Notas iniciais
Pessoal aqui temos mais um capítulo, espero que esteja melhor que o passado!! Divirtam-se! PS: os links no meio dele são de alguns dos personagens, caso queiram saber mais sobre eles confiram o tumblr (link no perfil)!!

"Cuidado em quem você confia. Lembre-se que o diabo era um anjo" — Supernatural

Os raios de sol acertavam em cheio meus olhos que piscavam incessantemente tentando focar em algo, o que eles não fariam já que meu óculos não estava no meu rosto. Além disso, eu estava sendo atacada por uma dor de cabeça pior do que várias ressacas que já tive, minha cabeça parecia ter sido alvejada por uma pedra. Decidi então procurar meus óculos começando a tatear a cama macia em que estava, passando para uma cômoda de madeira maciça onde acabei por achá-lo e colocá-lo rapidamente em meu rosto, só então olhei ao redor e percebi que não estava em minha cama e muito menos em meu quarto. O lugar em que eu estava parecia bem mais antigo e organizado, cheio de prateleiras de livros, paredes pintadas de um roxo escuro e as cortinas mais feias que já tinha visto, sem falar nos quadros estranhos que preenchiam as paredes. Olhei ao redor procurando por alguém, mas não havia nenhum sinal de vida, esse lugar era estranho demais para ser verdade. Então me levantei e olhei através da janela que dava para um lindo campo com algumas árvores, mas tudo estava completamente vazio, apesar disso o lugar era estranhamente familiar, eu definitivamente já havia visto esse campo alguma vez na minha vida, mas isso não vinha ao caso agora. Talvez se eu saísse do quarto eu acharia alguém, então caminhei em direção a porta a qual abri dando de cara com um corredor de aspecto tão velho quanto o quarto e igualmente vazio.

O que diabos era esse lugar? Algum tipo de manicômio?

— Mãe — tentei chamá-la, minha voz soando como a de uma criança amedrontada, o que combinava muito bem com minha situação atual.

Ela definitivamente não estava ali, então segui em frente por um longo e velho corredor com um piso de madeira que rangia a cada passo que dava e com paredes cobertas por uma tinta azul marinho que descascava aos poucos, segui ele em linha reta e fui levada até uma porta grande de madeira. Ao abri-la me deparei com uma linda e aconchegante biblioteca, ao fundo havia uma mesa enorme cheia de cadeiras ao seu redor, podia-se notar também dois sofás vermelhos de aparência confortável mais ao canto e obviamente inúmeras estantes, todas preenchidas com livros. Logo me aproximei um pouco das estantes e comecei a olhar os livros quando, de repente, eu senti algo se encostar em minha garganta, ao olhar para baixo me deparei com uma adaga pequena sendo pressionada contra minha jugular, mais um pouco e ela me cortaria. Meu corpo simplesmente travou e eu fui inundada de medo e por mais dúvidas, em que tipo de lugar eu estaria?

— Quem é você? — uma voz masculina e mansa falou em minha orelha, como se colocar facas na garganta de pessoas fosse algo perfeitamente normal.

— Gwen Collins, e você deve ser o idiota número um do planeta.

Ele tirou a adaga de meu pescoço e eu finalmente me virei para vê-lo, um garoto mais alto que eu — apesar de eu já ter uma estatura bem elevada — com um rosto quadrado de feições extremamente calmas para o atual momento, o cabelo cor de chocolate contrastava perfeitamente com sua pele pálida e o par de olhos parecido com a noite. Se ele não fosse um completo psicótico ele até que seria bem atraente.

— Collins? — ele indagou me encarando enquanto colocava a adaga de volta em seu cinto com a maior naturalidade do mundo.

—Pelo que sei é o que está escrito na minha identidade — por algum motivo ele continuava a me olhar dos pés à cabeça, como se procurasse algo em mim.

— Noah! — o garoto se virou imediatamente para o lugar em que um homem de cabelos grisalhos arrumados havia gritado e, ao lado deste estava minha mãe, finalmente.

— Mãe — suspirei aliviada andando até ela que me parou antes que eu pudesse abraçá-la.

