Do outro lado da lua
1 Capítulo 1
Notas iniciais
As árvores passavam borradas pela janela do táxi. Quanto mais Valia se aproximava mais a saudade se fazia presente. Engraçado, não me lembrava dela estar ali nos últimos anos. Voltar para minha casa, para perto da minha avó, a ultima pessoa da minha família, estava me deixando ansiosa.
O carro parou de repente, fui pega de surpresa e tive que me segurar no banco do motorista para meu corpo não ser lançado para frente.
– só vou até aqui – disse o motorista um pouco apreensivo.
Tirei os fones de ouvido para ter certeza do que ouvi.
– como é? O combinado foi me levar até o sitio da minha avó. – o lembrei só para o caso de ter esquecido.
O motorista se remexeu no banco do carro e me lançou um olhar reprovador. Tive a impressão de ele estar suando frio e nervoso de mais.
– não, o combinado foi te trazer até Valia e estamos aqui. – apertei os olhos e cruzei meus braços. O motorista nem se abalou com meu olhar raivoso – Sai do meu carro agora!
Ele atirou minhas malas do carro e me expulsou gentilmente. Eu tentei conversar, mas o homem estava tão tenso que nem escutava o que eu falava.
– Eu, não vou ficar aqui. Eu paguei você adiantando! – gritei. Que motorista doido.
Ele entrou no carro com seu corpo gordinho e abriu uma pequena brecha na janela.
– Só te trouxe até aqui porque precisava do dinheiro. Não tem mais nada ai, virou uma cidade fantasma. Você parece ser uma boa menina então vou te dar um aviso. Cuidado – ele fechou a janela do carro e saiu o mais rápido que pode cantando pneu.
Fiquei parada e confusa em quanto o taxi sumia na curva da estrada. Cidade fantasma? Valia é a menor cidade da região, mas estava sempre movimentada por causa do seu rico artesanato.
Peguei minhas duas malas pesadas e atravessei a ponte de madeira. O portão de ferro estava tombado, tive que passar por baixo dele. Quando meus olhos registraram o cenário atual de Valia, me recusei a acreditar. Não era possível, não podia ser verdade. O lugar movimentado cheio de cavalos misturados com pessoas e muito feno, agora estava completamente destruído, as casas caiam aos pedaços e as aranhas tomavam conta do resto.
Levei a mão na boca para reprimir um grito, devia ter alguém escondido por ai, aquilo não estava acontecendo. Corri por cada casa da cidade que ainda se mantinha em pé e não havia ninguém, o motorista estava certo. Valia era uma cidade fantasma.
Peguei minhas malas e corri para a casa da minha avó, talvez os sítios e fazendas pelos caminhos não tivesse acontecido nada, talvez fosse só na cidade. Mas minha esperança estava se esvaindo conforme os sítios e fazendas estavam na mesma situação da cidade.
Corri por horas com a noite me perseguindo. Segurei uma lagrima persistente, chorar não é a solução. Minha avó deve estar me esperando, ela nunca iria sair de casa sem me avisar antes. Minhas pernas latejam e meus pulmões ardiam quando cheguei ao sitio. Ele estava igualmente aos outros, o mato tomou conta de tudo e apenas metade do andar de cima da casa se mantinha firme.
Respirei fundo e soltei a respiração com um barulho desnecessário. Levei meus pés inchados e com calos até a porta da frente, minhas mãos trêmulas agarraram a maçaneta. Estava trancada. Dei a volta para tentar a porta dos fundos, mas havia uma janela quebrada o suficiente para eu passar. Com dificuldade entrei na casa.
Fiquei tão distraída com o abandono da minha casa que quase não percebi a uma coisa pontiaguda e gelada contra a pele do meu pescoço.
– quem é você? – perguntou uma voz grosseira. Eu conhecia aquela voz, estava diferente por que já fazia oito anos que não a ouvia.
Virei-me de vagar, torcendo para que ele me reconhecesse também. Quando seus olhos verdes claros encontraram com os meus, ele abaixou a lança e me encarou. As lagrimas que eu segurei durante toda a tarde escorreram sem que eu conseguisse controlar. Encontrei-me envolvida nos seus braços fortes que retribuíram o abraço. Quando me controlei, ele me soltou lentamente.
