Doce Ilusória
20 Que gosto tem os nomes?
Notas iniciais
Estou morta.
É o primeiro pensamento coerente e lúcido que tenho.
Estou muito ferrada.
Esse é o segundo, e sem dúvida o mais verdadeiro.
Preferiria estar morta, por que quando sair desse quarto de hospital minha mãe certamente encontrará uma maneira bem desagradável de me matar.
Assim que minhas pálpebras teimosas resolveram me obedecer descobri que um excesso desnecessário de branco me cercava.
Nota mental: pedir que redecorem esse hospital de cima a baixo.
De início pensei que tinha passado dessa para uma melhor e me encontrava no céu. Só que percebi o meu engano quando me dei conta de que se existisse um céu, eu provavelmente não seria convidada a pôr os meus preciosos pés nele.
O que me leva de volta àquele segundo pensamento verídico e genial. Despertei com uma agulha enfiada no braço e uma crescente dor de garganta, me fazendo pensar que eu tive um parto pela garganta, com a cria arranhando toda a sua extensão para vir ao mundo. O ridículo disso me fez acreditar que estava realmente ferrada, pensando mais esquisitices do que o habitual.
E o pior disso é que tudo o que eu podia fazer no momento era ficar deitada feito uma inválida esperando pelo pior, com a mente vazia de lembranças ou explicações e uma dor sacana como única companhia.
Isso até alguém se esgueirar ao meu quarto, como se fosse um fugitivo.
— Samara, graças a Deus te achei. Já estava começando a ficar desesperado.
Nem pisco.
Ver Pedro em uma camisola de hospital é algo definitivamente inesquecível.
— Gostei do vestido. — Vejo-o corar levemente.
— Mesmo doente você é uma peste.
— E mesmo de vestido você continua tentando fazer os seus insultos soarem insultantes, porém...
— Sam, não temos tempo para isso. — Pedro se ajoelha ao meu lado, seus olhos vermelhos fixos em mim. — Ocorreu um pequeno acidente na casa do Lázaro, e a qualquer momento nossos pais virão ver como você está. E irão pedir o que aconteceu. As nossas histórias precisam fechar, Samara.
Ouvir metade do meu nome em seus lábios faz com que eu sinta um arrepio dos pés à cabeça. Faz com que eu queira selar nossas bocas em um beijo.
Faz com que eu tenha pensamentos idiotas.
— Mas o que aconteceu afina? Você lembra de algo?
Pedro cora violentamente desse vez.
— Só de pequenas coisas insignificantes. O que importa é que Lázaro tinha uma plantação de maconha e ela misteriosamente pegou fogo. Estávamos por perto, inalamos muita fumaça e acabamos desmaiando. Por sorte nossos pais nos encontraram à tempo. Aparentemente escutaram gritos seus.
— Ok, vai com calma. Tudo isso é muito confuso. O que estávmos fazendo lá, a propóstivo?
O garoto solta um longo suspiro.
— Não faço ideia. Só sei que estávamos no meio do mato, de noite, sozinhos, e colocamos fogo em uma planatação de maconha. O que isso parece para você?
— Que nossos pais querem o nosso couro?
— Eu diria exato, mas por enquanto estamos livres de qualquer castigo. Vamos ao que interessa e o motivo de eu estar aqui.
Faço beicinho.
— E eu que pensei que você tinha vindo aqui para me ver.
— E você acha que eu não queria te ver além de salvar a nossa pele? — Vejo uma centelha de raiva em meio àquele vermelho. — O fato de eu estar aqui significa que estou fazendo o possível para que possa te ver novamente.
— Certo, não precisa ficar chateado. — Coloco a mão cujo braço não está espetado no ombro dele. Só então percebo que também devo estar com uma camiso igualmente horrível.
Pedro respira fundo algumas vez e então relaxa sob o meu toque.
— É que às vezes é tão difícil lidar contigo... — Sacode a cabeça e então volta a se concentrar em mim. — Escute com muita atenção, Samara. Eu disse a eles que te vi saindo sorrateiramente, e resolvi te seguir. Você levava uma vela e parecia perdida. Depois disso eu falei que não lembrava de mais nada. O que eles não podem saber é que nós saímos juntos, tudo bem?
— Espera, então nós realmente demos uma escapadinha juntos?
Pedra bate com a mão no rosto nitidamente frustrado.
— Sim, provavelmente saímos juntos. Mas essa não é a questão no momento. Eu preciso voltar para o meu quarto, Samara. Apenas seja fiel à minha história e dê pequenos acréscimos que não nos entregue, tudo bem?
Assinto.
