Doce Insanidade

7 Porque não me oferece um pouco mais?


Chegara no Aeroporto Florence exatamente ás duas horas da manhã. Seu vôo fora meramente tranquilo, odiava viajar na segunda classe mas não teve outra opção.
Ah! O ar de Florença! Á tanto tempo não sentia aromas tão diversos e confusos.
O Aeroporto Florence é o menor aeroporto da Itália, exercendo somente vôos dentro de seu próprio território. De fato, o lugar não era digamos 'apropriado' para alguém como nosso ilustre Hannibal Lecter que agora chamava-se Marley Onne'il, o que logo mudaria.
O doutor escondia seus documentos falsos na Igreja de Santa Croce, entre os pilares do altar da capela. Carregando apenas uma sacola da loja Pardovoch'y, do Aeroporto de Washington e algum dinheiro, pediu um táxi até Borgo San Jacopo, rua próxima á Capela e ao Palazzo Vecchio.


Igreja Santa Croce, 2:53 A.M

– 'Che cosa devo il Signore? Ah sì, grazie. " , disse o Dr. Lecter ao Taxista, lhe pagando o valor de trinta euros e fechando a porta do táxi.

Entrou na Igreja pouco iluminada e sim, haviam fiéis, turistas e todo o tipo de gente que perâmbula pelas estreitas cidadelas Florentinas á essa hora da madrugada. Florença não dorme, seus moradores e visitantes caminham tranquilamente entra as ruazinhas, apreciam boa música e boas peças de teatro, os casais se beijam entre as estátuas de pedra, entre as estátuas de bronze, se apertam e se esfregam na escuridão.
Hannibal Lecter passa despercebido, chega próximo ao altar, passa a mão por de baixo do primeiro pilar, ao encontrar o segundo, tateia até localizar uma carteira de couro presa á um suporte que dá sustentação ao altar. Sai discretamente. Na ponte Vecchio, se desfaz de sua provisória identidade e passa a ser Dr. Fell. Ele possui um quarto, comprado pouco antes de ser preso em sua última visita á Florença, seus pertences, seus mais valiosos livros, tudo num quarto abandonado do edifício Borghese, á cerca de vinte minutos do Palazzo Vecchio.
Está andando tranquilamente, como um turista, passa em frente á Vera dal 1926 com sua riqueza de queijos e trufas, cheira como os pés de Deus.
Sem dúvida, o doutor se demorou lá dentro. Estáva fazendo uma seleção das primeiras trufas brancas da estação. Comprou um bom Chianti e se dirigiu á seus velhos-novos e provisórios aposentos.

Pouco empoeirado mas com um profundo odor de mofo, Dr. Lecter abre suas janelas pouco enferrujadas, deixando a lua lhe fazer companhia enquanto aprecia sua sofisticada refeição. Tocando os lábios na taça com Chianti pela primeira vez em tantos anos, fechou os olhos e a viu, a viu com o vestido preto com certo decote e ótimo caimento, com o rosto limpo e com aquele sorriso encantador estampando um rosto perfeito.
– Ayelleen...- suspirou enquanto apreciava o sabor do vinho- ...onde estará minha Ayelleen?'
Tirou do bolso da calça o pingente que ela lhe dera, sorriu.

O sol nascia, estáva ali sentado por algumas horas em uma nova expedição aos pilares monumentais de sua memória, levantou-se prontamente, tinha algo a fazer, descobriria quem era o atual curador da Biblioteca Capponi e daria um jeito de mudar isso além do que, trabalhando como Curador no lugar deste, lhe proporcionaria prazeres extintos principalmente tendo como Arquivista sua Prima donna.



