— M a t t e u s

Minhas roupas cinzas da Abnegação estão cheirando a melancias doces e a margaridas. Tipicos cheiros de quem vive na Amizade. Como a Barbara. Nunca tive uma amiga como a Barbara. Na verdade, eu nunca tive uma amiga ou amigo. A Abnegação é tão rígida com suas regras, que eu me impossibilito de fazer amizades. Somos apenas meus pais e eu.

Estou sentado em cima de uma ponte, perto do pântano. Ninguém vem aqui. É uma área abandonada da cidade mas que é bastante usada pelos membros da Audácia, quando eles fazem jogos; eu observei isso.

O vento está um pouco forte e o céu dá um sinal de que vai chover. Além da cerca, consigo ver as nuvens escuras se aproximando. A cerca. Sempre terei a curiosidade de saber o que há por de trás da cerca e além dos polmares da Amizade. Nossos fundadores dizem que é para nos proteger; mas proteger contra o quê? Dizem que houve uma guerra terrível lá fora e que todo o resto do mundo ficou destruído.

Provavelmente, derrubarão estes muros quando esta cidade for grande demais para abrigar somente a gente.

— Matt? — ouço a voz da Barbara.

Olho para o lado e a vejo com os seus lindos olhos azuis, cabelos pretos e cacheados, roupas amarelas da Amizade e um sorriso sem jeito.

Ela se senta ao meu lado e me encara.

— Tudo bem com você? — pergunta ela — Parece pertubado.

— Não! — digo, rapidamente tentando disfarçar — Eu estou bem. Só estava... pensando.

— Em quê? — pergunta ela — No seu teste?

Respiro fundo e inspiro.

— Qual foi o resultado? — pergunta ela.

— Nós... não podemos dizer o nosso resultado para ninguém. — digo.

— Eu sei! — diz ela, colocando a sua mão sobre a minha e fazendo com que o meu rosto se esquente — Mas você não vai acreditar no meu resultado.

— Barbara...

— Audácia. — diz Barbara.

— Audácia?! — digo — Como você...?

— Eu não sei! — diz ela — É incrivel, não é? Qual foi o seu resultado? Pode confiar em mim, eu prometo!

A principio, penso em dizer a ela que o meu resultado foi inconclusivo e que revelou a minha divergência, mas Cara quase me entregou para um supervisor, não posso confiar em ninguém.

Eu já havia ouvido falar de Divergentes. Seres entre nós com uma capacidade duplamente maior. Eles não podem ter um controle nesta cidade e são considerados uma ameaça para a paz.

Eu sou uma ameaça.

— Audácia... — digo, pensativo.

— O quê?! — diz Barbara — Seu resultado também foi Audácia? Matt, você tem noção do que é isso? Nós seremos de mesma Facção e...

— Não, Barbara! — digo.

— ...poderemos treinar juntos, fazer coisas loucas, saltar de trem.

— Barbara...

— Eu sempre quis roubar sorvete na Franqueza, sabe. — diz Barbara — E descer de tirolesa... é um dos meus maiores sonhos. Vamos viver isso tudo juntos, não é?

Pensar em uma vida desta com Barbara, deve ser realmente encantador e um sonho.

— Quem diria... — diz Barbara — ...um careta conseguir o resultado de Audácia no teste.

— É...

— Você vai ir pra Audácia comigo, não vai? — pergunta Barbara.

Seu nariz agora está encostando no meu. Consigo sentir o seu respirar. Minhas bochechas estão muito quentes, agora. Tão quentes que devem estar da cor de uma beterraba. Por que ela faz isso comigo?

— Eu...

— Promete? — pergunta ela, insistente — Promete que vai ir para a Audácia comigo?

Respiro fundo.

— Prometo. — digo.