— Precisamos conversar Gwen, eu prometo que vou te explicar tudo — estava estampado em sua cara que ela estava nervosa, como se escondesse muito mais do que só em que lugar estávamos, o que só me deixava mais aflita para que tudo fosse explicado.

— Vão, nós nos encontramos depois — só então pude perceber os olhos cinzentos infinitos do homem ao lado da minha mãe, olhar para eles era inevitável, para ser sincera olhar para o cara em si era inevitável, ele tinha um nariz fino e lábios carnudos que chamariam atenção de qualquer um, mas antes que eu pudesse prestar atenção em algo mais, minha mãe me guiou corredor adentro direto a uma sala espaçosa com um sofá de couro onde nos sentamos, depois de olhar ao redor percebi que na verdade o cômodo era um escritório.

— Em que lugar estamos mãe? Como eu vim parar aqui? E quem são aqueles dois? A propósito, por que aquele doido colocou uma adaga contra minha garganta? — as perguntas saltavam da minha boca de tão nervosa que eu estava.

— Você ainda está em Readlyn, em um lugar a salvo. Eu te trouxe de carro depois do incidente da noite passada.

— A salvo de que mãe? — cada vez que ela tentava explicar eu ficava mais e mais ansiosa, estava prestes a ter um ataque de nervos de tanto bater meu pé contra o chão. Como ela me trazer para a casa de um estranho me deixaria a salvo?

— Eu sei que tudo deve estar muito confuso para você e eu nem sei por onde começar, mas você é especial Gwen, você pertence a um povo extraordinário e eu não devia ter escondido isso de você — seu rosto estava ficando vermelho e ela parecia prestes a cair no choro — Você é uma fênix.

Eu parei de bater meu pé por um instante e a observei esperando que ela me dissesse que era tudo uma grande brincadeira, mas não, ela continuava a me olhar fixamente parecendo insistir nessa idiotice.

— Você está drogada? Esses caras deram alguma coisa para você? — perguntei preocupada.

— Não Gwen, você tem que acreditar, eu sou uma fênix e seu pai também era, ele não morreu em um acidente de carro, ele morreu durante uma batalha, olhe isso — ela se levantou e pegou um livro em uma das estantes da sala e me entregou, assim que eu o abri vi várias imagens e desenhos de fênix com páginas e páginas de dados escritos.

— Isso é loucura! — joguei o livro na mesa a nossa frente e respirei fundo como se de alguma forma isso fosse ajudar. — Você está me dizendo que eu sou uma criatura mítica que revive das cinzas e espera que eu acredite?

— É por isso que você consegue ver Astrid, é um dos nossos poderes, ver espíritos. Além disso, você deve lembrar desse lugar, quando você era pequena eu a trouxe aqui várias vezes quando pensei que estávamos correndo risco — antes que ela pudesse continuar eu me levantei tentando me acalmar. Aquilo não era normal, mas ela estava certa, o campo mais cedo foi familiar, esse lugar em si me trazia algumas lembranças, ela não teria como mentir sobre isso, muito menos sobre eu poder ver minha amiga morta.

— Esse lugar é familiar, mas ainda assim isso não explica tudo, quer dizer que você também viu Astrid ontem? — perguntei.

Ela fez que não com a cabeça.

— Eu não sei porquê, mas não consegui vê-la — respondeu desapontada.

— Sua mãe não está mentindo, você não deveria ser capaz de ver sua amiga, nenhum de nós deveria, mas eu tenho um palpite sobre o porquê de você vê-la — a voz veio da porta, e assim que me virei o homem grisalho que acompanhava minha mãe agora há pouco me encarava enquanto arrumava as mangas de sua camisa social branca.

— E qual seria? Aliais, por que eu não deveria ver espíritos, se é um dos nossos... Poderes — a esse ponto meu cérebro havia dado um nó, mas ainda assim que queria ouvir o que ele tinha a dizer.

— O portal para o mundo espiritual está fechado, e sem ele nós não temos acesso aos espíritos, logo não deveríamos ver eles, mas eu acredito que você morreu na noite do acidente e que voltou à vida segundos depois, provavelmente abrindo uma pequena parte do portal para o mundo espiritual.