Ayelleen dormira como um anjo em seu acolchoado branco de linha egípcia, á muito não dormia tão bem e continuaria dormindo por horas seguidas pois o Curador lhe dera o dia de folga, pelo que soube, ele e sua jovem ''namorada'' comemorariam aniversário de namoro naquele dia. Neste momento, a jovem abraçava o travesseiro e sorria, estáva tendo um sonho maravilhoso, um certo sonho que a acompanha desde criança... Consegue ver?? Alí, na beira do mar, uma garotinha de vestido florido e cabelos negros batendo seus pézinhos na água salgada enquanto seu irmão, aquele garoto loiro, um pouco mais alto do que ela, brinca com o labrador... Na areia estam os pais das crianças, abraçados, tirando fotos dos filhos... Mas... páre um pouco... Consegue ver aquele homem caminhando em direção á garotinha? Veja, ele está usando um belíssimo terno e sapatos lustrosos, tem algo em uma das mãos, o que é?? Sim... é uma flor, uma rosa azul... Ele caminha sem deixar pegadas na areia, nem mesmo o mar vem de encontro á ele... Ele ajoelha de frente para a garotinha mas, vejam só! Ela agora é uma linda mulher trajada com um vestido de seda branco... Ele entrega á rosa azul á ela e ao tocar suas mãos pálidas, eis que surge um coração humano, batendo desesperadamente... Ele a olha, de uma forma única, de uma forma demoníaca... Ela vê o coração, derramando sangue em seu vestido branco, fazendo- o se tornar vermelho... Então, ela devora o coração e sente-se imensamente bem, como nunca estivera... Ela sorri para o homem que agora está em pé diante dela e ao fitar o chão, não há mais areia, nem mar, há somente um garoto loiro caído com o peito aberto, sem o coração... Ela olha melhor e reconhece... é seu irmão...

Ayelleen desperta de um sonho ruim, está suando frio, fita as horas no relógio, é ainda muito cedo, o sol acabara de se mostrar em Florença. Levanta da cama e caminha descalça até a cozinha, abre a geladeira e pega um jarro de suco de laranja, despeja um pouco em um copo e caminha até a varanda do quarto, apoia-se no beiral e bebe o suco admirando o espetáculo no céu, por alguns minutos sua atenção foi tirada por um homem caminhando na rua, um dos poucos pedestres á essa hora da manhã; algo nele parece familiar para ela... Ela pára e começa a caçar informações em seu ''banco de memórias''...

O homemanda devagar... Está vestido com um bonito terno, mantêm as mãos nos bolsos do mesmo e á certa distância, parece não olhar para os lados... Ele caminha em direção ao Palazzo Vecchio... Ela por um instante, achou ter visto Hannibal Lecter, mas logo repensou, sacudiu a cabeça e entrou, foi até a cozinha lavar o copo e enquanto o fazia, parou novamente e recomeçou a pensar... O copo caiu, cacos de vidro barato espalhados pelo chão de tacos, ela se agaixou para recolhê-los e fez um pequeno corte com certa profundidade na mão, o sangue caía em médias gotas no chão, em poucos segundos surgiu uma pequena poça de sangue e Ayelleen sentiu-se tomada por uma força maior ao se olhar nela... Por um relance viu o rosto de Hannibal Lecter... lembrou-se da pequena matéria no jornal... lembrou-se da carta... lembrou-se do homem que acabara de ver...

Ele estáva perto... agora ela tinha total certeza.

''A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.''

Foi com essa frase em mente que o Dr. Lecter caminhou em direção ao Palazzo Vecchio, o mais cedo possível. Em um determinado momento, sentiu-se observado por alguém, enquanto o sentia, apertava forte o pingente que Ayelleen lhe dera, o mantinha no bolso do terno, era como um medalhão que não lhe proporcionava somente sorte mas sim, esperança... A esperança que o alimentara á voltar á Florença e recomeçar de um modo que lhe era muito incoveniente á algum certo tempo mas que agora, lhe caía como uma luva.

Hannibal Lecter não tinha um ''plano'' para tirar o atual Curador da Bliblioteca Cappone, mas tinha a certeza de que, se o analizasse por alguns instantes, naturalmente as idéias lhe surgiriam.

Depois de muito tempo, o 'medo' foi retirado da vida do Dr. Lecter; e isso o fez se achar vazio, como se não existisse alma, como se não lhe existisse vida, mas com a vinda de Ayelleen á sua monótona e vazia vida, aos poucos, passou a se sentir ''completo''... á seu modo. E de certo modo, com algum medo de perdê-la e hoje, esse medo não tomava conta de seu consciente Eu mas sim de seu Subconsciente... Ele sabia que isso era o gatilho para que suas mãos trabalhem á seu favor, seja lá fazendo o quê para que consiga o que deseja.

