Do Lado das Flores Atemporais

3 Fragmentado no Cair da Tarde


Notas iniciais
Boa Leitura!

Tenten olhou pela janela o céu azul da tarde, se perguntando se aquele dia nunca iria acabar. O calor estava insuportável e ela estava odiando não ter nada a ser feito. Já havia uma semana que não lhe era concedida nenhuma missão, nem mesmo uma simples Rank D, que ao menos lhe tirasse do tédio que lhe abatia… e que a ajudasse a parar de pensar nele.

– Alguma coisa errada, filha? Nem ao menos tocou na comida. – disse sua mãe, trazendo-a de volta ao presente.

Estava sentada na sala de estar, com a mesa baixa de madeira nova à sua frente, exibindo a comida que não tinha vontade nenhuma de comer. Sorriu para a mãe, sem saber exatamente o que dizer. Ela não apresentava muita vontade de fazer nada ultimamente, para ser mais sincera. Um tédio vindo de sabe-se lá onde se instaurara dentro de si, tornando tudo o que fazia uma agonizante tortura. Ela tinha esperanças de que quando tudo voltasse ao normal na vila e ela recomeçasse a realizar as missões, essa fase fosse embora, por fim. Ao menos queria acreditar nisso.

Levantou-se, dizendo a mãe que iria dar umas voltas. O dia estava claro e brilhante, como naquele dia em que se apresentaram pela primeira vez para o time 9. Era engraçado lembrar daquilo agora. Eles tinham evoluído tanto de lá pra cá… Ela, Lee e Neji. Tenten engoliu fundo, respirando forte, e voltando a caminhar por entre os transeuntes. De repente abatera sobre ela uma vontade de chorar, um desespero e uma nostalgia tão amarga ao lembrar de como eram bobos. De como se julgavam espertos, mas transpiravam inocência. A verdade era que na época, eles estavam completamente despreparados para saber realmente o que era o caminho ninja.

Era um caminho cheio de perdas e escuridão, colhendo aqui e ali resquícios de felicidades. Ela sabia disso agora, mas isso não tornava menos difícil encará-lo. Viu-se no meio da ponte, a qual diversas vezes vinha quando não tinha nada melhor para fazer. Seus olhos captaram seu reflexo na água lá embaixo, e acima dela, o sol dançava nas ondas do riacho. Ela sempre gostara do tempo que tinha para si mesma, de poder estar em casa, de andar pela vila e ver as pessoas, e as casas; pensar no que elas estavam fazendo despertava sua imaginação. Mas agora tudo que ela queria era voltar à rotina normal e sair logo da vila para alguma missão mirabolante que a fizesse esquecer.

Como odiava estar daquele jeito! Nem ao menos se parecia com ela, andando por aí como um espectro à procura de alguma coisa que nem sabia o que era. Uma vez dissera não suportar gente fraca e indecisa, mas agora, era exatamente como ela se sentia. Alguém perdido. E se odiava por isso.

– Tenten? – A garota olhou para trás, reconhecendo Lee ao seu lado. Estava vestindo roupas normais, e não aquele traje verde que costumava causar arrepios nela e em Neji.

– Ei, Lee, como vai?

– Ocupado. – ele se aproximou, se acostando no parapeito da ponte. – Estamos reconstruindo parte da casa do vizinho, que tinha sido destruído na invasão.

– Ainda? O que eu não daria para estar ocupada.

– Tão ruim assim?

– Mais do que ruim. – Ela respondeu sorrindo.

Olharam para o lago, em silêncio. Nenhum dos dois queriam tocar no assunto, mas era meio que impossível não pensar nele. Afinal, eles estiveram juntos praticamente desde o início de suas carreiras como shinobis. Pensar que ele se fora de vez era mais do que assustador, era apavorante. Tenten se surpreendeu quando notou a mão de Lee tocando a sua por cima da amurada. Ela olhou para ele sem expressão alguma no rosto e o pegou sorrindo para ela. Era um daqueles sorrisos amigáveis dos quais Lee sempre dispunha. Isso a fez sorrir de volta.

– Nós vamos conseguir, não é? Mais fortes do que éramos ontem.

Ela concordou com a cabeça, sentindo-se triste ainda. Uma estranha sensação de esperança percorrendo por seu corpo, memórias dançando pelos lugares negros de sua mente, trazendo à tona sentimentos que ela já havia se esquecido. Mais fortes do que éramos ontem.

***

Ela olhou-o pôr de lado a espada, e retirar a blusa logo em seguida. Seu corpo magro e esguio, exageradamente branco fez seu corpo ficar quente. Sentiu sua bochecha corar e desviou os olhos. Sasuke vestiu rapidamente uma outra blusa, e foi até a varanda, olhando para baixo, na inabitada parte destinada ao clã Uchiha na vila de Konoha. O silêncio era tudo que havia à volta deles. Karin sentiu-se ainda mais quente ao pensar nisso. Limpou a garganta para que pudesse ser ouvida.

– A reunião vai ser daqui a uma hora.

– Eu não me esqueci disso. – Sasuke disse lentamente, seu olhar varrendo o horizonte, captando cada pedaço de sua antiga casa.

– Qual decisão você acha que os conselheiros irão tomar?

– Nenhuma. Esses velhos estúpidos estão apenas enrolando. Eles não querem escolher um novo Hokage tão cedo.

– Foi o que eu pensei. A população ainda não está preparada para algo como isso. – Karin colocou a mão no queixo, seus pensamentos voando rápidos de um lado a outro. – Além disso, Naruto é o preferido deles, mas é visível a preocupação dos conselheiros ao ter que escolher um completo idiota para o cargo. – Sasuke soltou um resmungo de indiferença, o que fez Karin olhá-lo, antes de continuar. – Eles terão que escolher entre o amado burro ou o odiado inteligente.

