Do outro lado de Chicago
4 O teste de aptidão
— M a t t e u s
— Grande dia! — diz meu pai.
— Nem tanto. — digo.
Me sento a mesa, junto com os meus pais. Pego uma maçã e a mordo. A mesa está silenciosa a ponto do barulho da maçã ser mastigada em minha boca ecoar pela cozinha.
— Está nervoso? — pergunta minha mãe.
Acho que toda mãe pergunta isso ao filho ou filha antes de seu teste de aptidão. Só uma forma de preocupação e de avaliação, é a lógica. Não sei porque mas me sinto animado, porém enjoado. Sempre que há eventos, o meu nervosismo se torna em enjoou e, então, é melhor eu não comer muito.
— Só acho uma coisa injusta. — digo.
— O quê é? — pergunta a minha mãe.
— Depois do teste de aptidão, temos menos de vinte e quatro horas para pensar em nossa decisão. — digo.
Minha mãe aperta as sobrancelhas e reprimi um pequeno sorriso. Meu pai ergue uma das sobrancelhas e me encara.
— O teste irá dizer a qual Facção você deve pertencer. — diz meu pai — Não há nada em que você tem que pensar, exceto um preparamento.
— Boa avaliação. — digo, mastigando outra vez a maçã.
Meu pai lança um tipo de olhar significativo para a minha mãe e ela faz o mesmo. Não entendo os seus olhares presunçosos mas acabo deixando pra lá e focando a minha mente no teste de aptidão. O teste irá testar algo de mim e, como é um teste psicológico, eu tenho que ser racional. Estou preparado!
Acho que infrigi outra regra. Jeanine disse na palestra, semana passada, que não é necessário nenhum preparamento para o teste. Também não é permitido eu dizer o meu resultado para ninguém.
— Que Deus esteja contigo, filho. — diz meu pai, beijando a minha testa.
— Nós te amamos. — diz minha mãe.
— Até mais! — digo.
Ando em passos longos e rápidos pela calçada do setor da Abnegação. Dou uma última olhada para trás e ainda vejo os meus pais me observando e, bem atrás de mim, está o mau humorado Tobias Eaton. Acho que a morte da mãe dele realmente o afetou. Ele não é mais um garoto altruísta.
Viro o meu rosto para frente e foco em meu caminho e no teste. De repente, me lembro de uma pessoa que provavelmente verei hoje e que faz o meu coração acelerar involuntáriamente: Barbara.
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— B a r b a r a
Meus pés se chocam com o chão de concreto, enquanto Let, Alice e eu damos risadas.
— Gente, agora é sério. — digo — Vamos parar de rir. Esse teste de aptidão deve ser assustador.
Nós todas nos encaramos por alguns segundos e depois voltamos a rir.
— Pera aí, gente! — digo, tentando parar de rir.
Nossas risadas aumentam cada vez mais e não conseguimos parar.
— CHEGA! — grito — O que deu na gente hoje? Estamos mais retardadas do que o normal.
— Culpe a Johanna por colocar tanta paz no pão. — diz Alice.
— O quê?! — digo.
Rimos mais um pouco, durante o caminho até a escola da cidade para nos preparar para o teste de aptidão quando o vejo:
— Matt! — grito.
Ele para no mesmo instante quando percebe que foi eu quem o chamou. Ele encolhe os ombros e olha para os lados, como se tivesse alguém vigiando ele. Ele se aproxima de mim com passos rápidos e longos — e com o rosto corado de vermelho também.
— Matt?! — digo — Barbara, qual é o seu problema? Quer que eu seja resunerado da Abnegação antes da minha escolha? Matt não é um nome para Abnegação e Matt não é o meu nome!
— Nós... vamos deixar vocês a sós. — diz Let, empurrando a Alice.
— Mas eu quero ver. — diz Alice, sendo arrastada por uma Let.
Observo elas enquanto Let e Alice somem através das portas de vidro da escola e depois volto a minha atenção para o Matt. Ops! Quero dizer, Matteus.
— Por que você me trata assim? — pergunto.
— Não põe a culpa em mim. — diz Matt, fazendo gestos esquisitos e engraçados com os braços — Você que é... uma louca da Amizade envergonhando um pobre careta da Abnegação.
— "Pobre careta"?! — digo, segurando grandes litros de risadas — Por favor, não diga isso nunca mais.
— Que seja. — diz Matt, envergonhado.
— Depois do teste de aptidão, você me encontra? — pergunto.
Matt me encara com um olhar sério que dá até medo. Ele parece estar me analisando, como se fosse um computador ou sei lá.
— Onde quer que eu te encontre? — pergunta ele.
— Não sei. — digo — Tem que ser um lugar onde não possam te ver, Careta.
— No leste. — responde ele.
— Leste? — pergunto.
— Você nunca estudou geografia? — pergunta ele, apontando para alguma direção atrás de mim. Me viro e vejo uma grande roda gigante abandonada.
— Lá?! — digo — Sem necessidades!
— Não vamos entrar no pântano. — diz ele.
— Tudo bem, então. — respondo.