Hannibal Lecter caminha pelas ruas de Florença calmamente, aprecia a movimentação de turistas, com suas caras feias e suas roupas sem classe, está em frente ao Palazzo Vecchio... Sente o cheiro dos anos, dos livros, aprecia o odor da arquitetura que tanto lhe agradava... Repara que o portão está trancado, não há como entrar no Palazzo, suas cercas elétricas e as câmeras protegem sua riqueza; ele continua alí, parado em frente ao portão, de seu lado direito surge um senhor aparentando ter sessenta anos, largo em seu terno italiano barato, com a barba por fazer e meramente calvo, Dr. Lecter deu lhe um ligeiro sorriso, foi o bastante para Signore BonnaVentura começar uma conversa...

– Buongiorno! — disse o senhor enquanto procurava por algo nos bolsos da calça.

– Buongiorno... — repetiu Hannibal Lecter, olhando para o homem com certo desprezo por sua falta de bom gosto.

– Che cosa ci fai qui così presto? Si tratta di un turista? Sembra che ci sia un turista!!– disse o homem sorrindo, com suas bochechas grandes e vermelhas.

– Io non sono un turista, tornò a Firenze dopo tanti anni, sto solo uccidendo un desiderio di Palazzo Vecchio. — respondeu o Dr. Lecter parecendo perdido enquanto fitava a entrada do Palazzo.

– Quindi mai avuto il piacere di incontrare all'interno del Palazzo? Come non venire qui? Io sono il curatore attuale– disse o homem que acabara de encontrar um molho imenso de chaves de diversos tamanhos e cores.

Dr. Lecter pareceu refletir por um momento...

– Qualche anno fa, forse ... Dodici. Da quanto tempo lavori qui? -

perguntou de uma forma um tanto, entusiasmada.

– Ha! Un buon momento, allora avete bisogno di vedere come sta andando alla pensione. Circa otto anni ... Curatore ex morto dopo un fulmine al cuore ... All'epoca girava qui un inferno di un pasticcio, in modo da avere un'idea ancora dovuto assumere un archivista di aiutarmi. — O senhor falava de uma forma meio trágica o que aborreceu um pouco o Dr. Lecter.

– Ho capito ... Un archivista ti ha detto? Ho pensato che solo lavorato qui per gli uomini ...

– Lei era stato consigliato da un vecchio amico che l'ha assunto a Washington ... In realtà, si è dimesso, ma non ha detto perché... Archivista un fantastico ... Non ho mai visto qualcuno così interessato e così ... dettagliate, stravagante ... Capito? Madonna Mia! Quanto è bella questa ragazza! Bisogno di vedere i tuoi occhi! Che prezioso!

Hannibal Lecter sentiu a perversão nas palavras ditas por aquele homem, sentiu-se enojado enquanto o imaginava perto de sua adorada Ayelleen... Imaginou seus olhos percorrendo o corpo suave e intocado dela... Sua boca profanando á ela palavras rudes e indelicadas... Aquilo era o atestado de óbito daquele homem largo, mal vestido e nojento, que cuspia enquanto falava.

– Ho capito ... Deve essere un ... spettacolo delizioso, immagino. — disse com certa irônia.

– Sarebbe più se non fosse così stupido ... Egli credeva che oggi è il mio compleanno e usciva a prendere un giorno libero ... Piccolo ha saputo che oggi, a Palazzo Vecchio sarà il loro nido d'amore, sai?– o homem agora falava como alguém que acabara de entrar em um bordel, salivava e tinha tri jeitos de um ''tarado''.

– Sì sì ... Dimmi, fammi vedere come sono le opere di riforma? Sono molto occupato, solo la mattina per godere il meglio di Firenze...– Hannibal Lecter estava quase explodindo por dentro, seu nojo, sua raiva, num amontoado de imagens sujas em sua mente... Estava sedento por algo... E queria agora... AGORA!

Signore BonnaVentura analisou o Dr. Lecter, olhou-o de cima á baixo, tentando encontrar algum vestígio que o pudesse mudar de idéia quanto á deixa-lo entrar no Palazzo... Mas não encontrou nada além de seu bom gosto nítido e de suas vestes e sapatos caríssimos.

– Certo! Vieni! — disse sorrindo, revelando seus dentes amarelos ao Dr. Lecter.

Os dois passaram pelo imenso portão de ferro, caminharam com certa distância um do outro, o homem ia á frente, Dr. Lecter estava um pouco atrás esquematizando como daria fim aquela criatura desprezível á sua frente.

