Do I wanna know?
6 "Was sort of hoping that you'd stay"
Notas iniciais
Não era como se fosse chorar copiosamente ou lamuriar-se pelo resto da vida. De alguma forma, já esperava por aquele tipo de reação. Seu psicológico estava devidamente preparado.
Ou algo desse gênero.
Não seria tão idiota a ponto de negar o que estava mais do que claro, estampado em sua testa com tinta neon: ele era completamente louco pelo Kuchiki. E, para falar a verdade, a rejeição doera muito mais do que sequer pôde prever; fora tão fria e direta que Renji se pegou pensando se tudo não passava de um pesadelo. E dos bem terríveis, diga-se de passagem.
Mas estamos falando de Kuchiki Byakuya, no final das contas. Não se podia esperar nada muito emocional e solidário por parte dele.
Ainda assim, o impacto viera profundo demais para parecer real.
Fitou novamente o pequeno bilhete entre seus dedos e o papel agora parecia arder em brasas. Largou-o em cima da mesinha de centro, onde o encontrara pela manhã, após ter tateado a cama feito louco a procura do mais velho. E quando seus dedos tocaram o vazio dos lençóis vermelhos, ele se sentiu ainda mais vazio do que o espaço ao seu lado. O coração doeu tanto, roubou-lhe até o ar, como se toda a vida dentro de si estivesse sendo sugada e consumida pelo amor doentiamente intenso que sentia por Byakuya. E ter certeza de que a recíproca não era, nem de longe, verdadeira só servia para piorar o estado de espírito do ruivo, que suspirou, tentando soar conformado.
Parecia mais o tipo de suspiro que sucederia um choro intenso.
Só que não parecia muito certo se deixar levar pela avalanche de sentimentos conflituosos a qual virara sua vida. Se o fizesse, talvez nunca mais conseguisse se manter íntegro. O misto de mágoa, dor, angústia, saudade e paixão colidia com seu orgulho ferido e a cada segundo ele era capaz de sentir sua alma sendo dilacerada. Era um holocausto interno tão intenso, que ele se via no direito de considerar Byakuya uma reencarnação de Adolf Hitler.
A câmara mortífera de gás havia se consumado na noite anterior.
A saudade que corria por suas veias, junto com o vício que agora havia adquirido pelo corpo do magnata, era sua iminente ruína, mas talvez ele simplesmente não conseguisse se desprender daquele sentimento tão intenso chegara tão rápido e desbancando todas as defesas que durante anos construíra.
Ergueu-se, decidido a mandar aquela apatia para o quinto dos infernos. Não tinha tempo para aquele tipo de coisa –– na verdade, Renji só queria evitar um choro preso que fazia uma revolução a fim de ser liberto. Buscou o telefone celular pela casa, retornando a ligação que recebera dias atrás. Daria a volta por cima, mesmo que aquele amor queimasse dentro de si e o matasse aos poucos. Convivera com o sentimento por tanto tempo, não seria agora que deixaria a peteca cair. Por mais que seu corpo agora clamasse por outra noite como a anterior, ele seria forte e seguiria em frente.
No terceiro toque, a voz marcante de Kuchiki Rukia se fez ouvir do outro lado da linha.
–– Rukia-san? Aqui é Abarai Renji.
–– Abarai-kun! Que bom que retornou minha ligação.
–– Desculpe-me pela demora. –– Renji comentou, constrangido.
–– Sem problemas. Eu sei que Byakuya ocupa a maior parte do seu tempo com trabalho. –– O ruivo estremeceu quando o nome soou, mordendo o lábio inferior. O nó se intensificou na garganta. Por Deus, iria chorar agora? –– Mas imagino que você tenha pensado na minha proposta, certo?
–– S-sim, eu pensei bastante.
–– E então? –– A morena parecia animada, falando um pouco eufórica.
–– Eu aceito, Rukia-san.
