Doce Ilusória

21 O que não fazer em um quarto de hospital


Notas iniciais
Capítulo dedicado às lindas que comentaram e me cativaram :3 Espero que apreciem! P.S: Aceito reviews :P

Sair clandestinamente de um quarto de hospital foi mais fácil do que eu imaginei. Porém tentar encontrar Pedro foi outra história.

Já que eu não sabia onde ele estava resolvi apostar na tentativa e erro. O ruim é que as tentativas sempre terminavam em erro. Recebi muitos olhares hostis dos pacientes cujos quartos eu acidentalmente entrava, até que uma lâmpada pareceu se acender na minha cabeça quando eu estava quase desistindo.

Afinal, por que não pedir informação para alguém que trabalhava no hospital?

Foi exatamente isso que eu fiz.

Acabei sem a informação que eu queria e escoltada de volta para o meu quarto. Agora Calvin estava sentado na poltrona me vigiando, enquanto eu desejava loucamente esmurrar aquela enfermeira cretina dedo duro.

— Por que você saiu do teu quarto?

Cruzo os braços sobre o peito.

— Talvez eu simplesmente quisesse esticar as pernas. Ficar deitada por tanto tempo dá cãibras, sabia?

— Por favor, Sammy, não zombe da minha inteligência.

— Se ao menos houvesse uma para zombar... — Resmungo baixinho.

— Ei! Já ouviu falar da Educação? Ela é uma senhora muito elegante que deveria ser apresentada a você. Tenho certeza que irá aprender uma ou duas coisinhas úteis com ela.

— Nesse caso eu deveria te apresentar ao meu bom e velho amigo Cale-se.

Pelo canto do olho vejo Calvin apertar os lábios e estreitar os olhos em minha direção.

— Sabe, Samara, eu posso ficar o dia inteiro nessa.

— Sabe, irmãozinho, eu deveria ter te enforcado com o cordão umbilical quando dividíamos um útero.

— Sabe...

— Ei, por que ninguém nunca me convida para as festas?

Olho escandalizada para um Pedro que acaba de atravessar a porta do meu quarto temporário.

— Ei! Por que você pode ficar perambulando por aí e eu não? A propósito, isso não é uma festa. É o ensaio do velório do meu irmão preferido.

— Humm, — ele se escora na parede e me examina, seus olhos queimando em mim — eu pedi para ver como você estava. Ouvi falar sobre o tour que você deu nessa ala. Impressionante.

Contenho a vontade de mostrar a língua para ele.

— Certo, aproxime-se meu jovem. Venha fazer parte do nosso debate amoroso. Até agora o placar está dois a zero para a Samarinha.

— Eu não concordo com esse placar. — Calvin diz carrancudo.

— Não seja um mau perdedor. E será que você poderia ir buscar um café para mim?

— Há cinco minutos você não queria nada.

Suspiro enquanto belisco a ponte do meu nariz. Sutileza nunca foi algo detectável para o Calvin.

— Certo, é o seguinte. Vai dar uma volta por aí, se aliviar, observar o cenário, sei lá. — Fixo meu olhar nele. — Ou eu me verei obrigada a chamar a Brianna para nos fazer companhia.

Abro o sorriso mais macabro de todos. Calvin empalidece na mesma hora.

— Você é má, Sam, muito má. Mas não pense que não haverá retaliação.

Com isso ele sai, deixando Pedro e eu sozinhos.

Um par de olhos curiosos se fixa em mim.

— O que acabou de acontecer aqui? E quem é essa Brianna?

Aliso o lençol que me cobre. Pedro continua apoiado contra a parede.

— Começando pelo mais fácil, Brianna é uma amiga minha. Ela tem meio que uma obsessão pelo Calvin. O tadinho tem trauma dela. E sobre o que acabou de acontecer, bem, nós tivemos uma pequena briga, nada muito grave.

— Hum, certo, entendo. Eu e meu primo também tínhamos esse tipo de briga. — De repente Pedro parece acanhado, com um olhar tímido e pequenos pontos de vermelhos em sua pele lisa. — Você recebeu a...?

Sorrio de lado. Até que ele é uma gracinha.

— Sim, Calvin me entregou. Acho que estou te devendo uma resposta. Por que você não se aproxima mais?

Parecendo relutante ele me obedece, com passos lentos, até estar ao meu lado.

