Do I wanna know?
7 "Now I've thought it through, crawling back to you"
Notas iniciais
Ele podia ser preso.
16 de fevereiro de 2015
Aquilo era invasão de domicílio e ele podia sair dali algemado se o descobrissem.
21:37
Lembrou-se. De cada dia; cada hora; cada segundo que se arrastara durante aquele ano perturbador. Cada instante tomado por completa e implacável angústia, por incertezas e sentimentos estupidamente intensos que consumiam em labaredas um coração arrependido.
O quão idiota ele conseguia ser?
“–– O que você quer, Kuchiki? Eu estou em reunião, não posso atender telefonemas assim.
–– Eu quero entender o que está acontecendo. Por que você foi embora?
–– O que está acontecendo? Vou explicar. Você venceu, Byakuya. Está feliz? Não me procure, não tente me impedir de ser livre de você. Não seja egoísta por mais tempo, porque eu sei que tem um pouco de sentimento dentro dessa pedra que você chama de coração.”
Seu peito doía. Então aquilo era amor? E ele foi capaz de deixar escapar por entre os dedos?
“–– Ele te ama, então deixe-o viver uma vida sem você. Talvez assim o Renji seja finalmente feliz.”
Eram palavras duras e ele não permitiria. Não quando finalmente havia descoberto tudo o que sentia. Pertenciam-se e nada nem ninguém seria capaz de impedir que Renji fosse somente seu.
Para sempre, se dependesse do Byakuya de agora.
Mas, um ano havia se passado e o máximo de contato que tiveram fora um telefonema, simplesmente porque Renji o proibira de procurá-lo.
E isso o estava enlouquecendo. Não, muito mais. A situação o estava matando por dentro.
Um ano.
Um longo, infeliz, maldito, desesperador e lento ano. Sem o olhar intenso, sem os beijos envolventes, sem as mãos fortes puxando-o, sem o corpo quente seduzindo-o, sem os lábios ávidos sempre provocando-o e...
Foco, Kuchiki. Foco!
Barulho de chaves tintilando no corredor. A maçaneta girou. Byakuya ofegou e estagnou sobre o sofá, virando a cabeça lentamente, bem a tempo de ver Renji adentrar o apartamento, falando ao telefone. Armou-se com a expressão leviana de sempre e esperou até ser notado.
E ele teria rido das reações se o clima entre os dois não estivesse tão... Pesado. Esquisito. Mal explicado.
Argh! O clima entre os dois ia de mal a pior.
O celular do ruivo caiu com um baque surdo sobre o tapete felpudo localizado à soleira da porta. Os olhos cor de chocolate se arregalaram em câmera lenta e ele abriu e fechou a boca algumas vezes, talvez sem palavras, ou quem sabe com palavras demais para despejar sobre Byakuya que nem conseguia escolhê-las. Difícil saber, realmente. Piscou incontáveis vezes e chegou a se beliscar. Só podia estar louco. As noites mal dormidas o estavam afetando, enfim. Aquilo era mera insanidade.
O Kuchiki engoliu a seco e se ergueu, caminhando devagar, porque qualquer movimento brusco poderia ser fatal. Calculou cada um de seus passos de forma clínica até estar próximo o suficiente do Abarai. Com o coração batendo feito louco dentro do peito, respirou fundo e tentou tocá-lo no rosto, as pontas dos dedos mais trêmulas do que sua avó com mal de Parkinson. Procurou acalmar os ânimos, mas antes de qualquer coisa, Byakuya viu Renji recuar, o cenho absurdamente franzido. Nos olhos, um misto louco de sentimentos: confusão, estarrecimento, raiva, mágoa, paixão, saudade e tudo aquilo que o magnata sempre o fazia sentir de uma forma alucinada.
O advogado olhou para os lados, frustrado e embasbacado, procurando respostas nas janelas ou nas paredes, porque estava se sentido fraco para encarar o homem à sua frente. Por Deus, como odiava ser ridiculamente apaixonado por ele e sempre ter as defesas destruídas com tanta facilidade. Sentiu a ânsia pinicar em sua garganta: estava sedento. Em abstinência séria e irremediável de Kuchiki Byakuya. E queria uma cura rápida.
Não, não podia ser fraco. Mas que merda, não podia. Sobrevivera um ano inteiro sem o pecado em carne e osso por perto, então porque agora se coçava para tocá-lo? Sofrera tão amargamente durante todo aquele tempo e havia decidido pôr um fim àquilo tudo.
