Doce Criminal
9 A viúva e seu defunto
Notas iniciais
"E depois daquela noite sonhei com sangue e morte."
Tudo aconteceu em questão de segundos, quando dei conta da situação o homem careca já apontava uma arma na minha direção. Fui tolo em pegar sua mulher de refém enquanto ele abria o cofre, tinha uma arma lá dentro. Mas como poderia prever tal situação? era apenas um bandido de primeira viagem.
Já estava entrando em colapso mental, num piscar de olhos já não estava mais no comando da situação e agora apontávamos a arma um para o outro. Paralisado e desesperado, olho no olho e eu já não sabia o que fazer. Seria essa a hora de atirar?
– Sai de perto da minha mulher e vai embora daqui cara! — Foi a primeira vez que o homem resolveu falar, até pensei em seguir o conselho, mas que frangalho seria eu se o fizesse.
A mulher chorava agachada em meus pés implorando para eu ir embora, as duas pequenas crianças naquelas tantas também choravam no quarto ao lado.
De repente dois disparos aconteceram.
Pulei assustado, o homem que outrora apontava a arma em minha direção teve uma bala atravessada certeira na testa e caiu como pedra no chão disparando o tiro que acertou meu braço, mas eu não havia apertado o gatilho. Alguém matou o cara. Olhei para trás e então vi uma pessoa encapuzada na porta.
– Pega a grana e vamos! — A pessoa ordenou.
Sem pensar duas vezes corri até o cofre e peguei a grana, a mulher do defunto berrava por socorro e com certeza precisava sair correndo dali. Descemos correndo as escadas e pulamos o muro, apesar da minha dificuldade com o braço atingido fui mais rápido do que quando entrei. O medo da velocidade às pessoas, pode acreditar.
Procurei o carro vermelho, mas o encapuzado corria em direção a um outro carro de cor preta que estava no fim da rua, então apenas segui sem questionamentos, seja lá quem fosse estava do meu lado. Quando entramos no carro cantamos pneu pela madrugada e a tensão saiu como se tivesse liberado 100 quilos do meu corpo, respirava ofegante e agradecia por estar vivo. Tirei o lenço e então resolvi enfim descobrir quem estava dirigindo.
– O Jânio mandou você aqui? Aquele cara morreu, meu Deus... não era pra ele morrer!
O assassino então, sem tirar os olhos da estrada tirou o capuz.
Meu corpo congelou.
– Lucia ?
Ela não respondeu, estava com uma expressão transtornada. Ela matou um cara por minha causa, não sabia se havia sido a primeira vez que ela tinha feito isso, mas foi tão certeiro que me arrepiou a espinha.
Enquanto a cidade acordava, em nosso quarto, Lucia cuidava do meu ferimento que ardia muito, mas para minha sorte havia sido apenas um tiro de raspão.
– Isso vai sarar logo, Bruno. — Ela disse com aquele sorriso bonito, mas seu olhar ainda estava distante.
Contamos toda a grana e para nossa surpresa tinham exatos 100 mil reais.
– Filha da Puta! Ele ia me pagar só 10 mil pra meter minha cara lá e tomar um tiro de raspão.
– Ele te enganou, garoto. Aquele cara era um tira, ele sabia que um de vocês ia morrer ali. Caso saísse vivo de lá ele ainda ganhava a grana de brinde.
– Mas que merda Lucia, a gente matou um policial. A gente tá fodido!
Senti o desespero e a vontade de sumir, mas Lucia continuou calma avaliando os fatos.
– Vamos dar a grana pro Jânio, pegar nossa parte e sumir! — Tentei arranjar uma solução rápida e desesperada.
– O Que? Está maluco? O Jânio te sacaneou, essa grana agora é sua! E não vá pensando que eu vou sair fugida daqui. O cara morreu, mas o Jânio está bem vivo. Você vai ter que resolver isso, só não esquece que é você sozinho contra a máfia dele.
Ela ia caminhando ate a porta e antes de sair disse sorrindo:
– Não esqueça os anti-inflamatórios, garoto.
Como alguém que matou um policial poderia estar tão calma?
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