Doce Ignorância

3 Capítulo 2


Divulgamos o tema da festa as 21h. Brega. Foi o tema que Ana escolheu, e eu tive que rir, porque imaginei a casa cheia de gente com roupa brega, e tocando musicas bregas no que deveria ser uma balada. Eu não iria me fantasiar não precisava esse mico, coloquei um short jeans desgastado, uma regata preta frouxa e um coturno preto, deixei meu longo cabelo ruivo (natural) solto e estava pronta... Eu sei... Nada convencional pra uma balada, mas meu estilo é bem trash mesmo e pior que me fantasiar seria ter que usar aqueles vestidinhos curtos e salto alto.

Quando abrimos a casa as 23h30 e as pessoas começaram a chegar eu pensei que que o tema deveria ser comedia porque eu não parava de rir, mas as musicas ate que estavam bem boas, eram uns remixes de clássicos bregas. Eu fiquei num camarote com uma garrafa de vodca como companhia, e isso durou acho que 20 minutos, então chegaram Thiago, Vini e Dan, zuando e tomando a garrafa da minha mão. Vini me puxou e começou a dançar comigo, visível e irritantemente bêbado.

– Porra Vini, mal abrimos e você já tá chapado ? — me afastei dele.

– Ele tá bebendo desde a hora do almoço. — disse Dan se sentando esparramado na minha cadeira.

– Ei folgado, você está no meu lugar. — falei chutando a perna de Dan de leve.

– Você devia estar dançando, afinal você quem quis abrir a casa hoje. — ele disse e bebeu um gole da vodca.

Tomei a garrafa de suas mãos, e o fuzilei com o olhar.

– Eu vou... Mais tarde. — desviei os olhos dele e observei as pessoas dançando na pista.

– E porque não agora? — Não precisei olhar pra saber que ele tinha um sorriso debochado nos lábios e com um olhar desafiador.

–Ah.. Porque eu não gosto dessas musicas. — disse dando de ombros e dei um gole na vodca, querendo engolir junto meu nervosismo.

–Não seja por isso princesa. — disse Thiago entrando no clima de Dan, e sorrindo, tão debochado quanto o outro. Ele pegou o celular e mandou uma mensagem pra Ana, e poucos minutos depois começou a tocar um remix de Summertime Sadness da Lana Del Rey. Eles me pegaram, aquela era umas das musicas que eu mais gostava, não dava pra dar mais desculpas.

Sabe, o problema não é que eu não saiba dançar, porque eu sei, mas eu não gosto que olhem pra mim, então prefiro ficar mais na minha. Mas não teve jeito, fui arrastada pra pista por Thiago e Dan.

No começo eu não estava muito afim, e queria mesmo voltar pro camarote, ate tentei fugir dos meninos mas eles me arrastaram de novo pro meio da pista, então começei a me soltar aos poucos, e uns minutos depois eu já estava descontrolada na pista, não estava nem aí pra se alguém estava me olhando ou não. Eu precisava daquilo, precisava por tudo pra fora, todas as lembranças ruins que me atormentaram durante aquele dia que foi realmente um inferno. Acho que dancei umas 2 horas seguidas ate meus pés decidirem por mim que não dava mais, estava pingando suor então fui ao banheiro passei uma agua no rosto e no pescoço pra me refrescar e me sequei com uma toalha, depois fui ate o bar, me sentei e pedi uma ice. Fiquei sentada tomando minha bebida enquanto observava as pessoas dançando, então eu reparei em um homem me encarando de um jeito estranho no bar , sentado a uns 3 bancos de distancia do meu, parecia estar me avaliando. O encarei também pra ver qual era a dele , e quando vi que ele não ia parar de encara mostrei o dedo do meio pra ele e sai do bar, indo direto pro camarote.

Passar pela pista pra chegar ao camarote foi uma missão difícil, aquilo parecia um formigueiro, estava completamente cheio. Cheguei ao camarote ofegante, só pra pegar a Ana no agarramento com um cara que eu nunca vi na vida, fiquei meio puta, porque o andar de cima da casa servia justamente pra isso. tinha uma grande sala cheia de sofás e alguns quartos bem confortáveis. Então aquela cena era bem desnecessária.

– Ei — Falei dando um tapa no braço de Ana sem me importar de interrompe-los. -se quer foder vá lá pra cima , tá legal?

Ana se soltou do cara e riu, dispensou ele com um gesto de mão que saiu me olhando meio enraivecido, então ela me puxou pra sentar.

– Curtindo? -Ela perguntou, e eu assenti.

– Mas então qual o problema? — ela me olhou nos olhos, odeio quando ela faz isso, odeio quando qualquer um faz , mas odeio mais ainda quando é ela.

– Problema nenhum.- Disse dando de ombros e tomando o ultimo gole da ice só pra desviar daquele contato visual.

– Lou, por favor, não me dê o trabalho de ter que arrancar a verdade de você... E não olhe assim pra mim eu SEI, que tem alguma coisa te incomodando.- bufei. Mas que porra porque ela tem que me conhecer tão bem? Respirei fundo pra começar a falar já que não tinha outra alternativa.

