Ela costumava pensar naquele último encontro, lembrava-se do frio do porão onde ficava a jaula do Dr. Lecter e lembrava dos arrepios que sentira com a presença dele, com sua voz, com seus olhos profundos... O que aquilo significava?
Ayelleen , desde sua última e catastrófica visita á um mês, tentava evitar não recordar do que sentira... aliás... do que estáva sentindo. Algo que ela sabia que seria impossível sentir por outra pessoa. É tão humilhante ter que admitir que aquilo era realmente 'aquilo'... ela estáva apaixonada por Hannibal- o Canibal; o ''monstro'' que os jornais tanto falavam, mas o que aquele sentimento poderia mudar em sua vida? Dr. Lecter estáva preso, provavelmente perdera muitos de seus agrados e ela continuava com sua vida miserável no necrotério. Mas talvez aquilo pudesse mudar... Quem sabe se aceitasse aquele emprego de Arquivista em Florença? Segurando o telefone ela discou o número no papel da mesinha a sua frente e inconscientemente respondeu: 'Signore, ti chiamo per dire che ha accettato la proposta ... Lunedi? E 'fantastico. Grazie.'
Se ela queria tirar toda a culpa de si e jogar fora memórias e sensações, teria de começar saindo de Washington... E seria na segunda. Até lá, leria mais alguns sonetos de Dante e choraria dentro de taças de Chandon lembrando daqueles olhos profundos que a devoraram em segundos.


O Hospital Estadual de Baltimore para Criminosos Alienados Mentais, estáva silencioso, principalmente no porão. O silêncio naquela ala era completamente impossível de se ter sem injeções de 'sossega leão'. Na última cela, a de frente para o armário, Hannibal Lecter permanecia sentado no escuro entre uma privada e uma peguena mesinha ao lado da cama, a mão apoiada no joelho segurando a cabeça, fitava o escuro; o único barulho era o de sua respiração e as batidas frenéticas de seu coração ao se lembrar dela... 'Ayelleen'... Com aqueles olhos grandes e azuis com aquele ar de 'decifra-me ou devoro-te' que tanto lhe agradava... Ayelleen jamais seria esquecida por ele porque, diante de todo aquele vazio dentro daquela sala escura, só a lembrança dela, viva entre os pilares de sua memória, preenchia qualquer espaço vago. Enquanto se lembrava de cada gesto dela, de cada palavra, detalhadamente, ele se perguntava porque sentia o coração tão apertado e aquele nó na garganta... aquilo era novidade para ele... a palavra 'apaixonado' sobrevôou sua cabeça diversas vezes mas ele a tocou e a desfez outras diversas vezes... mas ela insistia em voltar; como uma Fênix ela renascia cada vez mais forte, cada vez mais insistente até que Hannibal Lecter não conseguiu desfazê-la e se conformou.

Sim, ele se apaixonara pela jovem, pela garotinha de cabelos negros e olhos tremendamente azuis que o visitava uma vez por semana para lhe trazer livros e falar sobre como se sentia bem passando aqueles minutos diante da visão dele.
O que mais lhe passou foi se ela sentia o mesmo. Se sentisse, como estaria agora que não poderia mais vê-lo? A essa hora já teria perdido o emprego... E se ela não sentisse? Como reagiria se um dia ele quisesse dizer o que sentia? E se ela se assustasse e com medo tentasse algo e ele perdesse o controle pelos dois? A última coisa que queria era vê-la machucada... o que jamais passaria por sua cabeça era machucá-la.
Fechou os olhos por um instante e forçou mais a memória... O que mesmo ela disse? Sim. Ela disse certa vez, quando veio buscar os livros... que não trocaria seus poucos minutos com ele por uma vida inteira com alguém que nem ao menos sabe o sentido do amor romântico... ele deu um leve sorriso e sibilou á si mesmo:
'Ayelleen... um dia nos encontraremos além dessa jaula.'
Fechou os olhos e reviveu aquele momento único do qual se alimentaria por tempo indeterminado.


