Notas iniciais
O último. Deem adeus a Diário do Silêncio, pessoas ;-;

"O silêncio é uma confissão." — Camilo Castelo Branco.

Quando passei pela porta de entrada como um vulto, arfando e suando, não consegui dar explicações à minha mãe, que estava parada atônita, olhando para mim de olhos arregalados, frente a frente com Jesse.

“Não tenho tempo para explicar” Sinalizei rapidamente com as mãos, tirando o tênis e correndo escada acima.

No entanto, antes de pisar no quarto degrau, voltei rapidamente, parando no pé da escada e fitando a figura na cozinha que me olhou de volta, sorrindo.

Jesse, com os mesmos olhos cinzentos e cabelos castanhos estava ali, virado de frente para mim com a expressão de “eu sou o melhor irmão mais velho do mundo” e não o que deveria ser “Ah, ei, Elliot. Bem, desculpa ter ido embora para New Jersey há dois anos e ter te abandonado sem dar nem um tchau para você, para mamãe ou para qualquer membro da família que, de fato, se preocupava comigo, mas que agora preferem fingir que eu não existo e que você é filho único. Pois, veja, eu sou um cara desgraçado e não mereço ter o mesmo sangue que um rato.”

“O que você faz aqui?” Perguntei, frio, movendo minhas mãos de modo que transmitisse o remorso junto à minha expressão.

O sorriso dele cessou. O maldito sorriso torto.

“Pelo jeito até você me odeia, né?” Moveu os lábios e as mãos. Isso me lembrou os tempos antigos, já que ele foi quem me ajudou a aprender os sinais, muito tempo atrás. “Não se preocupe, só vim dar um oi, já estou voltando.” Levou a mochila ao ombro e começou a andar até a porta. “Bem, foi boa a conversa, mãe.” Disse para ela, virando-se para mim no fim. “Até mais, irmãozinho”

E deu mais um passo até a porta.

Eu intervim.

Me pus na frente da porta antes que ele ousasse tocar a maçaneta. Estava tremendo, tudo em mim tremia. Raiva, sim, estava com uma raiva capaz de explodir o mundo. Meu maxilar ficou rígido e tenho certeza que meus olhos estavam frios.

“Você pensa que pode simplesmente aparecer aqui do nada, ser o idiota de sempre e simplesmente ir embora?” Movi os braços trêmulos com fúria. Jesse recuou. “Você é mesmo um grande desgraçado! Como pôde fazer isso? Você ao menos pensou na mãe ao simplesmente aparecer aqui? Melhor, pensou na mãe quando simplesmente foi embora?!”

Mas que droga, hein, Elliot? Por que chorar? Mostre que você é forte e mova os braços com fúria e ódio! Bora, garoto!

Jesse ia falar algo, não parecia feliz em me ver chorar ou talvez não estivesse feliz por eu estar na porta atrapalhando sua passagem, não sabia dizer. No entanto, a última coisa que precisava era que o infeliz me visse chorar, então tudo o que fiz foi correr escada acima de novo, não dando a ele a chance de dizer nada, a não ser me ver ir embora assim como ele foi.

Um tanto idiota de minha parte, já que fui eu quem impediu sua passagem e que agora virava as costas para com a maior dramatização. Vendo isso como passado, percebo o quanto a raiva é irracional.

Mas mesmo assim,

Jesse apenas merecia o meu silêncio.

[...]

Certo, meu dia subiu e desceu em níveis demais. Na verdade, foi um dia dramático demais, e drama por muito me deixa irritado. Odeio filmes dramáticos, e aquele dia daria um filme dramático chorão demais.

Começou com Cassie falando sobre minha surdez definitiva e sem conserto. Depois se descontraiu e ela me levou à um café, depois houve brilho ao achar que ela estava apaixonada por mim, depois recebi minha resposta à uma antiga pergunta importante, depois ela surtou e correu com garras e presas atrás de mim por cinco quarteirões, até eu conseguir despistá-la em um sinal — que por sorte havia aberto quando ela tentou passar — e depois cheguei em casa e me encontrei com um irmão delinquente que eu não via há dois anos.

Daria um livro falido, minha bela história de dia.

Sentei no chão do quarto, de costas para porta. Havia magicamente parado de suar, e respirei fundo para controlar a fraca raiva que ainda fazia minhas mãos tremerem. Enxuguei meu rosto com a manga do casaco e decidi que não iria me deixar levar pela infelicidade que Jesse trazia por onde ele passava. Pisquei, respirei e esqueci.