Definitivamente não era o que eu esperava escutar, eu queria poder encontrar um modo de negar ou simplesmente ignorar o que ele tinha dito, mas não consegui, talvez realmente aquilo tudo fosse verdade.

— Se isso tudo for mesmo real, por que você escondeu de mim? — questionei minha mãe frustrada.

— Eu estava com medo, nosso povo está em guerra a muito tempo e se eles ao menos descobrissem a verdade iriam te caçar e, eu não podia arriscar isso, então eu bloqueei sua energia por todos esses anos, mas depois do acidente ela voltou mais forte e então tudo isso aconteceu. Eu sinto muito minha flor! — ela segurou minha mão trêmula e deixou as lágrimas caírem de seus olhos, nesse momento eu soube que ela não estava mentindo, aquilo tudo era verdade por mais impossível que parecesse.

— Tudo bem mãe — eu abracei ela e dei um beijo em sua cabeça — Então meu pai era uma....

— Fênix? Sim, mas ele morreu na conflagração — falou o homem — Uma guerra para falar a verdade.

— Sabia que é rude desmentir boa parte da vida de uma pessoa sem que ela ao menos saiba seu nome? — falei o mais ríspida possível.

— Sou Henry Campbell, é um prazer finalmente conhecê-la — ele apertou minha mão firmemente e abriu um sorriso amigável — Elle, se não se importar, vou mostrar o refúgio para Gwen e explicar o resto da história — ele devia ser um bom amigo para chamar minha mãe pelo seu apelido.

— Tudo bem — ela murmurou se recompondo enquanto Henry me guiava para fora da sala.

— Acho que devemos várias explicações a você — apesar de sua beleza ele tinha um rosto rígido, como se não sorrisse há um bom tempo.

— Eu tenho certeza que sim — respondi enquanto observava os quadros pendurados nos corredores, eles pareciam extremamente antigos, mas não tinham um grão de poeira sequer — Seria legal que me contasse o começo de tudo isso.

— Bom, nós fomos criados muito antes dos humanos, dizem que quase na mesma época dos anjos, mas não é como se alguém já tivesse visto um deles — ele forçou um sorriso — Nós fomos responsáveis por cuidar do equilíbrio do mundo espiritual e do físico durante boa parte da existência humana, por isso existem dois tipos de fênix, as roxas e as vermelhas.

— Vocês podiam ter inventado uns nomes melhores, quer dizer, divisão por cores soa tão normal para isso tudo — talvez eu tenha sido um pouco grossa — Desculpe, é que essa coisa toda ainda é muito estranha para mim.

— Sem problemas — no mesmo instante, eu parei à frente de um lindo quadro, eram duas fênix, uma pintada de roxo e outra de vermelho, ambas pareciam se enfrentar e ao fundo o mundo estava em chamas, de um certo modo era fascinante.

— A conflagração foi entre as próprias fênix? — perguntei pasma após conectar os pontos.

— Parece que você entende as coisas rápido — ele comentou. — As vermelhas são responsáveis pelo mundo físico, e as roxas pelo mundo espiritual, tudo estava perfeitamente bem até o ano de 1803, quando nosso povo, as fênix roxas, descobriram um modo de trazer pessoas de volta à vida.

— Realmente trazer as pessoas que amamos dos mortos soa horrível... — zombei conforme entrávamos no que parecia a cozinha da casa, com um forno gigante assim como uma geladeira, mas o mais impressionante era o cheiro que emanava do cômodo, eu reconhecia perfeitamente, era o cheiro de pão recém saído do forno, que fez meu estômago roncar mais alto do que eu gostaria.

— Não acho que você esteja entendendo, o que eles fizeram vai totalmente contra as leis da natureza, nós temos duas regras básicas Gwen, não matar e não trazer de volta. Não matar porque isso nos enfraquece, tira nossos laços com o mundo espiritual, praticamente nos torna humanos e trazer de volta era completamente impossível, até aquele dia...

— Mas eles conseguiram, certo? — eu não entendia como trazer alguém de volta à vida poderia ser tão ruim, se eu pudesse trazer Astrid de volta eu o faria sem pensar duas vezes.

