— M a t t e u s

A vida na Abnegação é calma. Talvez, calma até demais; pelo menos para mim. Somos representados pelo altruísmo em nossos atos e cinza em nossas roupas. Achamos que a vaidade não convém em nossas 'leis' e, então, usamos um tipo de vestimenta e visual padrão.

Estou na mesa, na presença de meus pais e de nossa refeição da tarde. Estamos no preparando para o enterro de uma mulher bem influente na Abnegação. Ou melhor, era.

Fazemos a refeição em silêncio e logo depois terminamos, ainda em silêncio. Hoje é o dia em que meu pai lava a louça e, enquanto isso, subo as escadas para escovar os meus dentes.

Escovo os meus dentes enquanto encaro um pequeno ármario que é trancado por senha para guardar algo que nós não damos muito valor. Um espelho. A aparência de alguém pode muito dizer quem nós somos e talvez seja por isso que a Abnegação evita a vaidade. Eu li isso em um livro da minha escola.

Depois de alguns minutos, meus pais e eu saímos pela rua da Abnegação. Andamos de cabeça abaixadas e apenas acenamos com a cabeça e com um sorriso discreto para os nossos iguais. Quando chegamos ao importante setor da Abnegação — que é como uma igreja —, encontro um caixão preto tampado e com algumas pessoas em sua volta, lamentando.

A mulher que está sendo homenageada hoje, se chama Evelyn Eaton. Ao lado do caixão, está o seu marido Marcus e o seu filho Tobias. Marcus é o líder da Abnegação e do governo. Como somos altruísta, conseguimos o direito de ter um líder acima do governo.

Consolando Marcus, vejo o assistente de Marcus. Andrew Prior.

Corro os meus olhos pela igreja, a procura da também influente família Prior e logo encontro-os em um canto bem discreto do lugar. Natalie Prior, esposa de Andrew Prior, está segurando a mão de sua filha Beatrice e de seu filho Caleb. Todos de cabeleira louros.

Eu diria que Beatrice é quase tão frágil quanto uma pétola de rosas.

De repente, olho para trás e vejo alguns membros da Amizade entrando no recinto.

Se entendo bem, a Amizade e a Abnegação são criados como uma grande força e aliança. Seus legados são praticamente unidos e igualados, como irmãos. É por isso que estão aqui, para homenagear a uma membra de nossa Facção que se vai.

Meus olhos caem sobre uma garota de cabelos pretos e cacheados, seus olhos são azuis e sua aparência é doce e adoravel. Ela está de mãos dadas com um homem que aparenta ser seu pai. O grupo de membros da Amizade se encostam em um canto e abaixam a cabeça, para compartilhar o seu luto com a Abnegação.

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— B a r b a r a

Me levanto bem cedo na manhã seguinte. A luz do sol já está invadindo o meu quarto. Ou melhor, nossos quartos.

— Leticía! — digo, enquanto pego rapidamente as minhas roupas e uma toalha — Leticía, acorda!

Ela parece não me ouvir. Ando até um canto do quarto, com os pés descalços e a madeira do piso rangendo; pego um balde de água que há ali e derramo em cima de Sarah.

— BARBARA! — grita ela, enquanto dou risadas.

Leticía senta na beirada da cama e se engasga.

— Ai, amiga, desculpa! — digo, dando tapinhas nas costas dela.

— Você é louca? — pergunta ela, ofegante.

Desvio o olhar e abro um sorriso.

— Um pouco. — rimos.

— Que horas são? — pergunta ela.

Olho para o relógio pendurado na parede, em cima da porta.

— 6h45.

— Meu Deus! — diz ela — Menina, estamos atrasadas!

— Eu sei! — digo.

Ela segura o meu braço e me arrasta pelo quarto. Saimos no corredor e começamos a correr em direção aos banheiros femininos da Amizade. Entramos em box's diferentes e ligamos os nossos chuveiros. Me lavo rapidamente porque os chuveiros da Amizade só duram 5 cinco minutos a cada 30 minutos.

É uma forma ecológica que nós temos de economizar água e poupar para a Terra.

Nossa, pensei como alguém da Erudição.

— Ah, não! — grita Leticía.

— O quê foi agora? — pergunto.

— Eu esqueci as minhas toalhas e as minhas roupas. — diz ela.