– Não podemos deixar de pensar que Naruto tem a preferência.

– Afinal, ele pode ser manipulado mais facilmente caso seja escolhido e…

– E acalmar os ânimos da vila. – Sasuke terminou.

As coisas não estavam boas para o lado deles. Sasuke contava apenas com a proteção de Naruto frente a população irada e aos ataques do Conselho para que não fosse preso pelos crimes que cometera no passado, além seu novo desejo de se tornar Hokage ser completamente absurdo, até mesmo para Karin, que se perguntava de onde diabos ele havia tirado aquilo. Fora a desconfiança com que eram tratados por cada um que tinha contato com eles. E não era por menos, ela tinha que concordar. Toda essa mudança repentina nas ambições de Sasuke também deixavam-na com um pé atrás.

E ela ficara ao lado dele no fim de tudo. Simplesmente não conseguira resistir quando ele viera até ela e pedira pessoalmente para que ficasse, pois ele iria precisar de seus conselhos, já que ela era a única pessoa racional dentro do grupo original, criado por Sasuke. Agora não havia mais volta.

– Eu estou pressentindo alguma coisa…

– Como assim, pressentindo alguma coisa? Alguma coisa ruim? – Karin perguntou exaltada.

– Eu não sei, só não estou gostando de como as coisas estão indo.

– O que você esperava? Que iria ser recebido de braços abertos por todo mundo, e ser feito Hokage no dia seguinte? Nós temos sorte que ninguém soube de sua intenção de destruir a vila, e, felizmente, todos que sabiam estão bem mortos, ao menos qualquer um que pudesse dizer alguma coisa.

– E é bom que continue assim. – disse Sasuke olhando para ela.

A porta se abriu com um rangido incômodo e alto, deixando que Juugo entrasse no aposento, alto e duro, como uma estátua viva. Como Karin odiava que ele estivesse por perto, com sua presença incomoda e aquele chakra horroroso, atrapalhando qualquer contato que ela pudesse ter com Sasuke.

– Não consegui rastreá-lo. Para mim, parece que ele foi embora mesmo.

– Aquela cobra asquerosa. – Karin se arrepiou ao lembrar-se da figura de Orochimaru. – É bom que tenha partido, um problema a menos, do mesmo jeito que aquele imbecil do Suigetsu.

– Eu não acho que vamos ficar muito tempo sem ouvir falar nele. – apontou Juugo.

– Nunca confie em Orochimaru. – Sasuke disse por fim. Virou-se para encarar os dois, com seus olhos sempre indiferentes. Os eternos olhos vermelhos em seu rosto eram mais assustadores para Karin do que aquela técnica horrorosa da qual uma criatura humanoide gigantesca era criada para defender o usuário. – Vamos nos preparar, não quero me atrasar.

Karin percorreu os corredores escuros do casarão em que estavam hospedados, olhando as paredes velhas e sujas com nojo. Não havia mais ninguém ali fora os três, o que dava ao espaço um ar sombrio e silencioso demais. Lembrava a ela os anos na Base Sul, esquecida no meio de todos aqueles prisioneiros e doentes mentais que Orochimaru utilizava nas suas experiências. Estava irritada daquele lugar. Ao menos tinha Sasuke como companhia. Sasuke, ah, Sasuke. Sentiu novamente suas bochechas corarem apenas de lembrar-se de seu torso nu. Era uma pena aquele inútil do Juugo estar ali com eles. Devia pensar em alguma forma de tirá-lo fora do caminho. Quem sabe conseguisse envenenar sua comida em alguns dos jantares que compartilhavam? O problema é que obviamente ela seria descoberta rapidamente. O que Sasuke iria achar disso?

Virou em um outro corredor, visualizando a porta de seu quarto no fundo deste. A escuridão parecia querer prensá-la no pequeno espaço compacto, onde muitas portas eram vistas de um lado a outro, provavelmente com quartos esquecidos pelo tempo. Isso apenas fazia maior a semelhança com aquele lugar tedioso em que tivera que matar prisioneiros para que a notícia sobre morte de Orochimaru não se tornasse um problema.

Seu quarto estava levemente claro e arejado, o que já era uma boa coisa, comparando com o resto do casarão aos pedaços. Ela se esticou, pegando uma toalha na gaveta e dirigindo-se ao toalete. Sentia o calor entorpecer sua cabeça, deixando seus pensamentos enuviados. Tinha certeza que iria chover logo mais. Tirou sua roupas, deixando à mostra seu corpo marcado pelas cicatrizes das mordidas de tantos anos. Abriu a torneira da banheira, e minutos mais tarde estava deitada confortavelmente, com a água morna a banhá-la de modo agradável.

Imagens de sua mãe começaram a passar por sua cabeça, como flashes indesejados de algo que deveria estar esquecido a muito tempo. Lembrou-se também de fogo, de destruição e dos gritos das pessoas à sua volta. Passou as mãos nos cabelos, afundando seu rosto contra a água. A maldita vila Oculta do Redemoinho, e seus destroços jogados pelo chão, com seus mortos e suas desgraças. Não, não queria pensar naquilo. Era melhor pensar em Sasuke. Sasuke dos cabelos negros como azeviche, a pele branca como leite, e o cheiro gostoso como de pinheiros. Sasuke dos olhos frios e calculistas, das ações motivadas por vingança, do chakra sem nenhum calor e das traições sem arrependimentos. Chorou durante o resto do banho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.