— Sim, mas o preço foi bem mais caro do que imaginavam. De acordo com os boatos eles trouxeram quatro pessoas de volta à vida, o problema é que elas já estavam mortas há muito tempo, suas almas estavam completamente perdidas no limbo sobrenatural e ao trazerem eles de volta, só uma pequena parte de suas almas veio junto.

— Espere um pouco, então se sua teoria de eu ter morrido e voltado a vida for realmente real, eu seria como um desses? Sem uma parte da alma? — só a ideia de pensar nisso me apavorava, eu já li vários contos sobre perda de alma e eles não eram nada agradáveis.

— Eu não tenho certeza, mas acho que não já que você deve ter morrido por alguns minutos e voltado, eles estavam mortos há anos, trazer eles de volta é uma completa atrocidade ao curso natural da vida — Henry parecia perturbado ao falar nisso, eu podia sentir o nervosismo dele se espalhando pelo local — No começo, todos pensavam que as fênix trazidas de volta eram normais e que não havia nada de errado no que nosso povo tinha feito, até o dia em que uma das aberrações surtou e matou um de nós, mas nada mudou, ele continuou com poderes e com a ligação ao mundo espiritual. Para falar a verdade, matar um de nós o tonou consideravelmente mais forte, foi aí que a atenção das fênix vermelhas foi atraída e eles começaram a caçar todas as fênix roxas, mesmo que fossem normais, eles nos queriam mortos.

— E onde essas aberrações estão? Não é como se eles fossem sumir de uma hora para outra.

— O que matou um de nós foi morto pelo conselho, que fez questão de expor a todos o que devia ser feito caso encontrassem um deles, os outros não fazemos a mínima ideia, dizem que sumiram desde o começo da conflagração e do fechamento do portal. Não é de se duvidar que eles tenham sido mortos ou presos pelo conselho.

— Então o conselho é mau? — era a única coisa que dava para se deduzir, após isso tudo.

— Não devia ser, ele foi criado no começo de tudo e era para ser uma espécie de solução para problemas com humanos e espíritos, ele sempre foi composto das fênix mais poderosas das linhagens mais antigas, como seu pai e sua mãe, todos nele têm poderes ampliados ou até mesmo poderes que ninguém jamais imaginaria, o problema é que eles acabaram sendo corrompidos com o tempo e com o acidente com as fênix roxas, não demorou muito para que as vermelhas assumissem e nos tirassem do jogo.

— E quando eles atacaram as fênix roxas elas perderam porque não podem matar, não é mesmo? — isso verdadeiramente me incomodava, inúmeras fênix roxas haviam sido mortas simplesmente porque não podiam matar como as vermelhas.

— Sim, nós tentamos conter elas, segurá-las de algum modo, mas obviamente não adiantou em nada... — seu semblante tinha ficado triste e com razão, eu nem podia imaginar quantas pessoas eles haviam perdido.

— Agora a pergunta do século, por que vocês não podem matar? Isso não é meio injusto?

— Porque matar torna uma pessoa impura em teoria e isso corta nosso laço com o mundo espiritual, que é o lugar mais puro de toda existência humana, logo nós perdemos nossos poderes, como se não fôssemos dignos deles.

Nós paramos e ficamos calados por uns instantes enquanto eu tentava digerir todas estas informações. Meu pai tinha morrido nessa conflagração e isso já era bastante coisa, mas eu ainda precisava saber sobre algo, ou melhor, alguém.

— Eu prometo que essa é minha última pergunta, mas é que Astrid segurou meu braço ontem de noite e pareceu realmente muito real, mas eu senti uma dor imensa quando ela fez isso, por quê? — eu mal conhecia Henry, nem sabia se podia confiar nele, mas ao menos ele tiraria todas as minhas dúvidas.

— Os espíritos podem consumir energia humana pelo toque e, quando Astrid te tocou, ela sugou uma parte da sua energia mesmo sem querer, por isso você desmaiou e sentiu tanta dor — Henry seguiu até a bancada onde percebi ter a tão sonhada forma cheia de pães, ele pegou um deles e começou a come-lo me deixando com água na boca.

