Do Lado das Flores Atemporais
2 Passado e Lembranças, Alguém para Recordar
Hinata desviou do golpe com um giro, levando, em seguida, suas mãos ao tórax do oponente, que pulou para trás com um salto. Seus olhos acompanharam a evasiva do adversário, estando atentos a cada detalhe ao redor. Hinata respirou fundo, retomando sua posição Juuken, para então lançar um tapa contra a garota mais adiante. Uma onda frenética de vácuo voou em direção a Hanabi, que pulou girando; uma esfera azulada de tamanho médio surgindo imediatamente, protegendo-a do ataque a distância.
Hinata correu novamente até ela, sentindo a pressão nas pernas, enquanto seus cabelos eram levados pelo vendo. Manteve pequena a distância entre as duas, recomeçando a sucessão de ataques rápidos, ambas buscando uma brecha para conseguirem acertar um único golpe. Hanabi não era uma oponente qualquer, Hinata bem sabia. Desde pequena, mostrava um grande talento para batalhas, enquanto ela, ao contrário, sempre fora mais fraca e delicada. Isso mudara no entanto.
Defendeu um golpe da irmã, lançando um contra-ataque imediatamente. Linhas de chakra cortaram o ar, surgindo das pontas de seus dedos. Hanabi arregalou os olhos, o byakugan, de aspecto ameaçador por natureza, pareceu inofensivo em seu rosto. A técnica que ela mesma criara costumava causar este tipo de reação nos membros do clã. Uma técnica original, não um dos jutsus passados de pai para filho, tal como muitos dos golpes Hyuga. Em um clã cheio de dogmas e duras regras, as pessoas não sabiam muito bem como reagir quanto àquilo. A maioria ficava impressionada, de um jeito positivo, o que já era uma boa coisa.
Hinata percebia que as coisas estavam mudando. Lentamente, sim, mas avançava com perseverança. Ela mesma mudara com o tempo… apenas desejava que Neji não tivesse partido tão cedo. Que ele pudesse estar ali com ela, e acompanhar de perto toda a mudança. Ainda era difícil para ela aceitar que ele havia ido. Hinata sentia como se fosse ontem os treinos que tinham casualmente, das pequenas conversas que compartilhavam. Agora tudo que restava era apenas lembranças.
Casa Principal e Casa Secundária, essa divisão sempre parecera errada aos olhos de Hinata. Vendo o rancor se espalhar por entre o clã como foi com Neji, antes dele conseguir se libertar das correntes de ódio que o prendiam. Hinata não queria ver os novos shinobis sendo submetidos às cruéis leis do clã, trazendo mais sofrimento para um caminho que já era difícil. Os resultados que obtiveram até agora, eram frutos do trabalho dos dois juntos, ela e Neji, além de seu pai parecer disposto a acatar a mudança. Talvez a morte de seu irmão, Hizashi, tivesse um papel importante nessa mudança de concepção.
Seu corpo trabalhou rápido, movimentando suas mãos à sua volta, criando a defesa e ataque perfeitos. Hanabi pulou para trás antes que pudesse ser atingida, seu rosto um emaranhado de cabelos castanhos escuros. Hinata terminou o jutsu, voltando novamente a posição de ataque. Uma gota de suor escorria por seu rosto, próximo a testa, mas sua posição continuava firme. Sempre fora assim.
Ela sempre tivera que se provar para todos, encarar seus medos para que pudesse ser reconhecida. Sempre tivera que se esforçar mais do que os outros, para conseguir aprimorar suas habilidades. Mas hoje ela era agradecida por todas aquelas barreiras, pois com o tempo, ela aprendera seu próprio modo para derrubá-las. Ela moldara seu próprio caminho, desenvolvendo seu taijutsu a um nível além do Juuken Ryuu. Até seu próprio pai ficara impressionado. Não sabia ele quantas noites passara em claro para que aperfeiçoasse a técnica.
– É o suficiente. – disse Hyuga Hiashi. – Está feito por hoje.
Hinata relaxou, cumprimentando sua irmã com uma vênia, e logo depois seu pai, juntamente com o outro membro do clã que servia como plateia, para só então se retirar do campo de treinamento. Enquanto subia as escadas de madeira para o interior da casa, ouviu Hiashi chamá-la pelo nome.
– Bom trabalho. – ele disse apenas.