– Luz, o que faz aqui? Não deveria estar na França?- perguntou intrigado e surpreso ao mesmo tempo.
– Deveria, mas eu voltei – respondi me recompondo.
O silêncio tomou conta entre nós. Eu ia perguntar o que estava acontecendo quando Guilherme se adiantou.
– Vamos sair daqui, Valia não é mais segura à noite.
Ele me ajudou a sair e quase corremos no meio dos matos. Ele não disse uma palavra enquanto andávamos, ele apenas me olhava de vez em quando, estranho para um garoto que não parava de falar nem por um segundo. A casa de Guilherme na verdade era o antigo armazém de Peter, que não fica muito longe do sitio. Dava para senti r o cheiro de café de longe. Guilherme bateu a porta na parede fazendo a conversa lá dentro parar. Lá estavam Peter e Alex, pai de Guilherme.
Ele levou minhas malas para dentro cercado de olhares curiosos.
– Luz, que surpresa! – Alexandre me levantou do chão com eu abraço de urso.
Peter apenas me cumprimentou com a cabeça e um olhar cheio de interrogações.
– Guilherme, quando te mandei caçar, não era para você trazer uma garota, nós não somos canibais – gritou de algum lugar Diogo, irmão de Guilherme e contador de piadas sem graça.
– Também é bom te ver. Depois de tanto tempo... – olhei as unhas como se não estivesse interessada.
Ele apareceu na luz fraca, ficou olhando algum tempo um sorriso apareceu em seus lábios, ele correu e me rodopiou pelo ar.
– Eu não acredito que Luz Albuquerque tenha voltado para nós. – ele me colocou no chão, foi difícil as coisas pararem de rodar- não, espera, eu acredito sim, sou uma imã, até para meninas que deveriam estar na França. O que você está fazendo aqui? – ainda estava um pouco sonsa, Peter trouxe uma cadeira muito bem vinda para mim. Todos os três estavam esperando minha resposta.
– Eu estava em um colégio interno, meus estudos acabaram e eu não tinha mais motivo para continuar lá, então eu voltei para casa — terminei minha longa explicação com uma xícara de café quentinha.
Eles começaram a fazer várias perguntas sem sentindo sobre a França respondi pacientemente cada uma delas, esperando para ver até onde eles iam. Bati a xícara de café na mesa fazendo um barulho menor do que eu esperava.
– O que está acontecendo aqui? – fui direto ao ponto. Falatório sem necessidade nunca foi meu forte.
Eles se entreolharam e hesitaram. Não queriam falar sobre o assunto, o ar ficou de repente tão pesado que quase dava para segurar com as mãos o clima estranho.
– Muita coisa aconteceu desde que você partiu Luz, é uma longa história – Alex deu ênfase no longa.
– O que aconteceu com minha avó?
Novamente eles hesitaram. Essa eu não vou deixar escapar, eu tinha que saber.
– Ela sumiu – disse Diogo, simples e grosso.
– Como assim ela sumiu? — agarrei a mesa com tanta força que as pontas dos meus dedos estavam ficando brancas.
Guilherme segurou meu ombro, ele e Diogo ficaram brigando com os olhos.
– Ficamos de guarda todos os dias na porta, tentamos até mesmo trazer ela para cá, mas você sabe como ela é. Em uma manhã não conseguimos encontrá-la procuramos por meses e nenhum rastro foi deixado, nenhum sinal de que ela tenha sido levada a força ou luta ou a porta arrombada, nada. Ela levou o chapéu, nunca sai sem ele então achamos que ela pode ter ido para algum lugar...
É verdade, ela nunca sai sem o chapéu, mesmo se tiver chovendo. Mas então ela foi para onde? Tem alguma coisa estranha nessa história, vovó é muito teimosa, não sairia daquela casa mesmo que ela caísse aos pedaços. Ela não teria saído sem me avisar, ainda mais sabendo que ela é a ultima pessoa da minha família.
– Luz — chamou Alex, me acordando do meu devaneio – você pode descansar no meu quarto, parece muito cansada.
Não rejeitei o convite, meus pés estavam enormes de inchados, eu precisava descansar.
Mesmo que eu não saiba o que tenha acontecido com ela, sei que ela é a pessoa mais forte que já conheci não se entregaria fácil. Ela está bem e eu vou encontrá-la.
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