Diário de uma mortal.
5 Não abra o livro.
Notas iniciais
O intruso acabou desistindo de abrir a porta, mas continuou vagando pela minha casa. Podia ouvir os seus passos nitidamente. Me arrependi de não ter levado o celular para o meu quarto. Fiquei em cima da minha cama, imóvel, rezando para que tudo não passasse de outro pesadelo.
Por um instante a casa ficou completamente quieta. Percebi que os passos tinham cessado, mas tive medo que tudo aquilo não passasse de um truque, então permaneci do jeito que estava. Ouvi um barulho vindo da janela. Seria possível que a pessoa resolvesse entrar por minha janela? Respirei fundo, e resolvi levantar. Senti meus joelhos tremendo. Só mais alguns passos e a janela estaria em meu campo visual.
O barulho foi parando à medida que fui me aproximando da janela. Acendi a luz e percebi que não tinha nada, exceto por uma rachadura. Estava quase abrindo a janela, quando algo preto veio sem medo ao meu encontro e se deparou com o vidro, que acabou se partindo. Alguns pedaços me atingiram, fazendo com que eu sangrasse e caísse. Olhei para o lado e reconheci que aquilo que quebrara meu vidro, fora um pássaro preto, que agora estava morto.
Me levantei rapidamente e assustada. Meu sangue caía rapidamente, manchando minha roupa e em todo lugar que eu passava. O cheiro e a visão do animal morto acabaram me atordoando e a última coisa que eu me lembrei foi o encontro doloroso que eu tive com o chão.
Senti os raios da manhã se infiltrando em minha pele. Olhei para o lado e o pássaro tinha desaparecido. A minha janela estava inexplicavelmente consertada. Será que tudo não tinha passado de um sonho?
Levantei e imediatamente senti uma dor aguda. Passei a mão em meu rosto e pude sentir alguns cortes. Olhei para meus braços e eles estavam manchados de sangue seco. Não era um sonho. Como tudo poderia ter sido consertado daquela forma tão inexplicável? Será que eu tinha tido uma alucinação e acabado me ferido?
Preparei outra troca de roupa, e antes de abrir a porta respirei profundamente. Ainda estava com medo de ter alguém em minha casa. Girei a maçaneta cuidadosamente, corri para o banheiro e tranquei a porta. Tomei um longo e demorado banho. A água morna servia como um medicamento para a minha pele cansada e machucada. Sai depois de um tempo, procurei a caixa de remédios e curei meus ferimentos.
Já trocada desci as escadas vagarosamente. Fiquei aliviada em chegar no andar térreo e descobrir que ninguém estava em minha casa. Fui até a porta da frente e descobri que a fechadura não tinha sido arrombada. Abri a porta e vi uma caixa com um bilhete por cima dela.
Resolvi que abriria a caixa ali mesmo, sem ao menos ler o bilhete. A medida em que eu ia abrindo, pude sentir um forte odor. Quando aberta, empurrei-a para longe e virei de costas. Era o pássaro. Mas não só isso. Era o pássaro e a cabeça de um homem. Aquele mesmo homem que eu tinha visto aquela noite. O que eu iria fazer? Lembrei-me do bilhete. Peguei-o e li.
“Cuidado, criança. Você está se envolvendo em algo complicado. Agora não tem mais volta, na verdade nunca teve. Você está destinada a se envolver nisso desde o momento em que abriu seus olhos e viu a claridade do mundo. Vê esse homem? Ele teria te matado se tivesse colocado suas mãos em você. Ele está atrás do livro. Todos estão atrás do livro. Tenha cuidado. E principalmente: NÃO ABRA O LIVRO.
Ps. Se livre dessa caixa. Enterre-a em algum lugar, antes que você chame ainda mais atenção.”
Não pensei duas vezes e resolvi que enterraria a caixa no quintal. Cavei o buraco mais fundo que eu consegui, e levei a caixa até lá e enterrei. Após concluir o que me foi dito, me perguntei chorando a razão de alguém me matar. E tudo isso por causa de um estúpido livro que nem me deixavam ler.
Estava virando refém já daquele livro. Estava decidido, eu iria abrir e ler aquilo. Não me importava com o que aconteceria, mas eu jurei que eu não morreria sem saber o que havia escrito nele.
Fui até meu quarto e tranquei a porta. O livro estava lá, intacto, do jeito que eu tinha deixado ontem. Peguei-o cuidadosamente e analisei a sua capa. Era couro. Respirei fundo, encostei na parede e abri o livro. Em sua primeira página, estava escrito a mesma frase que eu sempre ouvia em meus pesadelos, analisei-a.
“Se não quiser se machucar, finja que não viu nada. Aceite que tudo é uma ilusão. E principalmente, devolva esse livro onde o encontrou. Não tente entender seus desenhos e manchas. Não escreva nele.”
Como poderia fingir que nada estava acontecendo? Eu podia sentir a dor de meus ferimentos. Eu podia ver o livro. Como fingir? Folheei mais algumas páginas e pude perceber manchas de café. Aquilo parecia um diário, em uma língua desconhecida, com uns desenhos macabros. O diário estava guardado por muito tempo, já que as datas eram de séculos atrás. Como aquilo poderia ter passado tanto tempo intacto? Fechei-o e guardei-o dentro de meu travesseiro.
Desci as escadas para tomar o velho e bom café. Ao fechar a porta da geladeira ouvi uma respiração pesada atrás de mim. Virei e era um homem encapuzado. Procurei algo que eu pudesse me defender e achei a caixa de leite, que imediatamente joguei em seus olhos. Aproveitei sua cegueira momentânea para fugir, mas não foi o suficiente. Senti suas mãos em meus braços, puxando-me para perto dele. Lutei o quanto eu podia, e consegui escapar.
Subi para o meu quarto, para pegar o livro. Sentia que ele não podia cair em mãos erradas. Segurei-o firmemente, e quando olhei para trás, percebi que o homem estava vindo em minha direção. Me esquivei, e desci as escadas correndo, com ele atrás de mim. Acabei tropeçando em meu próprio pé no meio da escada e cai. Bati a minha cabeça com força, e vi tudo ficar escuro. O homem, chegou perto de mim, me pegou no colo e sussurrou com uma voz doce e firme:
–Aguente.
Acabei adormecendo, enquanto o estranho me levava a algum lugar.
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