Doce Inverno
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Stefan pegou o telefone de minha mão. Não ouvi o que ele dizia, o que ela dizia. Eu queria gritar – seria estúpido se eu gritasse, chorasse. De que resolveria? Eu tinha que voltar, eu tinha que correr até a Califórnia. Eu tinha que sair daqui.
Desci pelas escadas de emergência para ir mais rápido, Stefan veio logo atrás de mim. Eu corri sem saber ao certo onde estava. Queria chegar ao aeroporto, mas não sabia como chegar lá, apenas fiquei andando até chegar em um lugar cheio de prédios abandonados e arvores tomando conta da casa.
– Damon, espera. Por favor.
– Não é por aqui. Onde diabos estou? Preciso ir pro aeroporto. – olhei ao redor, completamente perdido.
– Está indo pelo lado oposto. Eu preciso que se acalme, ok?
– Cala a boca. Me leva pro aeroporto, eu preciso.. vê-la. Preciso matar todos eles. – rosnei.
– Damon, para. – Stefan me empurrou pelos ombros. Eu rosnei.
As coisas formaram um borrão. De repente, eu estava socando Stefan, socando os prédios, socando as arvores... E falando alguma coisa de que eu não fazia ideia. Eu não sabia o que eles diziam. Logo eu estava gritando – algo com cortar gargantas sem engolir o sangue podre, algo com cortar cada membro do corpo até não sobrar nada.
No final, me lembro de cair no chão enquanto Elena (?) me abraçava junto com Stefan ao meu lado.
Demorou até eu me acalmar, até eles me convencerem de que eu tinha que voltar pro hotel. Stefan e Elena voltariam comigo pra Califórnia. Eu consegui o primeiro voo com escalas em outros locais. Mas quanto mais rápido, melhor. Eu só precisava...Eu queria ver que era uma mísera brincadeira, uma idiotice...
Mas, ao chegar naquele imenso hospital e vê-la deitada na cama adormecida e toda roxa e machucada, tive certeza de que não era uma brincadeira... Era um dos meus piores pesadelos, e real demais para que eu conseguisse respirar direito.
…
– Ei...me aproximei mais quando ela acordou. Seus olhos se arregalaram e ela começou a se esquivar na cama. --Bella, calma....
O coração dela batia rápido. Ela estava assustada, com medo de mim. Eu me aproximei devagar, ela se esquivou mais.
– Bella, sou eu, Damon. – Segurei sua mão com força,ela tentou puxar, com medo. Mas logo foi se acalmando.Sua mão acarrou a minha.
– Onde você estava? – perguntou mordendo os lábios. – Por que fez isso comigo?
– Desculpe. Bella, desculpa... Eu não...
– Por que você me machucou? – ela começou a chorar.
– Com licença. – A médica entrou no quarto. Olhei para ela. Alta, artificialmente ruiva e de olhos castanhos, ela estava bem séria. – Você deve ser o Damon.
– Sim.
–-A policia quer falar com você.
– Como ela está? – perguntei olhando pra ela.
– Mal. Há cortes artificiais por todo o corpo, nada com que precise ser operado, apenas alguns pontos aqui e ali, hematomas e ao braço torcido. Houve pancadas na cabeça e uma pequena hemorragia interna, mas houve tempo de salvá-la. Seus órgãos quase congelaram devido ao frio, mas operam normalmente agora.
– Falaram com o pai dela?
– Ele deixou tudo na sua responsabilidade. Ele está na Ásia.
– Ásia? E sequer se importou com a filha dele?
– Especificamente, Japão. Ele disse que você era o namorado dela, como um marido, e que tudo era responsabilidade sua. Mas com as alucinações de Isabella, não sabíamos se deveríamos exatamente chamá-lo.
– Alucinações?
– Sim, senhor.
– Damon... por que fez isso comigo? – Bella chorou. A médica suspirou.
– Você precisa se acalmar, querida. Vou buscar sua janta, ok? – A médica ajeitou seu travesseiro. Bella ainda chorava.
Queria continuar ali e a acalmar, mas Ângela entrou no quarto, acenando para mim.
Segui a médica até uma sala separada, haviam dois policiais, o chefe do hospital e também alguns outros médicos. Fiquei de pé, ignorando a cadeira aberta para me sentar.
– Senhor...
– Salvatore. Damon Salvatore.
– Senhor Salvatore. – o chefe assentiu. – como sabe, sua namorada foi encontrada de madrugada após ser violentada por diversos homens desconhecidos. – Assenti, querendo quebrar alguma coisa. Apenas apertei as mãos e respirei fundo. – ela está muito machucada, e você é, teoricamente, o único responsável por ela. Iríamos denunciar o pai dela por Abandono de Incapaz, mas Isabella já tem 17 anos, e mesmo não sendo essa a idade de Responsabilidade dela, o senhor Swan disse que já havia um tratado de emancipação feito há dois anos e meio.
Assenti. Ele prosseguiu.
– Bom, tratamos dela com o seguro, mas precisamos saber o seu papel na vida dela e identificar os homens que fizeram isso com ela.
– Vocês brigaram recentemente? – olhei para o policial alto que me encarava. Já tinha o visto algumas vezes no escritório. Suspirei.
– Olha, vocês devem saber que eu estou praticamente morrendo por dentro ao encarar a minha namorada toda machucada em uma cama de hospital, poderia ser impedido, mas eu não estava aqui. – ergui a mão, calando o policial – eu trabalho no escritório da policia local, sou secretário. Posso lhe comprovar com todos os papéis que tive que fazer uma viagem de emergência para ajudar meu irmão e a namorada dele. Questão pessoal. Não briguei com Isabella, ao contrário, estávamos em um ótimo relacionamento, perfeito. Íamos até comprar o material para começar a reforma da nossa casa, que está em meu nome. Conheço todo o processo sobre suspeito e podem acreditar, vou ajudá-los nisso, mas eu preciso saber como ela realmente está.