Me seco rapidamente com a minha toalha, visto minhas roupas amarelas da Amizade e jogo a toalha por cima do box de Leticia.

— Pode usar a minha toalha! — digo — Vou pegar as suas roupas.

Corro pelo corredor e logo trombo de frente com a porta-voz da Amizade. Johanna Reyes.

— Desculpas! — digo, assustada.

— Onde você estava? — pergunta ela, sua voz é doce e calma como o sopro de um vento — O cargueiro já está cheio, só estamos esperando vocês.

— Aguenta só mais dois minutos, eu e a Let já estamos indo! — digo.

— Tudo bem, querida.

Corro pelo corredor e entro em meu quarto. Pego algumas peças de roupas vermelhas e volto correndo para o banheiro.

— Segura! — grito e jogo a roupa por cima do box.

Consigo ouvir o farfalhar de roupa que a Let faz ao se vestir apressada. Ela sai do box com um vestido vermelho enquanto eu visto amarelo.

Andamos com passos apressados pelo gramado e em direção à caminhonete que está cheia de suprimentos para a cidade. Há várias caminhonetes próximas ao portão da cidade.

— Nossa, vocês demoraram! — diz Alice, uma menina de cabelos loiros e olhos castanhos.

— Fica quieta! — digo.

— Barbara! — diz Let, me sensurando.

Subimos na caminhonete e logo todas elas dão a partida para fora dos polmares da Amizade. Passamos pelos portões, onde dois guardas da Audácia estão em prose.

Por incrivel que pareça, eu já tive várias noites com sonhos bem loucos. Sonhos do tipo que eu me vestia de preto e pulava do trem, como os membros da Audácia costuma fazer. Isso me causa um pouco de borboletas no estômago já que nunca pensei sobre o que eu realmente sou ou serei.

O teste de aptidão é somente na próxima semana, junto com o dia da escolha. Não me sinto nervosa, porque eu sei que pertencerei à Amizade. Nasci na Amizade. Eu sou Amizade.

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— B a r b a r a

A caminhonete para em frente ao grande depósito da cidade, onde serão distribuido os suprimentos e alimentos para cada Facção. Let e Alice não pararam de rir a viagem inteira, enquanto eu estava viajando em meus pensamentos.

— Oh, viajante! — diz Let — Vamos voltar para a Terra?

— Foi mal. — digo.

Descemos da caminhonete e descarregamos os suprimentos. Prendo os meus cabelos pretos em um coque para não me atrapalhar. Pego um grande saco com arroz e carrego nas mãos.

— Como estas coisas conseguem ser tão pesadas? — pergunta Let.

— Eu não vejo problema algum. — digo.

Rapidamente, vejo as cores amarela e vermelhas se misturarem com cinza. Alguns membros não oficiais da Abnegação também são enviados para cá para nos ajudarem no descarrego. Alguns chamam eles de Caretas, mas eu até que gosto deles. São fofos.

Deixo o grande saco de arroz em cima de uma grande mesa e ando de volta para a caminhonete. Ando destraida quando um vejo um grande saco cair no chão e se rasgar.

— Ei! — digo — Demos duro com isso aí, tente ser mais um pouco...

— Me desculpe! — diz o garoto que derrubou o saco.

Ele tem cabelos pretos e curtos, como de costume da Abnegação, seus olhos são castanhos e seu rosto é um pouco pálido. Sua estatura é um pouco baixa para um menino, praticamente do meu tamanho.

— Tudo bem, careta! — digo.

Ele me olha com uma cara de cansado e desce da caminhonete.

— É bem chato quando me chamam assim. — diz ele.

— Eu não tenho nada contra. — digo.

Ele levanta o rosto e me encara.

— Meu nome é Matteus. — diz ele.

— Barbara. — digo.

Ele abre um sorriso e uma covinha é exposta em sua bochecha direita.

— Ei! — digo ríspidamente — Guarda isso! Sabe que a Abnegação não é muito fã de risadas.

— Me desculpe. — diz ele, rapidamente se sensurando.

Como eu disse, caretas são fofos.

Eu e o Matteus descarregamos os alimentos juntos e logo depois nos despidimos com acenos de sorrisos timidos. Sinto que já tinha visto ele em algum lugar, mas não me lembro onde. Eu estive no enterro de uma membra da Abnegação ontem, talvez tenha sido lá. Ou talvez não.

Mas algo estranho aconteceu hoje.