Doce Ilusória

4 Como se mata um chuveiro?


Notas iniciais
Por favor, deixem a opinião de vocês. É muito importante para mim.

Eu deveria estar em qualquer outro lugar, tipo, sei lá, cuidando dos meus cogumelos, alimentando gatinhos famintos, paquerando, matando... Enfim, eu não fui talhada para gastar meu precioso tempo jogando xadrez.

Principalmente quando meu ego está sendo mutilado lenta e dolorosamente a cada derrota. Sim, ninguém poderia imaginar uma coisa dessas, mas eu, Samarinha, sou um ser competitivo. Extremamente competitivo.

— Xeque! — Gritei de modo triunfante. Pedro arqueou as sobrancelhas, e impediu minha super jogada genial. Mexi outra peça, fula da vida, e quando foi sua vez novamente, sabe o que o desgraçado falou?

— Xeque mate.

É isso aí, quinta derrota consecutiva, e eu não estava nem um pouquinho feliz. Para ser franca, meu lado perverso queria fazê-lo engolir aquelas pecinhas, ou fazer um talho em sua garganta com o chapéu pontudo do bispo.

Ok, controle-se Samara, não estamos em O Chamado. Nada de assassinatos.

Ao menos por enquanto.

Coloquei em prática o meu pensamento, respirando fundo.

— Certo, acho melhor irmos dormir.

Sua sobrancelha curvou-se de um jeito que muitos considerariam sexy e ousado. Eu concordava apenas com a segunda parte, e nada tinha a ver com hormônios e esse tipo de coisa.

Ousado no sentido que se eu tivesse um poço particular como a minha xará, o afogaria nele, com todo o meu psicótico prazer de uma quase psicopata.

— Já desistiu?

Empinei o nariz de modo petulante.

— Desistir, nunca. Mas caso você não tenha notado, nossa torcida acabou dormindo, de tão interessante que estava isso que você chama de jogo.

Ele levantou da cadeira, com um ar divertido. Deu alguns passos em minha direção, e logo estava atrás de mim.

— Você não deve xingar o jogo só para que não sabe jogá-lo.

Ok, agora eu estava verdadeiramente exasperada.

Senti-o puxar minha cadeira para trás, como um completo cavalheiro, e tudo o que eu queria no momento era misturar veneno de rato em sua comida.

Graças a pensamentos como esse que eu acabei tendo algumas sessões com uma psicóloga gente fina.

Levantei da cadeira, e fui acordar o time de Belas Adormecidas. Ao menos, minha mãe e meu irmão. Deixei ao encargo de Pedro acordar seu próprio pai.

Quando todos estavam razoavelmente conscientes, embora alguns pareciam um pouco grogue, resolvemos que seria no mínimo interessante ir dormir, e no máximo, lucrativo. E sim, eu fui obrigada a aceitar que dormir nessa casa monstruosamente ridículo era uma boa opção, ao invés de irmos para o nosso amado apartamento.

Mamãe dissera que era melhor começarmos a nos acostumar com o nosso novo lar, assim, sem aviso prévio nem nada. Imaginei-me arrancando meus olhos com uma colher enquanto ela fazia o seu discurso.

Tentei tomar distância dos três ao subir as escadas, mas logo Pedro me alcançou com aquelas pernas de avestruz.

— E então, revanche amanhã?

A verdade é que eu não queria jogar novamente aquele jogo maligno tão cedo na minha vida, mas não iria admitir esse fato justamente para aquele sujeitinho.

— Vou pensar no seu caso. — E andei mais rápido, para fugir do alcance de qualquer ser humano por perto.

Corri para o quarto que roubaram da Barbie, como se fosse um oásis rosa. Mas logo que fechei a porta atrás de mim, alguém bateu na mesma.

Logo teria que providenciar uma placa de "Não perturbe" para anexar à porta.

— Quem é? — Perguntei mal humorada, sentindo os primeiros efeitos do sono que se aproximava.

— Sou eu, filha.

— O que foi? — Indaguei sem abrir a porta.

— Só queria agradecer, — pausa — por, hnm, — super pausa — não ter causado nenhum incidente.

Ao falar isso, senti seus passos se distanciarem, até que tudo se tornou silencioso.

Certo, até parece que eu era um tornado e estragava tudo por onde passava. Ou quase tudo.

Enfim, isso não é pertinente ao momento em questão.

Olho para aquela cama cuja cor era desagradável aos meus olhos sensíveis, mas mesmo assim aproximei-me dela, e repousei minha mão em sua superfície. Tudo nela era convidativo, desde a textura macia até a forma em que estava posicionada no quarto.

Pulei sobre ela, fechando os olhos com puro deleite. Nem me incomodei de trocar minha roupa, simplesmente a tirei e joguei-a em um canto qualquer, ficando apenas com a roupa debaixo. Não estava frio o suficiente para cobrir-me, por isso simplesmente fiquei por cima das cobertas, sentido aquele colchão dos deuses se moldar sob o meu corpo.

Nenhum pensamento mirabolante ou terrorista ousou espreitar pela minha mente naquele momento. Foi o sono quem chegou de mansinho, e o recebi alegremente, como um convidado de honra.

O bom do sono é que podemos dormir por um ano inteiro, e acordar como se estivéssemos estado ausentes por poucos segundos, ou nem mesmo isso.