Então por que, agora, queria estar aquecido nos braços dele?
–– Renji, eu qu-
–– O que está fazendo aqui? –– Renji rosnou, cruzando os braços na altura do peito, se fazendo de fortaleza impenetrável.
Porque no fundo ele estava desabando como um castelo de areia.
–– O que diabos você está fazendo no meu apartamento? Isso é invasão de domicílio. Eu podia muito bem chamar a polícia, seu idiota.
O magnata piscou, se sentindo encurralado em um labirinto de desculpas esfarrapadas, todas parecendo ridículas demais até mesmo para ele. Toda a pose típica de leviano cretino, que ele tanto se esforçara para absorver com seu sangue, havia sido nocauteada. E agora ele sentia que podia despejar a avalanche de sentimentos que o importunavam sobre o advogado.
Quer dizer que era isso que o amor fazia com as pessoas?
–– Droga, Abarai! Eu... Eu não tenho nenhuma desculpa, tudo bem? Eu só quis vir aqui, para te esperar voltar. –– Byakuya confessou, socando a parede ao lado. A dor que se alastrou por seu corpo não foi de muita importância, se comparada à dor de ter o mais novo escorregando por entre seus dedos. Ele puxou Renji pela gravata, decidido a sanar as necessidades que eclodiam no âmago de sua alma, e colou os lábios saudosos nos do ruivo. Quando a passagem de sua língua foi concedida e o beijo se iniciou, ele se permitiu soltar um gemido extasiado. Céus, como sentira falta de ter Renji tão próximo. Se estivesse ao seu alcance, iria possuí-lo ali mesmo.
Vamos com calma, Byakuya.
–– Não, não, não! Porra, Byakuya! –– O moreno arquejou quando teve o corpo bruscamente jogado contra a parede por um Renji furioso. –– Não chegue me beijando, achando que vai conseguir consertar as coisas, porque não vai, Kuchiki!
–– E como diabos eu faria para consertar as coisas, Renji? Você sabe que não pode esperar atitudes desse tipo de mim. –– Resmungou, suspirando pesadamente e desviando o olhar para um ponto qualquer. Renji ainda assombrou-se com a angústia aterradora presente nos orbes escuros; jamais havia visto tanto sentimento naqueles olhos. E todos conflitando entre si, tão árduos. A indiferença tentava imperar, mas Byakuya estava vulnerável, desarmado pela presença do Abarai. Por Deus, ele destruía todas as suas barreiras. E isso não era certo! Muito menos justo. Não imaginava que um ano longe daquele advogado do diabo ia afetá-lo daquela forma.
Sentia-se quase uma criança indefesa. Renji era o único capaz de deixar o Kuchiki acuado a ponto de transparecer os próprios sentimentos, o que não era nada típico do magnata.
–– Eu atualmente não espero nada de você, Kuchiki. Nem bom, nem ruim. Eu simplesmente- –– Piscou, trincando o maxilar, como se estivesse sentindo dor pelas palavras que praticamente cuspia na cara do outro –– Eu simplesmente desisti de tentar. Por mais que eu... –– Engoliu a seco. Era complicado abrir-se de tal forma, logo perante o homem mais arrogante que já conhecera –– Ah, por mais que eu ame você, não sei se vale mais a pena persistir nesse erro. –– Enquanto falava, lembrou-se de fechar a porta atrás de si. Seus vizinhos não eram obrigados a ouvir discussões àquela hora da noite. Passou direto pelo presidente após tê-la trancado, desistindo de dar-lhe as costas logo depois. Virou-se e encostou o corpo a uma parede, observando as reações do mais velho.
Byakuya sentiu o peito apertar. Então fora escroto a ponto de Renji pensar que amá-lo era um erro? Sabia que havia agido erroneamente, mas não tinha noção de a quais proporções suas ações haviam chegado.
Que merda ele fizera.
Pela primeira vez em sua vida estava se sentindo mal. Triste.
Arrependido.
–– Caralho, Abarai! –– bradou, quase fora de si, fitando o ruivo com olhos injetados por confusão. E pintados com algum outro sentimento que Renji quase pensou ser... Paixão. Mas não, devia estar vendo coisas. Sua cabeça, novamente, criava ilusões esperançosas. Seu corpo tremia, mas estava quente. Talvez fosse culpa da proximidade desconfortável do Kuchiki.
Desconfortável, claro.
