Diário de uma mortal.
4 Sonho
Notas iniciais
“Se não quiser se machucar, finja que não viu nada. Aceite que tudo é uma ilusão. E principalmente, devolva esse livro onde o encontrou. Não o abra. Não tente entender seus desenhos e manchas. Não escreva nele.”
– Valentina! Acorda! — era a professora Débora. Devo ter dormido em sua aula. Era a 4ª vez em duas semanas.
– Me desculpe. Não foi por querer, eu só...
– Tina, eu e os outros professores estamos preocupados com você. Aconteceu alguma coisa?
Pensei muito antes de responder aquela pergunta. Eu realmente queria ser sincera e explicar o que estava havendo. Dizer o que eu encontrei naquela noite, como foi ter sido seguida e a dificuldade que eu estava tendo para dormir por conta daquele rosto iluminado por relâmpagos. Eu não podia.
– Não professora. Só dificuldade para dormir mesmo.
Em meio de risos ela retrucou:
– Então seria interessante você gravar a minha voz e colocar para escutar a noite em sua casa, pois vejo que você não sente dificuldade nenhuma para dormir em minha aula.
Tentei rir com ela, mas a única coisa que saiu de mim foi um sorriso falso. Após um sermão da ‘’importância de estar descansada para assistir aula’’ fui liberada para ir para a minha casa.
Kamila estava me esperando no corredor junto com Vitor e Jefferson. Às vezes eu gostaria de ter uma amiga para contar o que estava acontecendo, mas sabia que não poderia contar com Kamila. Gostaria de ter outros amigos também, mas eu era antissocial demais para isso. Me contentei por ter ao menos a Kamila e fui ao encontro dela.
– Finalmente. Estava ouvindo sermão porque dormiu novamente na aula, não é?!
Assenti, e com isso, percebi os olhares preocupados do Professor Vitor e do Professor Jefferson. Odiava aquilo, aquele olhar de pena. Eu não estava morrendo. Estava apenas tendo alguma dificuldade para dormir por conta de pesadelos. Eu tinha pesadelos na escola também. A facilidade que eu tinha de dormir na escola era explicada pelo fato de eu me sentir mais segura na sala, do que no meu quarto, apenas isso. Foi a vez de Jefferson falar:
– Você nunca dormiu na minha aula...
– Não tenha certeza. Você não sabe se eu dei dormir de olhos abertos.
Os três riram. Forcei um sorriso, afinal não era para ser uma piada. Eu estava falando sério, mas decidi ficar quieta.
– Tina, estava vendo com os professores de sair hoje. O que acha?
– Não. Vou ficar em casa.
– Ah Tina! É sexta-feira, pelo amor de Deus, vamos nos divertir um pouco.
– Não, obrigada, mas prefiro ficar em casa. Tentarei descansar. – sabia que era mentira. Que eu não conseguiria descansar de maneira alguma, já que estaria sozinha em casa. Mas eu realmente não queria sair com os professores. Eu não era como Kamila.
– Você quem sabe. Se mudar de ideia, sabe o meu número. E você Jeff, vem?
– Acho que não. Tenho provas para fazer e...
– Aff... não sabem o que estão perdendo. Só sei que eu e o Vi nos divertiremos bastante. Tchau!
– Até imagino a ‘’diversão’’ de vocês. – murmurei.
– Disse alguma coisa, Tina?
– Não Jefferson. Bem... vou para casa. Até mais.
– Espera. Não quer uma carona?
– Não precisa. Eu vou andando mesmo.
– Certeza? Eu acho que vai chover.
– Absol... – dito e feito. Naquele momento começou a garoar. E daquela garoa, começou a chuva, com direito a trovões vindos lá de longe. Eu não me importaria de ir andando, mas como a última lembrança de eu voltar para casa sozinha na chuva não era muito boa, decidi aceitar.
Andamos em silêncio até o carro dele. Era um Agile branco 2012. Fiquei me perguntando como conseguira dinheiro para comprá-lo, já que Jefferson era novo e só trabalhava no meu colégio. Bastou eu entrar em seu carro para que ele começasse a falar:
– Está com dificuldade para dormir?
– Sim.