Matt espera que eu entre na escola antes dele para que ninguém desconfie e também o julgue. De todas as Facções, a Abnegação é a que mais recebe criticas e implicancias. Principalmente da Audácia e Franqueza.
Agora, as minhas crises de risos pararam porque eu estou prestes a saber o que eu vou ser. E isso não é bom.
Não é nada
bom.
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— M a t t e u s
Estou sentado a uma mesa do refeitório separada para membros da Abnegação. Tobias está em um canto distante. A mesa da Amizade está bem atrás de mim e eu quero evitar de olhar para lá. Na frente do meu campo de visão, está a mesa da Audácia. Abaixo a cabeça e concentro a minha visão em minhas mãos que estão um pouco trêmulas e soadas.
Uma vez, eu li em algum livro que o ser-humano é feito de vários tipos de hormônios. E para cada hormônios, existe uma técnica para reprimi-la. O hormônio que nos faz se sentir inseguros e nervoso, por exemplo. É só eu limpar a minha mente, fechar os meus olhos, respirar fundo e inspirar pela boca. Vou fazendo o processo enquanto nomes em ordem alfabeticas — em sequência decrescente — são chamados. Cinco por Cinco.
— Yaya Krystal, Tobias Eaton, Tay Grope, Samara Hübner e Ricky Wylde. — chama o supervisor, parado na porta que dá para o corredor das salas do teste.
Avalio cada um dos candidatos que se levantam da mesa de sua atual Facção.
Yaya, Erudição; Tobias, Abnegação; Thea, Franqueza; Samara, Erudição; Ricky, Abnegação.
Eu nunca tinha visto ele ou notado pelo setor da Abnegação. Esta é a primeira vez. Talvez ele realmente seja um membro da Abnegação que é fiel as regras. Já eu... nem tanto. Não sei se o teste vai dizer que eu tenho que ficar na Abnegação, porque eu não sei se vou conseguir viver uma vida inteira na Abnegação.
Os minutos se passam. Parece que eles estão se arrastanto com uma velocidade muito lenta.
Olho para a mesa da Audácia, que está uma bagunça. Com bastante zoeira e risadas. Assim também não é diferente da Amizade, que os membros sentam em cima da mesa. Na mesa da Erudição, eles estão conversando como se estivessem discutindo em uma reunião séria. A Franqueza uma hora começam a conversar, outrora voltam. De todas as mesas, a minha é a mais silenciosa. Onde as cabeças estão abaixadas e em silêncio.
Finalmente, o supervisor da Erudição volta para chamar mais cinco de nós. O refeitório faz silêncio.
— Matteus Connor, Lari Fry, Larah Cost, Leticía Rogers, Katherine Rivers.
Sou eu.
Dessa vez, minhas mãos realmente começam a soar de verdade. Não olho para o lado, não quero ver o modo que Barbara está me olhando e o modo que ela deve estar pensando que eu devo ser algum tipo de idiota. Passo pelo supervisor e atravesso a porta. Ando em direção a última das cinco portas do corredor. Paro em frente a ela, até que ela se abre ao mesmo tempo que as outras.
Entro na sala, repleta de espelhos de vidro. O espelho mostra o meu refléxo pálido e assustado. Meus cabelos pretos e meus olhos castanhos assustados. Minha respiração está acelerada e aumenta mais ainda quando ouço uma voz:
— Olá.
Viro o meu rosto e vejo uma moça jovem da Erudição e de cabelos loiros.
— Meu nome é Cara. — diz ela — Eu irie aplicar o seu teste de aptidão. Por favor.
Diz ela, me apresentando uma cadeira reclinada. Olho para o meu refléxo mais uma vez e caminho lentamente em direção a cadeira.
— A Abnegação não evita olhar os seus refléxos? — pergunta ela, apertando as sobrancelhas e fazendo com que apareça uma ruga em sua testa.
— Sim. — respondo — Mas é meio dificil de evitar quando a sala é toda feita de espelhos, certo?
Cara mexe em alguns fios de seu computador e os cola em minha testa e um em meu peito.
— Os espelhos servem para auxíliar em alguma coisa do teste, não é? — pergunto.
— Bem observado. — responde ela, se sentando em seu computador portátil e digitar — Para alguém da Abnegação, você é bem racional e curioso.
— Se eu fosse abençoado a cada vez que ouço "para alguém da Abnegação" eu seria a pessoa mais próspera desta Terra. — digo.
Cara me encara com os olhos semicerrados. É como alguém da Erudição avalia o outro.
— Vamos começar. — diz Cara.
Ela me entrega um copo de vidro contendo um líquido transparente. Sei que não é água. E eu estou assustado com o que pode ser. Mas ela não poderia me matar envenenado... ou poderia?
Hesitando, tomo o líquido em alguns segundos. O gosto é horrível. Parece algum tipo de remédio que me faz ficar tonto e ofuscar a minha visão. Quando minha visão volta ao normal, eu não vejo mais Cara ao meu lado.
Eu não vejo nada.