–– Ah, que ótimo. Nossa, estou muito mais aliviada agora. Você pode começar semana que vem mesmo. Pode deixar que eu resolvo a papelada envolvendo a empresa do meu irmão. –– Ela suspirou, soltando um riso aliviado. –– Muito obrigada, Abarai-kun.
–– Pode me chamar só de Renji, Rukia.
–– Okay, okay, Renji. Nos falamos ainda hoje, tudo bem? Te ligarei para acertarmos as datas.
–– Por mim, tudo ótimo.
–– Então, até mais. –– Ela encerrou a ligação e Renji suspirou, perdido em meio a um turbilhão de emoções, sem realmente saber que passos dar. Olhou as horas, constatando que estava começando a ficar atrasado. Arrastando-se ao banheiro, deixou que a água quente tentasse lavar a agonia presente em seu coração. E, vestido com o resquício bravo de seu orgulho, ele pegou a pasta com os documentos para o dia e saiu de casa, dando as costas para o fim de si mesmo, contido no pequeno pedaço de papel sobre a mesinha.
“Preciso agradecer pela diversão que foi conquistar você e tê-lo finalmente entregue em meus braços, mas temo que agora precise ter um fim. Sem ressentimentos, não é?
Foi bom enquanto durou. Quem sabe um dia possamos repetir a dose.
Até uma próxima,
Kuchiki Byakuya.”
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–– O quê? Viagem de negócios? E sem me avisar? –– Renji passou os dedos pelos fios ruivos, aflito demais para conseguir pensar com clareza. –– O que aquele idiota pensa que está fazendo? Ele se esqueceu que somos sócios? –– Ele suspirou, tentando recobrar a calma sobre os próprios nervos.
Estava impossível.
–– Foi de repente que ele tomou essa decisão? –– Focou os orbes castanhos no amigo, procurando ali alguma paz de espírito e a intensidade palpável nos olhos azuis de Grimmjow o deixou mais relaxado. Os pensamentos finalmente se assentavam em sua cabeça conturbada.
–– Ele chegou hoje de manhã falando ao telefone. Quando terminou, me disse que faria uma viagem de negócios que duraria um mês. –– Grimmjow terminou o café que tomava em um único gole, deixando a caneca de lado e puxando o maço de cigarros do bolso do paletó. Ofereceu a Renji, que de pronto aceitou, em seguida pegando um para si. Depois de ter a vida virada de ponta cabeça, a nicotina invadindo seus pulmões era como água fresca em meio ao deserto.
–– Pelo menos você sabe para qual país?
–– Inglaterra.
Recostando-se à cadeira, o Abarai deixou a cabeça pender para trás, fitando o teto branco do refeitório da empresa. Sua mente dava voltas. –– É assim que vai ser então? –– Murmurou em voz baixa, franzindo o cenho com a dor que pontuou em seu peito. –– Ótimo. Dois podem jogar esse jogo.
Buscou o celular no bolso da calça social.
–– Rukia-san?
–– Renji! Nossa, eu estava prestes a te ligar. Fiquei sabendo da viagem do meu irmão.
–– É, foi bem repentina. –– Renji soltou um riso forçado, engolindo o nó preso na garganta.
–– Como ele não estaria aí para resolver a papelada, eu liguei para o meu sócio, que também é sócio da empresa do meu irmão, Shunsui Kyouraku, e ele me garantiu que hoje mesmo estaria tudo pronto.
–– Isso é sério, Rukia? –– Um sentimento estupidamente absurdo de alívio correu pelas veias do ruivo. Ele estava finalmente se vendo livre das rédeas que o prendiam. Aquele tempo afastado seria excepcional e o advogado não abriria mão por nada no mundo.
–– E eu brincaria com isso? –– A risada da Kuchiki era doce, como a de Byakuya, quando ele soltava uma verdadeira. Renji não se impediu sorrir. Ao menos as coisas boas sobre aquele homem o faziam bem.
–– Isso é... Maravilhoso, Rukia.
–– Compre as passagens e arrume suas coisas. Amanhã mesmo eu quero você aqui, ouviu bem?