''O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que tem medo, muito longo para os que lamentam, muito curto para os que festejam, mas, para os que amam, o tempo é eterno.'' ; Shakespeare era um sábio.- dizia Ayelleen enquanto se mantinha ''jogada'' na cama, segurava o livro com a mão sadia, enquanto a ferida pelo caco de vidro, folheava as páginas amareladas.

Ela virou-se de barriga para cima, soltou o livro em cima do travesseiro, fitou o teto...

– Dr. Lecter... porque será que me apaixonei por você? Poderia me explicar?? — suspirou — Adoraria estar, usufluindo de sua deliciosa companhia hoje... Sozinhos, nesse quarto, não tão á seu gosto eu imagino — sorriu — Com a janela aberta, a noite, num jantar romântico á luz de velas, dançar uma Waltz na varanda e depois... e depois... fazer amor com o senhor sendo tocada pela luz dessa lua linda de Florença... — suspirou mais profundamente — Faria tudo para tocar seus lábios novamente doutor... Tudo... — Sua nostalgia é interrompida pelo barulho do telefone...

– Ciao?!...

Dr. Lecter e o Curador da biblioteca Cappone estam agora na sala de reunião do comitê, o senhor não pára de falar e o Dr. Lecter somente ouve, enojado, mas preparado para o bote...

Passou-se cerca de uma hora, os dois visitaram o Palazzo por inteiro, estam agora na Biblioteca Cappone, Dr. Lecter vislumbra as edições nas grandes estantes, está agora folheando um livro sem nome na capa...

Ciao! Signorina Ayelleen, come stai?– Nesse momento o Dr. Lecter fecha o livro e observa o Curador Signore BonnaVentura através de uma fenda em uma das estantes, o mesmo continuava com aquela expressão de ''tarado'', mal sabia ele o que lhe aconteceria muito em breve... — Mi chiamo per dire che ho fatto un errore ... Sì, sì! Confondere le date! Ho bisogno di apparire oggi nelle ore serali ... Eventuali problemi? Va bene allora, abbiamo molto lavoro oggi! A presto.

– Non riuscivo a smettere di ascoltare ... Mi dispiace.- disse o Dr. Lecter com um tom de 'pesar' em seu italiano arrastado.

– Nessun problema! Ma non fraintendetemi, ho capito che la mia situazione non è vero?– perguntou o homem horrendo, fechando o zíper das calças que acabara de abrir.

– Certo ... Così il suo nome è Ayelleen? Lei sicuramente deve avere, begli occhi blu turchese ... Non è vero?– perguntou o Dr. Lecter enquanto caminhava até o homem que o olhava com certa surpresa. — E 'venuto da Washington, ha lavorato presso la Biblioteca Nazionale, ha una laurea in medicina ...

– Sai la ragazza???? -perguntou Signore BonnaVentura intrigado. Dr. Lecter sorriu e caminhou mais próximo, estam cara a cara agora. Hannibal Lecter mantêm as mãos nos bolsos do terno, em um deles, aperta forte o pingente que Ayelleen lhe dera.

– Sì. .. La conosco molto bene. Lei sembra essere la mia, sai? Così si vuole toccarla? Oggi? Qui? Penso che disse al suo sporco segreto a coloro che non deve...– Dr. Lecter avança no homem, segura forte seu pescoço, todo seu peso contra o dele; Signoreé BonnaVentura é um homem robusto, mas medroso... Perdendo sua postura de gentleman, Dr. Lecter, possuído por sua fúria, quebra o pescoço do homem em segundos, sai de cima do corpo dele e o observa, sorri. O Dr. conhece o Palazzo como a palma da mão e sabe bem que possui um fosso como qualquer imóvel da época. Não demora muito até encontrar uma máquina estocadeira, utilizada para movimentar os livros de maneira facilitada; o homem robusto e morto, agora está posicionado no carrinho enquanto o Dr. Lecter o empurra escada abaixo .

Não levou mais do que quinze minutos para 'jogar fora' aquela criatura nojenta e Hannibal Lecter sente-se satisfeito. Caminha até a sala do Curador, vasculha algumas gavetas e encontra a ficha de Ayelleen; abre, visualiza de imediato seu endereço... Ainda tem tempo de lhe fazer uma surpresa... Uma grande surpresa...