— Mas antes... Por que você vive dizendo o meu nome? — Pergunto. Acabara de me dar conta de tal fato, e não pude deixar de notar também que não dizia o nome dele com tal frequência.
Vejo a sua língua passar por seus lábios secos. Talvez eu devesse ajudá-lo a molhá-los... Apenas um ato de caridade...
— Talvez eu goste de como ele soa. E do gosto que ele tem.
— Te garanto que tenho um gosto muito melhor...
Seus olhos queimam em mim enquanto ele se encaminha para a porta caminhando de costas.
— Em breve descobriremos.
Após essa promessa ele sai do quarto me deixando boquiaberta. Talvez a nossa convivência já estava começando a afetá-lo.
Fico algum tempo matutando sobre como o faria ter absoluta certeza de que eu nos seus lábios teria um gosto mil vezes melhor que o meu nome, e acabo não notando a porta abrir-se novamente até que vejo duas pessoas paradas à minha frente.
— Minha filha... Deus, fiquei tão preocupada! — Mamãe toma as minhas mãos entre as suas, seus olhos marejados de emoção. Antônio está parado ao seu lado, e pela sua expressão posso dizer que está distante.
— Ei, está tudo bem. O que aconteceu? Como vim parar aqui? — Finjo absoluta confusão, usando a minha melhor máscara de inocênica.
Ela me analisa atentamente.
— Você não se lembra de nada?
— Bom, eu... eu — um pouco de gagueira para tornar tudo mais convincente e agradável — me lembro de ter acordado e então não conseguia mais dormir. Tinha náuseas, acho que comi alguma coisa que não me fez bem. Resolvi ir tomar um ar, acendi uma vela para enxergar melhor, e então... Nada. Depois disso acordei aqui, nessa cama.
Mamãe suspira cansada.
— Pedro também não se lembra de muita coisa. Ele disse que te viu saindo e resolveu te seguir para ver como você estava. Depois disso não lembra.
— Mas e o que aconteceu então?
— Você provavelmente deve ter derrubado aquela vela e, bom, tinha uma plantação de maconha lá, cortesia do Lázaro. — Aqui seu tom é amargo. Acho que agora entendo por que os pombinhos estão fisicamente e visualmente distantes. Ela culpa ele pelo que aconteceu. — Por sorte escutei seus gritos e conseguimos tirar vocês de lá antes que fosse tarde demais. Se tivessem inalado apenas um pouco mais de fumaça...
Sua voz se quebra. Meu coração ganha uma pequena rachadura.
— Mas estamos bem, certo? E é isso o que importa. E, hum, como o Pedro está?
Me surpreendo quando é Antônio quem resolve responder.
— Bem.
E então sai do quarto, simples assim.
— Hum, o que foi isso?
Mamãe se encosta na cama, seu olhar nunca deixando o chão.
— Acho que nunca mencionei, mas a mãe do Pedro morreu de cancer. Há quatro anos. Antônio quase perdeu outra pessoa que amava, e isso pode ter mexido com ele. Além disso, nós tivemos uma briga.
— Uma briga? Por quê?
Raramente mamãe desabafava assim. Parte de mim queria consolá-la e a outra queria comemorar por eles terem brigado.
— Antônio nunca deveria ter nos levado àquele lugar perigoso, foi inconsequente da parte dele. Lázaro claramente não tem uma mente muito sã.
Seu desgosto era praticamente palpável.
— E o que aconteceu com o incêndio?
— Aparentemente Lázaro já foi bombeiro. Deixamos ele lidando com o fogo e viemos imediatamente ao hospital.
— Há quanto tempo estou dormindo?
— Trouxemos vocês quase de madrugada, e agora já está quase anoitecendo. O médico disse que vocês teriam alta pela manhã.
Aperto a sua mão.
— Não fique preocupada, tudo bem? Você deveria ir descansar um pouco, está exausta.
Me oferece um meio sorriso como resposta.
— Acho que você tem razão. Além disso, Calvin e seu pai estão aí de fora, querendo te ver.
— Pois então, mande meus garotos entrarem.
Mamãe bagunça meus cabelos.
— Mesmo em uma cama de hospital você consegue ser mandona. Qualquer coisa me chama, tudo bem?
— Sim. Pode deixar.
Só quando ela está fora do quarto me permito dizer as palavras.
— Te amo, mãe. Sinto muito, por tudo.
Um murmuro, e se eu pensava que dizer isso tornaria as coisas melhores, estava muito enganada.
— Filhota, você quase me matou de preocupação.
Sorrio quando vejo papai e Calvin.
— Ossos do ofício, pai. Ninguém disse que ser meu progenitor seria fácil.
— Eu que o diga.