–– Sim, senhora.
–– Então até amanhã, Renji.
–– Até.
O sorriso não escapava de seus lábios e tal fato fez Grimmjow arquear as sobrancelhas, inquisidor.
–– Qual é a do sorriso idiota? –– Perguntou, acompanhando o ruivo refeitório afora, parando em frente à sala do advogado.
–– Parece que também vou fazer uma viagem de negócios.
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–– O vôo 725 para os Estados Unidos da América sai em 15 minutos. Passageiros do vôo 725, por favor, dirijam-se ao portão de embarque.
–– Rukia, meu vôo vai sair agora. Nos vemos mais tarde no hotel então, pode ser?
–– Vamos marcar para o dia seguinte, Renji. O a diferença de fusos vai deixar você exausto. São 14 horas, você vai querer descansar.
–– Tudo bem, você está certa. –– Ele suspirou, enquanto entregava a passagem para a atendente. Ela sorriu e permitiu que o ruivo prosseguisse.
–– Nos falamos mais tarde quando você chegar. Me ligue, entendeu?
–– Tudo bem, mãe. –– Os dois riram e ele embarcou no avião. –– Até mais, Rukia. –– Desligou o aparelho, guardando-o no bolso da calça jeans. Sentiu então o peso das decisões, finalmente, caindo sobre seus ombros. Não havia mais volta. E não adiantaria olhar para trás, porque talvez quisesse se arrepender. Ainda que tudo aquilo fosse por um bem maior, Renji não conseguia deixar de lado o amor que borbulhava dentro de si. A dor da despedida que não aconteceu era indescritível.
Talvez, enfim, ele se permitisse chorar.
E a primeira lágrima solitária escorreu quando, pelas janelas, se viu abandonar Tóquio. Se viu abandonar a maior parte de si. Seu corpo estava partindo, mas sua alma e seu coração haviam ficado.
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–– Você só pode estar brincando comigo! –– Grimmjow afastou o telefone do ouvido, pois o grito de Kuchiki Byakuya parecia ter penetrado em sua alma. Suspirou. Como aquele cara era difícil! –– Quem autorizou essa merda?
–– Shunsui Kyouraku , senhor.
–– Aquele... Em qual hotel ele vai estar hospedado? Estou indo para lá hoje mesmo. –– “Idiota.” Pensou o rapaz de cabelos azuis, revirando os olhos de mesma cor.
–– O senhor não pode. Tem que fechar os contratos e vender as ações que estão no programa que fizemos semana passada.
–– Eu não ligo para isso, porra! O Renji é m-
–– O Renji é o que, senhor? Com todo o respeito, acho que você não está em uma posição que te deixe falar algo sobre ele.
–– Como você-
–– Eu sou o melhor amigo dele. E sei que o senhor o fez de gato e sapato. –– Grimmjow rosnou, deixando todo seu ódio pelo Kuchiki aflorar. –– Ele te ama, então deixe-o viver uma vida sem você. Talvez assim o Renji seja finalmente feliz.
O silêncio se instalou, assustador e pesado, como se consigo trouxesse toda a culpa de erros imperdoáveis. Byakuya franziu o cenho. O que era aquele aperto doloroso no peito? Aquele sentimento de perda definitiva? Por que sentia como se fosse desabar em lágrimas?
–– Se você o ama, o que eu, particularmente, acho impossível, deixe-o ser feliz, tudo bem? Preciso desligar. Até mais, senhor.
O ‘tu... tu... tu...’ invadiu sua consciência com o dobro de volume e o fez cair sobre a cama do hotel. E foi então que, pela primeira vez desde a morte de seu pai, Byakuya chorou como uma criança indefesa a procura de colo materno, porque seu coração doía, apertado pelas garras de um arrependimento monstruoso. Essa era então a sensação? Naquela hora, ele entendeu o conflito confuso que ocorria dentro de si.
Era seu fim.
Ele estava amando.
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