Diário do Silêncio
11 Depois do Fim
Notas iniciais
"Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio — e eis que a verdade se me revela."
– Albert Einsten
Querido diário feio,
Acho que essa é a primeira vez que começo com um “Querido diário”. Por mim continuaria sendo sem o “Querido diário” — já que eu não o acho querido para mim, desculpe. Mesmo depois de tudo o que passamos juntos ainda não consegui gostar da sua capa. Você podia ser novinho e bonito, mas como é feio e rasgado, vou continuar não simpatizando muito com você. Cara, eu sou muito cruel —, mas eu costumo ser bondoso com pessoas ou coisas que estão prestes a morrer. Sim, você está prestes a morrer, caro amigo que me suportou por 200 páginas.
Apenas quinze páginas em branco separam você de sua morte prematura e incerta, sinto muito. Para dar um apoio, estou escrevendo com letras bem pequenas — não que isso ajude muito, levando em consideração que eu estou enrolando e já gastei quase uma página só aqui.
De todo modo, é melhor ir logo ao ponto. Hoje é segunda-feira, 20:00 da noite. Hoje encontrei Cassie pela manhã. E hoje passei grande parte do dia lamentando ter colado o texto-resposta para baixo. Grande parte do dia = o dia todo.
— Cassie! — Gritei, saindo do carro ao ver o pontinho azul distante trajando uma bermuda e um moletom. Sem nem me despedir de minha mãe, corri, gritando uma última vez: — Cassie!
E quando ela virou para mim com olhos queimando em raiva e franzo no cenho, soube que estava muito, muito ferrado.
E sim, isso foi uma mentira.
A verdade é que só soube que estava muito, muito ferrado quando ela socou o meu nariz com força, praguejando que eu era um desgraçado e que ela me odiava.
Para deixar claro, meu nariz não sagrou, o que eu considero uma vitória, porque acho que a intenção dela era realmente me matar. No momento em que o punho dela acertou meu rosto e eu, na minha dose de frescura suprema caímos sentados no chão, pensei em chamar a polícia. Aí parei para pensar e concluí que não gostaria que meu namoro com Cassie começasse com ela indo para cadeia, então respirei fundo e larguei a frescura.
“Você... Você! Ah!” Resmungou irritada. “Você leu, não leu?”
Meio hesitante, com medo de levar um chute na cara, acenei positivamente com a cabeça.
“Não fale nada” Apontou o dedo na minha direção, enquanto me levantava.
Acho que aquela foi a frase mais estúpida do dia. Não era como se eu conhecesse muitas frases para poder falar ali, então pedir para que eu não falasse nada era uma obviedade.
Será que “Você não faz ideia” cabe no momento?
“Olha, podemos fingir que o que você leu não foi lido por você?” Perguntou, mexendo os dedos. Ela falou rápido demais, mas acho que já me acostumei e passei a entender.
— Não.
Naquele momento ela ficou vermelha. Juro, caro amigo-quase-morto-diário, que na minha mente ela havia ficado com vergonha e pela primeira vez não era eu o envergonhado da situação. Na verdade, quase dei um pulinho de satisfação. Isso, até perceber que o vermelho no seu rosto era de raiva e não de vergonha.
“O que você pretende fazer então, babaca?” Fez careta, mostrando a língua para mim.
Cassie era uma pessoa muito infantil. Mas estava tudo bem, certo? Ser infantil não era o pior dos seus defeitos (não que eu insinue que você tem muitos defeitos, querida Cassie que-eu-espero-que-não-esteja-lendo-isso)
Sorri, pegando você (resumindo: desperdiçando uma valiosa folha da sua vida) e escrevendo uma simples frase, com tamanha calma que não me pertencia.
“Vamos comer amoras”
Cassie franziu o cenho ao ler, depois olhou para mim com um ponto de interrogação desenhado entre as sobrancelhas. Não demorou muito até ela ajeitar a mochila no ombro, sorrindo.
“Beleza”.
[...]
