Do outro lado da lua
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Acordei naquela manhã com o cheiro de café fresco, o sol como sempre, estava acordando. Prendi meu cabelo ruivo em um nó e segui aquele ótimo cheirinho até a mesa. Guilherme estava lá com duas xícaras de café.
Puxei a cadeira e me sentei um pouco surpresa.
– ainda se lembra dos meus hábitos matinais? — perguntei me espreguiçando.
Ele sorriu rodando a xícara nas mãos.
– não tem como esquecer de alguém que acorda junto com o sol. – disse coçando os olhos. – sobre ontem, eu queria explicar algumas coisas...
– não precisa. – o interrompi. – conheço minha avó, ela pode ser bem difícil quando quer.
– era meu dever cuidar dela. — disse levantando um pouco a voz, ele acabaria acordando os outros.
– e você cuidou. — afirmei.
– não foi o suficiente.
–você cuidou. Certo? – retomei a pergunta.
Ele concordou com a cabeça.
– Então não há com o que se desculpar. Vamos encontrá-la.
Ele tentou continuar falando, mas eu não deixei, fazendo o possível para mim já foi o suficiente. Desde muito pequeno Guilherme tem esse instinto protetor, ele se acha responsável por todos a sua volta, se sente culpado por qualquer coisa, mesmo se não for sua culpa. Às vezes ele pode ser tremendamente enjoado com sua proteção toda.
– vamos dar uma volta. – ele disse depois de longos minutos em total silêncio.
Era incrível andar na floresta com os animais acordando e o orvalho da manhã, o friozinho da terra úmida e o barulho dos galhos quebrados com os pés. Senti falta disso no tempo em que passei fora, quase me esqueci como era morar no interior sem carros, sem prédios, sem a pressa das cidades grandes. Seria muito melhor se fosse em outras circunstâncias.
– Guilherme o que aconteceu desde que parti? – quando o olhei, ele fitava meus olhos intensamente, do mesmo jeito que fazia quando éramos crianças, do jeito que me irritava.
Ele hesitou, colocou as mãos no bolso da calça e continuou andando, pensei que ele me esconderia a verdade quando começou a falar.
– como já dissemos, muita coisa aconteceu. Éramos muito pequenos naquela noite em que seu pai te tirou da cidade, não me lembro como ou porque aquela confusão aconteceu apenas me lembro de gente correndo e fogo. Depois daquele dia os ataques a cidade só pioraram, muitas pessoas sumiram. O prefeito mandou que todos saíssem e procurassem abrigo além dos portões e apenas um grupo ficou para procurar os que sumiram e acabar com as feras para que todos pudessem voltar para casa... A verdade é que nunca encontramos ninguém que sumiu e nem protegemos quem ficou. – terminou a última frase com a voz baixa e se culpando novamente.
– você não está contando tudo. O que são essas feras? – tinha muitos fios soltos nessa história. Fiquei com mais dúvidas do que já tinha.
– uma coisa de cada vez. – ele parou de falar.
Por mais que eu insistisse, puxasse assunto ele ficou calado, nenhuma palavra a mais sobre o assunto ou qualquer outro. Ele pode ter vencido agora, mas a próxima ele não escapa.
Fomos para trás do armazém, lá era uma espécie de oficina onde Peter, Diogo e Alex estavam trabalhando. Não pude deixar de notar a parede cheia de arcos recurvos poderosos.
– para que isso? — apontei para a parede.
Peter sorriu para mim com uma xícara de café na mão. Deu um longo gole e respondeu.
– para caçarmos. – ele disse como se fosse óbvio.
– lógico que são. – revirei os olhos e me sentei no canto da sala para não atrapalhá-los.
Diogo levantou um objeto que acabou de afiar, com o sol brilhou tão forte fechei os olhos. Quando consegui abrir os olhos, deu para ver que o objeto na mão dele era a ponta de uma flecha, não uma ponta qualquer, mas uma de prata.
A tarde passou despercebida, eles estavam tranqüilos e brincando um com os outros. Quando a noite se aproximou os ânimos mudaram completamente, ficamos dentro do armazém em quanto eles fechavam todas as passagens possíveis. Eles tentaram esconder, mas eu vi quando trouxeram os arcos e flechas para dentro com a gente.
Alguma coisa me dizia que era das tais feras que eles estavam com medo.
