Do outro lado de Chicago

5 Teste de aptidão Parte II


— B a r b a r a

— George Wu, Barbara Wells, Beatriz Nery, Bianca Days e Adrian York. — chama o supervisor da Erudição.

Muito tempo se passou desde que Matt passou por esta porta. Estou curiosa para saber como irá ser esse teste, como será feito e qual será o meu resultado. Eu não tenho ideia de qual será, por isso me sinto um pouco nervosa.

Paro na penultima porta do corredor, alinhado com os outros. A minha porta se abre ao mesmo tempo das outras e eu entro na sala que é repleta de espelhos. Vidro, teto, parede... tudo é espelho.

Um homem de cabelos castanhos da Audácia está me encarando com um sorriso.

— Olá, Amizade. — diz ele.

A minha Facção tem legados que a Audácia contraria e muito. Mas eu não tenho nada contra eles, até acho eles bem geniais.

— Oi. — respondo.

— Sente-se, por favor. — diz ele.

Ando em direção a cadeira e me deito nela, encarando o meu refléxo no teto.

— Meu nome é Amah. — diz ele, colocando uns fios na minha testa e peito — Eu vou aplicar o seu teste de aptidão, okay?

Aceno com a cabeça.

— Você parece confiante. — diz ele.

— Obrigada. — respondo.

— Beba isto. — diz Amah.

Ele me entrega um pequeno copo com água. Viro o copo na boca e, então, percebo que não é água mas alguma coisa muito horrível. Deve ser um soro ou sei lá.

De repente, Amah já não está na minha sala. Acho que nem mesmo eu estou na mesma sala. Como vim parar aqui? Estou na mesma sala feita de espelhos mas... ela é bem maior. Muito maior. Eu consigo ver o meu refléxo nas paredes. Meus cabelos são pretos e cacheados, meus olhos azuis estão brilhando e minha roupa amarela da Amizade está um pouco suja.

— Escolha um objeto, por favor! — diz uma voz feminina.

Me viro e encontro 5 tabuleiros flutuantes. Cada um deles contém uma coisa: uma faca, uma bola, uma calculadora, um pedaço de carne e uma chave.

Me aproximo dos tabuleiros e encaro os objetos. Não tenho ideia de qual escolher.

— Para que eu tenho que escolher um objeto? — pergunto.

Eu devo estar louca. Falando com uma voz no meio de uma sala vazia é totalmente loucura.

— Apenas escolha. — responde a voz.

— Tudo bem. — digo, em voz baixa.

Começo a passar a mão por cada um dos objetos do tabuleiro. Estou prestes a pegar a chave quando de repente ouço um barulho e as minhas mãos rapidamente deslizam para o tabuleiro da faca. Coloco a faca em punho e olho para trás, esperando alguém mas não tem ninguém, apenas uma porta aberta. Eu não tinha reparado nela. Viro-me para frente e os tabuleiros flutuantes desapareceram.

— Definitivamente estou louca. — murmuro.

Ando com a faca em punho e alerta em direção a porta. Quando passo pela porta, me encontro em um lugar que parece ser uma galeria ou um refeitório. Está cheia de pessoas da Amizade. Um garoto da Amizade se aproxima de mim e diz:

— Por favor, não é permitido nenhum tipo de armas aqui.

Ele me mostra um tabuleiro como aquele que vi na outra sala.

— Ah, sim, desculpe! — digo.

Coloco a faca em cima do recipiente e ele vai embora.

— Pegamos ela! — grita alguém.

Olho para o lado e vejo uma garota sendo arrastada pelos cabelos para o meio da sala. Ela está gritando e chorando. O homem coloca a garota de joelhos e aponta a arma na cabeça dela.

— Ei, espera aí! — grito.

O homem da Audácia olha pra mim, todos olham para mim.

— Por que vai atirar nela? — pergunto.

— Ela tem uma arma. — responde ele.

— Não, impossivel! — digo — Ela é da Amizade, como pode ter uma arma?

— Como sabe que ela não tem uma arma? — pergunta o homem.

— Eu... — não tenho ideia do que dizer. Ela é apenas uma garotinha da Amizade, nenhuma de nós teria a coragem de carregar uma arma — ... me deixe revista-la.