— Ela parecia completamente perdida Henry... — era agonizante lembrar da imagem de minha melhor amiga na noite passada, eu queria poder fazer algo para ajudá-la, mas ela não estava aparecendo para mim desde que acordei aqui.

— Estar presa ao mundo espiritual deve ser enlouquecedor, são raros os humanos que ficam lá e não a muito que possa se fazer, a maioria das pessoas encontra a paz depois de um tempo, o espírito fica livre, mas algumas ficam aqui sofrendo, os humanos falam que são negócios não finalizados.

— Talvez você pudesse me ajudar a descobrir um modo de salvá-la e porquê eu realmente posso vê-la... — tentei fazer uma cara fofa ou persuasiva, mas a verdade é que era difícil eu conseguir fazer isso.

— Eu adoraria descobrir isso Gwen, mas não tenho certeza se podemos salvá-la — eu não conseguiria simplesmente deixar ela lá, eu iria atrás dela até no fim do mundo se fosse preciso.

— Talvez tenha um jeito, vocês descobriram como trazer pessoas de volta à vida, não? — me aproximei um pouco dele e olhei no fundo de seus olhos esperando um pouco de condolência da parte dele, mas pela sua expressão vaga ele não me ajudaria.

— Sim, e é por isso que estamos nesta confusão, não se pode salvar as pessoas da morte Gwen, acredite em mim eu sei disso melhor que todos.

— Eu sei... — eu me encostei na bancada e finalmente minha ficha caiu, ela estava morta e eu não poderia trazê-la de volta, mas vê-la ontem de algum modo ascendeu uma pequena faísca de esperança dentro de mim, talvez ela estivesse mais perto do que eu pensava.

— Vamos, tenho que te apresentar para algumas pessoas — em seguida ele abriu a porta gigante que dava para uma sala de jantar com uma mesa enorme e mais cadeiras do que eu poderia contar, todas elas ocupadas por garotos e garotas de várias idades e aparências, provavelmente haviam mais de vinte deles e não sei porquê, mas isso me lembrava o colegial, mais conhecido como inferno. Assim que Henry entrou, todos se calaram, olhando diretamente para nós. Definitivamente não era o tipo de coisa que eu gostava, preferia mil vezes estar procurando Astrid e não perdendo tempo com esse tipo de besteira.

— Pessoal, essa é Gwen Collins, ela ficará conosco por um tempo, então tratem ela bem! — de repente todos pareceram cochichar sobre algo, ou melhor sobre alguém, provavelmente eu.

Henry me guiou até o fim da mesa, onde me sentei ao lado de uma garota com um cabelo vermelho liso e longo, assim que sentei ela estendeu a mão para mim sorridente.

— Blake Banks, é um prazer conhecer você — seu sorriso era definitivamente acolhedor e seu rosto era delicado como o de um anjo, praticamente perfeito, além disso não demorou muito para eu perceber um sotaque diferente do meu, ela era de Londres, não tinha como confundir com o sotaque típico de lá. — Espere um pouco, meu irmão já deve chegar, ele vai adorar te conhecer.

Enquanto esperávamos o irmão dela, nos servimos com algumas batatas fritas e hambúrgueres, ao menos a comida era normal neste lugar.

— Lá está ele! — Blake apontou para um garoto no começo da sala vestido com uma camisa branca e uma calça de moletom, seu rosto estava um pouco embaçado pela distância, mas conforme ele se aproximava seu rosto ficava mais nítido e eu me lembrava que ele foi o idiota que colocou uma adaga contra meu pescoço essa manhã, ele deve ter me reconhecido porque logo antes de sentar ficou me encarando.

— Você! — falei com raiva, quais eram as chances do irmão de Blake ser um louco com uma adaga? Parecia que meu dia piorava a cada instante, a essa hora eu só queria sumir, ou me enfiar em um buraco.

— Você... — ele replicou sorridente.

— Aparentemente vocês já se conhecem — a irmã dele parecia terrivelmente chocada, até mesmo um pouco desapontada.

Era um pouco difícil dizer que os dois eram irmãos, as feições eram completamente diferentes assim como os cabelos, a única coisa que eles tinham em comum eram os olhos verdes e o sotaque.

