Doce Ilusória
3 Futura enxadrista
Notas iniciais
— Filha, vamos até meu quarto, tenho certeza de que possuo algo para você usar.
Aceno levemente com a cabeça, puxando a camisa de Calvin contra mim, para que nada fique à mostra. Por favor, né, eu posso ser um pouco “jogada”, por assim dizer, mas ainda possuo aquela vergonha de andar pelada ou seminua por aí.
Sigo-a, enquanto se abstém de ser eliminado aquele silêncio esmagador entre os garotões. Mary deve ser cega por causa da idade, só pode, pois quando terminou seu anúncio toda alegre e saltitante, simplesmente saiu, sem reparar naquele tumulto. Causado por quem? Pela diva da Samara, obviamente.
Passei por um corredor gelado, adornado com quadros de diversos tamanhos em sua parede vermelho escuro. Continuei seguindo mamãe, passando por lugares cada vez mais luxuosos. Não trocamos uma única palavra. Provavelmente ela estava chateada pela minha ausência de afeição mostrada com os Parker. Mas eu não estava nem aí. Nunca pedi para estar aqui.
Subimos uma escada imensa, que me lembrou daquela da mansão de um jogo que curto muito, Resident Evil, ainda o primeiro.
Outra paixão minha são cogumelos. É, gosto muito deles, por motivos diversos. As pessoas me acham maluca quando falo isso. Provavelmente pensam que uso eles para fazer algum chá alucinógeno. Por favor, né, se eu quiser parecer chapadona e no mundo da lua, tudo que eu preciso fazer é rever meu ex.
— Chegamos. — Ela anuncia, mas eu nem estava mais prestando atenção, tão longe que estava com meus pensamentos.
Entro no quarto com mamãe, reparando que esse cômodo não é tão luxuoso. É singelo, mas não deixa de ser agradável.
— Toni está reformando seu quarto para que possamos ficar lá, mas por ora ficaremos aqui. — Sua voz está tranquila, enquanto senta na cama, e passa a mão por sua extensão, de modo sonhador.
Me dói ver ela feliz assim, por dois motivos.
Ela nunca foi desse jeito com meu pai.
E eu seria a responsável por acabar com essa felicidade infantil dela.
Senti algo um tanto desconhecido, aquele tipo de sentimento que me visitava de tempos em tempos, quase que raramente.
Mas logo o expulsei de mim. Sentimentos desse calão só servem para enfraquecer, e te fazer sofrer pra caramba.
Limpei a garganta.
— Então, o que vou usar?
Ela parece acordar de um sonho gostoso. Olha para mim com um doce sorriso nos lábios. — Procure naquele canto — ela aponta com o indicador — do guarda-roupa, tem alguns vestidos lá, pode escolher aquele que quiser.
Faço um gesto de positivo, e vou até lá. Dou uma examinada até encontrar um que me agrade e sirva.
Acabo escolhendo um preto liso de cetim, com alças finas. Sexy sem ser vulgar.
Troco rapidamente, e em menos de cinco minutos estou pronta para encarar o resto da noite.
— Vamos? — Ela concorda, e volto a segui-la, pois ainda não decorei aqueles caminhos sinuosos.
Em pouco tempo chegamos à sala de jantar. Já estavam todos sentados. Mamãe ocupou o lugar ao lado de seu noivo, enquanto que para mim só sobrou um entre Calvin e Pedro. Conformei-me e sentei.
Olhei a comida ao meu redor e senti um súbito incômodo. Não havia nada que eu considerasse comestível, via frutos do mar, e algumas outras frescuras nojentas.
— Tudo bem? — Calvin perguntou baixinho quando viu minha cara de nojo.
— Não, não está nada bem. — Respondi de volta. — Acho que vou vomitar.
O pior é que a gracinha do Pedro escutou, e franziu o cenho preocupado. Era só o que me faltava.
— Você está passando mal?
— Hã...
Não tive tempo para responder, minha mãe e o resto escutaram Pedro.
— Minha filha, o que você tem?
Cramenha, agora vão pensar que estou morrendo. Fuzilei Pedro, embora ele nem sequer tenha consciência de sua culpa.
— Só estou com o estômago um pouco embrulhado, e acho que essa comida apetitosa — faço um gesto abrangente com o braço — não me fará nada bem. — E finalizo com um sorriso amarelo, esperando ter soado convincente. Mamãe parece genuinamente preocupada. Ela se vira para Toni.
— Mor, você não teria uma comida mais leve para a Samara?
Ele concorda, e chama Mary. Faz um pedido para a mulher, que assente e some do recinto. Em poucos minutos volta com um prato carregado de comida.
Quando o coloca na minha frente, fico impressionada com a quantidade de verde naquele prato. Muitos tipos de verduras e frutas. Pronto, agora eu tenho cara de vaca, só pode.
