser feito. Cuidei dele com muito amor, e um dia, para amenizar sua dor que o fazia chorar dia e noite, eu tive que matá-lo. E nunca doeu tanto como tinha doído. Aquele cachorro foi o único que não me traiu, e eu tive que matá-lo, para não deixá-lo sofrer.
– É... dói demais. Não vai passar.
– Bom, não é insensibilidade você pegar outro. Mas... pegue um que precise de você.
– Não é só um ca...
– Eu sei, eles são insubstituíveis, fiéis. Diferentes de muitas pessoas por aí, mas se você cuidar de outro, não estará fazendo mal. É claro que dói, mas você tem que fazer algo a mais, salvar um cachorro de rua...
– O problema nem é esse. É que meu pai não quer. Como se ele ficasse em casa tempo suficiente para cuidar de meu cachorro. E só faz um dia que meu cachorro morreu, tenho direito de chorar um pouco.
– Claro que tem, quer outro abraço? Posso te consolar...
Ela riu e me empurrou de leve, mas não resistiu e me abraçou.
– Desculpe, qual seu nome mesmo? – ela ergueu o rosto pra perguntar.
– Damon. E você é Isabella.
– Izzye. Ou Bella.
– Gosto do seu nome completo. – Ela estava com o rosto perto demais. Tentei me lembrar da pequena garotinha, mas era difícil. Embora os traços fossem o mesmo e eu ainda me lembrasse da doçura e do amor, ela havia crescido e eu queria agora era beijá-la.
– Meu pai me chama de Isabella. – ela se afastou só um pouco, mas não soltou o abraço.
– Isso é ruim?
– Vindo dele, sim. Mas é meu nome, o que eu posso fazer? – Eu sorri de leve, e beijei sua testa. – Own, amo beijos na testa.
Eu ri, ela se afastou de mim.
– Eu mal te conheço e estou te agarrando.
– Bem, não vejo problemas quanto a isso.
– Mas eu não sou assim. Uma... vadia.
– Você não é vadia por me agarrar. Eu sou irresistível.
– Muito convencido.
– Tem namorado?
– Não tenho nem amigos, quem dirá um namorado?
– Bom, eu estou disponível para ambos caso.
– Vai me dar livros?
– Se me der beijos e me deixar ler.
– Vai me levar pra sair?
– Desde que não tenha muitas pessoas...
– Bom, posso pensar em deixar você ser meu amigo.
– Estou interessado em algo mais que isso.
– Você não me conhece!
Ah, conheço sim.
– Posso conhecer, oras.
– Eu não conheço você.
– Temos a vida inteira para nos conhecermos. Quer começar com um sorvete?
– Não gosto de sorvete.
OK, dessa eu não sabia.
– ok... – remexi o pé. – Refri?
– Muito gás. – ela sorriu.
– Do que você gosta?
– Sucos. Vitaminas. Muito suco e muita vitamina.
Eu ri.
– Geração saúde? Você não precisa disso. – dei uma boa olhada em seu corpo. Ela riu.
– Está me tarando?
– Estamos flertando, rolou um clima. – pisquei pra ela. Ela riu mais.
– Hoje é meu dia de chorar, está legal?
– Você já chorou ontem.
Ela parou. Eu deveria ter ficado calado, mas não demonstrei nervosismos
– Como sabe?
– Seus olhos. Estão um pouco inchados e vermelhos.
– Bom, eu...
– Vamos logo tomar alguma coisa e nos conhecermos.
Antes que ela protestasse, puxei sua mão. Porém ela me indicou uma lanchonete que fazia vitaminas perfeita.
Fale com o autor