— Seu irmão foi o louco que colocou uma adaga contra minha garganta hoje cedo — falei enquanto ele se sentava rindo.

— Está vendo Noah, é por isso que nós nunca fazemos amigos, porque todos nos acham estranhos e agora ela também acha isso.

— Não dê um chilique irmãzinha, eu não sabia quem ela era, se soubesse não teria feito isso — ele concluiu pegando sua porção de comida.

— Claro, você só faz isso com qualquer desconhecido que pise naquela biblioteca — retruquei.

— Tenho que admitir que tenho ciúmes daqueles livros, mas não sei se mataria alguém por eles.

Logo o almoço acabou e todos se levantaram em um alvoroço, cada um indo por uma direção. Eu esperei que todos saíssem para me levantar, com medo de que eu fosse pisoteada. Blake acabou por me esperar e obrigou o irmão a fazer o mesmo, o que obviamente ele não tinha gostado.

— Vocês não precisavam ter me esperado — tentei soar o mais amigável possível.

— Bom, nós não temos mais nada apara fazer e eu já estou cansada de ficar olhando Noah lendo.

— Eu só estou aqui porque você praticamente me forçou a ficar — Noah fuzilou Blake com os olhos verdes mais parecidos com esmeraldas.

— Não ligue para ele, ele só liga para aqueles livros — Blake falou dando uma tapinha em meu ombro.

— Eu posso ouvir isso — o moreno reclamou causando uma série de risos meus e de Blake conforme íamos de volta para a biblioteca, que estava completamente vazia.

— Ninguém gosta de ficar na biblioteca? — perguntei caminhando por ela.

— Está mais para, eles sabem que provavelmente Noah está aqui, então eles evitam o lugar.

— Por que eles têm tanto medo dele assim? Quer dizer ele tem uma cara ranzinza e é bem alto, mas eu já vi piores.

Ambos olharam um para o outro por alguns segundos, como se estivessem tendo sua própria conversa, assim como eu fazia com Astrid e nunca tinha visto mais ninguém fazer, eles pareciam se entender melhor que qualquer um.

— Noah é meio briguento, ele já deu uns socos em alguns garotos, é grosso, parece um troglodita — Blake falou nervosa.

— Sei... — respondi distraída ao ver um porta retrato em uma pequena estante, na foto estavam minha mãe e ao seu lado meu pai, que eu reconhecia de algumas fotos que minha mãe me mostrou, além deles Henry também estava presente junto de uma mulher, ele estava bem mais novo com o cabelo ruivo, e o sorriso brilhante, todos eles pareciam bem felizes. — Vocês sabem onde posso encontrar Henry? Ele disse que ia me ajudar com algo.

— Geralmente ele fica no pátio à tarde, ele treina alguns de nós.

— Treinar para que?

— Você não sabe? — perguntou ele largando o livro que lia.

— Eu devo ter esquecido de mencionar, mas eu descobri todo esse mundo estranho hoje, então tenho certeza que não sei de muita coisa.

— Como assim? Seu pai é Isaac Collins, você mais que todos nós devia saber sobre esse mundo — Blake falou.

— Sinto muito te desapontar, mas aparentemente meus pais não acharam importante citar essa parte da minha vida.

— Então você não sabe quem seu pai era? — Noah indagou com um interesse assustador.

— Só sei que ele morreu durante uma batalha e que ele era um de... Nós.

— Você sabe a parte sem graça, o que seu pai realmente fez você não tem ideia — Noah parecia fascinado com meu pai morto, só espero que ele não seja um filho perdido dele — Seu pai era o líder do conselho que costumava organizar as fênix, destinar missões e coisas do tipo, quando ele soube do que aconteceu ele foi contra todos os outros do conselho que queriam nos extinguir. Ele criou esse lugar, Gwen, e salvou todos nós.

— Ele parecia um cara bem... Legal — falei tentando conter algumas lágrimas, estava cansada de chorar, tinha prometido a mim mesma que não iria mais fazer isso.

— Nós devemos nossas vidas a ele, seu pai era um herói — Noah parecia tentar me animar, mas ele não tinha tido sucesso, eu precisava me distrair e conseguiria fazer isso indo atrás de Astrid.