Mentira, não esqueci, não é tão fácil esquecer os problemas, mesmo que você queira. É a vida, diga o contrário e morra.

No entanto, é fácil tentar buscar distração para pôr os problemas em segundo plano. Era isso que eu tinha em mente ao meter a mão na mochila e tirar de lá o envelope agora amassado que continha a resposta ao enigma da vida.

Me preparei para lê-lo e o abri.

...

“Elliot,

O silêncio que você tanto busca saber não é algo tão complicado quanto imagina, ou talvez seja tão complicado que pareça simples demais, vá entender, tudo parece ser complicado e simples em diferentes níveis. O silêncio é algo complexo, confuso, mas não complicado. Não sei como deve soar o seu silêncio, mas o meu e o de muita gente, é simplesmente um grande nada. Sim, um nada, pode se desapontar.

Um vazio sem movimento e parado, um nada, um silêncio.

No entanto, o nada é apenas o que eu diria ser a ponta de um iceberg. Veja, o nada sempre é algo, pois ser o nada é ser algo, então se você pensar assim, tudo sempre será algo e todo algo surge de um nada.

Você, eu, os sons. Tudo surge de um grande nada, de um grande silêncio.

Aliás, as melhores ideias vêm do silêncio e sendo assim, todas as ideias surgem do nada.

Tudo é nada.

Tudo é silêncio.

E essa é minha resposta.

O silêncio é tudo.”

...

Acho que fiquei alguns segundos inconsciente conscientemente, lendo e relendo aquelas palavras de modo que as absorvesse, esperando que a tinta da caneta azul penetrasse minha vida e me matasse intoxicado.

Cassie era louca. Totalmente sem-noção.

Apertei a página contra meus dedos com força. Notando que muitos dos meus pensamentos antigos se quebravam mesmo eu tentando achar argumentos para sustentá-los. Digo, a opinião de Cassie sobre silêncio era esplêndida e suas palavras eram bonitas, o que me fazia querer abraçar aquilo. Palavras bonitas é vida.

Sorri, meu Deus, eu estava totalmente e perdidamente apaixonado por Cassie Milton.

Haha, que lindo, hormônios adolescentes. Muito obrigado, vocês são maravilhosos por plantar uma paixão platônica na minha vida.

Virei a folha ao contrário, explodindo em felicidade ao achar ali mais um pequeno texto na caligrafia de Cassie. E certamente com um conteúdo que, após ler, me deixou mais eufórico do que a resposta à mais importante pergunta da história de Elliot Hathaway.

Na verdade acho bom colar a página aqui. O triste porém, é que o tal texto fica de costa ao belo texto-resposta que eu amo e quero absorver no meu ser.

E bem, se acho o texto resposta tão importante, significa que se eu colar o texto de trás para cima, este texto é mais importante ainda.

E com grande dor, acabo fazendo exatamente isto.

Engoli em seco. Meu. Deus.

Eu, definitivamente, amava ser surdo. Cassie amava que eu fosse surdo

E é, eu estava apaixonado por ela.

E é, eu deixei o texto da sua declaração para cima, e fiz o texto-resposta sem engolido pela cola e o outro papel. Se eu me odeio por isso? É claro que sim!

Agora vou ali me lamentar, depois volto aqui.

Notas finais
Haha, ainda há o epílogo. O epílogo é bem, bem curtinho e vai querer fazer vocês me matarem, mas ferre-se a dandkankdsnalkdkjasbdklsmç,lçaxz Então, o que acharam da resposta de Cassie? Estão desapontados? Sobre Jesse, caso achem que o plot com ele ficou um tanto inútil para a história, saiba que não, caros mortais. Estou fazendo um desafio comigo mesma (mais sobre isso no meu perfil) em que farei relações nas minhas histórias. Jesse é importante para uma história futura, então é isso, ele é inútil para isso aqui, mas é bem útil para minha vida c: Ok, até o epílogo. Ah, a folha da texto da Cassie tem umas manchas brancas por baixo de algumas palavras. A questão é que eu errei quando fiz a edição porque sou muito idiota, então passei o pincel branco e resolvi fingir que a Cassie tinha usado corretivo. Lindo, não? Bem, até o próximo. Me despeço lá.