– É só... Bom, é que, sabe... As lembranças... Eu não consigo evitar... — Eu abri a boca achando que conseguiria falar mas saíram apenas palavras desconexas, minha mente estava voltando a infância, e eu estava ficando desesperada, porque eu sempre consegui controlar isso, mas agora elas vinham uma atrás da outra e eu não conseguia para-las. Passei as mãos pelo cabelo e pelo rosto, eu estava tremendo, e estava me controlando pra não chorar.

– Eu já entendi. — ela disse pondo a mão em meu ombro.- Vamos embora.

Nesse momento eu agradeci por Ana me conhecer tão bem. Eu estava a ponto de chorar, e ela sabe como eu odeio chorar, ainda mais na frente das pessoas. A única pessoa que eu não ligo que me veja chorar é a Ana, porque ela é a única que me entende , e que sabe lidar comigo nessas situações. Acho que o fato de termos passado nossa vida toda ate agora juntas ajuda um pouco.

Saímos da boate e fomos embora no meu carro com a Ana dirigindo porque eu estava com certeza muito abalada, e talvez um pouco bêbada pra isso, e provavelmente acabaria matando nós duas em um acidente. Ao menos foi oque ela disse quando eu quis tomar a direção do carro.

Enquanto ela dirigia eu me lembrei do dia em que a conheci, e comecei a sorrir instantaneamente.

Eu estava no pátio do orfanato, que pode ser descrito como um pedaço de chão lamacento com um balanço enferrujado que chiava quando alguém tentava se balançar mais alto, um escorrega de madeira que me lembrava muito um ralador porque ele acabava com a bunda de qualquer um que tentasse usa-lo, uma gangorra quase inexistente, pois a ferrugem a estava consumindo aos poucos, e uma curta trilha de pedras que levava ate um pé de manga que na verdade era o único lugar que se podia chamar de bonito e agradável ali.

Bom, eu estava lá, olhando de cima da Mangueira as outras crianças brincando quando vi o assistente social levando uma garota de cabelos negros e pele rosada, um pouco mais velha que eu ate a diretoria do orfanato. Na verdade arrastando porque ela estava resistindo com todas as forças. Ela chutava, xingava, mordia, gritava e se debatia, mas o assistente social tinha uma paciência divina, e parecia que nada o irritava, e talvez ela tenha percebido isso porque acabou desistindo, e indo com ele de cara emburrada. Eu fiquei realmente curiosa pois a maioria das crianças que chegavam no orfanato não ofereciam tamanha resistência, talvez porque a vida fora do orfanato não pudesse ser pior que a vida dentro dele.

Durante os primeiros dias ela não saia do quarto, só ficava na cama olhando o teto, não dizia nada, e seu rosto não demonstrava nenhum tipo de emoção... Sei disso porque ela foi colocada no mesmo quarto em que eu estava. A cada dia minha curiosidade sobre ela aumentava, eu não entendia porque ela agia daquela forma, queria saber porque ela estava tão contrariada por ter que ficar no orfanato, então eu resolvi perguntar.

Depois de acordar esperei todas as meninas saírem, assim ficamos a garota e eu sozinhas no quarto, me aproximei cautelosamente de sua cama, hesitando apenas um segundo antes de falar.

– O que tem de tão bom lá fora? — perguntei.

Tive de esperar alguns bons minutos plantada ao lado de sua cama pra receber um simples olhar de indiferença dela. Mas eu estava realmente curiosa, e não iria perder minha chance de descobrir algo, então apenas continuei olhando pra ela, esperando minha resposta, ela soltou um longo suspiro e virou-se de costas para mim.

Sem chance de eu desistir. Eu tive uma ideia naquele instante... Se ela gostava tanto da rua eu a ajudaria a voltar pra lá, em troca de algumas respostas...

– Eu posso te ajudar a ir embora... se me contar como é lá fora..

Esperei mais uns bons minutos e já estava quase saindo quando ela finalmente se virou pra mim... parece que eu ia conseguir algo afinal.

– como vou saber que você não está tentando me ferrar?- olhei pra ela perplexa, afinal, porque iria querer ferrar ela?

Dei de ombros.

– Que diferença faz pra você? O máximo que te aconteceria por ser pega tentando fugir seria levar uma bronca... Mas você nem liga pra esse lugar, não é ?

Ela se sentou e tombou a cabeça pro lado, indicando que eu deveria me sentar ao seu lado. Bom... agora vamos chegar a algum lugar, pensei ao me sentar . Ela me olhou, pesando os prós e os contras da minha proposta.

– O que você ganha por me ajudar? — Dei de ombros novamente.

– Eu vivi toda minha vida nesse orfanato, tudo que eu quero é saber como é lá fora...

– huh.. então.. pra sair daqui, eu só tenho que te contar como é viver na rua? — Assenti.

– Haha.. menina, você fez um péssimo negocio...- Sorri para ela, e então começei a lhe explicar como ela poderia fugir.