Doce Criminal
8 O Bruno ja não é Bruno
Notas iniciais
" Os olhos de dor nutriam o homem mau que existia em mim."
Nos dias seguintes Lucia dobrou a carga de trabalho e atendia cada vez mais clientes, sendo assim não tínhamos mais nosso tempo a sós e quando surgia uma oportunidade ela fugia de meus braços.
– Eu não estou afim, garoto.
Aquela situação estava me tirando do sério, quanto mais louco eu estava por ela mais distante Lucia parecia. Eu já deveria saber naquela circunstância que poderia ter o amor de quem eu quisesse, menos o de uma prostituta.
Então me odiei por ama-la, por ser fraco e ainda mais por não ter o seu amor e tomado de ódio levei comigo a vontade de mudar tudo. Havia chegado o dia do assalto.
Eram duas horas da madrugada e na esquina do hotel um Santana preto já me aguardava, fiquei imaginando se um dia teria grana pra ter um carro daquele. Entrei no carro e conferi pela vigésima vez naquela noite se estava tudo certo com a arma escondida na calça moletom.
Jânio estava no volante e acelerava pelas ruas enquanto me dava informações importantes sobre a família que eu ia assaltar, eram duas crianças, uma empregada surda e o casal que nesse instante já dormiam. O cofre estava na suíte do casal então seria inevitável fazer o serviço sem anunciar o assalto, Jânio não parecia intimidado e muito menos comovido com o fato de haver duas crianças inocentes na casa:
– Se precisar matar, mate! Esse cara já me deu muito trabalho.
Minhas mão suaram frio, fiquei imaginando a família dormindo tranquila sem imaginar o que os aguardava. Tentei focar na raiva que sentia em sempre ser um moleque para todos ao meu redor, inclusive para Lucia, então ia encarar isso de frente e com maestria.
Quando chegamos, Jânio me disse que aquele bairro era a Moca. Pra meu desespero não conhecia, mas ele me garantiu que um de seus caras estaria me esperando em um Monza vermelho naquela mesma rua que estávamos parados. Ele disse pra ser rápido e objetivo, me mostrou o sobrado bege no fim da rua e me abandonou cantando pneu. Agora era eu e eu mesmo.
Naquela rua deserta cheia de casas de classe media me senti perdido e com vontade de sair correndo para longe. " Que merda eu estou fazendo?", tinham crianças lá e isso martelava sem parar na minha cabeça. "Quanto mais rápido eu terminar, mais rápido ganho a grana." Comecei a caminhar em direção a casa, coloquei o capuz do moletom negro e um lenço cobrindo uma parte do rosto. Não tinha estrelas naquela noite, não tinha barulho, apenas eu e meu revólver.
Escalei o muro lateral do sobrado fazendo o menor barulho possível, graças as aulas de educação física minhas pernas e braços tinham força e habilidade suficiente para esta atividade criminal, quem diria que a escola poderia me ajudar neste quesito. Fui correndo agachado pelo corredor lateral e quando chegou em uma porta de vidro pude ver a cozinha lá dentro, olhei a fechadura e era das boas, mas não suficiente para o método silencioso dos clipes. Aliás, Lucia quem havia me ensinado e era simples: dois clipes, um servia de apoio e o outro era desentortado para entrar na fechadura como uma agulha. E supimpa a porta abriu, mais fácil do que eu esperava.
Era difícil andar no escuro em uma casa desconhecida, parecia um rato sorrateiro procurando as escadas e quando encontrei fui subindo na ponta dos pés, o assoalho fazia barulho e precisava pisar cada vez mais leve. Passei por um banheiro e então por uma porta que tinha uma lua neon colada, era o quarto das crianças, fechei os olhos e pedindo perdão a elas passei para a próxima porta. Hora da ação.
Abri a porta devagar, podia ver um ponto de luz vermelha piscando do outro lado do cômodo que deveria ser o painel de acesso do cofre meu coração acelerou, lembrei de Lucia toda sensual anunciando seu assalto fictício me senti encorajado. Apalpei ate achar o interruptor e com agilidade e fúria liguei a luz e anunciei o assalto em questão de segundos.
A mulher acordou em um pulo e com os olhos azuis arregalados segurava o grito e abraçava o marido que parecia tão em choque quanto ela.
– Moço pelo amor de Deus, tem criança na casa.
– Cala a boca vadia, eu quero o dinheiro do cofre agora. — Eu não gritei, mas fui ameaçador.
Sentir que estava no comando e intimidando alguém era realmente uma sensação de poder inabalável, me nutria ao poucos do medo nos olhos do casal. O homem, moreno e careca aos poucos foi se acalmando e mostrando as duas mãos ia andando em direção ao cofre enquanto eu apontava a arma para a cabeça de sua amada, isso parecia devastador para ele e o fazia digitar rápido a senha no cofre.
– Isso mesmo, coopera bonitinho senão o cérebro da sua branquela aqui vai explodir.
Ia ameaçando o casal e enquanto a mulher chorava eu ia perdendo o medo e tomando todo o controle da situação, já não era mais o Bruno ali.
Mas o que eu não esperava aconteceu.
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