Eu nunca havia matado aula. Nunca, mesmo. Nem tinha motivos para fazer isso, porque não é como se eu tivesse muitas coisas para fazer fora da escola, sabe? No entanto Cassie parecia profissional em fugir da escola, pois elaborou uns esquemas nada inteligentes que envolviam distrair Carla, a mulher do portão — uma mulher grande demais e nada gentil. Uma vez ela não me deixou entrar porque cheguei 15 minutos atrasado. E acredite, a desculpa de ser surdo e não ouvir o despertador não funcionou. Ela era uma mulher astuta demais! Aquela mentira não tão mentirosa sempre funciona! —, pular o muro de dois metros sem quebrar nenhum osso e, principalmente, não ser pego. Você podia morrer ou quebrar o pescoço, mas ser pego, jamais!
Até a parte de distrair Carla, as coisas foram bem. Cassie empurrou uma garota ruiva desconhecida em cima da grande mulher, que cambaleou para trás e caiu, junto a pobre garota que por sorte caiu por cima. Como seria desastroso se a mulher da portaria caísse em cima dela. Seria triste demais para que eu pudesse rir —, mas ainda assim, eu riria, muito.
Na hora de pular, Cassie, a fugitiva, saltou como um ninja para o outro lado. Pense bem, se Cassie, a menina desengonçada que anda de forma engraçada, conseguiu pular o maldito muro, cair em uma pose pra lá de fenomenal — digna de filmes samurais, aliás —, por que eu, o bravo e forte Elliot, não conseguiria?
Eu preciso mesmo entender que minha condição física não é como a do Jackie Chan.
Saltei confiante, tendo um último vislumbre de Carla limpando a roupa à tapas, e deixei-me levar pela gravidade até o chão, pousando com a graciosidade de um anjo na calçada. Essa teria sido uma boa verdade se eu não tivesse pernas fracas e senso de direção ruim. Se esse fosse o caso eu não teria caído em cima de uma moita e perdido o pâncreas.
Não que eu saiba onde fica o pâncreas ou pra quê ele serve — deveria saber, na verdade. —, mas senti uma pontada abaixo das costelas e logo constatei que era o pâncreas. Já posso até ser médico.
“Você é muito burro.” Cassie puxou minha mão e me levou com ela.
Fui arrastado em alta velocidade. Não que eu me importasse ou estivesse em condições de fazer algo. Meu pâncreas havia sido estourado como um balão, se é que um pâncreas pode ser estourado, e essa é minha desculpa para ter sido arrastado tão facilmente.
[...]
Suas páginas estão acabando, diário feio. Não quero dizer adeus pra você, seu miserável de capa rasgada! Por que você tem que acabar e me abandonar? É, tá, eu sei que vou comprar outro quando você acabar, só não queria arruinar o clima de adeus, entende?
Serei rápido com o resto da história, juro.
Passamos na frente de um mercado de frutas, um lugar maior que minha casa que tinha todo tipo de fruta que a humanidade conhecia, das mais estranhas até as mais feias e não-comestíveis. Desde Ackee, uma fruta que parece fitar sua alma, à A “mão de Buda”, que foi a minha preferida. A “mão de Buda” era feia e não parecia apetitosa, mas quem na vida iria recusar comer A “mão de Buda”? Eu respondo, ninguém!
O vendedor baixinho nos apresentou as frutas em um tour de meia hora — Cassie ora ou outra sugeria para que fugíssemos, pois quanto mais adentrávamos a loja, mais parecia que aquilo era uma armadilha e que o senhor baixinho com cara de psicopata ia nos atacar — e depois de tudo isso, perguntamos/Cassie perguntou onde ficavam as amoras.
E no fim, não tinha amoras ali. Tinha A “mão de Buda”, mas não tinha amoras, tinha Ackee, mas não tinha amoras, tinha Magosteen, mas não tinha amoras! Não sei dizer se era um mercado de frutas muito bom ou muito ruim.
No fim comprei várias A “mão de Buda” e saí dali, seguindo Cassie, que estava bem aliviada por ainda estarmos vivos.
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