Doce Criminal
11 Recruta Rebelde
Notas iniciais
" A jovem ainda florescia e, por sermos tão parecidos, o destino assim nos uniu."
Vigiamos a garota a noite toda, seu comportamento era um tanto peculiar: bebia, fumava e uma vez ou outra arrumava discussão com alguém. Chegou até quebrar dois copos e ser expulsa do bar.
– Essa mina é doidona mesmo! – Tuco ria e parecia impressionado com a noviça rebelde.
Do lado de fora ela fumava sentada na calçada, observávamos de longe quando um grupo de três rapazes se aproximaram dela. No começo não entendemos o que estava acontecendo, eles cercaram a garota e a convidavam de maneira hostil a subir na moto de um deles.
– Vão se lascar, babacas! – Ela gritava um pouco bêbada.
Os três começaram a encurralar a menina que até tentou se desvencilhar com socos, tudo em vão, até que um deles deu um tapa na cara dela.
– Sua piranha bêbada! Vamos dar uma voltinha hein?
Já iam colocando a garota tonta na moto enquanto esperneava e xingava os caras com todos os palavrões existentes no vocabulário português. Tuco já não aguentava segurar o próprio corpo ali, então pegou a arma em minha cintura e saiu correndo na direção deles.
– Deixa a mina aí covardes! – Tuco apontou a arma para os rapazes que apesar de aparentarem mais idade que nós se intimidaram com a arma e fugiram nas duas motos que lhe pertenciam.
Demorei para sair do estado de choque, era incrível como meu corpo enrijecia a qualquer sinal de adrenalina, corri em direção aos dois. Tuco pegou a bebum pelo braço e a jogou dentro do carro (que pegamos emprestado de Lucia, é claro), cantamos pneu em direção a nossa casa.
– Pra onde estão me levando babacas? – A louca gritava e chutava os bancos do carro. Lucia me mataria se visse tal cena.
– Pinguça fica calma aí que esse carro é emprestado! – Tuco dava risadas do meu desespero em relação a integridade do carro – Aonde você meteu a gente em pegar essa delinquente?
– Relaxa Bruno, a gente salvou a garota!
Quando chegamos Rita acordou num pulo e, mesmo sonolenta, fez um caldo de feijão e colocou uma compressa de agua quente no rosto marcado pelo tapa que a pinguça levou.
– Querida, onde você estava com a cabeça pra beber sozinha na madrugada? – Ela perguntava com seu jeito responsável e maternal.
A Punk tomava o caldo de feijão calada, aos poucos ia saindo o efeito da bebida.
– Está melhor doidona? – Tuco ria bagunçando aqueles cabelos coloridos.
– Natasha! Meu nome é Natasha.
A menina era ranzinza, tirou a mão de Tuco de sua cabeça e agradeceu rispidamente à Rita pelo feijão.
– Vou dar o fora! Valeu aí por me defenderem, mas já estou legal.
Por mim tanto fazia, ela era mais uma adolescente bêbada irresponsável fazendo cagada por aí, mas Tuco parecia insistente em relação a garota:
– Espera ai doidona! O que cê faz da vida?
– Não tem nenhuma doidona aqui, meu nome é Natasha já disse!
– Ei Tuco, fala logo aonde você quer chegar! – aquele papo no meio da madrugada já estava me enfadando.
Ele me olhou sorrindo e então saquei instantaneamente o que ele pretendia. Apesar de nova, Natasha tinha uma personalidade ideal para o crime, era durona e meio cabeça dura, parecia ser sozinha: havíamos conseguido a recruta ideal.
Agora éramos três.
Com o passar dos dias fomos conhecendo mais a menina Natasha, ao contrário de todos nós ela era de família rica. Estudou nos melhores colégios de São Paulo e morava com os pais em Higienópolis, não tão longe de nossa pensão situada aos arredores de Santa Cecilia. Eram os extremos do centro, a pobreza e riqueza convivendo lado a lado. Mas não era tão ambiciosa quanto nós, até porque já conhecia bem o dinheiro. Por isso, aceitou a proposta de se aliar a nós não pelo dinheiro, mas pela rebeldia contra seus pais e contra o “sistema”. Todos os dias Natasha criticava o maldito sistema e pichava alguns muros da cidade como protesto, a noite juntávamos nós três para encher a cara no quarto da pensão.
Quando Lucia trouxe para nós o armamento os olhos de Natasha brilharam tanto ao receber sua pistola que foi como se uma garotinha ganhasse uma Barbie, logo ela aprendeu a manusear.
– Seja lá quem for esse Jânio, já era! – Ela dizia com seus olhos azuis macabros.
Aliás, Lucia não gostou nada de Natasha. Tive que ouvir um sermão enorme do quão irresponsável tinha sido em colocar no rolo uma garota “doidinha” e inexperiente.
– Fica esperta com essa pancada aí. Vai pôr tudo a perder!
Mas depois do aparecimento de Natasha no grupo ela se tornou mais presente entre nós e mesmo sendo contra, desde o início, no meu envolvimento ao crime se mostrou disposta a ajudar se fosse necessário.
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