Notas iniciais
Espero que continuem gostando. Desculpem a demora. Aproveitem a leitura e não deixem de comentar logo em seguida!

Hoje eu acordei mais desanimado que o comum. Olho pela janela: uma tarde ensolarada de sábado. Como de costume, tomei meu café, alimentei Epaminondas e sentei-me diante da janela. Por algum motivo, sinto-me muito mais fraco que os últimos dias. Pensei várias possibilidades para tal fato, a mais plausível era que eu estava há muito tempo em casa, um pouco de sol faria bem.

Peguei meu chapéu e saí. No elevador, infelizmente encontrei com a Sra. Elsa de novo. Ao me ver, ela fez uma cara de desgosto e me ignorou. Graças aos deuses! Fui em direção ao parque que havia ali perto. Ao chegar, me arrependi instantaneamente de ter vindo. Pessoas "alegres" fazendo piqueniques, crianças correndo. Mas a primeira coisa que avistei foi um mendigo. Sentado num banco. Isolado do mundo. Fui até ao banco onde ele estava e me sentei. O sol estava forte. O mau cheiro dele também. Ele me olhou desconfiado. Talvez com medo. Olhei de volta e, surpreendendo a mim mesmo, perguntei:

–Não te revolta olhar estas pessoas supostamente felizes simplesmente te ignorando? — O mendigo não parecia acreditar muito que um senhor estava realmente falando com ele.

–Com o tempo você se acostuma. -respondeu ele, sério. Parecia cansado e com fome. — As pessoas olham tanto pra si mesmas, que acabam se esquecendo do que está à volta. E já que todos pensam assim, eu me forço a fazer o mesmo: esquecer-me deles.

Fiquei um pouco surpreso com a resposta dele. Geralmente os mendigos não costumam ter uma visão dessas do mundo. Queria ajudá-lo. Nunca pensei que faria isso. Mas eu o convidei para um café, por minha conta, claro. Apesar de muito desconfiado, ele por fim aceitou. Fomos a uma lanchonete ali perto. Pedi um suco de laranja para mim e dois salgados para o homem.

–Qual o seu nome, rapaz? -perguntei.

–Fernando, senhor. -respondeu-me o homem, entre uma mordida e outra. Mal tinha fôlego para conversar. Esperei-o terminar para continuar a conversa.

–Você fala muito bem, Fernando. É estudado? -perguntei logo de cara.

–Terminei o segundo grau antes de parar aqui...

–E o que te fez ficar deste jeito? -as pessoas na lanchonete não paravam de me olhar com cara de espanto.

–Meus pais se separaram quando eu tinha 17 anos. Minha vida era um inferno. Minha mãe trabalhava muito e não tinha tempo para conversar comigo. Eu tinha muitos problemas na escola. Então resolvi procurar conforto nas drogas. Me droguei por dois anos. Minha mãe descobriu e passou a brigar muito comigo. Eu estava muito revoltado na época para aturar aqueles sermões. Decidi sair de casa. Passei a traficar para me manter. Até que um dia fui pego por alguns caras que acabaram comigo. Fiquei sem casa, sem dinheiro e sem mãe. -neste momento vi uma lágrima escorrer pelo rosto do rapaz. Nunca me senti tão comovido e revoltado ao mesmo tempo. As pessoas não ligam mais para o amor, vivem "alegres" ignorando um rapaz que tem uma vida tão amargurada. Por fim, não sabia o que responder a ele. Apenas disse que ele não merece o mundo que vivemos. Comprei mais um salgado e dei a ele, para comer a noite. Me despedi com um aperto de mão e fui para casa.

...

Os seres humanos passaram a subsistir, pois a vida não é mais prezada. A vida deixou de ser vivida. Nós somos movidos por sentimentos, não só os bons, é claro, mas por todos os sentimentos no geral. Quando tais sentimentos começam a diminuir, o homem passa a ser medíocre. Vive por viver. Não sonha mais. Passa a não viver, e sim, sobreviver.

A sociedade em que vivemos atualmente, não liga mais para os valores, para os sentimentos que nos movem, portanto, passam a ignorar situações que podem ser rotineiras, mas extremamente importantes. Ainda ouço os comentários que me foram lançados enquanto conversava com o Fernando na lanchonete. Pessoas que aparentemente tem tudo para serem felizes, mas apenas sobrevivem, pois não tem mais ambições para serem vividas. Os olhares vagos e espantados de tais pessoas dirigidos a mim. O que é surpreendente, afinal, o mendigo era ele. Mas parece que este fato não faz mais diferença pra eles, porém, é esquisito ver um senhor de idade conversando com um mendigo numa lanchonete.