Os policiais assentiram, mas antes de falarem, tive que mostrar minha identidade, carteira profissional, falar com o chefe... Embora eu pudesse apenas hipnotizá-los, seria mais trabalhoso e eu estava esgotado demais para usar a mente em qualquer coisa. Então apenas esperei o processo de confirmação que eu era confiável, até que os policiais se retiraram. Olhei para os médicos.
– Ainda nem me apresentei, senhor Salvatore. Meu nome é Luíza Martin e sou a médica de sua namorada. Bom, como lhe disse, há cortes superficiais e alguns com pontos, hematomas por todo o corpo, braço torcido e houve uma pequena hemorragia interna no útero Bom, com o... estupro, A … brutalidade, o útero de Isabella foi atingido, onde houve a hemorragia. E houve sequelas.
Suspirei, fechando os olhos. Aceitei a cadeira para me sentar.
– Ela não... Isabella sofreu algumas lesões no útero devido á força que... ocorreu o estupro. O que dificulta quase 90% das chances de engravidar. – escondi o rosto nas mãos.
Não era algo tão... afundo. Quero dizer, eu nunca poderia lhe dar filhos – era algo complicado que ainda vinha pensando em dizer á Bella – e ela mesma declarou que não queria filhos, nem adotar. Só os cachorros bastavam.
Ela começou a explicar. Coisa envolvida com medicina. Desliguei-me quando ela voltou a falar minha “língua” normal.
– Fora isso, está tudo bem. A cirurgia correu bem, ela ainda está se recuperando... Fisicamente. Fizemos um “check-up” por todo o corpo, mas não há mais nenhum dano. Ela ficará internada por mais alguns dias enquanto se recupera fisicamente, mas não há indícios de que algo aconteça.
Assenti, ela suspirou e então, o médico alto de cabelos grisalhos se aproximou, estendendo a mão.
– Sou Lucas William, sou o psiquiatra do hospital, e médico de Isabella.
Suspirei. Agora vinha a parte de traumas psicológicos. Tratamento emocional.
– Bom, Isabella... acredita que ela tenha usado uma válvula de escape enquanto era... violentada. --A palavra me deixava agoniado. Remexi inquieto na cadeira, a médica pediu licença e saiu da sala. – Ela deve ter pensado... em você.
– Foi por isso que ela perguntou... por que a machuquei?
– Sim. Foi por isso. Fiz um teste nela, algumas horas antes de você chegar. Ela está bem traumatizada e acredita que, ao mesmo tempo que você salvava ela, você machucou ela. Que era você... a tocando.
Se eu pudesse, teria vomitado agora mesmo.
– Mas... como... Eu....
– Eu sei como é difícil lidar com isso. Ela muda de ideia. Acredita que você a machucou tanto quanto sabe que não foi você e que você não estava por perto. Ela estava dividida. Como o trauma foi sério, sugiro tratamento. Com remédios e consultas semanais. Ela não conseguirá voltar á escola ou ao trabalho tão cedo assim...
Eu me encolhi mais na cadeira e suspirei. A porta foi aberta, agora era Stefan que tinha entrado. Olhei pra ele, que apoiou a mão em meu ombro.
– Sou o irmão mais novo dele. Stefan Salvatore.
Após a apresentação, o olhar dos dois cairam em mim.
– Sugiro que tente falar com ela, Senhor Salvatore. Tente explicar que você não estava lá, tirar a fantasia de que você a machucou para poder ajudá-la no processo. Você... é a única pessoa que ela tem. Li a ficha dela. Ela já passou por psicólogos devido á morte da mãe e a ausência do pai. Então...
Suspirei e assenti.
– Bom, tenho outros pacientes para atender. Amanhã ás 9h30min terei minha consulta com Isabella, ela já está tomando remédios. E... sinto muito, Damon.
Com mais um olhar, ele saiu da sala. Tirei a mão de Stefan do meu ombro.
– Elena e eu... vamos ficar aqui com você. – Me levantei, não olhei pra ele. – Damon... sei que está com raiva.
– A roupa que ela estava... Vou procurar e... Pede pra Bonnie fazer um feitiço de localização, ok?
Stefan assentiu. Ele sabia muito bem que eu não desistiria da vingança.Não adiantava protestar.
Quando cheguei no quarto de Bella, a vi encarando a parede, respirando devagar. Elena saiu do quarto para me dar privacidade. Fechei a porta.
– Oi...
Ela prendeu a respiração e me encarou.
– Damon...
– Bella, escuta.
– Eles me machucaram. – suspirei e me sentei ao seu lado na cama. – eles... eram muitos, Damon. Eram muitos.
Segurei sua mão, mas ela puxou de volta.
– Eu deveria ter ficado... Eu... não sabia. Eu deveria...
– Eles me machucaram. Eles foram.... nojentos.
Consegui conversar com ela. Alguns minutos depois, me deitei ao seu lado e a abracei apertado. Foi assim que a médica Martin nos encontrou. Ela apenas suspirou, balançou a cabeça positivamente e foi embora. Bella adormeceu logo, mas acordou diversas vezes com pesadelos, e convencê-la de que eu não estava lá estava se tornando cansativo, mas produtivo. Na medida que ela acordava depois do sonho, percebeu que eu estava fora, e que foram outras pessoas.
A rotina de vida feliz mudou drasticamente... embora Isabella me aceitasse, ela estava completamente machucada, emocionalmente, pelo estupro. Eu estava me sentindo culpado e raivoso. Se não estivesse com Stefan e Elena para me dar apoio, eu não teria aguentado droga nenhuma.
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