A luz é a culpada por me acordar, fazendo desenhos abstratos nas minhas pálpebras fechadas. Depois que acordo, dificilmente sou capaz de voltar a dormir. Levanto da cama a contragosto, ainda sonolenta e com o cérebro que continua adormecido.

Quase não enxergo por onde passo, e rumo em direção à porta, mas não sem notar que havia algo muito errado com meu quarto. Ele parecia maior, e mais rosa.

Procuro o banheiro para tomar meu banho matinal e acordar verdadeiramente. Até não fazê-lo, sou um pouco humana e zumbi. Uma porta me cumprimenta, e até mesmo ela parece diferente. Calvin ainda deveria estar dormindo, e mamãe estava na casa dos Parker.

Entro no banheiro, e levo um susto ao ver um cara lá dentro. Pego a primeira coisa que vejo para espancá-lo infinitamente. Como um assaltante desgraçado conseguiu entrar no nosso apartamento?!

Ele pega meus pulsos após eu atingi-lo com uma saboneteira. Empurra-me contra a porta fechada. Sacode-me algumas vezes, e aquela dormência filha de uma rameira some de mim.

— Samara, sou eu, o Pedro! O que há com você?! — Ele parece verdadeiramente furioso, e eu também, mas comigo mesma. Como pude me esquecer de onde estava? Samara burra, burra e estúpida!

Só então percebo que estou apenas de calcinha e sutiã, do mesmo jeito em que fui dormir, e ele está só com a calça de seu pijama. O chuveiro está ligado, e o banheiro, cheio de vapor.

Pisco algumas vezes, e tento pensar em como eu sairia dessa. Talvez a verdade fosse uma boa alternativa.

— Eu esqueci que tinha dormido aqui. Achei que estivesse na minha casa... — Minha voz morre, e eu limpo a garganta. — Não sabia que você estava aqui. Achei que fosse algum marginal.

Termino já me sentindo eu novamente. Ele parece relaxar, e afrouxa o aperto sobre meus pulsos, mas não se afasta. Na verdade ele se aproxima um pouco, e sinto sua pele contra a minha.

— Hã, tudo bem. Você quer que eu lhe mostre outro banheiro?

Era notável o quanto Pedro se esforçava para não me olhar do pescoço para baixo. Seu cavalheirismo estava começando a me irritar. Por que diabos eu precisava dele para encontrar outro banheiro?

— Tudo bem. — Acabo dizendo de má vontade. Finalmente — finalmente! — ele se afasta. Olho para qualquer lugar que não seja aquela criatura.

— Ei, não é melhor você desligar o chuveiro por enquanto?

— Você poderia desligar para mim, por favor? — Indaga em um tom cordial.

Cruzo os braços.

— Por que eu deveria desligar?

Pedro pisca de forma inocente.

— Talvez por que você é a menos vestida daqui.

Tento controlar meu ultraje.

— Meu querido, eu tenho a mesma quantidade de peças de roupa que você. Tire a calça e desligue você mesmo. — Finalizo em um tom sarcástico. Nesse momento ele se escora contra a porta, e faz parecer como se estivéssemos batendo um papo muito interessante.

— Você poderia disfarçar o seu desejo de me ver sem roupa.

Meu queixo cai.

— O quê?

Seu sorriso de comercial de creme dental me irrita profundamente.

Estreito os olhos, e para acabar de uma vez por todas com aquela situação no mínimo idiota, vou eu mesma desligar a droga do chuveiro.

Giro a válvula, mas, porém, contudo, entretanto, a vida me odeia, assim como todos os chuveiros da face terrestre. Mesmo o tendo “desligado”, ele continua mandando água, porém gelada e de forma abundante. Talvez eu venha a ser a primeira pessoa a se afogar num chuveiro na história da humanidade.

Ouço Pedro chegar perto do boxe.

— O que você fez garota?!

Ok, agora a culpa era minha! Maravilha!

— Não. Quer. DESLIGAR!

— Você tem que fechar o registro do banheiro. — Ele fala calmamente.

— Onde? — A palavra está impregnada de raiva.

— Ali. — Aponta para o registro, que está muito além da minha capacidade de me espichar.

— Não alcanço, e nem você provavelmente. — Cruzo os braços, começando a ficar com frio. Nessas alturas eu estava completamente encharcada. Pedro fez um som estranho, como se estivesse decepcionado comigo.

Ele também entra no boxe, e meu corpo fica tenso. O idiota simplesmente me ergue sem a minha permissão. Sinto suas mãos nas minhas cochas, perto demais do meu bumbum.

Isso é assédio!

— Pronto, agora você consegue fechar. — Sua voz soa normal, como se estivesse fazendo uma observação sobre o tempo ou o quintal do vizinho.

Ranjo os dentes, louca de cólera. Seu rosto está contra minha barriga, e sua respiração faz cócegas. Fecho o registro, girando aquela porcaria até não cair mais nenhum pingo de água do chuveiro rebelde.

— Quem colocaria o registro lá em cima? — Resmungo comigo mesma.

Ele me leva até o chão devagar, e penso em mil e uma maneiras de torturá-lo.

Olho bem no fundo de seus olhos. E bem quando minha mão está prestes a se chocar contra seu rosto, meus pés perdem o equilíbrio, e escorrego para frente. Seus braços me amparam, e Pedro me segura contra si.

A porta se abre nesse momento, e uma voz incrédula chega até nós.

— Mas que falta de vergonha é essa?!