Hinata acenou com a cabeça, mantendo a expressão indecifrável. Não era do feitio de seu pai elogiar ninguém, muito menos ela. Virou-se, dirigindo-se para seus aposentos. Estava pensando em ir visitar Kurenai, agora que ela teve o bebê seria bom ter alguma companhia por perto, em caso de ela precisar de algo.
– Hinata!
Voltou seu olhar para trás, observando Hanabi correr ao seu encalço. Sua irmã sorriu para ela, acompanhando a caminhada.
– Papai me liberou do treinamento por hoje, já que parto numa missão amanhã. – disse a garota, juntando os cabelos, prendendo-os num rabo de cavalo.
– Sua primeira missão Rank C, não é?
– Sim. Nós vamos levar um quadro para algum mercador rico na Vila da Areia. O que você vai fazer hoje?
– Talvez eu vá ver Kurenai Sensei. Agora que ela teve o bebê…
– Bem, então nos vemos mais tarde. — Hanabi parou próximo ao portão da frente, se despedindo com um aceno.
Vendo-a se afastar, Hinata pensou em como a irmã sofrera ao ter que agradar as duras maneiras de Hiashi, já que Hinata não era digna, como ele mesmo trouxera à tona diversas vezes. A garota mais nova tivera que assumir as responsabilidades como herdeira da Casa Primária desde cedo, tomando o lugar que era suposto de pertencer a Hinata. Hiashi fizera questão de que o treinamento de Hanabi fosse difícil ao extremo, para que não houvesse outro desgosto para o qual olhar.
A visão do pai quanto a Hinata mudara com o tempo, é claro, mas a dela sobre o pai continuava intacta. Ela não tinha ódio dele, contudo. Hinata era por demais gentil para sentir ódio de qualquer pessoa. Mas Hanabi não era Hinata, e o modo como ela agia quando seu pai estava por perto, mostrava que não havia muito amor em seu coração para com Hiashi. Entretanto, surpreendentemente, ela não agia da mesma forma com Hinata, que, mesmo de forma indireta, estava ligada à sua árdua infância. Afinal, fora por Hinata ser considerada um fracasso como ninja, que Hanabi tivera que se tornar o prodígio aos olhos do pai. Aquilo era realmente triste.
Seu quarto estava do mesmo jeito de quando saiu dele pela última vez, com a janela levemente aberta, por onde a luz do crepúsculo entrava, espalhando um tom dourado pelo aposento. As fotos que tinha do time oito enfeitavam a penteadeira, assim como dos demais colegas da vila. Sua cama baixa era rodeada por duas escrivaninhas com mais fotos, estas antigas, antes mesmo de se tornar uma Chuunin, com Kiba e Akamaru ocupando mais da metade delas, enquanto os três restantes faziam seu caminho para conseguirem aparecer.
Hinata sempre sorria ao se lembrar daqueles momentos. De como mudara desde então. Ainda continuava sendo a mesma em seu interior, mas aprendera a ter confiança em si, e aprendera que não podia apenas ficar calada em relação a tudo. Isso fizera com que os outros pudessem vê-la por quem ela realmente era, se libertando do interior daquela garotinha que mal sabia falar.
Arrumou a bolsa com o que fosse precisar, e saiu da casa, com o sol apontando sobre os rostos dos Hokages entalhados na montanha. Lembrou-se imediatamente de Naruto. Sentiu um calor no peito, uma sensação boa e reconfortante que enviava mansidão para si. Pensar em Naruto sempre a deixava mais feliz, não importava o problema pelo qual estivesse passando.
Fora assim na luta contra Neji, no Exame Chuunin anos atrás, uma luta da qual ela nunca se esqueceria. Sua primeira grande batalha; a primeira vez em que Naruto realmente a notara. Hinata lembrava-se perfeitamente da sensação de força que irrompeu por seu corpo, da confiança que a voz de Naruto passava para ela, fazendo-a querer provar a si mesma… o conselho que Kiba dera a Hinata na época, na qual ele pedira que desistisse caso pegasse algum adversário muito poderoso, fora o foco de seus pensamentos por muito tempo após a luta, até que ela soubera que não importasse quem fosse o oponente naquela vez, Hinata sabia que nunca entregaria a luta. Ela nunca se daria por vencida, porque sabia que Naruto estava observando-a como ela queria que ele a visse, finalmente. Aquele era seu jeito ninja.
Hinata voltou a si, recolocando sua franja para trás da orelha, voltando seu olhar para a estrada à sua frente, e recomeçando a caminhada.
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