– Tem tomado algum remédio, ou sei lá, tido algum pesadelo...
– Creio que existam coisas mais relevantes para conversar do que a minha insônia.
– Eu só me preocupo com você...
– Por quê?
– Eu gosto de você Tina.
– Tá.
– Tá?
– Fico grata por se preocupar comigo e etc, mas eu realmente quero ir para casa.
– Tudo bem. Só indique o caminho que vamos.
Após conseguir que ele engatasse a marcha, partimos em direção à minha casa. Estava tudo silencioso, com exceção do GPS que indicava a minha rua, até que Jefferson voltou a falar:
– Você acha estranho a relação extra-classe que a Kamila tem com o Vitor?
– Não acho a relação deles estranha. Eu acho a Kamila estranha.
– Por quê?
– Basta estar andando e ter o cabelo arrumadinho que ela pega. Anota aí, daqui a 3 meses, ou até menos, ela está “apaixonada” por outra pessoa. E digo mais, creio que você seja essa pessoa.
– Está com ciúmes?
– E por qual razão eu teria? Não tenho nada com você. Pouco me importa o que você faz da vida.
– Você é muito estúpida.
– Se estupidez for sinônimo de sinceridade, então sou mesmo.
– Acho que chegamos já.
– Sim, é aqui mesmo. Bem, obrigada pela carona professor! – disse abrindo a porta do carro e a sombrinha – Tchau!
– Tchau Valentina! Tente descansar... Outro dia terminamos a conversa.
Já dentro de casa, pude ouvir o motor dando partida. “Terminamos”? O que tinha ali para ser terminado afinal? Larguei a mochila no meio da sala, junto com o tênis e as meias, e me esparramei no sofá.
“Se não quiser se machucar, finja que não viu nada. Aceite que tudo é uma ilusão. E principalmente, devolva esse livro onde o encontrou. Não o abra. Não tente entender seus desenhos e manchas. Não escreva nele.”
Acordei transpirando e em meio de um susto. O mesmo sonho de todas as outras noites. Nunca conseguia me lembrar de fato o que acontecia nele. A única coisa que eu sabia é que tudo estava escuro, e eu sentia que estava caindo num abismo infinito. Conseguia ouvir nitidamente os batimentos do meu coração e uma voz, no mesmo ritmo dos meus batimentos, recitando aquele texto. E isso era a última coisa que eu lembrava nitidamente de todo o sonho.
Olhei para o relógio e pude ver que já eram 20h. Era o primeiro dia que eu consegui dormir durante tanto tempo, e da mesma forma me sentia exausta. E com muita fome. Fui à geladeira e peguei coca-cola, ovo, bacon, manteiga e maionese. Mexi o ovo com o bacon e a manteiga, e procurei o queijo ralado para misturar junto. Peguei um pão, passei a maionese e joguei a mistura que havia feito por cima. Pronto, o jantar estava servido.
Após comer, subi as escadas e fui ao banheiro, onde meu pijama aguardava para ser vestido depois do banho. Já pronta, fui ao meu quarto e olhei as pistas que eu tinha encontrado naquele dia. Peguei o livro na mão e fiquei encarando-o enquanto o segurava. Queria muito abri-lo, mas estava com medo por causa do sonho, e talvez por essa razão, a minha excitação passou. Coloquei ele embaixo do meu travesseiro e deitei para dormir.
“Não tente entender...”
Acordei assustada por conta de um barulho vindo de dentro da casa. Olhei para o relógio: 23h45; era praticamente impossível que alguém resolvesse fazer alguma visita de última hora.
Não sabia ao certo o que fazer. Num instante o meu medo me deixou paralisada. A medida em que minha respiração ficava mais rápida, pude ouvir meu coração batendo mais forte. Me sentia como num filme de terror. Quando a minha coragem assumiu, e me deixou pensar em algo que não estivesse relacionado com algum final trágico, resolvi que iria trancar a porta do quarto. Saltei da cama e o fiz rapidamente, para voltar logo para baixo das cobertas.
Pude reconhecer passos pesados, vindo em minha direção e parando em frente ao meu quarto. Ouvi o roçar da maçaneta, querendo ser aberta imediatamente. De fato tinha alguém ali.
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