Do outro lado da linha
63 Atendimento #063: Parque
Notas iniciais
Atendimento #063: Parque
Quem na infância nunca quis ir a um parque de diversões? Passar pelos portões principais, comprar um algodão doce e ir nos brinquedos é uma visão muito bonita de um inicio de dia perfeito. Engraçado vermos como cada dia que passa menos os parques são cheios.
Bom, isso se aplicava a todo mundo exceto Amanda. A operadora odiava esses brinquedos — Não vale a pena passar meia hora em uma fila para aproveitar um minuto.— costumava dizer para os pais sempre que estes tentavam arrastá-la para um parque. Preferia ficar em casa, escrevendo musicas e lendo alguns livros.
— Amanda bom dia com quem eu falo? — A garota atendeu enquanto sentia o aroma do perfume que ela comprara com Catherine.
— Eu estou com um problema no…
— Não! — Amanda o interrompeu elevando o tom. — O senhor nunca recebeu uma chamada a cobrar na vida? A gravação sempre diz. “Diga seu nome e a cidade de onde está falando” — mordeu a própria língua levemente. — Então vamos fazer como manda o roteiro, está bem? Fale seu nome.
— Bach. — Respondeu o cliente a contra gosto. — Você não vai me pedir para fazer um registro imenso não né? Eu só quero tirar algumas dúvidas e não responder o questionário do censo.
— Não relincha, se eu quiser você vai responder até como e onde seus pais se pegaram pela primeira vez. — A garota teve a imagem mental grudada. Era perturbador, era feio, mas ela não conseguira não pensar nos próprios pais se pegando. — Não, eu acho que não vou perguntar isso não. Mas diga senhor Bach qual produto o senhor têm?
— O meu é um notebook da linha design.
A linha que ele mencionara era caracterizada por seus produtos finos, caros e extremamente bonitos. Geralmente o publico alvo deles eram os mais afrescalhado que podiam pagar. O cliente, entretanto, não falava como os fresquinhos.
— O problema dele é que ele se partiu no meio sozinho. — interou o titular com certa tristeza.— Eu paguei bem caro nele, não pensei que fosse frágil assim.
Amanda arregalou os olhos, boquiaberta sentia a surpresa do “probleminha” do cliente. De todas as formas possíveis de se ter problema em um produto “partido ao meio” estava entre as mais altas.
— Eu to curiosa pra saber como isso aconteceu, não consigo conceber como um produto desses poderia ter se partido sozinho. — Falou ela apoiada nos cotovelos. — Vai, eu vou tentar manter minha mente aberta para qualquer coisa.
O cliente concentrou-se, puxou da memoria todo o acontecimento que levara até aquele desfecho triste a seu produto.
— Eu sempre quis ir a um parque de diversões, mas eu nunca tive tempo e nem oportunidade. — Amanda registrava, o cliente continuava o relato. — Esse mês eu consegui tirar um dia para ir ao parque, eu gosto muito desse notebook, foi por isso que eu levei ele comigo. Queria fazer alguns trabalhos enquanto estivesse almoçando.
Ezequiel que estava morrendo de sono se aproximou da cadeira de sua colega e esposa, seus olhos foram acompanhando palavra por palavra que era escrito. Quando a palavra parque foi mencionada o mesmo fez um bico triste.
— Tá, o senhor levou o produto. Isso por sí só já e uma estupidez sem tamanho, mas tudo bem...só não me diz que foi na montanha russa com ele na mão.
— Não, tá achando que eu sou algum estúpido por acaso? — O cliente se ofendera com a insinuação. — Eu disse que gosto dele, não que queria destrui-lo
— A.. menos mal. — Amanda olhou o colega que tinha os olhos marejados. — Porque está meloso assim, quer um buque de flores é?
— Então Amanda, — O cliente chamou. — eu não fui burro de deixar o produto na mão, até por que eu tava com ele na mochila apoiado na minha frente.
A atendente levou a mão ao rosto, já conseguira visualizar o cliente desesperado com as curvas bruscas e loopings da montanha russa. Com o medo da mochila cair o cliente apertara tanto que partira o notebook em dois.
— A entendi. — A garota controlou todo o sarcasmo para não humilhar o cliente rebaixando sua inteligência a baixo de uma mosca depois de ingerir um litro de wisky. Colocou no mudo. — Eu até tentaria fazer alguma coisa para justificar o problema, colocaria aqui no registro alguma coisa para te ajudar, mas depois dessa nem minha mãe eu perdoaria. — Escutou Ezequiel choramingando ao seu lado, ao encará-lo viu o bico feito com os lábios. — Que foi que você tá tão emotivo, mocinha?
Ezequiel se encostou em seu ombro procurando conforto.
— Eu nunca fui em um parque de diversões.
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