Próximo da meia noite um barulho ensurdecedor fez que a casa provisória estremecesse.
– ou foi muito perto ou esse era bem grande. — brincou Diogo.
Peter e Alex se entreolharam e Guilherme não tinha nenhuma reação, estava parado olhando para o nada.
– Já chega! Vão me contar agora o que está acontecendo ou eu vou ver pessoalmente. – ameacei. Eles não acreditaram que eu sairia com todos aqueles uivos arrepiantes.
Levantei-me vendo que daquele mato não sairia cachorro, abri a porta e fui ver o motivo da tensão lá dentro. Imediatamente mãos me agarraram e me puxaram para dentro com uma violência um pouco desnecessária.
–você é louca? – perguntou Guilherme, ele ficou me olhando como se eu fosse uma.
– vai me contar ou vai continuar achando que eu tenho oito anos de idade? – eu não aguento mais mentiras, foram elas que levaram as duas pessoas que eu mais amava.
– conte a ela. – falou Diogo com seu tom brincalhão se divertindo.
– eu conto. – se manifestou Peter, eu sabia que ele estava louco para dar com a língua nos dentes. — as feras que você está escutando são lobos. –ele levantou uma sobrancelha sugestivamente.
– lobos. – o motivo dessa confusão toda são lobos?
– não lobos comuns, são lobisomens. O maior que já encontramos media seis metros de altura, era um monstro enorme, só seus dentes tinham mais de um metro. – disse Diogo com entusiasmo.
Então a coisa é bem pior do que parece. Eles continuavam apreensivos olhando todas as janelas e até a chaminé.
– o problema é que eles nunca estiveram tão perto da casa quanto estão esse ano, e cada vez parece se aproximar mais. — terminou Alex pensativo.
Agora eu fiquei com um tantinho de medo. Poderia ter minha cabeça rolando nos dentes de um lobisomem agora.
A noite se foi e junto com ela os uivos estridentes dos lobos. Ninguém conseguiu dormir, normalmente eles estariam lá fora os caçando já que são caçadores, mas preferiram ficar comigo, para me proteger, ignorando meus protestos. Eu sei me cuidar sozinha.
Guilherme não estava muito bem, ele quase nem se mexia. Diogo disse que ele ficava assim depois dos uivos. Acho que além de mim, ninguém estava notando que ele estava preocupado.
– agora é minha vez de te chamar para dar uma volta. – disse com a mão no seu ombro.
Fomos para um lugar que eu estava doida para ir desde que cheguei. Ela estava velha e caindo aos pedaços literalmente, apesar disso a porta continuava trancada. Guilherme ficou me esperando em quanto eu voltava a ser criança.
– tenha cuidado. – ele gritou.
Lá dentro apesar de tudo estar uma bagunça, as imagens da minha família por esses corredores eram nítidas.
No canto do corredor a tímida escada com metade do corrimão faltando ainda tinha alguns degraus, dava para encarar. A madeira podre rugia quando meu peso a atingia. Parecia um rugido feliz em me ver, ao menos eu estava. A porta de madeira amarela não estava no seu devido lugar, nada mais estava apenas às lembranças e um quarto vazio se faziam presentes, meu quarto vazio.
Uma boneca de rosto de porcelana estava sentada encostada na parede mofada, eu não me lembrava dela. Peguei a bonequinha que fez um barulho, balancei para ter certeza e o barulho aumentou. Sem pensar a joguei no chão, o rosto branco e delicado quebrou-se em vários pedacinhos. Dentro dele estava uma chave em formato de coração, imediatamente me lembrei de uma fechadura que aquela chave abria.
Ela ainda estava lá, trancada e intacta, a porta do escritório da minha avó. Eu nunca entrei lá dentro, ela não permitia, era seu refugio particular e eu respeitava isso. Coloquei a chave na fechadura e lentamente a girei. Eu não consegui terminar o movimento, eu não conseguiria fazer algo que ela não permitiria. Tranquei a porta e desci pelos degraus rugindo, coloquei a chave no meu bolso e corri para fora o mais rápido que pude.
– o que aconteceu? — perguntou Guilherme quando passei correndo por ele.
– vamos apostar corrida. – gritei de volta sem parar.
Em menos de alguns segundos ele estava me acompanhando sem esforço.
– tem certeza de que você está bem? — perguntou preocupado.
– eu vou ficar. – respondi sinceramente.
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