O homem da Audácia me encara, por um instante, hesitante e desconfiado.

— Tudo bem. — diz ele.

Me abaixo na frente da menina e coloco as minhas mãos em seu ombro. O rosto dela está molhado e vermelho, de tanto chorar.

— Vai ficar tudo bem. — digo pra ela — Prometo. Você tem uma arma?

Ela levanta a camisa, revelando uma pistola em sua cintura e, então, me sinto contrariada. Me levanto, encarando-a e com a mente confusa. Não tenho mais ideia do que fazer. Alguém com certeza deu essa arma na mão dela. Isso é impossível!

— E então? — pergunta o homem da Audácia — Ela tem ou não tem?

Encaro-a por alguns segundos. Se eu disser que tenho, o homem vai mata-la e irá causar um desespero entre os membros da Amizade. Se eu disser que não, estarei mentindo mas manterei a paz aqui. Posso pelo menos pegar a arma depois que salvar ela.

— Não. — digo — Ela não tem uma arma.

— Você tem certeza? — pergunta o homem da Audácia, apontando a arma novamente para a cabeça da garota.

Hesito por um instante, com o coração na mão e com anseia de vômito. Isso não deve ser real! Como vim parar aqui?

— Tenho certeza. — digo, novamente — Ela não tem uma arma.

O homem da Audácia abre um sorriso no canto da boca e diz:

— Você está mentindo.

Ele puxa o gatilho e eu avanço pra cima dele.

De repente, percebo que estou de volta a sala do teste, com Amah segurando os meus braços.

— Ei, tudo bem? — pergunta ele.

Aceno com a cabeça.

Passo a mão pelos meus cabelos para arrumar, enquanto Amah mexe em seu computador.

— Qual foi o resultado? — pergunto, curiosa.

Amah me lança um olhar curioso. Ele está com um sorriso no canto da boca. Seu sorriso é branco e bonito.

— Amizade. — responde ele.

Suspiro de alivio quando ouço essa palavra. Isso é tudo o que eu precisava para ter uma conciência limpa, calma...

— E Audácia. — diz Amah.

Rapidamente lanço um olhar a Amah e o encaro de cima a baixo. Acho que é meio impossivel alcançar dois resultados. Começo a me sentir um pouco frustada e assustada com o meu resultado.

— Como eu consegui o resultado para a Audácia? — pergunto.

— Sua percepção para perigo foi uma delas. — diz Amah — Sabe, Divergentes são bem raro e... alguém que alcança dois resultados no teste de aptidão é mais raro ainda.

— Divergente?! — digo, começando a ficar mais assustada — Está me dizendo que sou um daqueles rebeldes que o governo repreende?

— Sim e não. — diz Amah, se levantando da cadeira e andando de braços cruzados pela sala, me encarando — Você é um tipo de pessoa que não consegue se encaixar no nosso sistema.

— O quê eu vou fazer, então? — pergunto.

— Primeiro, você não irá contar a sua Divergência para ninguém. — diz Amah — Segundo, terá que pensar bastante na sua escolha para ser quem uma coisa só.

De repente, me lembro das palavras de Johanna: "Quero que faça a escolha que vá te fazer feliz [...] você é especial [...] você pode ser muito mais e sei que será [...]"

— Audácia. — digo.

— O quê?! — diz Amah — Tá falando sério, Amizade?

— Não me julgue pela minha Facção de origem. — digo — Sei que posso ser muito mais do que eu sou.

— Então, eu colocarei manualmente que o seu resultado foi Audácia, tudo bem? — diz Amah.

— Tudo bem. — digo.

Estou louca pra sair da sala. Quase passo pela porta, nervosa, quando Amah me chama novamente.

— Ei!

Me viro e o encaro nos olhos.

— Lembre-se: não conte a ninguém sobre a sua divergência.

— Por quê? — pergunto.

— Digamos que isso pode te matar. E bem feio. — diz Amah.

Meu coração acelera. Passo pela porta com passos rápidos e apressados.

Eu sou Divergente.

Meu Deus! Eu vou ser morta