Somente eu estou parado no meio de uma sala extênsa... muito... muito extênsa. As laterais são feita de espelhos. É como se fosse um cubo. E, quando eu olho para o lado, vejo cinco recipientes flutuando. Cada um deles contendo um objeto. Uma faca, um pedaço de carne, uma bola, uma calculadora e o outro uma chave.
Eu não faço ideia de onde estou. Se tivesse uma porta aqui, eu até pegaria a chave mas não tem. Deve ser uma sala de simulação, eu já li sobre elas. Se é uma sala de simulação, é melhor eu me preparar.
Ando em direção ao primeiro recipiente e pego a faca. Ponho ela em punho e me preparo para o que pode vir.
Nada acontece.
Baixo a guarda quando de repente, uma porta se abre no meio do nada. Corro em direção a ela, guardando a faca em meu bolso de ponta pra cima para que eu não corra o risco de perde-la.
Quando atravesso a porta, percebo que entrei uma sala totalmente bagunceira, lotada de pessoas da Amizade. Barulho, muitas pessoas e muito movimentos me fazem ter algum tipo de abstinência. Vejo uma porta em um canto da sala.
Corro até ela quando um membro da Amizade impede a minha passagem.
— Você tem uma arma?
Penso em entregar a ele a minha faca, quando de repente vejo um guarda da Audácia. A Amizade repreende o uso de armas e se eu disser que tenho, isso poderia me causar problemas.
— Não!
— Você tem uma arma, sim! — insiste o garoto da Amizade.
— Não, eu não tenho!
De repente, ouço barulhos de tiros, muito tiros e um grito agudo pertubador.
— Conseguimos! — grita o guarda da Audácia — Ela tem uma arma!
O guarda da Audácia segura uma menina pelos cabelos. A menina luta demonstrando dor no rosto e nos olhos. Ela chora e grita muito. O guarda ajoelha ela e permanece atrás dela, com a arma apontada para a cabeça dela.
Ele, sem hesitar, aperta o gatilho. Mas eu sou mais rápido. Empurro o corpo da menina contra o chão e a protejo do disparo.
— Por favor! — digo — Não a mate.
— Mas ela tem uma arma!
— Não, por favor! — digo — Mate-me no lugar dela. Olha, eu tenho uma arma.
Digo, mostrando a faca. O guarda da Audácia me encara. Ele ordena que eu me ajoelhe e aponta a arma para a minha testa.
Como isso foi acontecer?
Começo a pensar em que os meus pais diriam quando eu percebo uma coisa:
— Esta pistola... — digo —... foi produzida pela Audácia. Ela contém a capacidade de nove balas. Eu ouvi nove tiros e nenhuma vez você recarregou-a.
O guarda da Audácia me encara. Ele abaixa a arma lentamente e com um sorriso no canto da boca, diz:
— Bem observado, garoto.
O seu punho voa em direção ao meu rosto e de repente me levanto... na sala do teste de aptidão. Cara está me encarando com um olhar assustado e apreensivo. Estou sentado na cadeira, com suor nos peitos e na clavicula.
— O quê foi? — pergunto.
Ela se levanta, sem parar de me encarar. O seu olhar começa a me assustar.
— O quê você fez? — pergunta ela.
— Eu fiz o que eu deveria ter feito! — digo — Agi com...
— Não me referia ao teste! — diz Cara.
— Do quê é que você está falando? — pergunto.
— No começo, estava tudo bem. — diz Cara — Você tinha alcançado o resultado para Audácia mas depois...
— Audácia?! — digo.
Cara faz silêncio, encarando o computador.
— Eu tenho que chamar um supervisor. — diz ela — Não tenho ideia do que fazer!
— Não, espera aí! — digo, saltando da cadeira e segurando o braço dela.
— Eu preciso saber o que está acontecendo. — digo.
— Os seus resultados. — diz Cara.
— Qual foi o resultado? — pergunto.
Cara respira fundo e olha pra mim.
— Erudição e Audácia. — diz ela.
Meu coração começa a bater rápido e, então, um desespero me invade.
— Acredito que você teria conseguido o resultado de Abnegação também, pelo ato de altruísmo pela garota. — diz Cara — Mas o sistema já não permite dois resultados... três, é impossível!
— Cara...
— Preciso chamar o supervisor, você deve ser algum tipo de...
— Cara, por favor! — digo, em alta voz — Eu não sei o que está acontecendo mas algo me diz que não vai ser nada bom você chamar o supervisor.
Cara faz silêncio e me encara, novamente me avaliando.
— Saia daqui. — diz ela.
— Cara...
— É sério, sai daqui! — diz Cara — Vou colocar manualmente que o seu resultado foi Erudição.
— Espera aí! — digo — E se eu quiser ir para a Audácia?
— Você não vai. — diz Cara.
Ela anda com passos determinados até o computador. Se senta e começa a digitar.
— Por que eu não...
— A Audácia treina os seus iniciantes a base de soros de simulação, como este. — diz ela. Ela gira a cadeira e me encara — Vão descobrir o que você é facilmente.
— E... o que eu sou? — pergunto.
Cara me encara, com uma expressão séria e integra.
— Você é um Divergente. — responde ela.
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