Ayelleen estáva no avião, trouxera tudo o que possuia, vendera sua antiga casa o que lhe rendeu um bom dinheiro para comprar algumas das peças da nova coleção Gucci e Channel, indicadas pelo bom gosto do Dr. Hannibal Lecter.
Se havia algo que ela aprendeu com Hannibal Lecter foi aprimorar seu bom gosto natural, algumas vezes ela se imaginava ao lado dele numa ópera ou visitando alguma exposição de arte... imaginava os olhos para eles, os sorrisos que trocariam, imaginava tantas coisas mas apartir do momento que pisasse em Florença, nunca mais lembraria de Hannibal Lecter, mas sabia que ele lembraria dela e que seria muito provável que se um dia fugisse, a procuraria. Até lá, ela saberia como agir... ou não.
A vista sobre a Itália, percorrendo os vastos campos de Toscana, as cidades iluminadas, aquilo tudo era tão romântico mas era muito mais estando lá, as ruazinhas estreitas com asfalto de pedra, toda aquela cultura, aqueles aromas... Por Deus! Como ela conseguiria se esquecer de Hannibal Lecter se ali era como vê-lo a cada piscadela?

–'Grazie. Quanto? Ah sì! Ecco. Potrebbe dirmi dove posso acquistare tartufo bianco, frutti di bosco e Chandon? E 'troppo lontano? Sì... è che io sono nuova qui, sono ancora perso e non hanno una guida ... Dove sta la biblioteca? Sarò il nuova archivista, sono molto grata per la vostra pazienza. Grazie così tanto.'
O italiano de Ayelleen soava como melodia fonética, era arrastado mas gracioso, de fato, o taxista não achara só seu italiano gracioso mas sim como toda 'signora'.
O apartamento onde Ayelleen viveria era pequeno mas aconchegante, imobiliado á moda Italiana, era gostoso de se ver, prático e com aquele toque familiar. As tantas malas e baús de livros estavam espalhados pela sala, estáva ocupada demais para arrumar tudo hoje, tinha que visitar a biblioteca e levar seus papéis, documentos e claro, comprar alguma coisa para comer.
Quando pôs os pés na cidadezinha com tantos turistas quanto bicicletas e floristas, sentiu-se em casa, talvez essa mudança tão rápida já tivesse feito algum efeito sobre o que sentira á algumas horas, ela era tão jovem, com apenas vinte e poucos anos, com tantas experiências traumatizantes... talvez agora chegara o momento de exorcisar seus demônios e viver.


Naquela tarde ela se sentou de frente para a fonte com os javalis entre as estátuas nuas, floristas passavam com suas bicicletas ou com cestas que se tornavam coloridas diante da variedade de flores. Alguns deles a cortejavam com rosas ou copos de leite, ela aceitava, envergonhada mas gostava daquilo, ser cortejada era algo que ela não costumava ser já que seus dias se resumiam em trabalhar no necrotério da universidade e depois arquivar os livros na biblioteca... e uma vez por semana, ter o prazer de levar os pedidos de livros do Dr. Lecter... pronto. Lembrou dele de novo... o que fazer para se livrar desse mau hábito?


No manicômio em Baltimore, Hannibal Lecter está desenhando, se recusou á comer e a se exercitar, seu advogado ligara para ele e ele fez questão de desligar... todas as dez vezes.
O rosto oval sombreado por fios longos de cabelo escuro estavam criando vida no papel de carne, os olhos dele percorriam os salões de sua memória em busca de mais detalhes e em minutos estáva feito, o rosto daquela que despertara nele algo tão misterioso, agora ele poderia olhar para ela todos os dias.
Naquela semana houveram problemas no hospital, estáva inadequado para a capacidade atual de internos e para corte de despesas seria fechado em breve, somente alguns casos especiais seriam transferidos para outros hospitais distantes de Baltimore e o Dr.Lecter era um deles. Ao sabê-lo, sua mente se posicionou entre sair-fugir-procurar Ayelleen, foi metódico e rápido. Ele consentiu de forma áspera e pouco empolgante mesmo quando ressaltaram que sua nova 'jaula' teria uma mini janela com vista para uma reserva florestal.
A mudança ocorreria em alguns dias mas na sua mente estáva tudo esquematizado e mais do que pronto para ser colocado em prática.
Naquela noite de quinta — feira onde os internos, principalmente Miggs, estavam mais agitados, Barney ajustou uma cadeira de frente a cela do Dr. Lecter e ficou parado tentando encontrá-lo no escuro.
– Dr. Lecter?
– Sim Barney.
– O senhor está bem? Á dias não se alimenta como o de costume, evitou suas horas de exercícios...
– Estou bem Barney, obrigado.
Houve um silêncio percorrido até Barney perguntar:
–... O senhor está assim por causa da garota não é?
Barney não obteve resposta, o Dr. Lecter permanecia deitado na cama fitando o desenho que fizera horas atrás. Barney se perguntava se havia irritado o doutor com essa pergunta mas foi surpreendido quando ele respondeu.
–...Barney, poderia me fazer um favor? Ela não veio mais, ela perdeu o emprego não foi?
– Sim, doutor.
– Sabe algo sobre ela? Ela continua no necrotério?
– ...
– Continua??
– Não. Dr. Lecter, a senhorita Ayelleen não está mais em Washington.
Hannibal se levantou, sentou na cama fitando a parede vazia á sua frente.
– Estive na biblioteca ontem, queria saber se estáva tudo bem então, um funcionário disse que ela se mudou para Florença, recebeu uma proposta de emprego no Palazzo Vecchio, ela viajou hoje de manhã.
–... Florença?! Boa escolha...

