Do outro lado de Chicago
2 Uma nova amiga
— M a t t e u s
— Bom dia. — digo aos meus pais.
— Bom dia. — eles respondem.
Me sento a mesa, onde meu pai está lendo um jornal. Minha mãe está fazendo o café da manhã e eu ainda me sinto um pouco sonolento. Encaro o jornal que o meu pai lê tão entorpecido e vejo a manchete: "Cidadã herda o novo posto de líder da Erudição. Jeanine Matthews entra para o governo da Erudição trazendo novos recursos e tecnologia para toda a cidade."
Minha mãe coloca os pratos de pães na mesa e três xícaras de café. O cheiro exala por toda a cozinha naquela manhã, enquanto tomamos o café da manhã naquele dia.
— Ansioso? — pergunta a minha mãe.
Olho para ela em silêncio e, então, percebo que ela está falando comigo. Geralmente, membros não oficiais da Abnegação não falam à mesa de jantar ou seja a hora que corresponde a refeição.
— A ansiedade não faz parte de um membro da Abnegação. — digo.
— Você é um bom menino, Matteus. — diz minha mãe — Sei que seu coração pertence à esta Facção.
Sorrio de discreto para ela e termino o meu café da manhã. Coloco a minha bolsa surrada e suja em meu ombro, me despeço de meus pais e saio pela rua da Abnegação, em rumo a minha escola.
Entro no ônibos mas continuo em pé pelo corredor, para dar lugar àqueles que vierem. Hoje nós não teremos aula, apenas uma palestra nos explicando sobre o Teste de Aptidão que virá na próxima semana.
O trajeto do ônibus passa por uma rua onde alguns Sem-Facção vivem. Minha Facção ajuda-os com roupas e alimentos. Não fazemos isso por valor de mérito, mas por altruísmo. Lembro de uma vez ser levado para um trabalho comunitário com a minha mãe, quando eu tinha apenas nove anos, e eu fugi de um Sem-Facção porque estava com medo. Minha mãe entregou um grande pão em minhas mãos e me mandou dar ao Sem-Facção e me ensinou de que apesar das aparências, todos tem um coração. Todos tem sentimentos.
O ônibus para. Uma menina e eu somos os últimos a descer, porque somos da Abnegação e damos privilégio à outras Facções. A esta hora, os meus pais devem estar em uma reunião com a familia Eaton e Prior, prontos para serem enviados a um trabalho comunitário.
Ando de cabeça abaixada pelo pátio da escola e passo pelas portas duplas de vidro, sem olhar o meu refléxo. O corredor parece uma bagunça quando é invadido por alunos da Facção Audácia. Muitas das vezes eu acabo me entregando as suas palhaçadas e solto risos, mas rapidamente sou sensurado por eles mesmo.
"Careta não tem permissão para rir.", diz eles.
— Oi, Careta! — uma menina de de cabelos pretos cacheados e olhos azuis surge ao meu lado com um grande sorriso e roupas vermelhas.
— O quê faz aqui? — pergunto.
— O mesmo que você. — responde Barbara — Vim assistir a palestra de hoje.
Aceno com a cabeça e continuo andando pelo corredor. Ela ainda está me seguindo... por quê?
— Está se sentindo altruísta hoje? — pergunta ela.
— Acho que me sinto assim todos os dias. — digo, oferecendo um sorriso discreto.
— Ótimo! — diz ela.
Barbara joga uma pilha de livros em meus braços — percebo que eu já li metade deles —, logo deduzo que é para que eu possa carrega-los pra ela. Não acredito que ela me fez passar por isso. Sei que meu pensamento está sendo egoísta, mas por que as pessoas abusam tanto da Abnegação?
Para que eu não seja visto como uma má imagem da Abnegação, eu reprimo a minha raiva e ando em silêncio ao lado de Barbara.
— Você não é de falar muito, não é? — pergunta ela.
— Desculpe, sou timido. — digo.
— Acho que toda a sua Facção é. — retruca ela.
— Olha só, se for pra ficar zoando com a minha cara, é melhor você pegar os seus livros e sair de perto de mim! — digo, colocando os livros nos braços dela com raiva e começando a andar em passos rápidos.
A sala onde será apresentada a palestra está a poucos metros de distância. Continuo andando em direção a porta quando sinto os meus pé se chocarem contra algo e meu corpo ser empurrado para frente.
Ouço risadas atrás de mim. Me levanto e limpo as minhas vestes.
— É assim que nós fazemos com Caretas, Eric! — diz uma garota da Audácia pra um garoto da Erudição.
— Impressionante, Gi! — diz o garoto da Erudição, rindo e zombando de mim.
Tenho que reprimir a raiva. Não posso me deixar levar por conta disso.
Viro-me e entro dentro da sala da palestra onde somente um garoto da Abnegação está sentado sozinho no canto: Tobias.
Já houve boatos na Abnegação de que Marcus batia em seu filho Tobias e que o maltratava. A Abnegação não permite agressão mesmo que for para a nossa educação. Quem criou os boatos, eu não sei, mas duraram pouco tempo porque ninguém acreditou que o grande governador e líder altruísta da Abnegação fosse capaz de fazer uma coisa dessas.