Cada um se coloca em um lado da cama, e Calvin pega minha mãe e a aperta. Devolvo o gesto.
— Agora, falando sério, eu quase tive um treco quando a sua mãe me ligou e disse o que tinha acontecido.
Sorrio de forma sagaz.
— Já sei, um mundo sem mim seria inconcebível. Tipo uma primavera sem flores e um verão sem sol.
— Sabe, Sammy, nem precisamos nos esforçar para te deixar feliz. Você tem o dom de apreciar a si mesma.
Mostro a língua e finjo dar um tapa nele.
— E você tem o dom de me insultar gratuitamente.
— Precisa haver um equilíbrio, sabe.
— Ei, os dois. Eu ainda estou aqui, sabe?
Rolo os olhos.
— Vocês dois vão me deixar grisalha, isso sim. Mas me digam, a comida daqui é boa?
— Você está com fome, filha?
Minha barriga ronca em resposta.
Calvin ri.
— Certo, isso provavelmente foi um sim. Vou procurar um enfermeira ou um médico para saber se você pode comer alguma coisa. Aguenta firme.
Com isso ficamos apenas meu pai e eu.
— Sam, como você está, de verdade?
— Um pouquinho de dor de garganta, apenas.
Papai abre a boca para dizer algo, mas então um bip o interrompe. Vejo um pedido de desculpas mudo em seus olhos.
— Filha, eu sinto muito, mas...
— Tudo bem, pai. Você pode ir. Na verdade deve ir. Outra pessoa deve estar precisando de você mais do que eu agora.
Novamente meus cabelos são afagados, me fazendo pensar que devem estar uma droga total nesse momento.
— Já te disse que você é a melhor filha do mundo?
— Acho que sim, apesar de que nós dois sabemos que isso é mentira. Mas você pode dizer que eu sou a filha que você sempre quis.
Ele beija o topo da minha cabeça.
— Isso não faz sentido. E vê se controla essa tua linguinha. Agora, se precisar de qualquer coisa me liga, ok?
Simplesmente concordo.
Alguns minutos se passam enquanto eu fico encarando o teto ridiculamente branco e imaculado. Calvin entra no quarto com uma bandeja.
— Espero que seja do seu agrado.
Então empurra a poltrona que estava esquecida em algum canto até a cama. Depois me ajuda a comer. Basicamente não falamos muito, mas quando estou quase acabando, ele larga a bomba.
— Eu vi vocês saindo juntos.
Se eu tivesse algo na boca provavelmente cuspiria ou me engasgaria.
— E?
— Eu não vou contar.
Solto a respiração que nem percebi que tinha prendido.
— Mas tem uma condição.
Lá vem.
— Diga.
Fico com a minha postura de negociante.
— Você fica me devendo um favor, e quando eu pedir você faz. Simples assim.
Analiso as minhas opções. Por fim assinto com a cabeça. Mais tarde daria um jeito nesse pequeno contratempo.
— Ok. E Sammy? Tenha mais cuidado, e... Tente não o magoar, certo? Ele realmente gosta de você.
Mal inclino a minha cabeça assentindo novamente.
— Pedro me pediu para te entregar isso. — Calvin coloca um pedaço de papel no meu colo.
Meu irmão pega a bandeja agora vazia e se dirije à porta. Mas antes de sair ele para.
— Me chame se precisar de algo.
— Ok.
Quantas vezes eu ouviria isso novamente?
Quando — finalmente! — Calvin some da minha visão eu desdobro o papel. Acontece que são dois. Um deles está completamente preenchido pela mesma palavra.
Samara.
Perco-me em um mar feito com o meu nome, cujas ondas que se veem nas curvas das letras são absolutamente encantadoras, e atraem os meus olhos como imãs.
Depois de ter o suficiente daquela visão resolvo ir para a segunda folha.
Seu nome tem um gosto doce na minha boca, mas escrevê-lo é incrivelmente melhor. Soa como uma carícia. Acho que sou carente do teu toque... Viciado nos teus beijos...
Você habita os meus pensamentos, sabia? Mesmo agora não consigo te tirar da minha mente.
Quero fazer isso da forma correta.
Samara, você quer sair comigo? Para um encontro?
Apenas diga sim e eu não te farei feliz, mas te darei a felicidade.
Pedro
P.S. Você fica linda mesmo com o “vestido” do hospital.
Por que isso parecia estranhamente romântico? Por que o meu coração brincava de pula pula no meu peito?
Por que eu não conseguia tirar esse sorriso idiota do meu rosto?
E diabos, por que eu queria sair clandestinamente do meu quarto só para dizer sim a um certo alguém?
Acho que eu tenho um encontro.
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