— Isso ainda não responde o porquê de Henry estar treinando alguns de nós —mudei de assunto rapidamente, eu não aguentaria mais um segundo falando sobre meu pai morto.

— Bom, eu tenho treinamento em quinze minutos e te levo até lá, assim pode ver com seus próprios olhos — o garoto moreno já ia até a porta conforme eu me levantava da poltrona, ele parecia esquisitamente apressado.

— Não deixe ele fazer nenhuma besteira — gritou Blake conforme nos distanciávamos em direção a sala de estar.

— Esse lugar é gigante, mas como todos esses adolescentes cabem aqui? Eu não vi muitos quartos.

— Bom, isso é porque você não chegou no segundo andar, mas as pessoas dividem quartos, eu divido um com Hunter, um dos meus poucos amigos e Blake divide um com uma garota chata, para se dizer no mínimo — ele abriu duas portas grandes que davam para a sala de estar, que aparentemente já estava cheia com várias pessoas conversando, vendo televisão e jogando vídeo games, mas no instante em que passamos por eles, todos pararam e nos encararam como animais prontos para o abate.

— Você não faz jus ao nome que tem ficando com esse tipo de pessoa, Collins — uma voz rouca veio em nossa direção, era um garoto mais parecido com um armário de tão grande, com um cabelo meticulosamente arrumado e olhos profundamente pretos que nos fuzilavam.

— Eu nem te conheço, mas você parece fazer jus a cara de imbecil que tem — retruquei passando por ele que segurou meu pulso.

— Solte ela ou eu faço churrasquinho de você Mark! — Noah avançou e pude perceber seus pulsos se cerrando bem no momento que Mark me soltou, deixando a dor fluir por meu pulso avermelhado, eu realmente poderia dar um soco nesse idiota.

— É melhor tomar cuidado garota, se não vai acabar que nem seu pai — praticamente fui arrastada para fora da sala por Noah, que me fez passar pelo jardim rapidamente, sem nem mesmo olhar para trás. Se ele não tivesse feito isso eu provavelmente teria pulado no pescoço daquele idiota.

— Qual é a daquele garoto? Esqueceram de comprar o gel de cabelo dele? — meu pulso estava avermelhado e dolorido, definitivamente aquele garoto era forte.

— Henry está ali, acho que junto com sua mãe. — ele simplesmente cortou minha pergunta e apontou para os dois conversando perto de um grupo de adolescentes que.... Lutavam com o que parecia ser um fio de luz branco.

Logo me apressei para chegar até eles que sorriram ao me ver, eles pareciam estranhamente próximos.

— Como você está? — perguntou minha mãe.

Confusa, nervosa, com uma grande dor de cabeça e com um pulso dolorido, mas eu superaria tudo isso.

— Bem, eu acho... — respondi olhando de relance para os garotos que brincavam com vários fios de luz brancos, eu podia jurar que eu queixo havia caído neste exato instante.

— Acho que esqueci de mencionar esta parte, nós temos a habilidade de mexer com energia, cada um tem a sua para manipular, mas também podemos manipular a de outras pessoas. É claro que com o portal fechado nós ficamos mais fracos — Henry explicou.

— Parece bem legal... Por acaso você esqueceu de mencionar mais alguma coisa? Tipo, que nós podemos engolir espadas ou fazer coelhos saírem de cartolas — os dois deram risadas secas e se entreolharam me dando a certeza que eles tinham esquecido de algo, o que por algum motivo havia me deixado tensa.

— Você ainda precisa aprender muita coisa, talvez seja melhor que leve seu tempo, mas se vale de algo, nós somos meio que imortais, temos reflexos reforçados, somos mais rápidos e habilidosos... — minha mãe falou isso como se fosse a coisa mais natural do mundo, mas não era, muito pelo contrário eu ficava mais surpresa a cada minuto, é claro que eu não iria deixar isso a mostra.

— Tudo bem, acho que depois da parte em que eu morri e voltei a vida nada mais me assusta, só não entendi como eu poderia ter morrido se aparentemente sou imortal...