Me sento ao lado de Tobias, em silêncio. Ele está de cabeça abaixada. Tobias tem o dobro do meu corpo e do meu tamanho, algumas feições de seu rosto são semelhantes ao de Marcus.
A porta se abre e Barbara entra por ela. Ela caminha em minha direção e tento não dar ouvidos pra ela.
— Sabe, pra alguém da Abnegação você é bem irritadinho. — diz ela.
Bufo.
— Vai ficar chateado comigo? Eu não disse nada de mais! — diz ela.
— Barbara, minha Facção não permite esse tipo de coisa! — digo.
— Nossa! — diz ela — Você é tão certinho.
— Você realmente pertence à Amizade? — pergunto.
— Será que vocês conseguem calar a boca? — diz Tobias.
Sua voz é grossa e assustadora.
Barbara e eu olhamos para ele por um instante e depois nos encaramos.
— Desculpe se eu te chamei de irritadinho. — diz Barbara — Pelo visto isso é de Facção. Deve ser irritante ser altruísta o tempo todo.
— Barbara...
— Sabe do que vocês precisam? — diz Barbara, tagarelando sem parar — De pão da paz!
Não consigo segurar uma breve risada. Os membros da Amizade costumam ter um ótimo senso de humor. Devo ser uma vergonha para Tobias quando ele me vê soltando gargalhadas. Mas eu não ligo para o que ele pensa.
Barbara e eu conversamos até que finalmente começam a chegar outros adolescentes que irão fazer o teste de aptidão. Vejo o garoto da Erudição, Eric, que caçoou de mim no corredor. A sala se torna em um ambiente de cores de tantas Facções misturadas. Duas garotas da Amizade se aproximam de Barbara e se sentam ao seu lado. Ambas trajam as roupas amarelas, sendo uma delas loiras e outra morena.
— Onde esteve? — pergunta a loira.
— Aqui. — responde Barbara.
— Com ele? — pergunta a morena.
— Sim, Let. — responde Barbara.
— Barbara, seu amor por Caretas está crescendo demais! — diz a loira.
Barbara ri. Logo depois, uma mulher loira e vestida de azul entra em nossa sala com uma prancheta nas mãos, com os peitos estufados e uma postura rígida. Assim que ela entra, adolescentes da Erudição aplaudem-na de pé e ela sorri para todos. Barbara e suas amigas também aplaudem-na.
— Não sou fã dela. — sussura Barbara.
— Deveria. — sussuro de volta — Sua Facção é bastante únida com a Erudição.
— Você come páginas de livro no café da manhã? — pergunta Barbara.
Volto a minha postura em silêncio e com as bochechas quentes. Não quero pensar nessa hipótese. Seria totalmente estranho.
— Bom dia, a todos! — diz Jeanine Matthews, com um sorriso simpático e uma voz acolhedora.
Todos saudam Jeanine, exceto Tobias. Jeanine anda de um lado para o outro, com uma prancheta nas mãos e explicando o processo do teste de aptidão:
— ...para que vocês possam saber a qual lugar pertencer. O futuro de vocês, dependerá de suas escolhas. Mas pensem bem, uma escolha é um novo caminho a ser percorrido. Este caminho pode te levar ao sucesso ou ao fracasso. Mesmo que o resultado de vocês não deêm aptidão para Erudição, eu quero que pensem com sabedoria e prudência. Uma vez a escolha feita, nenhuma mudança será re-feita! Não é necessário se preparar para o teste de aptidão e também não é permitido revelar os resultados para ninguém, sendo ela sua familia ou não. A Erudição supervisionará os seus resultados de agora em diante...
Um arrepio me sobe pela espinha até a nuca. Não podemos nos preparar e nem revelar. Pela primeira vez eu sinto um pequeno medo de não pertencer a Abnegação, apesar de crescer e viver naturalmente. Sei que sou Abnegação, meu coração é altruísta e sempre foi.
— ...desejo a todos boa sorte! — finaliza ela.
Logo depois, Jeanine põe a prancheta em cima da mesa para que possamos assinar antes de sair e para que os nossos nomes estejam na lista do teste de aptidão. Depois de assinar o meu nome, Jeanine aperta a minha mão e me oferece um sorriso. Meu rosto esquentam e minhas mãos soam quando me aproximo dela. Sorrio de discreto e saio da sala o mais rapido possível.
Novamente, o corredor se torna um pandemônio de tanta bagunça e, novamente, Barbara surge ao meu lado.
— Ei! — diz ela.
— Barbara, só hoje, você já me fez infringir umas cinquenta regras da Abnegação. — digo.
— Pelo menos alguma coisa de bom, não é? — diz ela.
Paramos no meio do pátio da escola. Eu a encaro com uma expressão séria.
— Tá, legal. Desculpa! — diz ela — Eu só quero ser sua amiga, okay?
Aceno com a cabeça.
— Até semana que vem no teste de aptidão. — ela beija o meu rosto e se vai.
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