Como dizia minha mãe, o mundo não é mais como antigamente. Hoje entendo o que ela queria dizer com esta frase.

Olhar pela janela deixou de ser prazeroso há anos. Através dela, tudo o que vejo não passa de mera frustação, ódio, rancor e principalmente ganância. O homem perdeu seus valores para o dinheiro. Deixou toda a generosidade ser substituída por um programa de tv. A gentileza que antes era presente no nosso dia a dia, passou a ser ignorada e também substituída. O noticiário agora se parece como um filme de terror. Nada além de guerras e assassinatos. O rancor reina como nunca.

Pode ser que a minha velhice tenha um papel muito grande em todo meu mau humor, mas ultimamente todo tipo de atitude está me irritando profundamente. Semana passada, encontrei a Sra. Elsa no elevador. Enquanto descíamos, ela insistia em me contar detalhes sobre uma novela. Disse a ela que não assistia a TV e então, não satisfeita, ela passou a dizer que assistir TV seria bom na minha idade. Ao sair do elevador, chamei-a de estúpida e saí em direção ao mercado.

Faz sete dias que não tenho contato com o mundo exterior. Passei a ser chamado de “mal humorado” pelos corredores do prédio. Outro dia ouvi uma mulher dizer para uma criança na frente da minha porta:

-Não faça barulho! Aí mora aquele velho rabugento!
Senti vontade de correr atrás dela, mas me contive ao imaginar o que encontraria: uma mulher de meia idade, muito bem vestida e cheirosa, mas sem dúvida, vazia por dentro.

Tudo o que tenho na minha vida se resume a um apartamento apertado e mofado, uma poltrona onde minha esposa costumava fazer tricô e um gato velho que um dia pertencia às ruas, o Epaminondas. Todos os dias, sento em minha poltrona com o felino no meu colo e fico observando o mundo pela minha janela. Não por ser prazeroso, apenas para alimentar o ódio que cresce em meu peito.

Certo dia, enquanto assistia a uma briga de trânsito pela janela, escuto três leves batidos na minha porta. “Ah, que saco”, foi o que pensei logo de cara. Sabia que não era boa coisa. Nunca é. Ao abrir a porta, me deparo com três figuras jovens, talvez estudantes. Todos vestidos com uma camiseta que dizia: “Seja solidário, ajude um idoso!”. Duas meninas e um garoto. Meninas lindas, diga-se de passagem, uma com o cabelo cacheado, castanho. A outra era loira, com olhos verdes. O garoto era meio desmilinguido. Tinha cabelos curtos e usava aparelho.

-Boa tarde, senhor! –Disse a menina loira, com um sorriso altamente fingido. Com certeza estavam sendo obrigados a fazer aquilo.
-Talvez para você. –Respondi. – O que querem?

O menino fez uma cara de desapontamento. Obviamente eu era o primeiro idoso sincero que ele encontrou. A menina de cabelos cacheados pigarreou e continuou:

-Então senhor, somos do grupo Solidários de Plantão e estamos com esta campanha – disse ela apontando para a camisa. -Gostaríamos de fazer algumas perguntas. Podemos?

-Não! –E então bati a porta com força. Após alguns cochichos, ouço mais batidas na porta. Abri a mesma com uma expressão de completo desgosto. Antes de poder dizer nada, o menino começou:

-Senhor, não queremos fazer isso tanto quanto o senhor, se o senhor colaborar, podemos liberar o senhor o mais rápido possível.
Me perdi quando ele disse o terceiro “senhor”. Olhei para ele com a pior cara que já fiz em toda em minha vida e respondi lentamente:

-Sabe o que eu sinto ao olhar para seus rostos acompanhados desta camisa ridícula de vocês? Nojo. Completo desprezo. Antes de tentarem ajudar alguém, ajudem a si mesmos. Querem ser solidários comigo? Ok, simples: SAIAM DA MINHA FRENTE! – e bati a porta novamente, desta vez com mais força. Alguma das meninas soltou um palavrão. Estava prestes ao abrir a porta novamente quando escuto o barulho do elevador abrindo as portas. Foram embora.

As pessoas devem se perguntar o motivo de tanto rancor guardado em mim. Simples: o fato de algumas pessoas se acharem melhores que outras é um ótimo motivo. Solidariedade não pode ser achada em qualquer canto. Ela simplesmente existe, não pode ser exigida nem cobrada. Muito menos de crianças como estas, afinal, nem maturidade o suficiente para ter uma mente aberta elas têm. Querem ser estúpidos? Podem ser. Só não me peça para aceitar tamanha ignorância.