Bufou, impaciente, querendo que aquela conversa –– que não os levaria a lugar algum –– acabasse de uma vez por todas. Renji precisava de descanso e ter que encarar toda aquela carga de emoções tendo chegado de viagem era realmente desgastante. Estava a ponto de expulsar Byakuya a pontapés, mas algo dentro de si, bem lá no fundo, inclinava-se para uma leve curiosidade: queria saber o que o magnata tanto desejava ali.
Não precisava ser muito inteligente para descobrir.
–– Será que você poderia, por favor, soltar logo a meia dúzia de baboseiras incoerentes que você veio me dizer e ir embora? Eu estou cansado, foi um voo longo e tudo que eu quero agora é a minha cama e uma ordem judicial para que você se mantenha longe de mim.
Ah, Renji, essa foi cruel.
O ruivo caminhou energicamente em direção à porta e abriu-a, ficando ao lado desta e estendendo os braços, um pedido mudo para que Byakuya se retirasse. O moreno, atônito, piscou algumas vezes, assimilando, aos poucos, o que se passava naquele recinto.
–– Você deve me odiar, não é? –– Riu-se, sem um pingo de humor no tom de voz mórbido. Estava acabado, sua cabeça doía, mas nenhum sofrimento físico se comparava à enfermidade de sua alma em frangalhos. Renji estremeceu com a intensidade da aflição naquelas palavras. Seu coração palpitou uma, duas, três vezes até assumir um ritmo absurdamente frenético. Por que diabos não conseguia se livrar desse amor doentio? –– Eu entendo. É tarde demais. Eu vim achando que ainda conseguiria resgatar o que perdi todo esse tempo; vim achando que poderia te segurar com tudo de mim. Mas você está escorregando pelos meus dedos. Eu perdi a batalha. Só que a dor de te perder é pior ainda. –– Dirigiu as obsidianas aos olhos cor de chocolate e eles se encararam pelo que pareceu ser uma eternidade. Renji engoliu a seco. Viu o presidente suspirar e se preparar para atravessar o portal, sem olhar para trás.
–– Mas que droga, seu infeliz. –– Puxou-o para dentro pelo pulso, colando-o a si. E entre os milímetros que os separavam, deixou as palavras se encaixarem. –– Eu não consigo e nunca vou te odiar, idiota. –– O clima de tensão sexual, e agora emocional, que sempre permeava a relação dos dois se aconchegou, sorrateiro, em meio ao roçar de lábios e mesclar de respirações entrecortadas. Arfando, Renji venceu a distância, soltando um gemido angustiado, ao mesmo tempo aliviado, ao ter a língua ávida de Byakuya invadindo sua boca com toda aquela saudade intensa. Ele se sentiu completo.
As costas prensadas com força contra a parede tomaram-lhe o pouco fôlego que ainda possuía e ele precisou morder os lábios do moreno, partindo o beijo. Encararam-se, novamente, por longos minutos, tentando amenizar a tempestade de sentimentos confusos que acontecia dentro de ambos.
Byakuya agarrou os fios ruivos e encostou as testas, respirando profundamente. Mordeu o lábio inferior alheio e fechou os olhos, deleitando-se com a sensação que o preenchia: estava na hora de entregar o jogo, enfim.
Seu orgulho que fosse para o inferno.
–– Eu... Eu te amo, Renji. Caralho, eu te amo tanto. Tanto. –– O ruivo arregalou os olhos e arquejou, surpreso. Seu coração parecia uma parada do dia da independência de tão barulhento e agitado. Era sério o que seus ouvidos captavam? –– Por favor... Por favor, seja meu. Só meu.
O Abarai sorriu. Sorriu como nunca havia feito em toda a vida. Queria pular no pescoço de Byakuya e beijá-lo até não haver amanhã. Então aquela era a sensação de, finalmente, ter um amor de anos sendo retribuído? Por Deus, Renji estava nas nuvens.
Byakuya, segurando-se para não deixar que a linhas de seus lábios se curvassem para cima, suspirou aliviado. Havia tirado um peso das costas e agora se sentia tão leve que poderia cantarolar. Se apaixonar não era tão ruim quanto a vida o fizera crer.
É, o amor muda as pessoas.
–– Eu sempre fui seu. Nunca deixei de ser. –– O moreno não se conteve mais e sorriu, tão abertamente que o advogado se sentiu embasbacado com tamanha perfeição. Como amava aquele imbecil arrogante. –– Eu te amo, também, seu completo idiota.
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