Naquele dia, voltei pra casa um pouco confuso sobre meus próprios pensamentos. O que deveria sentir por Fernando? Medo? Nojo? Admiração? Simplesmente não sabia. Cheguei em casa, me aconcheguei em minha poltrona com Epaminondas no meu colo e fiquei "admirando" o que minha janela tinha a oferecer. Enquanto olhava a mediocridade reinar lá fora, uma resposta veio a minha mente: eu deveria conversar mais com Fernando para obter a resposta para todas minhas outras perguntas. Decidi que deveria ir para o parque todos os dias no mesmo horário, para tentar o encontrar novamente. E assim foi.

Na segunda feira, levantei mais animado que o comum. Fernando não me saía da cabeça, a esperança de existir alguém que pensasse da mesma maneira que eu era fascinante.

Não fiz nada além de alimentar meu bichano antes de sair de casa. Cheguei ao parque antes do sol ir à pico. Sentei-me no banco onde encontrei Fernando no sábado. Estar ali era muito mais torturante do que olhar de minha janela. As coisas que eu via, estavam começando a me irritar profundamente, mas quando isso ocorria, forçava-me a lembrar da conversa que tive no sábado, aqui neste mesmo lugar.

Algumas horas se passaram e não via nada além de pessoas vazias jorrando falsidades em todos que encontravam. Decidi andar um pouco e depois voltar, ainda tinha que comprar comida para Epaminondas. Fui andando entre buzinadas e berros até chegar ao mercado. Não demorei muito fazendo minhas compras, peguei a comida para o meu gato e algumas torradas para mim. Como de costume, fui em direção ao caixa preferencial, afinal, quanto mais rápido sair daqui, melhor. Ao chegar ao caixa, vi uma pequena fila. Mas ao invés de ver algumas velhinhas ou gestantes, vi nada mais, nada menos do que o grupo do "Seja Solidário, ajude um idoso!". Ao me ver, deram algumas risadas e me ignoraram.

O ódio já começava a me consumir novamente. Mas me contive. Resolvi perguntar a moça que estava no mesmo caixa:

–Com licença, este é o caixa preferencial? — Perguntei tentando parecer gentil. Apenas tentando.

–É sim, senhor. — Respondeu-me lindamente a moça.-

–E por qual motivo estas crianças estão aqui? — O ódio achou o lugar dele no meu cérebro, e começou a agir. Sussurrando, continuei: — Ah, elas são doentes mentais? — Perguntei com cara de pena.

Antes que eu pudesse fazer mais nada, a menina de cabelos loiros dirigiu-se a mim:

–Quem o senhor pensa que é?

–Eu sou um senhor de idade que está tentando passar no caixa prefencial. E você, sabe pensar? — A menina me olhou furiosa, seus olhos arregalados de ódio. Quase que eu disse: "Posso fazer isso também, tá, querida?"

Em instantes, um homem bem vestido se juntou a nós, perguntando:

–O que está acontecendo aqui?

–E o que você tem com isso? – Perguntou a menina de cabelos cacheados, os olhos vermelhos de ódio.

–Bom, eu sou o gerente do estabelecimento, vou ter que pedir para que vocês se retirem, por favor. De fato este é o caixa preferencial, vocês têm outros seis caixas para passarem.

“Bem feito”, pensei. Estava prestes a dar gargalhadas quando eles saíram da fila, esbarrando em mim propositalmente. Preferi não fazer nada. São crianças não é mesmo?

Passei minhas compras normalmente. E ao sair do mercado, ainda ganhei um pedido de desculpas. Olhei em volta, mas não consegui avistar as crianças. Melhor assim.

Voltei ao Parque e fiquei mais algumas horas lá. Mas nada de ver o Fernando. Decepcionado, voltei para casa. Meus pensamentos encontram-se desorganizados e não param de correr de um lado para o outro em minha mente. A ansiedade e a alegria me fizeram crer em algo que claramente não era real. Por qual motivo o Fernando confiaria em mim? Por qual motivo eu acreditaria que poderíamos criar algum vínculo? Neste momento, eu percebo que minha alegria transformou-se em tristeza.

Notas finais
Espero que não tenham erros de formatação nem digitação! haha Enfim, importante: Vou postar um capítulo a cada duas semanas. Sempre na segunda feira. Sei que é muito tempo, porém, não conseguirei escrever tão rapidamente para postar antes. Tomara que entendam! Por favor, se tiverem ideias, comentem! E digam o que acharam, por favor! :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.