— Agora se abaixe para que eu possa te ver melhor. — Digo com a voz rouca.

— O que você quiser.

Sua voz também está rouca, e soa tão macia que parece me acariciar.

Quando nossos olhos estão na mesma altura, ergo minha mão e a levo até a sua face. O contato é eletrizante.

Estaria eu me rendendo à suavidade de sua pele? Ao calor que ela emana assemelhando-se a um abraço?

A esses sentimentos que insistem em não serem apresentados ao Cale-se?

Pela primeira vez na vida emudeço. Escassa de respostas, mesmo das sagazes e carregadas de sarcasmo. Nesse momento só consigo pensar em me afundar em seu olhar.

Afundar-me em seu abraço.

Sentir na pele o seu toque.

Deus, aonde foi parar a Samara autentica? Não sou capaz de me reconhecer nesse instante.

— Sam?

— Sim?

A aliteração que segue o sussurrar dos “ésses” me faz ansiar suspiros sem cessar.

O mundo certamente está perdido. Samara poetizando sem uma intenção de deboche por trás.

— Eu vou te beijar.

— Por que você está me avisando?

— Para sofrer de antecipação. E talvez então morrer pela tua boca.

Acho que vou ter um ataque cardíaco, mas no bom sentido, é claro.

Não espero ele dar o primeiro passo, caso contrário eu não sofreria de antecipação, mas morreria dela.

Reivindico seus lábios com tamanho fulgor que surpreendo a mim mesma.

Pedro se estende sobre mim, com cuidado o suficiente para não me machucar e tampouco cortar o contato. Ouso acariciar suas omoplatas, faminta por ele, mais dele e somente ele.

— Sim. — Consigo dizer entre um beijo e outro. — Quero ter um encontro contigo.

Ele somente geme em resposta.

Minha mente parece ter se transformado em purê de batata, pois nenhum pensamento coerente é capaz de se formar. Exceto que o vestido de hospital é extremamente prático e multifuncional. Com certeza ganhou o selo de qualidade Samara e cia.

— A gente precisa parar...

Aposto que qualquer um com neurônios o bastante para ser considerado útil teria pensado que essa fala pertence ao Pedro. Porém, — surpreendam-se — fui eu quem proferi tamanha sagacidade.

E como ele pareceu ignorar minha tentativa de salvar a nós dois, empurro seu peito.

Por mais que esteja embriagada em seus beijos e toques, tenho absoluta certeza de que pegaria super mal se alguém nos flagrasse nessa situação no mínimo, hum, delicada.

Além disso, não pretendo que a minha segunda vez seja em uma cama de hospital. Eu tenho padrões a manter.

— Certo, você tem razão. — Mesmo assim ele parece emburrado quando se afasta. E despenteado. E amassado. E deliciosamente corado. E muito sexy.

Hum, apetitoso.

— Então, que eu mal lhe pergunte, quando será esse nosso encontro?

Pedro tenta ajeitar os cabelos enquanto reflete. Depois de um tempo desiste com um suspiro.

— Disseram que ganharíamos alta amanhã cedo. Que tal de tarde? Você pode dizer que irá se encontrar com aquela amiga sua, e eu invento alguma desculpa para sair. O resto é surpresa.

Sorrio docemente.

— Detesto surpresas.

Pedro nem se abala. Ao invés disso, sorri.

— Você me enlouquece, sabia?

— E isso é ruim?

— Eu não saberia dizer. Nunca senti nada parecido por ninguém.

Mordo o lábio.

— Boa noite, Pedro.

Diversão cruza seu rosto.

— Está me dispensando, é?

— Você é dispensável? — Replico em tom de flerte.

— Acho que a resposta para essa pergunta precisa ser demostrada.

De repente me vejo apertando o lençol para não levantar e ir até ele para exigir tal demonstração.

— Demonstre amanhã. Vou estar esperando ansiosamente, senhor Parker. Não me decepcione.

Com passos arrastados ele se afasta de mim, nunca quebrando o elo entre nossos olhos.

— Desculpe, mas não sei o significado dessa última palavra.

E então ele sai do quarto, mas permanece na minha mente.

Afundo a cabeça no travesseiro que perece de maciez, querendo apenas pegar no sono o mais rápido possível, para que o amanhã chegue, e junto a ele, o encontro e tudo o que vier com ele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.