Ayelleen havia começado seu trabalho minucioso nos arquivos da biblioteca do Palazzo Vecchio, era um palácio repleto de arte e muita História, o lar ideal para alguém como o Dr. Han... Enfim, estáva se familiarizando com o ambiente antigo e apaixonante tão diferente de se trabalhar em Washington. Florença era o berço renascentista com toda aquela estrutura poética e musicalmente intrigante, era impossível não se deixar levar pela beleza medieval das cidadelas.
Certo dia saindo do trabalho, atravessando algumas cadeiras de um pub requintado, deu de cara com o La Nazione, a foto do Manicômio Judiciário de Baltimore estáva visível em uma parte do jornal, pegou-o e folheou até a página com a pequena notícia:
'O Manicômio Judiciário de Baltimore está passando por diversos problemas desde o pequeno acontecimento á duas semanas quando por falta de verbas teve que cortar benefícios de alguns internos incluindo o psicopata Hannibal Lecter, o Canibal.'
'O manicômio será fechado em breve tendo seus internos transferidos para outros locais distantes de Baltimore. A mudança ocorrerá primeiro com os mais violentos.'
Ayelleen segurou o jornal em posição de leitura por algum tempo quando outro cliente da banca esbarrou nela e a despertou do que acabara de ler, pagou pelo jornal e correu até seu apartamento. Entrou tropeçando num baú e se jogou no pequeno sofá verde musgo, releu a matéria. Ela sabia que algo aconteceria nessa transferência. Encostou a cabeça nas grandes almofadas e tentou buscar algo que ouvira de Hannibal Lecter no dia do ocorrido... Sim... ele disse segurando sua pequena mão com força, forçando-a a olhar para ele enquanto ele falava :' Nunca me esquecerei de você, pequena Ayelleen... e se um dia eu sair... me lembrarei mais ainda de você.'

Um sorriso tímido estampou seus lábios ao mesmo tempo em que seu coração batia acelerado. Tantas coisas passaram por sua cabeça após ler aquela notícia; repentinamente seu rosto mudou de expressão, surgiram linhas de expressão em sua testa, preocupadas, tristes... tristes... também estavam seus olhos que marejaram e desaguaram.

O que exatamente ela deveria querer agora? Deveria desejar que algo desse errado e que o Dr. Lecter não escapará dessa vez? Desejar que ele consiga fugir e finalmente ser livre? Desejar que ele a tenha esquecido? Desejar nunca tê-lo conhecido? Ou apenas esperar para vê-lo entrar pela grande porta escura para onde estava olhando nesse exato momento?

Foi nessa cena que sua mente pausou e foi além... Ela podia vê-lo entrar pela grande porta escura, trajando um terno de excelente corte, sapatos brilhando e olhos reluzentes num rosto irradiante... Ele sorria para ela e se aproximava cada vez mais... Ela apenas esperava encostada no beiral da janela aberta com a cortina dançando frente a seu rosto... Ele está de frente para ela, retira delicadamente o tecido sedoso que cobria seu rosto e a toca como jamais fizera... Ah! o abraço, a união de corpos, e o beijo, tão delicioso numa sintonia perfeita de união de almas! E nos olhos dele estáva escrito, que aquilo seria para sempre... e mais um dia.