Doce Insanidade

10 Vide Cor Meum I


Notas iniciais
- Primeira parte do Vide Cor Meum. ;)

Hannibal Lecter acordou poucas horas depois, abrira os olhos e fitara Ayelleen, dormindo, angelical com o rosto apoiado em seu tórax, ela sorria levemente, serenamente... Ele não conseguia parar de observa-la com a respiração tão calma e silenciosa. Ele esticou um pouco o braço para toca-la, estáva nua debaixo do lençol vinho, a pele pálida tão macia, massageando seu corpo a cada respirar.

Ele sorriu.

Naquela madrugada, Ayelleen deixou de ser uma moça, tornou-se uma mulher em uma noite de amor intensa, romântica e deliciosa ao lado do homem que a amava mais do que tudo, o homem pelo qual ela estava disposta á fazer tudo... Sem restrições, sem medos... Sem medos...

Hannibal acariciou o rosto de Ayelleen, pôde ver nele um milhão de estrelas, cintilando sua pele parecida ser pintada á óleo numa grande tela exposta no melhor ambiente dos pilares de sua memória. Por um breve momento, ele relembrou como fora fantástica as horas eroticamente perfeitas com ela... Tão linda... Tão jovem...

A juventude dela era afrodisíaca para ele, lhe soava como Aria da Capo, penetrava nele de uma forma tão anestésica fazendo-o embriagar-se com seu próprio existir. E viver agora era uma obrigação para ele, viver por ela, com ela e jamais sem ela. Seu coração dava pulos e seu rosto só expressava o prazer de tê-la, alí, nua, translúcida com os feixes de luz lunar tocando-lhe o corpo esguio cada vez que as cortinas balançavam com o vento furioso trazido pela tempestade que lutava do lado de fora do Palazzo.

Ele acordou, acordou pois estáva com os olhos bem abertos mas não podia levantar-se e deixa-la caída sobre os lençóis com sua sincera felicidade... Ele permaneceu alí e mais uma vez, visitou sua memória... Uma visita demorada, cheia de sinuosos detalhes quase imperceptíveis para nós, mas gigantescos para ele...

Voltou um pouco no tempo, para o momento após a catastrófica visita de Ayelleen naquele Dia dos Namorados... Ele, deitado na horrível cama em sua jaula, lendo a carta de uma linda e surpreendente jovem... Seus olhos percorrem pela extensão do papel rosa, sente a fragrância de Amora e Sândalo e a imagina escrevendo para ele, trajada numa camisola de seda branca, o cabelo longo preso num coque mal feito, uma taça de Chandon na mesa... A vê sorrindo, mordendo de leve a caneta de tinta escura, passando a mesma pelos lábios á procura das palavras perfeitas...

''Olá Dr. Lecter,

De fato não sei bem o que lhe escrever, uma vez que o senhor é merecedor das mais ludibriantes palavras, as quais possam ser dignas de serem lidas pelo senhor.

Portanto, tentarei ser parte de seu patamar literário...

Se um dia me dissessem que o conheceria, não acreditaria, pois durante anos estudei sobre o senhor, sim, estudei, pesquisei... Passei noites sem dormir e madrugadas em claro. Deve estar achando que deve-se pelo fato de eu ter introduzido meus estudos á Psiquiatria, mas tenho que discordar se é isso mesmo o que está pensando.

O senhor é o homem mais interessante que já ouvi falar e agora, que tive o imenso prazer de conhecer. O senhor é tão difícil de desvendar mas tão fácil de venerar... Sim, pode achar-me uma tola, mas tudo á seu respeito é louvável e admirável.

Acredito que já tenha lido ou ouvido muito isso, tenho certeza ser apenas mais uma que lhe declara uma paixão. Sim, o senhor leu bem, uma paixão. Creio que depois de saber disto, venha a ignorar-me pois não sou digna de sentir algo tão maestroso por alguém tão perfeito... E eu entenderei.

O fato é que controlar sentimentos não nos é cabível, seres humanos são feitos basicamente de emoção e ligeiramente guiados pela pouca razão que ao longo da vida adquirem. Na verdade vou mudar isto, alguns, pois o senhor definitivamente não se encaixa nisto.

Estou aqui pensando em quanto eu terei de aprimorar-me para ser merecedora de ter do senhor ao menos um 'gostar'... Poderei eu receber isto doutor?

Durante esses mêses que passaram, nunca fui mais feliz, nunca me senti tão completa e deveras, não existe algo ou alguém que possa vir a fazer-me sentir-me como o senhor me faz.

Enfeitiçou-me... Enfeitiça-me... Enfeitiçará-me... Pois o senhor cresce e expande-se trazendo-me sensações e sentimentos que nunca senti, nunca sequer cogitei que pudesse vir á sentir por isso não posso deixar de pensar que, o chamado 'destino' á pedido do 'tempo', está entrelaçando-nos por um longo período, período esse que não conseguiremos nos distanciar por estarmos unidos por uma força maior.

Acredita nisso doutor?

Pois eu sim.

Acredito que o senhor dizer-me que será meu primeiro namorado neste Dia dos Namorados, não fora apenas um carinho, mas sim um sinal. As cousas dr. Lecter, anunciadas por palavras proféticas tendem sempre á cumprir o percurso em pouco tempo pois o universo conspira para que realizemos nossos sonhos, nossas vontades... Nossos desejos.

Já que estou á contar-lhe pequenos segredos, aqui vai mais um, sabia que penso no senhor todos dias? É inevitável pois eu não conseguiria deixar de fazê-lo tendo o senhor como um motivo.

Motivo de quê? Motivo de viver, finalmente, viver; pois a vida despertou do sono da morte com a nossa primeira troca de olhares...

Estou contando muitas cousas, deve ser consequência do Chandon...

Espero que o senhor aprecie os presentes pois fora difícil encontrar algo para alguém com tamanho bom gosto.

Antes de despedir-me definitivamente,

Sei que o senhor sente o mesmo, pois seus olhos revelam seus mais secretos segredos, não há véus que os encondam de mim, não há baús que os abriguem... Eu o lí Dr. Lecter, o lí através dos teus lindos olhos e o decifrei em uma fração de segundo...

Sei que o senhor nutre por mim desejos, obscuros, eróticos, românticos... Vejo teus olhos passarem por todo o meu corpo a procura de vestígios para a tua imaginação polida... O senhor saliva ao pensar em mim, umedece os lábios após algum tempo de silêncio... Imagina ter-me nos braços não é mesmo? Imagina sentir o toque da minha pele... Meu corpo jovem e rígido... Minha energia de jovem e pura mulher... Deseja ser o meu primeiro e único... Não é mesmo?

Pois digo-lhe doutor,

o senhor já tem a mim, falta apenas concretizar em ações.

Deve-se perguntar se estou dizendo da boca para fora devido a bebida e que não sei o que digo pois o que o senhor é, o que fez, o que vier á fazer, é algo além de sua própria compreensão e que jamais será admirado ou incentivado por uma segunda pessoa. Muito menos amado.

Nada é impossível dr. Lecter, e a prova real disto, sou eu.

Vontade de seguir teus passos e tê-lo com meu mentor, como meu amor.

Ps: O pingente é para nunca esquecer de quem lhe devorou á cada piscadela.

De sua, somente sua, e eterna,

Morgan Ayelleen Morrigan M.D''