— Hum, valeu. — É obvio que não valeu porcaria nenhuma, minha vontade é de fazê-los comerem essas coisas. Mas entre isso e o que está na mesa, bom, serei uma vaquinha muito feliz. Minha fome era tanta, que comeu meu orgulho também. Pena que ele não foi digerido.
Começo a comer, sem vontade alguma. Escuto as conversas paralelas e sem graça deles, sobre o cachorro que pretendem comprar, a faculdade de Medicina que o garoto de ouro começou a cursar, a grandiosidade do casamento, a cor natural dos cabelos tingidos da Sam... É, até eu virei um assunto, mesmo me recusando a participar daquela seita satânica. É a vida.
Termino de comer, e me sinto até mesmo uma pessoa mais saudável. Sabe que coisas verdes não são tão ruins assim.
Começo a fazer dobraduras com o papel, entediada até o último fio de cabelo. Eles terminam e continuam papeando. Tanto sofro nessa vida, que provavelmente irei direto para o céu, sem necessidade de um julgamento.
— Pedro, por que você não mostra a casa para a Sam e o Calvin?
— É uma ótima ideia, pai. — Ele se vira para nós. — Vocês aceitam?
Como se houvesse algo melhor para fazer.
Concordamos, sem escolha. Eu, pelo menos, já que Calvin parecia estar se divertindo à beça.
Perambulamos por toda a parte inferior, e então fomos ao andar dos quartos. Olhamos os dos hóspedes, aquele que estava em reforma, e acabamos indo também ao do Pedro. Era ridiculamente organizado, com estantes cheias de livros, e — pasmem — num canto havia uma gaiola com uma coruja dentro. Ela era linda. Suas plumas claras, e seus olhos dourados me ganharam. Sempre tive uma queda por cogumelos e pássaros, principalmente corujas e falcões.
Aproximei-me daquela belíssima criatura, fascinada. Queria tanto poder tocá-la, comprovando que sua maciez era tal qual eu imaginara.
Seus olhos inteligentes passaram a me fitar.
— Ela tem olhos lindos. — Disse a mim mesma. Nesse ponto, já havia me esquecido daqueles dois.
— E eles nem estão no ápice. — Sua voz soou próxima demais, fazendo-me levar um grande susto. Isso foi muito invasivo, não curti.
— Ei, trinta centímetros de distância, por favor. — Dei um passo para o lado, tentando ficar o mais longe possível dele.
Sua sobrancelha ergueu-se. Ele parecia divertido.
— Ou o quê? Você vai me espancar até a morte?
— É uma ótima ideia. — Há, agora o Pedrinho tinha senso de humor.
— Então, tem mais algum lugar para nos mostrar? — Calvin, o Intrometido se intrometeu.
— Claro, vocês ainda não viram seus quartos futuros. — Saiu pela porta de seu quarto, dando espaço para passarmos. Mas quando eu estava saindo, ele me cutucou. — É por aqui, trinta centímetros de simpatia.
— Sim senhor, querido trinta centímetros de masculinidade. — Passei por ele, com toda a minha elegância.
— Fico lisonjeado com o seu elogio, não sabia que me superestimava tanto assim. — Ouço ele falar atrás de mim, em tom brincalhão. Argh, vou arrancar um olho dele e fazê-lo o comer enquanto observa com o outro.
Entramos em um quarto de tons azuis, claramente nunca ocupado. Viria a ser o quarto do Calvin.
— Uau, muito massa.
Pedro parecia imensamente feliz pelo fato de que o meu irmão gostou do tal quarto. Pronto, até meu irmão vão querer tirar de mim agora.
Saí de lá, ficando encostada contra a parede do corredor, de braços cruzados e uma expressão de mau humor.
Após alguns minutos eles também saíram do quarto. Agora só faltava ver o meu futuro quarto.
Ele ficava de frente para os quartos dos garotos, e quando adentrei nele, quase tive um treco.
Rosa para todo o lado, com pilhas de bonecas em prateleiras, e móveis tipo de quarto de princesa.
Uma palavra, nove letras, quatro sílabas e pura indignação.
— Vocês estão zoando comigo, né?
Me viro para os dois.
— Foi sua mãe que escolheu tudo, desde a cor das paredes até os móveis. — Pedro fala de um jeito estranho. Só então percebo que ele quer rir, mas está se segurando.
— Argh.
Bem nessa hora minha progenitora chega com seu Toninho.
— E então filha, gostou?
— Ah, mamãe, ameeeei, caso eu finja que tenho dois anos de idade.
Ela parece magoada.
— Você vai acabar se acostumando. — Quem diz isso é Antônio, que a abraça de lado.
Aham, vai nessa, otário.
— Acho que a gente poderia ir jogar agora, pai.
— Jogar? — Indago.
— Xadrez. Sempre praticamos depois da janta. Tenho certeza que você irá adorar, Samara.
Dez a zero pro Toninho no quesito Enlouqueça a Sam.
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