— Nós podemos ser mortos, por espadas, acidentes ou até doenças, mas nosso ciclo de vida é bem maior, nós envelhecemos mais lentamente, logo vivemos mais.

— Quantos anos vocês têm por acaso?

— Acho que oitocentos e poucos, nós meio que paramos de contar há algum tempo — Henry e ela sorriram provavelmente em uma tentativa de tornar isso menos constrangedor.

— Como é possível que eu tenha nascido? Quer dizer, eu teria que ser bem velha, não?

— Não, porque eu e seu pai tivemos você há exatos dezoito anos atrás. Geralmente nosso povo tem filhos no auge de sua idade, mas como éramos do conselho fomos privados disso, depois a conflagração veio e todo esse problema do refúgio trezentos anos se passaram voando e então acabamos deixando nosso projeto de uma família de lado, o problema é que a essa altura eu já estava grávida de você, é claro que seu pai não sobreviveu para vê-la...- só de mencionar meu pai eu podia sentir uma certa tristeza da parte dela, eu não devia nem ter tocado no assunto, mas a verdade é que agora que eu descobri a real história sobre ele, eu queria saber quem ele foi e tudo que ele fez, já que ele eram tão maravilhoso para todos eles.

— Bom, acho que depois dessa você nunca mais vai poder ficar brava por eu te chamar de coroa. Agora que isso foi esclarecido queria saber se você me emprestaria Henry para ir atrás de Astrid e talvez de um certo portal, se você quiser se juntar a nossa aventura... — fitei ela fazendo minha melhor cara de cachorro abandonado.

— Eu não vou ficar aqui por muito tempo, vou atrás de algumas fontes minhas, quero saber se o conselho está atrás de você — ela respondeu

— Não pode mandar outra pessoa fazer isso? Não acho que eles saberiam que eu posso ver minha amiga morta tão rápido assim, talvez eles nem liguem — insisti.

— Não exatamente, o conselho tem olhos e ouvidos em todos os lugares e eu prefiro não pagar para ver sua cabeça em um espeto já que Henry tem suspeitas de que você tenha aberto uma parte do portal — definitivamente não era algo legal de se imaginar.

— Tudo bem, agora se não se importa, eu e ele temos que caçar minha amiga morta — em nenhum lugar aquilo soaria normal, mas aparentemente aqui soava.

— Vou trocar de roupa, avise Blake Banks que quero que ela vá conosco — Henry falou enquanto se apressava.

— Aonde nós vamos? — gritei.

— Vamos no lugar do seu acidente — ele berrou de volta entrando na casa.

— Perfeito... Tudo o que eu queria era voltar aquele lugar — reclamei.

— Não se preocupe Henry não vai deixar que nada de mau aconteça.

— Como você pode confiar nele tanto assim? Tudo bem que ele é charmoso e legal, mas...

— Henry sempre ajudou seu pai e a mim, eu devo minha vida a ele Gwen, é claro que eu vou confiar nele — ela parecia quase insultada que eu tivesse falado nisso, mas era algo que me incomodava, eu nunca confiei nas pessoas do jeito que ela confiava, para mim todos podiam rapidamente trair uns aos outros. — Mas não quero que se sinta forçada a confiar nele, leve seu tempo, aliais pegue isso — ela me entregou o mesmo livro que eu tinha jogado na mesa mais cedo. — Isso explica tudo sobre nós, agora é melhor você ir, eles devem estar quase prontos. Ah! eu trouxe algumas mudas de roupas suas para cá, mas no meio da semana deve ter que pegar mais então não esqueça de passar em sua casa, ou vai ficar sem roupas.

— Eu não posso passar em uma loja e comprar algumas novas? — preferia gastar o pouco dinheiro que me sobrara no banco do que ir na minha casa, por mim eu nunca mais voltaria para aquele lugar.

— Tudo bem, tenho certeza que todos vão adorar você usando as mesmas roupas por mais de um mês, o cheiro inclusive será maravilhoso.

Eu simplesmente assenti, não ia continuar essa discussão e perder mais tempo, eu tinha que achar Astrid, algo me dizia que ela precisava de mim.

Notas finais
Espero que tenham gostado, não esqueçam do comentário que ajuda bastante!!